É muito fácil ser um jornalista frívolo

A senhora Ruth de Aquino, jornalista da Época, escreveu recentemente esta bobagem imensa, adotando a tão pouco original mas aparentemente apreciada posição de se ridicularizar cientistas e pesquisas científicas.
Reforçar estereótipos consagrados é uma fórmula fácil de sucesso. Vender o cientista como um nerd distanciado dos assuntos mundanos é a forma mais eficiente que pessoas medíocres encontram de minimizar a inteligência, o esforço e a perseverança de quem resolve ser pesquisador. É muito mais cômodo ridicularizar os outros do que reconhecer a própria mediocridade.
Além dos estereótipos consagrados, a balança politicamente esquerdista tem enfatizado a necessidade de pesquisas científicas de relevância social imediata. A pesquisa básica, grande responsável pela revolução tecnológica por que passamos, jamais seria realizada se fosse necessário demonstrar sua relevância social. Darwin não seria jamais reconhecido como o maior pensador e um dos maiores cientistas da História se se guiasse pela relevância social do que lhe ocupou a mente por toda a vida. Nem preciso falar de Einstein, Feynman, Hawking. Mas à senhora de Aquino nada disso importa. Interessante mesmo é vender um texto “engraçado”.
Em um país com um dos maiores níveis de analfabetismo científico, inclusive entre as classes ditas cultas, não há como se surpreender com um artigo tão tolo, parcial e fútil quanto esse. É muito fácil rir da ciência quando não se tem idéia do que é uma amostragem estatisticamente válida, quando nada se sabe das infindáveis horas em laboratórios, casas de vegetação, bibliotecas e salas de aula necessárias para que se possa formar um cientista. Muito fácil rir de pesquisas científicas quando se está com a barriga cheia da comida barata e de qualidade possibilitada pela pesquisa científica. Tremedamente cômodo criticar pesquisadores escrevendo frivolidades em um computador desenvolvido a partir das pesquisas deles. Frivolidades que são lidas pela mesma internet fruto do trabalho intenso dos cientistas malucos de quem é tão divertido escrever mal. Não duvido que a senhora de Aquino seja das pessoas “cultas” que se orgulham de sua iliterácia científica.

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Discussão - 11 comentários

  1. Wilson disse:

    Como vocês são cabeçudos. Leiam o título: “O besteirol na ciência é melhor que no Senado”. Acho que só quem faz besteirol deveria se sentir ofendido. Se você faz ciência está no grupo de quem faz política séria no Senado e assim por diante. Tentar defender quem faz mal uso do dinheiro público (isso porque ela não citou cientistas brasileiros) é burrice. Quem faz pesquisa idiota no Brasil, e eu conheço vários, é idota. Ela só está constatando. Se você é sério não precisa se preocupar e se sentir ofendido

  2. Vicente disse:

    Boa resposta, Prof. Ítalo. Me faz lembrar do comentáriodo blogger PZ Myers sobre um colunista que reclama da falta de progresso feita na cura para o câncer: “Ele aparentemente acha que a ciência é uma máquina de chicletes: você pôe a moeda e ganha a cura”.

  3. Fidelíssimo Manuel,
    Você disse tudo. São discussões vazias, polarizações sem sentido que interessam apenas a mentes afeitas à superficialidade das generalizações fáceis.

  4. Grande Locatelli,
    Já estranhava sua ausência do Geófagos. Olhe, é isso aí mesmo que você falou. É muito fácil falar do que não se entende. Agora, é necessário aguentar as consequências.

  5. Caro Leonardus,
    É ótimo ver antigos companheiros redescobrindo o Geófagos, ainda mais por meio de nossa UFV. Olhe, infelizmente, a atitude desta jornalista não é isolada e talvez reflita uma impensada animosidade em relação à Ciência. De toda forma, agora com a robusta blogosfera científica brasileira e em língua portuguesa, é possível que a percepção pública da ciência se torne cada vez mais positiva e que mais jovens se sintam atraídos por carreiras científicas. Obrigado pela dica do artigo, vou ler agora. Continue nos lendo e divulgando.
    Grande abraço.

  6. locatelli disse:

    Bom, fiz o comentário anterior antes de ir ler a matéria da Sra. da Época, e depois de ter lido me ocorreu que realmente ela foi infeliz ao criticar e estereotipar, ainda mais sem algum aparente conhecimento de causa, ou próximo desta… Além de menosprezar sem mais nem menos, de maneira arrogante e sem propriedade, algumas pesquisas que ela citou, que cá pra nós será que realmente existem ou saíram da imaginação só para enfeitar o texto e tapiar tranquilamente uns 99 % da população que possa vir a ler?
    À ela eu diria que não é porque ela não entende algo é que este algo não tem seu valor, pelo contrário, talvez seria o caso dela buscar suprir sua limitação de conhecimento sobre as algumas coisas do Universo, e se for o caso de depois que muito procurar entender ainda não conseguir, penso que ainda assim seria o caso dela reconhecer que não conseguiu entender, assim, tão somente, e nada mais, talvez tnha sido isso que Sagan quis dizer com “a ausência de evidência não significa evidência de ausência…”, assim penso.

  7. locatelli disse:

    Salve grande Ítalo, gostei do blog novo.
    abraços

  8. Leonardus Vergütz disse:

    It’s me again!!!
    Acabei de ver esse artigo que acabou de sair na revista Nature. Talvez a dona Ruth de Aquino devesse lê-lo.
    O título do artigo é: Lessons in science education
    doi:10.1038/nmat2409
    “Strong science education is an important part of any modern education. To ensure scientific progress, however, students need to aspire to academic careers.”
    O link para o pdf é: http://www.nature.com/nmat/journal/v8/n4/pdf/nmat2409.pdf
    Abraço e até…

  9. Leonardus Vergütz disse:

    Caro Ítalo,
    Parabéns por não deixar passar em branco um artigo de tão baixa qualidade e mau gosto como este. Ainda mais escrito em uma revista do porte da Época, que tem grande tiragem.
    Como a maioria da população brasileira é tão ignorante quanto a dona Ruth de Aquino, o perigo é que este tipo de idéia pode ficar na cabeça de muitas pessoas. A idéia de que o estudo e o esforço na busca de novas descobertas são coisas ruins para o nosso País.
    O pior de tudo é que mesmo lendo todas as críticas que foram feitas a ela nos comentários da notícia, a dona Ruth de Aquino provavelmente será incapaz de perceber qual é a nossa real preocupação. Já que ela foi capaz de escrever esse artigo ela deve estar pensando que tudo isso é apenas “dor de cutuvelo” dos pesquisadore brasileiros. Porém, o que nos preocupa é que nós sabemos da real importância do estudo e do investimento em pesquisa para o crescimento e desenvolvimento do nosso povo e do nosso País.
    No mais é isso aí, gostaria também de parabenizar vocês por entrarem para o ScienceBlogs.com e pela notícia que saiu sobre isso hoje no site da UFV.
    Abraço e tudo de bom!

  10. manuel disse:

    Faz isto lembrar a velha questão do fundamental e aplicado,
    como se o aplicado não dependesse do fundamental. Pobre investigação aplicada senão houvesse a outra a montante. De
    resto,muita da aplicada é efémera,pois que o objecto dela vai variando,obrigando a repetições,o que,de algum modo,é frustrante. Ter isto em atenção deveria ser uma constante nas apreciações que se fizessem,sobretudo,tratando-se de “outsiders”.
    Muito boa saúde e muito bom trabalho

  11. Meu Ilustre,
    Li o artigo de Dona Ruth e uns dois ou três a mais. Tenho dúvidas se ela é realmente jornalista e, se for, tenho dúvidas de que ela foi submetida a um exame rigoroso de seleção para ocupar o relevante cargo que ocupa.
    Não resisti e postei um comentário lá. Não sei se ela vai publicá-lo, portanto, segue aí uma cópia integral:
    “Dona Ruth, existem profissionais ruins e falsos profissionais em todos os ramos das atividades humanas. Mas a senhora acha justo, por exemplo, estereotipar toda a classe médica em função daqueles que de vez em quando cometem alguma barbaridade? Há muitos outros exemplos, mas não é necessário citá-los aqui.
    Pelo seu artigo, podemos concluir que a senhora desconhece, e muito, a matéria de que trata nele, desconhece ou finge desconhecer a ciência e os benefícios dela para a humanidade, portanto o seu artigo é, no mínimo, parcial. Todos sabemos que o bom jornalismo não trabalha assim. E aí cabe uma última pergunta: a senhora acha justo e concorda que devemos avaliar a qualidade do jornalismo mundial pela qualidade dos artigos que a senhora escreve e publica?”

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