“Consumidores de luxo” de potássio

Por Flávia Alcântara
O último texto do Juscimar me lembrou uma questão que tenho vivido na prática, desde que comecei a trabalhar como pesquisadora e passei a me envolver efetivamente com fertilidade do solo. Digo “efetivamente” porque uma coisa é a academia e outra é a realidade do campo e da pesquisa. Acho muito bom que tenhamos uma nova reserva de potássio em nosso território e concordo plenamente com o fato de que só há vantagens em acabar a cartelização do KCl (ou de qualquer coisa!). Obviamente tenho minhas preocupações ambientais e sociais no que diz respeito à extração nessas reservas, mas isto é outro ponto.
O assunto sobre o qual quero tratar aqui perpassa o fato de termos uma nova reserva e, ao mesmo tempo, pode ser modificado por esse fato – se para pior vai depender de quem trabalha na área. Essa assunto é a utilização excessiva de potássio que, me parece, ocorre hoje na agricultura brasileira. Grande parte do potássio extraído das reservas mundiais é utilizada para a obtenção dos formulados comerciais (fertilizantes com proporções definidas de nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K) – os famosos NPK). Outra parte é utilizada como fertilizante simples, o próprio KCl, principalmente nas adubações de cobertura (adubações realizadas durante o ciclo das plantas para complementar a adubação de plantio, em que se fornece N, K e, em alguns casos, micronutrientes). Bom, a utilização excessiva de K sobre a qual falo é causada pela utilização excessiva de formulados. Explico. Os formulados mais utilizados comercialmente são o NPK 4-14-8 e o NPK 4-30-16. Estas fórmulas significam o seguinte, tomando como exemplo a primeira: em 100 quilos do produto estão presente 4 quilos de N, 14 quilos de P-P2O5 e 8 quilos de K-K2O. Portanto, fornecem os três nutrientes, ao mesmo tempo, em proporções diferentes.
O que acontece nos solos brasileiros é que a necessidade de adubação fosfatada é muito maior do que a necessidade de adubação potássica, mesmo que esses dois elementos estejam presentes em teores proporcionalmente baixos no solo. Isto ocorre devido à alta capacidade de fixação do P dos nossos solos altamente intemperizados, nos quais, a grosso modo, as plantas só absorvem o P após ter sido praticamente saturada toda a capacidade de fixação desse elemento no solo – é como se elas ficassem com a raspa do taxo. Assim, são necessárias, em geral, altas doses de P (aplicado na forma de P2O5) para que se obtenha teores adequados ao crescimento e desenvolvimento das culturas (para sobrar uma raspa generosa!). Caso a dose recomendada de P-P2O5 seja alta, é extremamente difícil, com a utilização de um desses formulados, que se consiga suprir essa necessidade sem ultrapassar as doses recomendadas de N e K, mesmo que estas sejam também altas – numericamente nunca serão tão altas quanto a de fósforo, basta olhar os boletins de recomendação. Na prática o que ocorre é a utilização de formulados (ex.: 3 ou 4 ton./ha) sem levar em consideração a análise química do solo, que muitas vezes nem é realizada.
A utilização dessas doses de formulados é uma decisão tomada por produtores e ou engenheiros agrônomos com base em vários critérios que não discutirei aqui, mas que vão desde a facilidade de aplicação (para se utilizar fertilizantes simples, ou seja, um que forneça N, outro que forneça P e outro que forneça K, é preciso fazer mistura, o que requer mais tempo e mão-de-obra) até a sugestão do vendedor ou do vizinho ou agrônomo da fazenda ao lado. A facilidade de aplicação é compreensível, mas a displicência não. O que comecei a notar no meu trabalho como responsável por um laboratório de fertilidade do solo e pelas minhas andanças por aí é que, apesar de os teores de P no solo continuarem baixos ou médios, os teores de K estão quase sempre altos ou muito altos. É a utilização dos formulados. Quero deixar claro que não sou contra os formulados, mas saliento que, na maioria dos casos, eles devem ser utilizados juntamente com fertilizantes simples. Podemos suprir todo ou quase todo o N e o K numa adubação de plantio com um formulado e complementar a dose de P requerida com um fertilizante simples fosfatado. Isto é pura matemática. É bom senso.
E qual é o problema do excesso de K nos solos? Como disse o Juscimar não se conhece sintomatologia de excesso de K, mas como cátion que é, o K em excesso poderá causar desequilíbrios em relação ao Ca e ao Mg (também cátions) por ser absorvido preferencialmente pelas plantas. Já vi casos de deficiência de Ca no meio do ciclo (em tomateiro) por causa do excesso de K e ouvi vários relatos similares. Nesses casos, ocorre o “consumo de luxo” de K – a planta o absorve mas não o utiliza. Além, disso, e aí entram as reservas de potássio do Brasil (e do mundo), estamos desperdiçando potássio! Mesmo com uma nova reserva no Brasil, mesmo com dezenas de novas reservas que apareçam pelo mundo, estamos desperdiçando potássio! Esta não é uma era de desperdício e é preciso que todos entendam isso. Esta é uma era de sustentabilidade. Portanto, que comecemos a pensar sobre a necessidade de consumo interno de potássio. Qual é o real “tamanho” dessa necessidade? E que façamos bom uso da nossa nova reserva, com reserva.

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Discussão - 6 comentários

  1. manuel disse:

    Doutora Flávia
    Estando com a mão na massa,como aqui se costuma dizer,um pequeno comentário a um outro importante ponto que mencionou,os efeitos que o K ,em excesso,pode ter na absorçãon doutros nutrientes,como o Mg e o Ca,fruto do antagonismo iónico,que,como sabe,se pode dar no sentido inverso,sendo,neste caso,o K o padecente. O que referiu em relação ao tomateiro até pode ter sido produzido por uma aplicação de K complementar.A difusão também entraria aqui a dar a sua contribuição.
    Como sabe,na bibliografia,por assim dizer,há para todos os gostos,havendo referências não tão gravosas para o K,como para qualquer outro nutriente. Quanto aos sintomas do excessso,serão eles os da carência em causa.
    Tudo isto,afinal,resultado das muitas facetas do seu texto.
    Mais uma vez,muito obrigado por esta oportunidade.Muito boa saúde e muito bom trabalho.
    C

  2. manuel disse:

    ~
    Muito,e muito obrigado,pelos seus comentários,Doutora Flávia.
    Foram objectivos. Não calcula o que me tocou o seu “desorienta”. É que a preocupa muito o ajustado,e tem vontade de dele se aproximar,o mais cientificamente possível,não de qualquer maneira,como cientista não fosse.
    E isto,saberá muito melhor do que eu,porque a realidade que o agrónomo enfrenta é uma realidade muito complexa,por assim dizer difusa,prendendo-se com muitos factoree,físicos,químicos,biológicos,económicos. O bom senso aqui custa dinheiro,e não só.
    Tal como está disposta,estou eu também para continuar,de longe com muito mais à vontade,pois não tenho telefones a atender e muitas coisas mais a tolher-me.
    Muito boa saúde,e muio bom trabalho.

  3. Flávia disse:

    Olá Manuel!
    Estou aqui novamente, agora para falar do ajustado, que também muito me desorienta. Pois é. Como se define o ajustado? A dose ajustada (ou recomendada) vem de longos experimentos em condições controladas (casa-de-vegetação) cujos resultados são depois validados em condições de campo. São estudos realizados em diferentes classes de solo para todas as culturas comerciais. No caso do Brasil, os boletins de recomendação são feitos por estado ou região (para que se tenha uma mínima homogeneidade de condições edafo-climáticas – até por causa do tamanho deste país). Também levam em conta uma “produtividade esperada” que pode mudar muito com o tempo (em geral para cima). Assim, quem usa os boletins deve levar em conta a produtividade esperada pelo produtor em questão e fazer seus cálculos com base também nela. Também há que se levar em conta a exigência das cultivares, como você questionou. Os boletins não podem dar recomendações por cultivares pois seriam verdadeiros tratados, mas é preciso que o técnico que os utiliza leve a exigência da cultivar em conta. Existem também, além dos boletins estaduais ou regionais, materiais publicados pontualmente para regiões e culturas específicas e que ajudam muito os técnicos da área. Estes podem ser atualizados com mais frequencia do que os boletins. Quanto ao ajuste de um formulado para que este supra o recomendado, falarei daqui a pouquinho porque o dever me chama pelo telefone! Grande abraço!

  4. Flávia disse:

    Caro Manuel, obrigada por seus comentários.
    Peço que tenha paciência pois também os responderei por partes…
    Quando eu disse “me parece” é por estar baseada na minha experiência como responsável por um lab. de fertilidade do solo (e emissora dos laudos) e pelas andanças como pesquisadora, mas não em números comprobatórios. Não posso afirmar com certeza que a utilização excessiva ocorre em todo o Brasil. Posso apenas dizer que me parece ocorrer pelo que tenho visto.
    Quanto à comparação com o P, me refiro principalmente ao problema da capacidade de fixação do P nos solos tropicais. Na verdade, não significa que a necessidade de adubação potássica seja baixa em nossos solos (não é), pois há mesmo a pobreza original e a lavagem do nutriente da zona radicular, como você mesmo disse. O grande ponto em questão é que no intuito de fornecer todo o P necessário, exagera-se no K.
    Muito boa saúde também para você!

  5. manuel disse:

    Muito bom dia,Doutora Flávia
    O seu post é extremamente desafiante,pelo que é difícil não resistir-lhe. Estou,aqui,pois novamente,contando com a sua permissão,e benevolência.
    A sua preocupação com os formulados comerciais é inteiramente justa. Pode dizer-se que são chapéus que não servem a nenhuma cabeça,passe a expressão. E por ser assim,é fatal,tantos são os factores em jogo,e tanta a sua variação,solo-físico,químico,biológico,clima,espécie,
    cultivar,culturais,que as doses usadas estejam desasjustadas.
    E aqui,no desajustado,surge,nsturalmente,uma pergunta. Como se definiu o ajustado? Com ensaios sistemáticos,por vários anos,no mesmo tipo de solo,com a mesma cultivar? E,novamente,aqui,surge outra pergunta.Mudando a cultivar,como se faz,para se ser rigoroso,para a dose continuar a ser ajustada?
    Insisto no ajustado,pois é nele que reside a angústia de muito técnico que queira ser rigoroso,tanto quanto se pode ser quando se está a tratar com um sistema a muitas variáveis,físicas,químicas,biológicas,climáticas,culturais.
    Ficando-me por aqui,para,novamente,não a maçar mais,peço muitas desculpas pela insistência,que,afinal,resulta da riqueza de frentes do seu compreensivo texto.
    Muito boa saúde e muito bom trabalho.

  6. manuel disse:

    Muito boa noite,Doutora Flávia
    Cá temos,mais uma vez,o potássio,com quem convivi durante anos e anos,há,também, já muitos anos. Não é o potássio,pois,para mim,um ilustre desconhecido,só que conhecido há muito.
    Não admira,assim,que eu tivesse ficado muito satisfeito por a Doutora Flávia o pô-lo na minha frente. O seu texto tem muitas pontas por onde se lhe pegue,sendo o melhor pegar-lhe por fases,se mo permitir.
    Disse que “Esse assunto é a utilização excessiva do potássio,que me parece ocorre na gricultura brasileira”. Para este parece,que factos concorrem,para além dos desequilíbrios obeservados?
    Depois,a necessidade da adubação fosfatada é muito maior do que a necessidade da adubação potássica.É que,do que recordo,se aí a fixação do P é alta,como aqui também,o potássio aí,não tem ,como aqui,argilas de carga negativa para o reter,facilitando a sua lavagem de zonas radiculares.
    Para além,claro,de minerais portadores,iite e minerais primários,que aqui abundam.
    Havera alto teor de matéria orgânica activa para o
    conseguir,choverá pouco,serão baixas as necessidades de K por razão da cultivar,por serem baixas as produções,por ser elevada a insolação,como aqui se dizia?
    Bem,Doutora Flávia,é melhor ficar por aqui,para não a maçar mais.
    Muito boa saúde,e muito bom trabalho.

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