O Desafio das Idéias e a Ordem Estabelecida: Um Ensaio

É um grande desafio ter idéias próprias, livres – como diz nosso Amigo Ítalo, usando as palavras de Riobaldo: pensar forro! – É complicado pensar forro.
Não vou considerar como “complicador” o fato de que duas ou mais pessoas possam ter, separadamente, as mesmas idéias – chamo a isso de pressão do conhecimento – pois a cada nova descoberta, um conhecimento vai pressionando o outro e as novas idéias surgem, pipocam, quase que ao mesmo tempo, em pessoas diferentes, em lugares diferentes. Foi mais ou menos assim com Darwin e Alfred Wallace; Mendeleiev e Lothar Meyer; Oparin e Haldane; e muitos outros.
Nesta relação de desafios, não vou considerar também o fato que algumas pessoas possuem uma facilidade, uma capacidade inata de raciocínio, de conclusões lógicas dentro de seu universo de conhecimento. Conheço algumas pessoas assim, que não frequentaram a escola formal, mas possuem uma capacidade de raciocínio lógico, contextualização e síntese acima da média geral.
E é bom lembrar ainda que, além dos desafios, quem se propõe a raciocinar, às vezes pode esbarrar no ridículo e chegar a conclusões medíocres. O que é comum e natural, pois isso faz parte do processo, vem com o pacote. O anedotário da ciência e tecnologia está cheio de frases e posturas equivocadas e famosas de alguns gênios destas áreas. Mas esses pequenos equívocos em nada desabonam seus autores.
Os grandes desafios de ter idéias próprias, aos quais quero me referir, são outros. O primeiro deles são os estudos. É preciso exercitar o cérebro para que ele possa funcionar com desenvoltura. O estudo, além de exercitá-lo, fornece um arsenal de informações que são, no fim das contas, a matéria prima de onde surgem as idéias. Estudar demanda disciplina, tempo e descaso com as vaidades humanas. Daí o grande desafio para a maioria das pessoas que não nasceram gênios. O mundo das vaidades é uma tentação quase irresistível, como argumenta, e se justifica para a esposa, um veterinário amigo meu em relação às suas vaidades: “fui pressionado pela mídia!”
O outro desafio, talvez o maior deles, é que as novas idéias podem esbarrar na ordem estabelecida, ir de encontro, bater de frente com o “sistema”, bater de frente com os dogmas e desafiar o senso comum. E isso já rendeu processos, execrações públicas e mortes na Fogueira do Santo Ofício. Para ficar nos exemplos mais famosos, foi assim com Giordano Bruno, Joana D’Arc, Galileu Galilei e Darwin que, se este não enfrentou A Fogueira, suas idéias enfrentaram e ainda enfrentam o Tribunal do Santo Ofício.
O processo de pensar forro é um grande desafio. É mais fácil seguir o rebanho, não importa para onde ele vá. E assim, vejo o mundo caminhando irremediavelmente na direção do que previu o “visionário” George Orwell, no romance 1984, com o seu Big Brother. Sim! É daí que nasceu o Big Brother da holandesa Endemol.
Vejo meus colegas quase desesperados correndo em busca de “publicações e papers“, sendo pressionados por seus orientadores, pelos departamentos, pelas agências de fomento, pelos concursos públicos, pelo “sistema”. Ninguém quer saber de qualidade, nem de maturidade profissional. O que importa é o número. E quanto mais rápido, melhor! Vejo pouca gente criticando esse processo. E essa pouca gente, até onde sei, resume-se ao Geófagos.
A falta de bom senso é tanta que, recentemente, participei de um concurso público para docente de uma universidade federal em que a prova escrita tinha peso 4. A pessoa que passou no concurso não ficou entre os primeiros colocados na prova didática. Não estou querendo dizer que um bom professor não necessite saber escrever bem, ao contrário, mas não estamos selecionando alguém para a Academia de Letras, e sim para professor. Então, se era preciso atribuir peso, deveria ser para a prova didática. É o que me parece óbvio. Fui o segundo colocado na prova didática, mas quando ponderaram a nota do currículo, fui DESCLASSIFICADO. Eu não tinha um “currículo bom” na avaliação deles. Classificaram três pessoas e meu nome nem apareceu na lista. Meus 12 anos de efetivo serviço de docência e extensão rural não serviram para nada, pois são anteriores a cinco anos, a data limite que estabeleceram. Não estou querendo dizer que eu deveria ter sido classificado apenas porque tirei boa nota na prova didática, mas sim que a coisa fosse feita com coerência, razão e bom senso.
Acabei de assistir a um filme chamado Austrália. Falaram muito mal desse filme, por razões de clichês e outras filigranas. É um filme mediano na minha avaliação, mas traz nos diálogos uma frase memorável e forte: “não é porque é assim, que deveria ser assim!” Vejo o mundo caminhando na direção oposta desta consciência. Não vejo nada de bom nisso. Mas posso, talvez, estar equivocado!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Discussão - 7 comentários

  1. Elton Valente disse:

    Prezada Flávia,
    Inicialmente, muito obrigado por sua atenção.
    Tenho alguma experiência profissional acumulada, não é muito, mas vale alguma coisa. Fui funcionário público em duas situações, extensionista e professor. Enfrentei algumas questões onde nossos princípios eram pressionados e nunca deixei de me posicionar e emitir minha opinião. É como disse o seu amigo, o que interessa é aquilo que defendemos, se o fazemos em defesa da razão, do bom senso e da ética.
    No meu exercício de extensão rural, eu vivenciei estas coisas quase que diariamente. Em um dia você briga com o sistema e se aborrece; no outro você fica gratificado porque pode ajudar alguém com o seu trabalho, que seja uma pessoa individualmente (e foram tantas) ou uma comunidade, ou mesmo a administração pública de um município. Mas é como já manifestamos, sem passar por cima de nossos princípios.
    Forte abraço!

  2. Elton Valente disse:

    Prezado Alexandre,
    Muito obrigado pelas considerações. Fico feliz em saber que meu texto lhe serviu. E assim vamos nos ajudando mutuamente. Enquanto podemos fazer alguma coisa, vale pelo menos protestar contra a hipocrisia e a falta de razão e bom senso.
    Forte abraço.

  3. Caro Elton,
    “a ordem estabelecida” sempre foi a mediana. Ao meu ver isso não é de hoje. No entanto, hoje a competitição entre as pessoas chegou ao seu ponto de máximo. A produtividade industrial foi transferida para a ciência! Não é tarefa fácil conviver num meio onde você vai contra uma maré de pensamentos estabelecidos sem crítica, e o que é pior, sem profundidade. Passei por uma “crise profissional” que culminou há umas duas semanas e que parece ter ido embora justamente quando um amigo, que está se aposentando, conversava comigo. Eu desabafava, quase chorando (confesso sem vergonha nenhuma), meu desânimo em relação a algumas coisas, entre elas a incongruência entre o que EU considero digno de importância e o que o MEIO considera digno de importância – eu disse ao meu amigo que estava questionando se “valia a pena continuar “pelejando”” e ele me disse “o que interessa é que valha a pena pra você”. É óbvio que dentro de mim eu já sabia disso, mas foi necessário que alguém me servisse de espelho. Finalizo dizendo que dias de crise desse tipo me pegam de vez em quando, mas são em menor número do que os dias em que volto para casa feliz porque corrigi o resumo escrito por um estagiário e ensinei a ele como escrever melhor ou porque conversei com um produtor sobre a importância da análise química do solo, ou porque tive uma conversa profícua com um colega sobre o trabalho ou a vida! É preciso pensar por si mesmo, é preciso sentir por si mesmo, abrir os olhos e os ouvidos, fazer o que se acredita que deve se feito e dormir com a cabeça leve sobre o travesseiro. Creio que não há vilões nem vítimas no final das contas e que cada qual tem que saber de si e se responsabilizar por seus pensamentos e pelas ações resultantes desses pensamentos. Paralelamente, quem tem mais discernimento acaba dando o bom exemplo com suas atitudes e isso nada apaga. Um grande e fraterno abraço!

  4. Alexandre disse:

    Prezado Elton
    Gostaria de parabenizá-lo pelo texto. Suas colocações são bastante pertinentes e atuais e conseguiram de forma simples e leve expor aquilo que “novos” e “principiantes”, porém, não menos experientes e capacitados profissionais estão enfrentando.
    Passamos por uma grande crise de identidade de valores no meio científico, algo como “distorção da Ciência para acesso aos medíocres”.
    Encontrei amparo em suas palavras, principalmente quando se referiu ao fato de que o isolamento geográfico não impede o avanço das idéias e do conhecimento.
    Estou a procura de uma ordem, de uma razão e de uma forma para se posicionar frente as questões por você mencionadas.
    Haveremos de encontrá-las…pressionadas pelo conhecimento ou como você mesmo mencionou:
    “Vamos tentar chegar ao fim dessa “passarela” e poder dizer que não nos rendemos ao sistema, nem passamos por cima de nossos princípios.
    Forte abraço
    Alexandre

  5. Alexandre disse:

    Prezado Elton
    Gostaria de parabenizá-lo pelo texto. Suas colocações são bastante pertinentes e atuais e conseguiram de forma simples e leve expor aquilo que “novos” e “principiantes”, porém, não menos experientes e capacitados profissionais, empregados ou não estão enfrentando.
    Passamos por uma grande crise de identidade de valores no meio científico, algo como “distorção da Ciência para acesso aos medíocres”.
    Encontrei amparo em suas palavras, principalmente quando se referiu ao fato de que o isolamento geográfico não impede o avanço das idéias e do conhecimento.
    Estou a procura de uma ordem, de uma razão e de uma forma para se posicionar frente as questões por você mencionadas.
    Haveremos de encontrá-las…pressionadas pelo conhecimento ou como você mesmo mencionou:
    “Vamos tentar chegar ao fim dessa “passarela” e poder dizer que não nos rendemos ao sistema, nem passamos por cima de nossos princípios.
    Forte abraço
    Alexandre

  6. Elton Valente disse:

    Prezado Manuel,
    Tenho apenas um pouco de conhecimento adquirido ao longo desses anos, não considero isso “saber demais”. De qualquer forma, agradeço sua gentileza – é um grande elogio.
    Quanto ao texto, digamos assim, ele me veio à cabeça e resolvi postá-lo mais ou menos da forma que veio. Eu já estava “ruminando” essas coisas, assisti ao filme “Austrália” e aquela frase foi a gota d’água.
    Enfim, estou insistindo, como você me recomenda, mais tenho insistido do meu jeito. Não quero fazer parte dessa “paranóia coletiva”. Como disse John Lennon, “não sou o único”. Vamos tentar chegar ao fim dessa “passarela” e poder dizer que não nos rendemos ao sistema, nem passamos por cima de nossos princípios. É isso!
    Mais uma vez, muito obrigado por sua gentileza e consideração!
    Abraços fraternos!

  7. manuel disse:

    Caro Elton
    Fiquei perplexo com a leitura do seu texto,que considero bem escrito.Além da forma,que não será o mais importante,e que se vem repetindo noutros textos,há o conteúdo,que também não desmerece,e,que,do mesmo modo,é recorrente em si.
    Terá tido o azar de ter “génios” como concorrentes?
    Depois,a didática. Mas para professor,quer me parecer ser precisamente a didática a qualidade mais importante.
    Olhe,Elton,não sei o que dizer mais. Talvez dizer que o seu “mal” é saber demais. Não seria caso único. O mundo estará cheio de casos assim.
    Como proceder? O Elton saberá melhor do que ninguém. Mas do que me tenho apercebido,irá insistir,sem quebrar,mesmo doendo. Terá muitos companheiros nessa luta,a luta pela vida,uma marca da vida,esteja ela onde estiver,que o Darwin
    se limitou a consagrar.
    Um abraço,e insista,insista..

Envie seu comentário

Seu e-mail não será divulgado. (*) Campos obrigatórios.

Categorias

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Política de Privacidade | Termos e Condições | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


Páginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM