A hora do planeta no Brasil, iniciativa sem sentido?

Por Carlos Pacheco
Parece-me que as duas últimas semanas marcaram o “renascimento” do “terrorismo ambiental” no Brasil. Todos sabemos das repercussões dadas, pelo grande público, aos programas apresentados pela grande mídia, principalmente aqueles veiculados em programas já consagrados. Alguns desses programas iniciaram há algumas semanas um bombardeio de informações sobre o aquecimento global e suas consequentes mudanças climáticas. Diga-se de passagem, grande parte dessas informações ainda sem respaldo científico algum.
Como já comentei em outros posts aqui publicados, é preciso que sejamos criteriosos ao discutir-se assuntos tão importantes e com consequências tão sérias. Trabalhar como “lobistas” do tempo não levará a resultados positivos e sim, a um grande alarmismo sem fundamentação adequada e com resultados práticos duvidosos.
Tome-se por exemplo a Hora do Planeta. Qual o sentido de apagar-se as luzes em um país cuja energia elétrica gerada é “essencialmente limpa”? Honestamente não sei. Para ser sincero até vislumbro algo no sentido de chamar atenção, mas nenhuma ação econômica efetiva. Seria mais lógico uma grande mobilização nacional pelo combate ao desmatamento, não só da Amazônia, mas também do Cerrado, da Mata Atântica, etc… Ações contra o uso abusivo de automóveis, contra o consumismo exarcebado e, principalmente, a favor da modernização e do uso do transporte público também seriam muito mais efetivas do que acompanhar os “modismos ambientais mundiais”. Talvez eu esteja equivocado em chamar tal ação de modismo ambiental, até porque, no exterior, tal ação é mais plausível, sobretudo em grande parte dos países desenvolvidos, cuja energia provém de matriz “suja” (queima de combustíveis fósseis, em geral).
É preciso que falemos menos e ajamos mais. Precisamos entender melhor o que está acontecendo e aí sim tomarmos atitudes adequadas. É óbvio que o consumismo exagerado tem que ser combatido. É óbvio também que necessitamos mudar alguns de nosos hábitos diários. Isso todos sabemos. Entretanto, ainda temos dúvidas básicas a respeito dos fenômenos do clima. Talvez a maior delas é saber se o aquecimento é ou não antropogênico ou, ainda, qual a porcentagem de culpa de cada uma delas. Outras tantas dúvidas existem. O que se sabe é que ainda é muito, mas muito cedo mesmo para atribuírmos culpa única e exclusivamente à vertente antropogênica.
Portanto eu digo, estudemos mais, leiamos mais, pensemos mais e pesquisemos mais. Após esses pequenos exercícios estaremos preparados para combater, efetivamente, o que estar por vir. Estaremos também melhor preparados para reduzir nossa vulnerabilidade em relação a tais fenômenos. Enfim, sejamos mais “ambientólogos” e menos ambientalistas.

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Discussão - 16 comentários

  1. MHL disse:

    oi pessoal,
    Na tal hora de desligas as luzes de casa, fiz exatamente o oposto !
    Parabens pelo excelente post
    MHL

  2. Alessandra,
    Thank you for your kind words. It’s good to see that our readership is increasing. Keep on with us.

  3. Alessandra disse:

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    Alessandra
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  4. manuel disse:

    O caso referido por Fernando Magyar é de atender,como o é o que se cita a seguir: http://www.independent.co.uk/environment/climate-change/exclusive-the-methane-time-bomb-938932.html

  5. Fernando Magyar disse:

    Qual o sentido de apagar-se as luzes em um país cuja energia elétrica gerada é “essencialmente limpa”?

    Desculpas antecipads pela falta de acentuacao, mas resido nos EUA e nao tenho saco de instalar e usar teclado em portugues ou espanhol ja que a maior parte do que escrevo e em ingles.
    So por curiosidade, terias dados sobre a quantidade de CH4 emitida pelos milhares de Kilometros quadrados de materia organica em decomposicao no fundo das represas criadas pelas barragens das hidroelecticas? Ou este tipo de impacto ecologico nao tem importancia?
    Mesmo que o impacto nao seja maior do que a quantidade de CO2 emitida por geracao de eletricidade por meios que utilizam petroleo ou carvao o impacto nao e zero.
    Sem falar da area desmatada que tem as suas proprias consequencias. Em conclusao nao vejo problema em participar de um evento simbolico que reconhece que todos nos temos podemos cuidar um pouco melhor do nosso planeta.

  6. manuel disse:

    Caro Luíz
    Muito obrigado pela amável resposta. É isso Luiz,dá-se,às vezes,um passo,um pequeno passo,que grandes cansam,para nos sentirmos menos culpados. E depois,fica tudo na mesma. Infelizmente, o água mole,neste,como em tantos outros casos,pouco tem furado,ou nada.Furará um dia? Talvez venha a furar,quem sabe?
    Um abraço,e mais uma vez,as minhas muitas desculpas.

  7. Meus caros,
    Em primeiro lugar quero dizer que a discussão acalorada a respeito do post me deixa muito feliz. A ciência, para mim, é feita a partir daí, de idéias controversas…essa é a fonte para novas descobertas. Posteriormente gostaria de dizer que em momento algum questiono a existência da vertente antrópica, questiono sim a parcela de culpa da mesma. Independente disso defendo ações mais efetivas de combate aos problemas ambientais. Vários trabalhos na área de educação e conscientização ambiental mostram que ações isoladas como essa não surtem efeitos a longo prazo. É preciso mais. São precisas frequentes ações. É isso que defendo. Iniciativas como essa chamam atenção, sim, é verdade. No entanto, daqui a uma semana ninguém mais lembrará dela. Para ser honesto com todos vejo tais até como uma estratégia de marketing da instituição organizadora que frequentemente é notícia nos grandes meios de comunicação. Não vejo tal mobilização nas pessoas para cobrar ações efetivas aos responsáveis, é isso que questiono. Agora para apagar as luzes da sala por uma hora (mas a TV continua acesa vendo o JN ou a novela)e posteriormente voltar a sua rotina normal (digo isso porque tenho certeza que foi o que a maioria fez) não me parece algo com resultados práticos. Essa é minha opinião. Que tal mobilizarmo-nos efetivamente, mudando nossos hábitos. Será que alguém aceita? Digo sem medo de errar que a maioria não. Mas o ato de apagar as luzes por uma hora já aliviou a consciência de boa parte dessas pessoas para manter seu padrão consumista durante o restante do ano.
    Abraços a todos

  8. Luiz Bento disse:

    Caro Manuel, ótimas palavras. Entendo a ideia de um ato simbólico, mas não entendo tanta cobertura da mídia apenas para o ato simbólico de apagar a luz da sala. Acho que é um movimento para os já convertidos (que não fazem só isso pelo meio ambiente) e para os que não fazem absolutamente nada para o meio ambiente e apagam a luz para se sentirem menos culpados.
    Quando falei sobre as pessoas que não tem luz em casa eu quis dar um exemplo de como a campanha não tinha sentido. Usei apenas para dizer que a campanha excluía as pessoas que não tem luz em casa, pois elas não poderiam apagar a luz (já que a base era uma “votação” pelo número de luzes apagadas). Não quis dizer em nenhum momento que não podemos discutir aquecimento global por causa dessas pessoas.
    Eu que devo pedir desculpas pela maneira que escrevo os posts. Devo tentar ser mais claro, pois acho que as pessoas encaram uma crítica a campanha como um crítica pessoal.
    Abraços.

  9. manuel disse:

    Caro Luiz Bento
    Em primeiro ligar,desculpe esta familiaridade,para quem se está doutorando,de quem é um simples,e retirado,agrónomo luso.
    Estive a ler o seu detalhe. Você tem carradas de razão,a pensar nos muitos,aí,e fora daí,que só têm,se tiverem,velas para se alumiarem. Tem carradas de razão. Dá muita vontade de rir a quem sabe isso,como ao Luiz. Não sei é se tirão vontade de o fazer aqueles que o Luiz invoca,quase como uma bandeira,fazendo-se defensor deles.
    Mas o apelo ao apagão pode ser visto como um acto simbólico,uma chamada de atenção para quem dispõe de electrecidade,e tem dinheiro para a pagar,mas que não está para pensar nessas coisas do ambiente em perigo,sabe-se lá porquê,pois há carradas de razões para pensar noutras coisas,que a vida é luta,em qualquer lugar,lá na aldeia,lá na vila,na cidade,quer se seja pobre,mediano,rico.
    Era só isto,caro Luíz,pedindo,novamente,muitas desculpas por este atrevimento,dum simples,e retirado,agrónomo luso. Atrevimento duplo,de se lhe dirigir,e de o fazer nestes termos,um tanto atrevidos.

  10. manuel disse:

    Caros Geófagos
    Estou perplexo,estou preocupado,sobretudo,comigo,depois de me inteirar dalgumas reações ao post do Carlos.Precisas de ir ao médico,Manuel,ou por outra,não deves continuar a ler certas coisas,coisas a bater na mesma tecla,que ,pelos vistos,alguns não batem.Dessas teclas, brotam sons,dos quais vou ecoar(mal),aí uma dúzia,que à dúzia,como aqui se diz,é mais barato.
    Os ursinhos brancos estão a ver o chão a fugir-lhes debaixo das patinhas,os pobres pinguins esfalfam-se para arranjar comidinha,por as temperaturas das águas lhes cortarem as voltas,os oceanos estão a perder capacidade para reter CO2(de resto,o maior captador),experiências de fertilização dos oceanos estão sendo feitas para tal alterar,a Comissão Europeia está muito preocupada por não se estarem a cumprir metas de redução de emissões,o fabrico de carros híbridos é incentivado,por aqui,por ali,o acréscimo de mortalidade tem sido relacionado com a poluição do ar(American Meteorologic Society),William Broecker,um veterano do Climate Change, declarou que necessitamos de árvores artificiais,o mesmo está envolvido em projectos de enterramento de CO2,outros pensam no mesmo,o Carbon World Doha 2009 está à porta,na China,anunciou-se o Carbon ,Capture and Storage,o Centre National de la Recherche Scientifique cosidera o oceano menos efectivo em absorver CO2,James McCarthy,presidente da Associação Americana Para o Progresso das Ciências disse que quatro anos é o prazo de que o Presidente dos Estados Unidos dispoõe para salvar o Planeta,consequência das alterações clmáticas.
    Claro é que um qualquer,mesmo que não seja isto,ou aquilo,que leia apenas,como eu,e que esteja virado para outro lado,pode encher uma,duas,páginas,ou mais,com outras teclas. Fá-lo-á por achar que é assim,está no seu direito,por lhe dar mais jeito,sabe-se lá porquê,ou melhor,ele lá o há-se saber,que é maior e vacinado. E ainda bem,ou mal. É que ,a tomar à letra o que disse James McCarthy,a coisa está mal,a coisa está péssima.E então com o PULMÂO FLORESTA AMAZÒNICA a encolher,é o diabo à solta.
    Desculpem o arrazoado,mas prometo que irei brevemente ao médico,se tiver tempo,claro,por mim e por ele.

  11. locatelli disse:

    Prezado Ítalo, acho um pouco de exagero da sua parte dizer que “a causa do aquecimento global é antrópica e isto já é bem claro”… Não há nada claro, tudo ainda é discutível, e com muitos argumentos pseudocientíficos de ambas as partes, digo pseudo porque um dia algum vai ser promovido e perder este prefixo, vindo a ser a tal da verdade libertadora que estamos longe de alcançar ainda, por se tratar de um assunto complexo, dinâmico e gigante, como bem deve saber. Não confunda “espinafre com caçorolinha com espigarda de caçar rolinha”, digo, aquecimento por causa antrópica vs. aquecimento por causa não antrópica, vindo a ser comparável ao seleção natural/wallace-darwinismo vs. criacionismo,são coisas bem diferentes e os contextos não se comparam a meu ver…
    A idéia que tive ao ler o post e a minha anterior sobre o assunto, na minha limitada e tendenciosa capacidade de percepção, é que esta coisa de hora de apagar as luzes para salvar o planeta tem um quê de hipócrita, e é sim muito bonito e resgata algo “humano”: a “humanidade” se mobilizando e tudo mais; mas é algo como o natal em família de parentes que mal se converssam ou que trocam alfinetadas ao longo do ano todo… Bom seria se continuasse, e não parasse na também tendênciosa (leia-se humana) sensação de realização pessoal por ter contribuído para “salvar” o planeta porque apagou a luz por uma hora, e os pecados estão ou estarão todos perdoados por causa disso, unicamente por causa disso, independente do consumismo que se pratique talvez até ainda mais intensivo por causa desta atitude.

  12. Luiz Bento disse:

    Ah, esqueci de um detalhe. Pensei exatamente o mesmo ponto que você em um post sobre o assunto Carlos. Se tiver tempo da uma olhada aqui: http://discutindoecologia.blogspot.com/2009/03/nao-apague-suas-luzes-hoje-as-2030.html

  13. Luiz Bento disse:

    Concordo plenamente com o Carlos, na maior parte do texto. Apenas acho que combater o consumismo algo realmente complicado, principalmente nos dias de hoje. Concordo que este é o principal problema, mas acho mais fácil diminuir o número de consumistas do que diminuir o consumo em si.
    Quando ao comentário do Ítalo, discordo principalmente da sua última frase. Acredito sim que o aquecimento global tem se tornado cada vez mais um fato e que existe um número muito grande de céticos do clima que estão muito mais para ecochatos. Mas generalizar ao ponto de que os questionamentos sobre o aquecimento global são um “desserviço à ciência de fato” eu acho forte demais. Não existe verdade absoluta na ciência e na verdade é isto que move a ciência. No dia que o aquecimento global for considerado uma verdade absoluta não haverá mais espeços para questionamentos e o fato em si não será mais do domínio da ciência. Existem muitas críticas boas em relação ao IPCC, principalmente pela importância de forçantes naturais no clima e na influência política do orgão. Nada que diga que “Não existe aquecimento global”, mas críticas aos dados em si.
    Como diria Popper, quanto mais críticas recebemos mais reforçamos nossas hipóteses. Quando paramos de questionar nossas hipóteses é porque existe algo de errado. Ele não disse exatamente isso, mas a ideia é essa 🙂
    Abraços e parabéns pela sempre ótima discussão Carlos.

  14. manuel disse:

    Caro Carlos
    Como não tenho nada que fazer,de trabalho mesmo,tenho me entretido a ler aqui,ali,sobre várias coisas,entre elas,sobre Climate Change e Global Warming. Como sabe muito melhor do que eu, é enorme o caudal de informação acerca destes temas, para todos os gostos.
    Para o meu ,se me permite,aí vai uma meia dúzia dessas informações,pedindo-lhe,também,desculpa por não irem como devia ser.
    !- American Museum of Natural History
    Climate Change: The threat to life.
    2- Proceedings of National Academy of Sciences of United
    States/PNAS). Entre os artigos mais lidos em Janeiro de 2009,
    estão os que dizem respeito a Global Temperature
    Changes e Irreversible Climatic Changes.
    3- Global warming increasing death rate of US trees,
    scientists warn.
    Guardian.co.uk 22/1/2009
    4- Wilkins ice shelf:a victim of warming.
    Reuters Blog Environment global challenges 20/1/2009
    5- Climate changes and health costs. PNAS,2/2/2009
    6- Arctic Summer Sea Ice. O que lá vem não é nada animador.
    Science 27/3/2009.
    Quanto ao apagão,como sabe,foi universal. Uma medida simbólica,está-se mesmo a ver. Quanto às energias limpas,neste seu caso,queira Deus que caia muita água aí, para encher barragens.E já agora, que se vá reduzindo a produção de etanol,via milho,coisas assim,para comer,pois que até,segundo leio,o soneto não fica melhor. Aqui,vem a calhar,não o tanto mar, do Chico Buarque,mas o tanto Sol,que tão mal tem sido aproveitado.
    E pronto,fiquei vazio. Mas tinha de acudir pela minha dama,que as senhoras têm de ser muito bem tratadas.
    Desculpe Carlos,mas temos também de acudir pelo ambiente,o seu ambiente,e o meu,e o de todos,humano,incluído,sobretudo.

  15. maria disse:

    a fonte de energia elétrica no brasil é essencialmente limpa, mas não é infinita. se continuarmos passando os dias de luzes acesas, colecionando geladeiras e freezers e por aí vai, não vai sobrar rio sem hidrelétrica. vamos virar uma imensa represa?
    mas de maneira geral, acho que a hora do planeta é mais um lembrete de que dá pra simplificar a vida, não depender tão constantemente de tecnologias, essas coisas.

  16. Caro Carlos,
    Neste caso, não concordo muito com você. Creio que as principais fontes confiáveis para um homem de ciência, os artigos científicos publicados em periódicos que adotam a revisão por pares, deixam pouquíssimas dúvidas acerca da causa antrópica das mudanças climáticas. Tenho notado que as vozes dissidentes são em geral extremamente inconfiáveis, agindo, estes sim, como os tais ecoterroristas que tanto execramos, por meio de palavras de ordem e da emoção. Creio que à grande indústria, e ao capitalismo consumista como um todo, as drásticas mudanças de hábitos que a mudança climática quase obrigam se se quer reverter ou pelo menos desacelerar o processo, assustam muito. Na verdade, penso que só há uma forma realmente eficaz de se fazer alguma coisa pelo planeta: abandonar o modo consumista capitalista de ser. Você crê que as power elites permitirão que sua própria existência seja ameaçada tão facilmente? Não será muito mais cômodo imputar as mudanças aos ciclos solares ou a fenômenos geológicos? Desta forma, pouco importariam as mudanças de hábitos, poder-se-ia consumir sem culpa até o armagedom climático chegar. Os questionamentos acerca do aquecimento global me parecem muito semelhantes aos questionamentos acerca da seleção natural. São um desserviço à ciência de fato.

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