Uma pergunta incoveniente!

Resolvi escrever esse post em resposta a uma pergunta que vem me acompanhando desde o momento em que resolvi especializar-me (em nível de mestrado e posteriormente de doutorado) em Ciência do Solo. Na entrevista de seleção do mestrado, ela foi feita pela primeira vez. O questionamento era “Por que um Engenheiro Ambiental deseja especializar-se em Ciência do Solo”? Essa incômoda perguntinha ainda seria feita em diversas outras oportunidades, inclusive em outras entrevistas para diversos fins.
Bem, para início de conversa , algumas colocações já foram por mim feitas aqui e aqui. A resposta parece-me óbivia, mas pelo que tenho visto não é. Citarei a seguir alguns dos pontos que nortearam e ainda norteiam minhas respostas e que, acredito eu, deixam claro a importância dos solos para as questões ambientais.
Em primeiro lugar gostaria de citar a prórpria definição do termo “meio ambiente”, conforme obtida no Vocabulário Básico de Recursos Naturais e Meio Ambiente, publicado pelo IBGE no ano de 2004. Tal publicação pode ser obtida aqui. Segundo ela, meio ambiente refere-se ao “conjunto dos agentes físicos, químicos, biológicos e dos fatores sociais susceptíveis de exercerem um efeito direto ou mesmo indireto, imediato ou a longo prazo, sobre todos os seres vivos, inclusive o homem”.
No meu modo de ver os solos estão enquadrados diretamente como agentes físicos e ainda indiretamente como agentes químicos, biológicos e sociais. Logo, ele também é objeto de estudo das Ciências Ambientais e consequentemente da Engenharia Ambiental, que é uma das vertentes das primeiras. As funções ecológicas dos solos são os maiores exemplos dessas relações diretas e indiretas. A capacidade de reter poluentes e/ou contaminantes, sustentar edificações, ser meio de desenvolvimento de plantas, ser meio de produção de alimentos, estar em contato direto com águas superficiais e subterrâneas, de sustentar a macro, meso e microfauna edáfica, de fornecer importantes nutrientes para o desenvolvimento da vida, participar dos ciclos biogeoquímicos ativos no planeta, entre outras, é que me permitem dizer que sim, os solos também são compartimentos ambientais de vital importância. Estão intimamente ligados à manutenção de uma boa qualidade de vida para os seres vivos, inclusive os “human beings”.
Mas por que então essa pergunta continua sendo feita constantemente e o espanto está na face do interlocutor quando o mesmo percebe que meu currículo posterior a graduação em Engenharia Ambiental foi feito com base nesse importante compartimento? Vejo diversas respostas para tal, mas duas, na minha opinião, sobressaem às demais. A primeira é que a Engenharia Ambiental deriva da Engenharia Civil e, como tal, desde o seu nascimento esteve muito voltada às questões referentes ao saneamento. É também à esse motivo que atribuo a evidente lacuna de questões biológicas no currículo dos diversos cursos de Engenharia Ambiental país a fora. Outro aspecto importante é que a Ciência do Solo, por outro lado, sempre esteve ligada às Ciências Agrárias e, portanto, ainda há “ranço” tal que questões inovadoras ligadas à ela, por exemplo as tecnológicas e ambientais, ainda sofrem certo preconceito por parte dos cientistas do solo clássicos. O conjunto da obra é, como eu disse em um post antigo, o solo como um compartimento esquecido pelas ciências ambientais.
Carlos Pacheco

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Discussão - 2 comentários

  1. geofagos disse:

    Manuel,
    Mais do que estranha, é uma pergunta incômoda. Como se alguém não quisesse abrir o “leque” da Ciência do Solo. A intenção desse post é protestar contra esse preconceito. Acredito que outras áreas, não só a agronomia, podem realizar importantes trabalhos, cada um dentro de suas peculiaridades.
    Abraços,
    E só para constar, incoveniente nada, suas opiniões são sempre sábias e enriquecedoras.

  2. manuel disse:

    Caro Carlos
    Estranha pergunta essa,Carlos,como se houvesse ainda feudos,como se não houvesse tanta terra de ninguém,como se não houvesse interdisciplinaridades,como se não precisássemos todos uns dos outros.
    Isto faz-me lembrar um facto da minha vida profissional,uma questão de franjas,em que não há uma linha definida de separação. Pois,a certa altura,fui confrontado com o ar mal disposto de outro. O que é lá isso? Olhe que isto aqui pertence-me. Eu,para não haver mais uma guerra,deixei de frequentar a franja.
    Quanto ao ambiente, naquilo que eu fiz,encontrei-o a cada passo. Se não fosse o solo uma peça fundamental dele! E foi a deficiência de manganésio em videiras,e foi a deficiência de boro nas mesmas,e foi o sódio e o halomosfismo,e foi o potássio/magnésio em relação à tetania do pasto,e foi o comportamento de herbicidas nos solos,,e foi perdas de nutrientes por lavagem ou volatilização,e foi a matéria orgânica,nas suas relações com tanta coisa do solo,e foi a poluição pelos adubos,e foi o potássio no metabolismo do azoto em plantas,e foi…
    Uma pergunta inconveniente,não há dúvida,não tão inconveniente como a verdade de Al Gore.
    Desculpe,mais uma vez,e espero que não tenha sido inconveniente.

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