A conturbada relação entre plantas cultivadas e espécies invasoras

Ao contrário do que afirma a crença popular, nos campos de cultivo quem se atrai geralmente são os iguais. Qualquer um que tenha eventualmente observado um plantio de espécies agrícolas terá certamente notado a incômoda, do ponto de vista dos agricultores, insistência de certas espécies não cultivadas, variavelmente chamadas de ervas daninhas, espécies invasoras, inço, mato. Em aulas de Agroecologia do mestrado, aprendi a chamá-las de espécies adventícias. Costumam se reproduzir exuberantemente no mesmo espaço das plantas cultivadas e com estas competir por água, nutrientes e luz, muitíssimas vezes de forma tão eficiente a, não intervindo o homem, sufocar a cultura.
O fato de competirem tão acirradamente é resultado de ambos os grupos de espécies, cultivadas e adventícias, estarem adaptadas para ocupar o mesmo nicho ecológico. Espécies de interesse agrícola e plantas invasoras são igualmente filhas do desequilíbrio. As ancestrais plantas que hoje se usa na agricultura naturalmente ocupavam áreas abertas, de alguma forma perturbadas, com solo exposto e nutricionalmente rico e onde havia menor competição de outros grupos de espécie. Antes do advento da agricultura, eram encontradas em clareiras abertas por eventos naturais, tais como incêndios, em barrancas de rios, deslisamentos etc. Aqueles familiares com a região semi-áridas conhecerão talvez as espécies herbáeas que, no ansiosamente esperado fim da estação seca, rapidamente germinam e se desenvolvem logo após as primeiras chuvas. São espécies de crescimento rápido que investem a maior parte de seus recursos fotoassimilados em estruturas de reprodução, tecnicamente conhecidas como estrategistas-r. A agricultura nada mais é do que um aproveitamento e melhoramento destas tendências naturais.
O ser humano, mesmo antes de realmente “inventada” a agricultura, produzia nas cercanias de seus aglomeramentos um ambiente perturbado muito semelhante ao habitat natural destas espécies. A atividade humana ofereceu uma oportunidade ímpar à reprodução destas plantas. De certa forma, mesmo antes de serem domesticadas estas espécies acompanharam as caminhadas e acampamentos humanos.
O uso ancestral do solo como repositório dos restos da presença e atividade humana, enriquecendo-o nutricionalmente, sob a “ótica” vegetal, imitava de forma muito próxima as características dos solos perturbados onde vicejavam estas espécies. Assim, as altas necessidades em insumos (adubo) requeridas pelas culturas modernas não são apenas resultado do melhoramento dirigido, mas característica própria de suas ancestrais ainda antes da agricultura.
Ao observarem o aparecimento destas espécies de abundantes frutos, muitos comestíveis, em seus monturos, nossos ancestrais foram, lentamente, quase induzidos à domesticação das espécies mais favoráveis e ao inevitável desenvolvimento da agricultura. Havia inicialmente uma série de espécies a ser potencialmente cultivadas. As que não foram, foram enfim consideradas indesejadas, invasoras e daninhas. São irmãs e primas descartadas das culturas. Ao longo do tempo, muitas espécies inicialmente consideradas adventícias e invasoras de cultivos específicos passaram, por uma série de razões, a ser também cultivadas. É o caso do centeio, inicialmente uma invasora de campos de trigo. Aveia, rúcula e tomate também tiveram esta humilde origem.

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Discussão - 4 comentários

  1. eduardo disse:

    pô,iscullacho a wikipedia

  2. ELIEZER disse:

    SISTEMA AGRO FLORESTAL

  3. Valeu Professor!
    Uma belíssima aula, digna de quem já passou lá pela Fitotecnia.

  4. manuel disse:

    É a vida,Ítalo,é a vida conturbada. É a luta pela vida. O homem prescindiu dalgumas plantas,aproveitando outras, para seu belo interesse. E elas,as desprezadas,querem viver. Chamam-lhes nomes feios,invasoras,daninhas,adventícias,
    intrusas,mas elas não se importam,e aí as temos,invadindo,intrometendo-se. Dantes,arrancavam-nas. Era o trabalho das mondadeiras. Depois,vieram os herbicidas. Mas elas teimam, pois são portadoras de vida,a suprema realidade,esteja ela onde estiver,numa árvore gigante,como na mais humilde ervinha.
    Desculpe ter-lhe invadido a sua cultura. Faça como entender para se livrar do adventício.
    Saúde.

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