O Auto da Barca do Inferno: Uma Referência

Por Elton Luiz Valente

No próximo dia 12 comemora-se o bicentenário de nascimento de “Tio Charles” (Darwin) e 150 anos da publicação de sua grande obra A Origem Das Espécies. Para a Comunidade Geofágica, esta é uma data festiva e de altíssima relevância histórica, principalmente para a História da Ciência.

Estive neste fim de semana em Belo Horizonte. Não resisti à tentação de assistir ao filme O Dia Em Que a Terra Parou, uma adaptação rasa (para não dizer plana, com ligeira inclinação para o ralo) do original de 1951, que já não era lá grande coisa, mas pelo menos tinha a Guerra Fria como trunfo (o enredo da canção homônima de Raul Seixas é muito mais plausível).

Ora direis, e daí? O que tem a ver uma coisa com a outra? Darwin, o filme, O Auto da Barca do Inferno (de Gil Vicente) e os propósitos primevos do Geófagos? Vamos lá!

O “quase misterioso” Gil Vicente encenou O Auto da Barca do Inferno pela primeira vez em 1517, em Lisboa, Portugal. A peça é uma crítica impecável às organizações sociais humanas. Uma obra prima. Portanto, Gil Vicente é considerado o fundador da moderna dramaturgia em língua portuguesa. A peça é uma alegoria dramática do julgamento das almas. Há duas barcas à espera: uma, a que vai levar a maior parte dos julgados, é guiada pelo próprio Diabo, a outra é guiada por um Anjo. Entre os “réus” há figuras “ilustres” da sociedade. Ou seja, figuras tacanhas, cuja “relevância” está em promover os vícios que corroem a humanidade.

Quanto ao filme O Dia Em Que a Terra Parou (em ambas as versões), a humanidade é, ela própria, retratada como o seu maior inimigo. Em tempos de “aquecimento global”, esse argumento (citando Erich Remark) não traz ‘nada de novo no front’. Já discutimos no Geófagos que a Terra não precisa de ninguém para “salvá-la”, ela se salva sozinha, sempre foi assim, ela é auto-regulável. Nós é que precisamos nos salvar de nós mesmos.

Darwin nos deu, senão a maior, pelo menos uma das maiores contribuições neste sentido. Mas o homem tem um problema freudiano com a evolução. O homem se recusa a aceitar que não é “a obra máxima” da criação de Deus, menos ainda da Natureza. Note-se que para ser a obra máxima da criação precisa-se de um criador, de uma figura patriarcal, que se encaixe perfeitamente em um universo de dimensões imagináveis, que esteja ao alcance de nossa compreensão demasiadamente humana, urdido em um enredo de epopéia maniqueísta. Como “constante de ajuste”, encaixa-se nessa equação a hipocrisia (pois todos têm necessidades forjadas na evolução das espécies e muitas destas necessidades são conflitantes com as “determinações do criador”).

Daí, Tio Charles, cujas armas são argumentos embasados na razão, na lucidez e no bom senso, não tem como lutar, muito menos vencer, essa batalha que é travada no terreno das freudianidades humanas. Se fossem superados esses vícios freudianos e essas ilusões, talvez pudéssemos, quem sabe, chegar ao super-homem de Nietzsche.

Platão tentou nos tirar da caverna uma vez. Darwin, com toda sua sabedoria, humildade e boa vontade nos deu uma enorme contribuição neste sentido. Nenhum teve êxito. Ou seja, enquanto isso vamos nos apertando, nos acotovelando na ante-sala da Barca do Inferno. Pois ninguém vai nos salvar de nós mesmos. É uma empreitada inglória, de teor quixotesco, tentar salvar quem não quer ser salvo.

 

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