Extensão rural: o elo que falta entre ambientalistas e produtores rurais

Alguém me perguntou recentemente quais seriam os principais problemas atuais da agricultura brasileira. São muitos problemas para se adotar este ou aquele mais premente. Mas como já disse e insisto em dizer, gosto de pensar por mim mesmo, sem dar muita atenção ao que os formadores de opinião-manipuladores de mente desejariam que eu, juntamente com a massa, pensasse.

O problema principal da agricultura no Brasil é a escandalosa e escandalosamente ignorada inexistência de uma política e um órgão nacional de assistência técnica e extensão rural. O visionário “estadista” Fernando Collor de Mello, com todos os Ls que a elitóide aprecia, teve a genial idéia de extinguir, durante seu grotesco mandato, a Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural, Embrater, transferindo para os Estados a responsabilidade pela manutenção das atividades de extensão.

Para se começar a ter uma idéia de a quantas anda o setor no país, tenho a informação de que os abnegados agrônomos da Emater em Minas Gerais, por exemplo, ganham mensalmente um salário em torno de R$ 1.200,00. Minas Gerais, que é dos estados mais ricos da federação. Seiscentos dólares mensais para um profissional de nível superior, para atender enormes áreas, uma gama ampla de culturas, para resolver problemas que vão do projeto de irrigação ao preparo de compotas. Muitas vezes sem o mínimo necessário, como o salário para abastecer o carro da empresa. Como exercício de imaginação, sugiro ao leitor tentar adivinhar quanto ganhará um extensionista no estado que Sua Excelência o ex-presidente Collor de Mello representa  no Senado da República. Nem sei se há um órgão de extensão rural em Alagoas.

E o que faz um extensionista? Idealmente, orienta os produtores quanto às técnicas e tecnologias mais apropriadas às práticas agropecuárias locais, tendo em vista a situação do produtor, a região etc. Deveria ser o intermediário entre o setor de pesquisa e os produtores rurais. Os ambientalistóides urbanos deveriam se preocupar mais com a ausência de assistência técnica eficiente no país, porque enquanto ela não existir, não há em minha opinião muita esperança de que a maioria dos agricultores adotem práticas produtivas menos nocivas ao ambiente e ao homem. Estas práticas devem ser ensinadas, mas onde estão os professores?

Imagine o leitor que alguem se lhe dirija agressivamente, um dia, reclamando que está fazendo tudo o que sempre fez de forma incorreta, mas se negue a lhe ensinar o certo. É exatamente isto o que se tem feito com o “malévolo” agricultor brasileiro. Há algum movimento ambientalista exigindo a recriação de uma empresa de assistência técnica rural de qualidade, com orçamento decente para que possa atrair técnicos qualificados para seu quadro? Creio que não.

O vazio da extensão rural é parcialmente ocupado por consultores privados, caros e limitados, e pelos técnicos de empresas de insumos agrícolas, compreensivelmente mais interessados em vender seus produtos e cumprir metas do que em educar os agricultores. Algumas ONGs, mas não todas, sofrendo da Síndrome do Colonizador Amargurado, estão mais interessadas, de forma politicamente correta, em valorizar os “saberes tradicionais”, uma forma moderna e eminentemente urbana de se reviver o mito romântico do bom selvagem, do que resolver o problema de se alimentar sete bilhões de ávidas bocas e mais ávidos corpos.

Uma velha parente minha, ao saber que eu estudava Agronomia, perguntou-me sarcasticamente se era necessário estudar por cinco anos para se saber plantar. Algum dos poucos que me leem poderá imaginar um profissional, no mundo de hoje, que possa prescindir de um preparo relativamente longo para exercer sua atividade de forma eficiente e correta? Os produtores rurais em geral serão preparados para exercer profissionalmente suas atividades? Serão educados para isto? Ao consciente ecologista de apartamento isto não parece importar. O que se deseja é que se produza comida barata e sem sem estragar o ambiente. Se o agricultor não faz isso, é porque é uma encarnação do mal. Educação, assistência técnica para este? Não, para o agricultor – cadeia e a antipatia eterna do ambientalista motorizado (em geral, com a barriga bem cheia, presumivelmente com comida, cara, produzida em comunidades tradicionais usando técnicas orgânicas, que não agride o ambiente nem chega à mesa dos pobres).

A extensão rural, que poderia sanar esta falha educacional, ainda que parcialmente, não existe, não é recompensada, não é mesmo reconhecida como ausente. Seu papel na resolução de boa parte dos problemas técnicos e ambientais da produção agropecuária brasileira deveria ser óbvio. Esta situação não deveria perdurar.

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Discussão - 27 comentários

  1. Leonardus disse:

    Elton e Ítalo,
    É bom saber que a idéia da ONG é considerada por vocês. Como o Ítalo bem disse, divulgar boas idéias já é um ótimo começo, sendo que muitas vezes não temos como fazer nada além disso. A ONG seria uma ferramenta essencial, uma vez que ela serviria para agrupar todas essas pessoas e para criar diretrizes que permitiriam colocar algumas idéias em prática.
    Como exemplo temos aquele filme do peixinho Nemo, quando os peixes foram pegos pelas redes dos pescadores. Todos queriam sair de lá, mas se não tivessem nadado todos na mesma direção, eles não teriam conseguido!
    Portanto, precisamos juntar forças e dar uma direção a ela, para que possamos realmente realizar algo.
    Abraços…

  2. Leonardus,
    Obrigado pelas palavras elogiosas. Olhe, como alguns Geófagos bem sabem, há um tempo já considero a idéia da ONG, foi bom saber que um de nossos leitores, aliás também colaborador, acha a possibilidade uma idéia a ser explorada. Foi bom você ter tocado no assunto, acho que o assunto deve ser amadurecido.

  3. Elton Valente disse:

    Caríssimo Manuel,
    Pedindo licença aos outros Geófagos, e ao Ítalo em função dos objetivos do texto que nos traz aqui, quero falar do “fim da guerra”. Você me pegou com esse “fim da guerra’. Costumo dizer aos amigos, Os Geófagos sabem disso, que na pós-graduação fui resgatado do limbo e que estou apenas tentando “salvar alguns feridos”, pois o meu tempo de “salvar a todos” já se foi. That’s over!
    Estou aqui preparando umas fichas de identificação das plantas que coletei na Serra do Cipó, pois elas serão adicionadas à coleção do Herbário da UFV. Paralelamente, estou ouvindo, entre outras canções, a saudosa Nina Simone cantando “Here Comes The Sun”, do impagável George Harrison. Então, o seu “fim da guerra” me pegou.
    Você, em algum lugar aqui no geófagos, mencionou a “corrida de estafetas”. Acho que “no fim da guerra” deve ser assim, a gente deve pelo menos tentar passar o que trazemos de bom e de ruim (esse último como exemplo a não ser seguido) para o irmão ao lado.
    Faz uns vinte anos ou mais que estou escrevendo um livro – você pode achar graça disso, se quiser! É um livro meio autobiográfico, com apontamentos livres que coleciono, em verso, em prosa e o diabo a quatro. Acho que está chegando a hora de publicá-lo. Mas tenho plena consciência da quase completa irrelevância sócio-cultural do que está lá. Se alguém algum dia ler e gostar de alguma coisa, já terá valido a pena.
    A questão é que o mundo e a humanidade vão seguir exatamente o rumo que estão seguindo. Não sou vidente, mas vislumbro um futuro sombrio para a humanidade. Tenho falado sobre isso e insisto em falar porque, no final, ninguém poderá me acusar de ter pensado assim e ter ficado calado. Se não for nada disso, e no final a humanidade encontrar a Nova Jerusalém sobre as Ruínas da Grandiosa Babilônia, melhor assim, e eu retiro o que disse.
    Abraços fraternos, desse seu interlocutor que “já dobrou o Cabo da Boa Esperança”!

  4. manuel disse:

    Caro Elton
    Ainda é sobre Extensão Rural o que vou dizer. É um campo que permite um qualquer,como eu,dizer coisas. Mas antes,duas ou três palavras mais sobre os nossos,eu e o Elton,aparentes”desentimentos,desaguisados”.Para mim,a razão principal,senão única,é o eu estar no fim da “guerra”,e o Elton ainda ir no princípio dela.
    E posto isto, vamos lá à Extensão. São apenas duas historiazinhas que eu acho muito elucidativas.
    Andava eu,já há uns largos anos,lá em interior profundo,num certo trabalho,quando me cruzo com um médio agricultor. A certa altura,queixou-se ele de que nunca apareciam por lá a defendê-lo de uma carrada de inimigos, seca, água a mais,pragas,doenças,sementes fracas,mão de obra escassa e cara,intermediários que queriam tudo para eles,por isso tinha as tulhas ainda cheias,de anos atrás,preços de compra altíssimos,preços de venda baixíssimos,enfim,de arrasar,de
    afastar qualquer extensionista de coração fraco. Bem,isto foi há muitos anos,pode ser que as coisas estejam melhores. A outra história foi ainda há mais anos,também em interior profundo. O agricultor,aqui,era de outro nível,e era médico. Estava a decorrer,na altura,uma campanha de calagem.Vocês sempre andam muito atrasados. Eu preciso lá dos vossos ensinamentos. Eu até tenho um aparelho para medir o pH das terras.
    Pobres dos extensionistas daqueles tempos,era de ter muita pena deles,e de os aconselhar a tratarem depressa de outra vida.
    Bem,Elton,basta de o massacrar. Pedindo desculpa por tudo,mais um abraço de quem já está no fim da “guerra”.

  5. Elton Valente disse:

    Prezado Manuel,
    Não se penitencie, os termos “meio confuso” e “questões” foram apenas força de expressão. Credito isso às nossas (das duas nações) diferenças culturais (de sotaque, de uso das metáforas e etc.) que o “novo acordo ortográfico” está longe de resolver, e espero que nunca resolva, para o bem das diferentes e ricas culturas do idioma de Camões.
    Vejo que você entende muito dos meandros da extensão rural. Você já trabalhou com ela?
    Quanto à proposta do Leonardus, é um bom tema para se discutir. Mas não me vejo fazendo parte de nenhuma ONG. Estas entidades, mundo afora, perderam o que considero seu foco principal, a organização da sociedade em prol de questões comuns, agindo com responsabilidade e ética. Mas não é o que se vê por aí. No Brasil, principalmente, boa parte das ONGs em atividade virou “lavanderia” da corrupção e a maioria recebe dinheiro público. Organização NÃO-GOVERNAMENTAL que recebe dinheiro do governo, além de um “paradoxo” é um absurdo total!
    Quanto ao Geófagos. Ele é sim uma página de divulgação científica e opiniões! Mas é, sobretudo, livre e democrático. Realmente não é só com opiniões que se chega onde se deseja chegar. Mas para se ter um objetivo, um ponto de chegada, é preciso ter uma opinião clara a respeito desse lugar que se busca, ninguém deseja aquilo do qual não sabe ou com o qual não sonha. É justamente aí que, no meu entendimento, o Geófagos pretende fazer alguma coisa. Parece-me que falar de determinados assuntos, discutir determinadas questões, já é um bom começo. Principalmente aquelas questões importantes que não estão, ou nunca estiveram, ou já saíram de pauta na seara da educação, da ciência, da tecnologia, da ecologia, do bem-estar, da evolução humana… Se for possível fazer mais, tenha certeza de que Os Geófagos não vão se furtar à oportunidade.
    Saiba que suas opiniões e críticas são muito bem vindas!

  6. manuel disse:

    Caro Elton
    Desculpe,é que me esqueci de uma coisa que tenho andado para dizer. “O Geófagos é uma página de divulgação científica e opiniões”. Quer-me parecer que se tem abusado de opiniões. Não é só com opiniões que se pode ir lá,onde se quer ir,se,acaso se quer ir a algum lado.
    Era só isto,e ,mais uma vez,as minhas muitas desculpas pela confusão de que fui causador involuntário,pelo que, me penitencio mil vezes.

  7. manuel disse:

    Caro Elton
    Desculpe,Elton,mas eu não pus qualquer “questão”. O que estou a concluir é que errei redondamente. A sua vocação é mesmo a Extensão. Ainda bem que a encontrou.Coincidência ou não,acabei de me cruzar com o sumário de um “paper” em que se diz”It is widely accepted that environmental and poverty are linked and conservation and poverty reduction should be tackled toghether”.Daí, o seu interesse na recuperação das áreas degradadas.
    É claro que isto é uma acção de alcance geral,não como aquele “contacto porta a porta”em que eu estava a pensar,a “microeconomia”,e não a”macroeconomia” dos grandes espaços,sem ter em conta,directamente, o caso de cada um,que, ao fim e ao cabo, deve ser a preocupação maior. E eu não estava a ver o Elton a fazer o serviço do Doutor João Semana,visitando as capelinhas.
    Para mim,é isto a Extensão Rural,estar com cada um,lá na linha da frente,falando como ele,quase vivendo como ele,para ganhar a confiança dele,para lhe transmitir o saber de que ele precisa.
    E porque assim não é,eis a razão porque tanto se fala,tanto se tem falado em Extensão Rural,aqui,ali,por toda a parte,afinal,sobretudo onde ela é precisa,mas só falado.
    E já agora,se não se importa,aproveito para lembrar aqui a proposta do Leonardus,a de mais uma ONG.Mais uma. Sabe o que me fazem lembrar as ONG? As esmolinhas. Não,não é assim.È com enquadramento,é com organização,é com determinação,empenho,em se resolverem os problemas,não com boas vontades,com amadorismos,com protagonismos,com remendos.
    Bem,Elton,a Extensão espera por si,o empresário agrícola,sobretudo o pequenino, espera por si,mas ,para o entender bem,tem de usar a linguagem dele,tem de lhe dar confiança,tem de ser um deles. Se não for assim,ele é capaz de dizer que com esta gente não me entendo,não me governo.
    De resto,deve ser por isso que as Extensões por esse mundo fora têm estado quase sempre em crise.
    Um abraço,Elton,e muito boa saúde. E desculpe se o pus confuso. Longe de mim uma “maldade”dessas. Para confusões,já bastam as muitas minhas cofusões.

  8. Elton Valente disse:

    Leonardus,
    Minha opinião é de que sua proposta é pertinente, não é nenhum delírio. Mas precisamos refletir muito sobre ela. Pelo menos é uma excelente pauta para se discutir no “QG da Comunidade Geofágica”!

  9. Elton Valente disse:

    Manuel,
    Confesso que desta vez fiquei meio confuso, e já lhe peço humildes desculpas por minha ignorância.
    De qualquer forma, para dar prosseguimento ao seu comentário, tenho dito que a extensão rural me foi muito útil como experiência profissional. Aprendi muito, como você mesmo observou. Realizei alguns trabalhos, menos do que eu gostaria, mas, enfim, deixei algumas realizações. Minha saída da extensão foi meio que por “imposição” dos fatos. Eu tinha de escolher entre o emprego (que adquiri via concurso público) e a pós-graduação. Não tive dúvidas em ficar com a pós-graduação, por algumas razões: era um sonho antigo; havia muito tempo que eu estava fora da Academia e, para completar, a região onde eu trabalhava, o Médio Rio Doce, em Minas Gerais, apresenta elevados índices de degradação ambiental, principalmente do solo. Eu trabalhava ali, e isso me incomodava muito, pois meus conhecimentos em recuperação de áreas degradadas e em manejo e conservação do solo e da água eram aqueles da graduação. Portanto, eu me cobrei o retorno à Academia: enviei ao DPS/UFV um projeto de mestrado em recuperação de áreas degradadas, focando aquela região do Médio Rio Doce, que eu conhecia bem. O projeto foi aceito. O doutorado foi meio que inevitável, gostei muito do meu retorno à UFV e esta foi uma das razões que me fizeram entrar com uma proposta de doutorado, que também foi aceita. Aí não tive dúvidas. Deixei o emprego em função do doutorado.
    Mas isso não quer dizer que abandonei o extensão rural, muito pelo contrário, sinto-me mais preparado ainda para exercitá-la. Pretendo, de alguma forma, fazer isso com o tempo que ainda me resta, mirando-me no saudoso escritor, dramaturgo e novelista brasileiro Dias Gomes. Ele disse certa vez: “Há tanta coisa por fazer e tão pouco tempo que me resta…”
    Espero ter respondido, pelo menos em parte, suas “questões”, Prezado Manuel!

  10. manuel disse:

    Caro Elton
    E já,agora,Elton,uma vez que estou com a mão na massa,com a sua bagagem,para extensionista era “mal empregado”. Ganharia quem contactasse,é certo,ainda que o Elton também lucrasse com o outro,que teria “coisas para dar”. Mas seria uma pena,porque estaria a fazer mais falta noutro lado.
    Os desajustes Elton que por aí vão,só porque não há,não houve,o devido enquadramento. É um “calhas”,é um “talvez
    acerte”,quem sabe?,é um”salve-se quem puder”. Olhe,é o “diabinho que se farta de gozar”. E nós não lhe podemos dar o troco,porque não sabemos onde ele está. Tem artes o “diabinho”.
    Deixando-o,o “diabinho” a tramar alguma,ou mais,que ele tem artes,um abraço,Elton,e muita saúde,e que tudo lhe passe a correr como deseja.

  11. manuel disse:

    É ainda a Extensão Rural que me traz aqui,desta vez ,via Sibele. A Sibele vai-me perdoar se eu lhe disser que lhe estou muito grato pelas vezes que tenho ido ao dicionário. É que o léxico da Sibele é muito rico. Em que área profissional militará? Desculpe este querer “entrar-lhe em casa”,mas com o “bom do manuel” podia ficar descansada que ele não lhe roubava nada,o que,tenho a certeza,já a Sibele,com a sua argúcia,depreendeu.
    Voltando à Extensão Rural,estava tentado em dizer que para Extensionista a Sibele não serviria,pelo menos pela curta experiência que tive neste campo. Mas sabe-se lá do que a Sibele é capaz,como,aliás,todos nós,uns produtores de surpresas,inclusivamente,quem o Extensionista encontra pela frente. Assim,reconsiderando,a Sibele serviria muito bem,até melhor do que muitos que tivessem andado lá na Escola dos Extensionistas.
    Por tudo isto,creio que a Sibele me perdoará o eu estar para aqui com tais considerações,nesta espera de mais colocações,como vocês dizem.
    Contando com o perdão,desejo-lhe muito boa saúde.

  12. Leonardus Vergütz disse:

    Caros Ítalo, Elton, Sibele, Flávia, Manuel…
    Pra começar, achei o post sensacional. É um assunto que precisa ser debatido com urgência e a escrita do Ítalo, como sempre, muito boa!
    Sem mais delongas, vou direto ao assunto! Espero que nenhum dos autores do Geófagos fique bravo comigo! Mas vamos lá! Se o problema é a falta de organização, como vocês mesmos disseram nos comentários acima, tenho uma proposta. Que tal o Geófagos “evoluir” mais um pouco e, talvez, se tornar uma ONG? Com tantas “cabeças” boas reunidas e com vontade de que o nosso Brasil dê certo, coisa ruim não pode sair!
    Já imaginaram a “Organização Geófagos” entrando para história do nosso País por ajudar o Brasil a trilhar o caminho certo??? O que se iniciou como um simples blog poderia se tornar um exemplo a ser seguido por todos aqueles que também querem ajudar o país mas não sabem como!
    Bom, se estiver delirando muito, me desculpem!
    Abraços a todos…

  13. manuel disse:

    Caro Ítalo
    No que diz respeito à Extensão,que é aqui a “vedeta”,seja-me permitido lembrar o que está na mente de todos,e que é o receptor,o empresário agrícola,qualquer que ele seja,ser ele a “exigi-la”,porque precisa dela,sabendo porquê. Mais ainda,devia dar ele também pistas. É claro que todos sabemos o que isto supõe,nada mais nada menos do que a instruçãozinha,essa coisa sem a qual não se vai a parte alguma de jeito.
    Desculpe,Ítalo,foi só para lembrar. Um abraço,e cá continuamos à espera de mais.´

  14. Sibele disse:

    Ítalo,
    Muito me agrada o posicionamento de vcs aqui neste espaço. Embora imersos em um conjunto de blogs dedicados à ciência, creio ser imprescindível esta relação dialógica entre ciência e a vida real que vcs apontam e põem a nu, descontruindo a torre de marfim que muitos insistem em manter erigida, alheios ao entorno, infelizmente cada vez mais caótico e complexo, e que não pode mais, mesmo que quiséssemos, ser silenciado.

  15. Caríssimos,
    Obrigado pela leitura e pelos comentários. Achei que esse era um assunto que não podia mais continuar silenciado, dada a importância do mesmo em termos da profissionalização e sustentabilidade da agricultura no Brasil. Alguns me perguntam o que se pode fazer palpavelmente. Bem, não havendo nenhum leitor que seja um político atuante em alguma das casas legislativas ou que tenha contato e influência sobre algum, sugiro que no mínimo façam o que eu mesmo fiz, por estar a meu alcance: escrevam, falem sobre o assunto, divulguem a escandalosa inexistência de uma extensão agrícola eficiente e abrangente no país e a importância de que ela existe, seu papel de elo insubstituível entre a pesquisa científica e os produtores e seu potencial papel na adoção de práticas sustentáveis na agricultura. Spread the word, divulguem a palavra. Um problema ignorado dificilmente será um problema resolvido.

  16. Sibele disse:

    Rsrs… é mesmo, Elton! Que ambiguidade!
    E vcs aqui no Geógafos são uns verdadeiros gentlemen… mas não precisa de tanto formalismo comigo! Elton e Manuel, não se desculpem! Entendo esse espaço como uma ágora aberta onde podemos debater, aprender e exercitar nossa capacidade de argumentação.

  17. manuel disse:

    Desculpe a Sibele o elogio qua vai sair daqui,mas tenho de o fazer,pois merece. Já vinha pressentindo,desde o início das suas intervenções,que a Sibele,apsar de nova,julgo eu,tem um grande pendor para o equilíbrio,para o meio,onde está a virtude. Reage como já tivesse visto muito. Não sei se isso é bom,ou mau,mas parece-me ser o mais sensato,o mais maduro. Nada de radicalismos que nada resolvem,como deve ser resolvido,no maior consenso.
    Porque uma coisa é certa: somos todos da mesma massa. “Quem é que não defende com unhas e dentes os seus interesses”? Só os fracos,só os que desistem da luta,que a vida foi,que a vida é,que a vida será. Já citei,aqui, mais de uma vez, Eça de Queirós,um dos grandes escritores da lingua portuguesa,com uma frase que não é dele, mas que ele usou- A história é uma velhota que se repete sem cessar. É uma tristeza,mas é assim. A história está aí a dizê-lo.
    E pronto. Os meus parabéns por “jogar” ao meio,não nas pontas,para onde se tende,não sei eu porquê. Tavez,para ser diferente,para ser o “primeiro”,e não o “segundo”,que é já um horror,de não se dormir descansado.
    Desculpe o “discurso”,Sibele. Mas foi uma tentativa “desesperada” para equilibrar o seu.

  18. Elton Valente disse:

    Sibele,
    Não resistindo à tentação da brincadeira, quero dizer que “demo” agora é uma expressão ambígua, pois pode se referir ao próprio “dito cujo”, o “coisa ruim”, quanto ao DEM do Democratas (PFL), carinhosamente chamado de DEMO. Neste sentido, o agronegócio é sim coisa do demo!
    Perdoe-me a ousadia!

  19. Sibele disse:

    Elton,
    também não acho o agronegócio coisa do demo, que só mereça vade retro. Reconheço sua importância para o crescimento econômico. Apenas indiquei esta notícia justamente para apontar o desequilíbrio existente – o agronegócio, voltado para a exportação, é mil vezes mais prioritário, inclusive para ser socorrido pelo generoso governo, quando em dificuldades, do que a agricultura para o consumo interno, que o comentário do Euclides bem mostrou… comentário este que chamei de lúcido, apenas, mas que tem lá seu ranço radical (o que ele chamou de “grandes grupos neocolonialistas, de origem sionista anglo-norteamericana”. Ai!).
    Mas um ponto nevrálgico nesta questão, que vc revelou, é a falta de participação efetiva da sociedade organizada em questões como essa discutida aqui, e em muitas outras. O MST é organizado. Os lobbies são organizados. A bancada ruralista é organizada. E defendem com unhas e dentes seus interesses – no mais das vezes, levando a melhor.
    Enfim…

  20. Caro Ítalo,
    eu complementaria com “extensão rural: o elo que falta entre a pesquisa científica e os produtores rurais”.
    Este segundo vácuo também é consequência do enfraquecimento do serviço de extensão rural brasileiro.
    Parabéns por trazer o assunto!
    … Espero que seja a volta do boêmio! rs…
    Abraço.

  21. Elton Valente disse:

    Estava aguardando mais algumas manifestações aqui para me pronunciar. Sinto que tenho a obrigação de emitir minha opinião nesta seara, porque, afinal, sou um Geófago que trabalhou com extensão rural – abrindo um parênteses: o meu trabalho nesta área, embora imerso em dificuldades de ordem logística, bem como de apoio e reconhecimento, foi gratificante do ponto de vista da experiência profissional. Nesse aspecto, ganhei muito com o exercício desta atividade. Mas o salário, ó!
    Acho que nem é necessário discutir os benefícios de ordem social, econômica e ambiental que a extensão, bem executada, pode trazer para a sociedade como um todo e, principalmente, para os pequenos e médios produtores rurais. Até porque não é esta a questão aqui. Mas aproveitando a oportunidade, quero afirmar, categoricamente, que para um pequeno sitiante, hipotético, que receba um salário mínimo mensal por suas atividades, é possível dobrar, ou até triplicar seus vencimentos, utilizando para isso tecnologias simples em uma área de dois ou três hectares. Quem duvidar (como um professor da UFV já o fez, em meu Seminário A do mestrado) pode me propor um desafio! Digo isso porque se você dobrar o salário de um brasileiro que receba um salário mínimo mensal, você vai promover uma mudança muito positiva na vida dele. É pouco? É pouco! Mas enquanto ninguém faz nada, ele e a família dele continuam vivendo com um salário mínimo. Estamos falando aqui de uma parcela enorme da população brasileira!
    Indo agora à questão, muito apropriada, diga-se, colocada pelo Glenn e pela Sibele.
    Não sou um crítico ferrenho do agronegócio. Resguardadas as questões ambientais, principalmente de manejo e conservação do solo e da água, que quaisquer atividades humanas implicam, sinceramente acho que o agronegócio tem grande importância econômica para o país. Mas o fato é que o agronegócio não é o responsável pela produção da maioria esmagadora dos produtos da cesta básica brasileira. Esta tarefa é executada por médios e pequenos produtores rurais. Daí a necessidade urgente, e gritante, de uma extensão rural efetiva e contínua, com profissionais bem preparados e recompensados de forma justa.
    Para complicar, há outras urgências, negligenciadas pela administração pública brasileira, e que têm mais espaço e visibilidade na mídia, como educação, saúde, segurança e infra-estrutura. Daí, a extensão rural, embora urgente e necessária, vai para o fim da fila.
    Enquanto isso, ONGs de fachada e entidades fora-da-lei e paraterroristas como o MST e suas facções ganham apoio governamental e financiamento público, por questões ideológias, mas, devemos admitir, também porque são organizadas. Alguém já disse que o maior problema social brasileiro é que, no Brasil, “o crime é organizado, mas a sociedade civil não”.
    Penso que qualquer mudança que se pretenda promover na administração pública, para ter efeito, precisa surgir de grupos organizados. Caso contrário, estaremos “diluídos” por aí, falando sozinhos, ou pregando aos peixes e às pedras do deserto, feito Padre Vieira e João Batista!

  22. Sibele disse:

    De pitacos me abstenho, mas seguem alguns aportes pour aller plus loin nesta relevante discussão introduzida por esse post-libelo ítalogeofagiano:
    – A edição de domingo último (14/6) da Folha de S.Paulo trouxe a seguinte matéria de capa:

    Agronegócio lidera pedidos de concordata

    Empresas ligadas ao agronegócio, como frigoríficos, usinas de álcool e produtores agrícolas, lideram a lista das companhias que apelam à recuperação judicial. De janeiro a maio, 300 empresas entraram com pedidos de recuperação, mecanismo que substituiu a concordata. Esse total é o triplo do registrado em 2008. O agronegócio, que depende de vendas aos países mais afetados pela crise, responde sozinho por mais da metade do faturamento dessas 300 companhias. [grifos meus].

    Mais aqui.
    – O lúcido comentário do leitor Euclides de Oliveira Pinto Neto, no post da Flávia sobre Agricultura Urbana, parte I [mais emoções nas partes II, III… para breve].
    E extensão rural, cadê?

  23. Sibele disse:

    Ítalo, vou plagiar o nosso bom amigo Manuel: que prazer vê-lo de volta! E com disposição para debater o resgate de um elo perdido!
    Citadina de apartamento que sou, meus palpites não serão de muita valia neste debate, mas como o Glenn, pergunto: o que pode ser feito? Quais as alternativas?

  24. João Carlos disse:

    Ítalo, além de você estar coberto de razão, o mais desanimador é constatar que Monteiro Lobato já alertava para isso no início do século passado.
    A enorme maioria das pessoas não se dá conta de que o grosso da produção agrícola não vem de informatizados “agro-negócios”, mas do chamado “pequeno produtor”. Mas os “mujiques” não são populares nem com a direita, nem com a esquerda…
    Enquanto os “sem-terra” profissionais ganham as manchetes por seus arreganhos invasivos, o fazendeiro – muitas vezes menos letrado que seus peões – só é lembrado nos tempos em que determinado produto some das prateleiras dos mercados – e sempre como vilão.
    E ainda estranham que a bancada “ruralista” no Congresso seja composta por “coronéis”…

  25. manuel disse:

    Caro Ítalo
    É um prazer tê-lo,aqui,de novo,com esse ar de “querer arrumar a casa”. Digo-lhe já que não o posso ajudar,pois nem sei “arrumar o meu cubículo”.
    Posto isto,vamos lá ver se eu consigo alinhavar alguma coisa que o seu denso texto me suscitou.
    Todo o agrónomo sabe,ou devia saber,que cada caso é um caso,e que casos,casos muito diferentes,é o que não faltam à sua volta. São muitos os solos,são muitas as culturas,são muitos os cuidados a ter com uns e com outras,são muitos os quadros económicos que ele tem pela frente. Quer dizer,o objecto,a circunstância que o agrónomo enfrenta é vário.
    Em tempos,convivi,e algumas vezes pronunciei,com uma expressão que tudo dizia da particular circunstância do momento -“cada cavadela,sua minhoca”. È assim a realidade em muitos pontos,e nesse “Brasil Imenso”,os pontos não têm conta,são aos milhões.
    É claro que o bom senso ajuda muito,mas muitas vezes acaba-se por arranjar um chapéu que não cabe em nenhuma cabeça.
    E assim,para se poder chegar mais próximo da realidade,só a experiência local,mas uma experiência com regras,com uma investigação com regras. E então,sim,vem a extensão,para que não se extenda de qualquer maneira,inclusivamente,que não se extenda o que o vendedor quer,coitado,ou não,que ele precisa de viver,e quanto melhor,melhor para ele,e para a família dele,os outros que tratem da sua.
    Desculpe,Ítalo, por tanto me extender,sem ter dito nada de jeito.Paciência,para outra vez pode sair melhor,quem sabe?
    Mais uma vez expresso o meu muito gosto por o ver de volta,cheio de vontade de arrumar o mundo. Sabe melhor do que eu,o que o Brasil representa para o mundo. O B do BRIC é do Brasil.

  26. Elton Valente disse:

    Ítalo Rocha!
    Faço de suas palavras um desabafo do extensionista que fui (na prática) e ainda sou (no perfil de engenheiro agrônomo). Vivi estes e muitos outros problemas durante o exercício da profissão, o quadro é absolutamente desalentador. Quando resolvi fazer uma pós-graduação, tive que me demitir do emprego. Os ambientalóides nada sabem, ou não querem saber, desta realidade no Brasil. A maioria dos estados da federação não têm mais o serviço público de extensão rural. É como você observou muito bem, esta função é ocupada hoje pelos vendedores de “adubos” e “venenos agrícolas”.

  27. glenn disse:

    lendo isso tudo me pergunto o que está ao alcance do cidadão comum para que isso mude? acredito que este é um aspecto importante neste país, onde a educação é tão desvalorizada e até mesmo ridicularizada.
    os políticos, como sempre, acham que este país é o grande feudo deles… e muitas pessoas, eu incluso, só sabem reclamar, sem saber por onde começar.
    te pergunto, o que pode ser feito para esta situação não perdurar?

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