A Savanização do Mundo: um ensaio

Por Elton Luiz Valente
Antes de ir ao assunto destas linhas, é importante lembrar que o Cerrado não é Savana. A Savana encontra-se na África, em condições de solo e clima diferentes daqueles do Cerrado. O Cerrado é um bioma exclusivo da América do Sul. As duas vegetações têm alguma semelhança fitofisionômica e a Savana foi descrita primeiro, daí diz-se que o Cerrado é uma vegetação savânica, ou seja, semelhante à savana, mas não igual.
Já publicamos aqui no Geófagos um texto onde se comenta, em linhas breves e gerais, a relação do homem com vegetações de natureza savânica, como o Cerrado.
O homem originou-se na África, em meio à Savana. Isso implica dizer que ele foi gerado, moldado, forjado, sofreu os processos da seleção natural e da evolução das espécies em meio à vegetação savânica. Portanto, quando ele se encontra em um ambiente destes é bem possível que sejam ativados instintos atávicos, provocando sensações ancestrais nos seus cinco (ou seis, ou mais) sentidos. É mais ou menos o mesmo efeito que faz o cheiro, o calor e a pulsação do colo da mãe em um moleque, ou outro filhote de mamífero qualquer.
O homem enxerga o ambiente savânico instintivamente, com todos os seus sentidos ativados, gostando do que vê e se sentindo muito bem ali – aqueles indivíduos urbanos, hi-tech, que têm horror a picada de insetos e otras cositas mas, são uma variedade que surgiu recentemente na espécie, correspondem ao “erro amostral” desta minha “análise livre”. Observem que Gorilas e Chimpanzés, nossos primos mais próximos, também não gostam da floresta, eles gostam da borda da floresta. Quem gosta do interior das florestas são os primatas com rabo, nossos primos mais distantes. O homem pode até conservar um pedaço de floresta numa encosta, num canto qualquer, mas ele não ama a floresta, ao contrário, o homem tem medo dela, lá ele se sente ameaçado, uma presa fácil. Diferente dos ambientes savânicos, que fazem parte da sua essência evolutiva. Fazer com que o homem ame ou pelo menos preserve as florestas não é tarefa fácil, mesmo mostrando os inúmeros benefícios que a conservação delas pode nos render.
Vejam que a primeira providência do colonizador é o desmatamento. Ele precisa de área para suas culturas e gosta muito daqueles campos imensos, savanizados, que ele próprio produz. O homem savanizou o globo terrestre. A savanização do mundo é sua obra máxima, natural, com um viés bíblico, profético. É o seu legado. Exceto por uma mancha de floresta amazônica aqui, umas coníferas ali (que estão sofrendo constante pressão de desmatamento), o restante do mundo, por onde o homem passou, já está savanizado. Some-se a isso a pressão econômica do agronegócio, que impulsiona o homem a agredir a própria Savana (o Cerrado que o diga), ou seja, por dinheiro ele é capaz de agredir o seu ambiente mais querido, “o seu lar primevo” – a ganância é outro traço marcante de nossa personalidade – Bingo! Não vai sobrar floresta no mundo. O homem vai desmatá-las todas. A degradação ambiental, as mudanças climáticas e outras questões direta- ou indiretamente vinculadas aos desmatamentos, se possível, só serão resolvidas depois, podem apostar!

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Discussão - 7 comentários

  1. bruna disse:

    Gostaria de saber se existe algum projeto de conservaçao da savana??

  2. raoni disse:

    Caro elton,
    gostei muito desse seu ensaio, me ajudou a enxergar por uma outra visão o bioma Cerrado na pesquisa de seminário que estou fazendo para uma disciplina, Biogeografia. Fico feliz em saber que outras pessoas veem o lugar onde morei por uma década não como um monte de pastagens e árvores pobres e sem graça e bem espaçadas, mas sim como um bioma onde sua riqueza se encontra no interior do seu solo, e no equilíbrio que ele trás para os outros biomas, ou até mesmo na singela beleza das flores e orquídeas.

  3. Elton Valente disse:

    Ilustríssimos Senhores,
    A todos agradeço a atenção ao meu “ensaio” e peço desculpas pela demora em me manifestar, é que tive compromissos de urgência urgentíssima.
    Ítalo Rocha,
    Nossas conversas são sempre proveitosas. Imagino que se trabalhássemos próximos, ou tivéssemos oportunidades de atualizar “a prosa” com frequência, elas poderiam render um Livro, ou mais.
    Saúde e muito sucesso a todos!

  4. Wendell disse:

    Excelente ensaio, explica muita coisa através da lógica.

  5. Ernesto disse:

    Quem duvida que o homem adora a savana deve prestar atenção ao paisagismo de parques: grama rasteira, árvores isoladas ou em pequenos bosques – ou seja, uma recriação da savana original em que evoluímos.

  6. Elton, gostei muito de seu ensaio. Infelizmente para os leitores do Geófagos, não há como transcrever a contento as várias conversas que tivemos sobre esta preferência atávica do homem pela vegetação mais aberta, típica de savanas, cerrados e campos. E a amada caatinga, que já foi chamada também de savana estépica.

  7. manuel disse:

    Olá,Elton
    Dá para pensar o seu ensaio. Primeiro,ainda bem que pode ensaiar. Um luxo?
    Depois,o homem tem medo da floresta,onde se sente ameaçado. O certo é que tende a vir instalar-se noutra,de cimento ou não,apsar de não se livrar de “lobos maus”. Acontece que é lá,nessas novas florestas,ou perto delas,que coisas acontecem,coisas de que ele precisa,ou levam-no a precisar.
    Finalmente,o homem teve necessidade de desmatar para sustentar a família crescente. Fê-lo,pois,por obrigação vital. Pela mesma obrigação,parece o homem ter de pôr um inteligente limite a esse deitar abaixo,sob pena de ter de arranjar florestas artificiais,como alguém já está indicando.
    Um abraço.

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