Crescimento econômico, sustentabilidade e ascetismo fradesco

O excelente ensaio publicado anteriormente pelo amigo Elton Luiz Valente suscitou uma discussão interessantíssima no âmbito dos leitores e dos autores do Geófagos. Um comentário feito pela Flávia Alcântara, também Geófaga, ao post de Elton, leva-me agora a escrever umas impressões. A questão levantada pelo Valente Elton, da qual a Flávia parece discordar, é quanto à possibilidade de haver crescimento econômico ambientalmente sustentável.
Embora concorde com a Flávia quanto ao papel do ser humano nas condições mundiais atuais advindo do fato de ter consciência, correndo voluntariamente o risco de ser incluído entre os megalomaníacos ingênuos, concordo com o Elton quanto à incompatibilidade do que se chama crescimento econômico e sustentabilidade. O que eu entendo como crescimento econômico é o aumento no número de consumidores e em seu poder de consumo. Esse é o crescimento econômico que o capitalismo deseja e almeja. Se vivêssemos em um mundo de cem milhões de habitantes, poderia concordar que talvez houvesse espaço para um “consumo consciente” ou algo do tipo, não porque o hábito consumista fosse ser menos danoso ambientalmente, mas porque o impacto de uma sociedade consumista relativamente pequena seria muito menor.
Junto-me aos que acreditam que, em um mundo com quase sete bilhões de bocas vorazes, mesmo hábitos relativamente frugais talvez já fossem impactantes, em termos de sobrevivência confortável da espécie. Acredito que conceitos como consumo consciente e crescimento econômico ambientalmente sustentável são mitos úteis à manutenção do statu quo capitalista voluntariamente míope e irremedialvelmente cruel. Mas essas são opiniões típicas de um sertanejo familiarizado com a escassez e a hostilidade ambiental, com tradicionais tendências “ascéticas e fradescas”, no dizer de Ariano Suassuna.

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Discussão - 11 comentários

  1. Senhora e senhores todos,
    Excelente discussão. Não tenho dúvida Átila que a discussão séria sobre sustentabilidade só começará quando admitirmos que com essa população e esse consumo, não dá, não há como sustentar o mundo. Enquanto isso, os governantes enchem a boca para falar em exemplo do Brasil, que o Brasil tem muito a ensinar sobre sustentabilidade, ao mesmo tempo que pedem para a população consumir e baixam impostos para que se compre mais carros! Mais carros, em tempos de crise climática e mudanças globais?! Ou é ignorância ou hipocrisia. Movimentar mundos e placas tectônicas para auxiliar financeiramente empresas produtoras de automóveis que voluntariamente os produziram o mais poluidores e ineficientes possíveis e acreditar a sério que o Tio Sam, seja branco ou preto, está preocupado com o futuro do mundo? Enquanto se equacionar o interesse nacional com o interesse das grandes empresas, não há o que discutir.

  2. Luiz Bento disse:

    Desenvolvimento sustentável nada mais é do que um doce sonho na mente dos ambientalistas. Muito bonito defender a diminuição do consumo de carne, andar de bicicleta…fale isso para os chineses e africanos, que não comem carne e nunca tiveram um carro.
    No dia em que todos os africanos e chineses começarem a comer de verdade, nosso planeta já não terá terras agricultáveis. Eis o paradoxo ambientalista.

  3. Elton Valente disse:

    Prezado Karl,
    Desculpe-me antecipar o Ítalo, autor do Texto, é que gostei muito do seu comentário, pela espontaneidade da conclusão, sobretudo do “Me sinto uma doença…”
    Parabéns!

  4. Atila disse:

    Ítalo,
    Sou obrigado a concordar com o Luiz Bento e o Breno, se queremos ser sustentáveis, que não tenhamos filhos. Não acredito que haja maneira de sermos sustentáveis, e não digo nem com uma população crescente. Se quisermos dar condições de vida minimamente decentes para os 80% (chute meu) pobres do mundo, vamos causar um impacto muito maior do que o cabível.

  5. Karl disse:

    Excelente post e excelentes comentários.
    Gostaria de fazer uma pergunta. De onde esses 7 bilhões de bocas vorazes retiraram o carbono necessário a sua existência? Se ele não foi criado, nem veio do espaço, foi de alguma outra fonte. Crescimento econômico não significa crescimento populacional, porém o primeiro implica no segundo, por questões biológicas quase malthusianas. Daí que, noves fora, talvez não haja crescimento sustentável mesmo!
    Me sinto uma doença…

  6. Caro Elton, que bom que pela primeira vez vamos “conversar”. Obrigada pelas boas vindas ao Geófagos. Tenho me sentido muito feliz em participar e colocar minhas opiniões que, obviamente, não serão sempre concordantes. Entendo tudo o que você coloca e concordo com muita coisa, mas… veja só… o que você poderá me dizer após saber que eu acredito na sustentabilidade (rica) dos Latossolos, quimicamente pobres e blá, blá…? sabe por que acredito? Porque sou fã da matéria orgânica… mas isto é assunto para outro dia. Para mim, nada é sustentável se não o for nos três âmbitos. Chegarei então à terrível conclusão de que nada é sustentável? Talvez! Qualquer dia desses escreverei um post sobre a minha visão sobre a tal sustentabilidade. Aí será uma oportunidade melhor para discutirmos mais. Aqui queria também dizer que, ao contrário de você, sou otimista quanto ao futuro do mundo. Estamos no fundo do poço, mas daqui a pouco não haverá mais o que cavar e vamos começar a subir! Vamos conseguir manter a vida! Um gigantesco e fraterno abraço!

  7. Elton Valente disse:

    Ítalo Rocha,
    Parabéns pelo MANIFESTO que você postou aí do lado, na Página do Geófagos! Merece ser impresso em uma placa de ouro!
    Parabéns!

  8. manuel disse:

    Desta vez,porque sou “consciente dos próprios atos”,porque,de algum modo,tenho “tradicionais tendências ascéticas”,porque,”na verdade,sou o meu maior problema”,vou procurar conter-me,na cândida suposição,que,com o meu humilde exemplo,leve a conter a maioria esmagadora das “quase sete mil milhões de bocas vorazes” que por aí andam,a girar nesta bolinha.
    Sustentabilidade,perguntará ela,que bicho é esse? O que eu sei,de fonte segura,que sou eu mesmo,é que vivo cheio de carências,a atentar naquilo que meia dúzia tem. Mas eu prometo,que um dia também deixarei de as ter. Ando há já uns tempos a pedir aos meus santos e eles hão-de conseguir.
    Como é que se vai impedir o esvaziar do interior e o acumular nas grandes metróples,pois é aqui que coisas acontecem?
    Pois é,somos o nosso maior problema.Quem é que vai estancar ânsia de promoção que habita na maioria esmagadora desses muitíssimos milhões,gente de carne e osso,que tem olhos para ver,cabeça para pensar,e que não é asceta? Como?
    E pronto. Parece que me contive.
    Um abraço para si, Ítalo,um abraço para todos.

  9. Elton Valente disse:

    Prezada Flávia,
    Peço licença para responder aqui, no texto do Ítalo, o seu comentário ao meu texto.
    Antes de tudo, tendo em vista que ainda não havíamos dialogado diretamente, quero externar que foi com muita satisfação que recebi a notícia de sua presença no Geófagos. Digo isso porque tenho uma grande admiração e um profundo respeito pela visão feminina do mundo e da vida. Considero que sua presença é necessária e muito saudável ao Geófagos.
    Quanto ao meu texto, quero lhe dizer que sou muito pessimista em relação ao futuro da humanidade. Com uma população contada em bilhões de habitantes e um modelo norte-americano de consumo, como exemplo aos demais, nós não vamos conseguir convencer essa gente toda. Cito no post outro texto que publiquei no Geófagos falando sobre o modo de vida Neolítico e o controle de natalidade. O texto é em tom de ironia e brincadeira, porque o fato em si é uma utopia. Não há como retroceder. Pelo menos é o que penso.
    Entendo “crescimento econômico”, de um país ou povo, como aumento de riqueza financeira e material agregada a aumento de consumo, muito além das necessidades básicas, fundamentais – Só para citar um exemplo, entre outras coisas, vejo crescimento econômico com as indústrias de automóveis batendo recordes de vendas, as indústrias de novas tecnologias gerando novos modelos, incentivando o consumo, e as ruas travadas com enormes engarrafamentos e, dentro de cada veículo, um ou dois espécimes de Homo sapiens “curtindo” o caos, enquanto os transportes coletivos são negligenciados.
    Voltando à “sustentabilidade”. Os ecossistemas dos trópicos, por exemplo, quando bem preservados apresentam o que chamamos de “equilíbrio dinâmico”, com entradas e saídas mínimas de “recursos”, de forma equilibrada, natural. Os Latossolos, por exemplo, são solos pobres, muitas vezes paupérrimos quimicamente, oxídicos, ricos em alumínio trocável, ácidos, de baixa CTC, pobres em minerais primários, e etc. “Sustentabilidade” stritu sensu em um ambiente desses é a sustentabilidade da pobreza. “Sustentabilidade ambiental, social e econômica” então, para mim, é impossível nesse ambiente – além de ser semanticamente incoerente. Em se tratando dos Chernossolos de clima temperado, eu posso até concordar, mas há um problema: Os Chernossolos estão nas mãos dos “Capitalistas Selvagens” nos EUA e na Europa Ocidental e estiveram nas mãos dos “Comunistas Aloprados” no leste europeu – Há uma frase atribuída a Henry Ford em que ele disse que só produzia automóveis porque cultivava milho sobre Chernossolos nos Estados Unidos.
    Você e eu e todos os Geófagos, mais alguns outros pouquíssimos espalhados por aí, não nos vemos “separados da Terra”, como você disse. Somos poucos. A maioria acredita piamente que são “anjos decaídos”, esperam que o Senhor venha os salvar e são absolutamente contrários, refratários, à idéia de que são frutos da evolução e, portanto, apenas animais, primatas, diferenciados em alguns aspectos.
    Vou ficar por aqui porque, como diz nosso Grande Amigo Manuel, já vou por demais longo!

  10. Caro Ítalo, não acredito em crescimento econômico (ponto), seja ele sustentável ou não. Não o acho necessário. Na verdade, prefiro pensar em “manutenção da vida”. Quando falo em “econômico” significa que as pessoas tenham dinheiro para viver (pagar suas contas, se alimentar, só para falar nas necessidades básicas – sem pensar no direito à cultura, por ex.). Sustentabilidade (manutenção) precisa ser econômica, social e ambiental (pense em como é difícil separar esses três!) e é muitíssimo complicado alcança-la. Quem foi que disse que era possível viver impunemente?
    Vida longa ao Geófagos!

  11. Elton Valente disse:

    Meu Nobre Amigo,
    Belas e sábias palavras!
    Vossa Excelência sabe que também sou um sertanejo, do Vale do São Mateus, irremediavelmente pessimista em relação ao futuro da humanidade…
    PS. Três parágrafos foram pouco no seu texto, eu fiquei querendo mais.
    Parabéns e muito obrigado!

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