Agricultores maus, ambientalistas bonzinhos e cientistas loucos

Acredito que qualquer pessoa preocupada com a utilização prática do conhecimento científico e tecnológico saberá que a geração do conhecimento, em si, a produção de dados, nada tem de bom ou ruim. O conhecimento gerado a partir do estudo da estrutura dos átomos pode levar tanto à bomba atômica quanto à raditerapia para tratamento de câncer. Posso estar errado, mas creio que o mal uso do conhecimento científico se deve mais à ação de políticos do que à vontade de cientistas, o que não quer dizer que não haja cientistas ideologica e politicamente engajados.
O assunto em voga hoje nos meios preocupados com a questão ambiental brasileira é uma audiência pública convocada pela presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), senadora Katia Abreu (DEM-TO). A audiência faz parte de uma discussão acalorada entre ruralistas e ambientalistas sobre a ocupação de terras pela agricultura em detrimento de áreas de preservação ou conservação natural de variada natureza. O encontro contará com a participação do pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite, Evaristo Eduardo de Miranda, que apresentará resultados de um estudo concluindo que, após descontadas as áreas de conservação e reservas indígenas, sobrariam 29% da área agricultável não utilizada no Brasil. Nas entrelinhas está a mensagem de que os ruralistas utilizariam esta informação para tentar abrandar a legislação ambiental brasileira visando mais terras para a agricultura.
Ora, como afirma um outro pesquisador da Embrapa, estes 29% correspondem a 240 milhões de hectares, o que é muita terra. Como já discutimos aqui no Geófagos, dizer que o aumento de áreas naturais protegidas comprometem a produção de alimentos de um país é um argumento falacioso. Existe uma diferença entre produção e produtividade agrícola. A primeira é o total produzido e contabilizado, por exemplo, o Brasil produz x toneladas de soja. Produtividade é a capacidade de produção de determinada área, geralmente um hectare, que corresponde a dez mil metros quadrados. O aumento da produção agrícola de um país pode depender ou do aumento da área plantada ou da elevação da produtividade pela adoção de melhores tecnologias agrícolas. Assim, o aumento na produtividade não está diretamente associado ao aumento na área sob agricultura. Nem o aumento da área plantada siginifica que a produção agrícola total será aumentada. Aumento de produtividade é aumento de eficiência. A abertura de novas áreas agrícolas é simplesmente uma solução mais fácil de se aumentar a produção sem que obrigatoriamente se implemente ou se adote mais tecnologia.
A Embrapa, conceitualmente, existe para gerar conhecimento científico e tecnológico para aumentar a produtividade no campo. Obviamente, haverá grandes produtores que utilizarão tecnologia gerada pela empresa. Mas vejo agora que existe uma tendência de demonização da empresa pelos meios eco-idiotas e eco-fundamentalistas. Um exemplo didático é esse texto, constrangedor de tão tendencioso, do novo blog Laboratório, da Folha de São Paulo. De forma insidiosa, em minha opinião, o autor do texto transfere a suposta maldade dos ruralistas para a Embrapa, que fica parecendo ser o braço letrado dos fazendeiros maus. Não houve competência sequer para checar fatos, como quando afirma que a Embrapa não se propõe a recuperar áreas degradadas, ignorando trabalhos importantes na área feitos em unidades como a Embrapa Agrobiologia, Embrapa Meio Ambiente, Embrapa Cerrados, entre outras (afinal de contas, a ausência da checagem de informações e de imparcialidade não é uma crítica dos jornalistas de ciência aos blogueiros de ciência? Ah, não é uma crítica, é o que alguns deles fazem quando escrevem blogs). Mas é óbvio que é mais interessante atacar a Embrapa, que junta em si as nefastas figuras do cientista e do agricultor, do que cumprir a desagradável tarefa de pesquisar e de ouvir o lado oposto. Não é coisa que a imprensa brasileira anda fazendo muito.
Ao mesmo tempo, ao equacionar a Embrapa e o interesse dos agronegociantes, o jornalista arquetípico convenientemente ignora o trabalho feito, por exemplo, na própria Embrapa Hortaliças (aos ambientalistas do asfalto informo que a esmagadora maioria dos horticultores brasileiros é composta de pequenos agricultores), na Embrapa Semi-Árido e muitas outras. Mas isso não importa aos jovens ambientalistas urbanos hipócritas e aos mocinhos manipuladores de informação do Greenpeace. O que importa é combater o mal.

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Discussão - 8 comentários

  1. Estou preocupado,com a atitude dessas ongs,não é aceitavel em qualquer lugar do mundo essa interferência,sem falar dos absurdos ditos diariamente,aproveitando a impresa como cavalo de tróia.o país precisa avançar na modernização do codigo florestal,que hoje não serve ãos interresses brasileiro, lembrando que deve haver equilibrio entre as duas partes,ambiente e agricultura que é uma das atividade que mais divisas trás ão país.

  2. Caro Ítalo,
    Muito obrigado pelo incentivo dado ao http://navegantesdeiapetus.wordpress.com/, sua opinião é muito importante, pois o “geófagos” foi um grande inspirador para a criação do “navegantes”.
    Parabéns pelo blog e pelas colocações

  3. Thomas J. Schrage disse:

    Olá,
    antes de mais nada gostaria de elogiar este ótimo blog, que conheco desde uma procura sobre fitólitos. Ele me mostra que tenho muito ainda o que aprender, me dando, inclusive, uma maior visão não só das ciências da terra, mas dentro da própria pedologia e questões pessoais.
    Quanto ao último post, eu devo concordar totalmente. Muitos desses críticos vieram de faculdades achando que tendo aula com algum professor abitolado arcaico qualquer (aqueles que são paranóicos e acham que tudo é o capitalismo do mal), teriam alguma moral. Contudo, essas pessoas ficam presas em seu próprio mundinho. Desde o ínicio de sua formação como pesquisadores, eles fecham-se nos pressupostos que a mídia ou falsos professores lhe enfiaram na cabeça. Para eles, essa é a realidade: existe os bonzinhos e os malvados, e, quem não concorda com eles, são os malvados. Nada, absolutamente nada, os fará mudar de idéia!
    Eles se contradizem. Dizem ser modernos, ser abertos, serem a vanguarda, mas estão limatados às suas próprias visões. Um jornalista que escreve o que todo mundo acha, não buscando ir mais fundo buscando a verdade, não se pode considerar jornalista. Como um ambientalista que acha que qualquer intervenção no meio ambiente é ruim, sem saber de fato o como as pessoas se matam de pesquisar essas intervenções e como agem de boa fé, sem buscar entender como de fato o meio ambiente reage com o ser humano, não pode se considerar ambientalista. (enfim, só um desabafo)

  4. João Oliveira disse:

    Prezados, tive uma brilhante idéia: Vamos formar uma ONG, pegar um navio e ir para o EUA ou Inglaterra, dizer para eles como eles devem usar a terra deles! Vamos fazer protestos de parar o transito, dizer que eles não devem ter usinas nucleares, cultivar transgênicos, não gastar e nem explorar suas reservas de petróleo e nem sua natureza etc. Mas ao mesmo tempo também não podemos deixar que produzam biocombustíveis. Só o vento (desde que as turbinas sejam fabricadas por nós) ou o sol (idem). Ora, por favor, coloquem estes vagabundos do Greenpeace para fora do Brasil, no seu naviozinho movido a óleo diesel (mas tirem o óleo) e mandem eles de volta para seus países, aproveitando apenas a energia eólica.
    João
    ps.: estes mesmos desocupados que estão promovendo a farsa do aquecimento global estão provocando a crise de alimentos, a necessidade de destruir florestas para plantar cana, a necessidade de transgênicos para suportar altas temperaturas e o emprego da energia nuclear.

  5. manuel disse:

    Caro Ítalo
    Depois de ler o seu texto,não sei porquê,lembrei-me dos porta-bandeiras do antigamente,que,no geral,coitados,não podiam vir contar o que lá se passara. Os porta-bandeiras de hoje,o que os moverá? O seu bem,ou o bem de todos? Eis a questão crucial.

  6. Luiz Bento disse:

    É…começaram com o pé esquerdo.

  7. locatelli disse:

    Tem certos tipos de coisas na nossa sociedade que desanimam, e ambientófilos deformadores de opinião, Greenpeace e cia são dessas!

  8. Lebna disse:

    Ótima reflexão, Ítalo!

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