Bananas, batatas fritas e agrotóxicos

A produção agrícola é muito mais complexa do que imaginam os consumidores finais, com razão preocupados em obter alimentos livres de resíduos de agrotóxicos e outras impurezas que comprometem a qualidade e segurança dos alimentos. Darei alguns exemplos desta complexidade e tentarei deixar claro como as próprias preferências dos consumidores levam muitas vezes ao uso excessivo de agrotóxicos pelos agricultores.
Vejamos o caso da banana. A principal doença dessa espécie deve ser o Mal de Sigatoka, ou Sigatoka Amarela, causada pelo fungo Mycosphaerella musicola, forma perfeita ou sexuada do Pseudocercospora musae. Uma forma interessante de se controlar a doença sem a utilização de agrotóxicos seria o plantio de variedades resistentes à doença. Mas a solução não é tão simples. Não basta ao produtor decidir plantar uma variedade resistente, sem outras considerações. É necessário ter alguma garantia de que os frutos produzidos serão comprados. “Isto é fácil”, dirá o consumidor ingênuo, “é só ele dizer que não usou agrotóxico”. Não é assim tão simples.
Para a comercialização de qualquer produto agrícola, deve haver uma aceitação comercial da variedade escolhida, mas o consumidor é em geral conservador e “exigente” e não há garantia de que a aparência ou o sabor de uma nova variedade, por resistente e “ecologicamente correta que seja, agradará a proverbial dona de casa. Já deve ser lugar comum a recomendação de que se dê preferência por hortaliças e frutos com lesões causadas por insetos porque provavelmente receberam menos agrotóxicos. As donas de casa, no entanto, preferam frutos de aparência impecável, mesmo que essa aparência tenha sido conseguida à custa de doses enormes de produtos biocidas. A ditadura da aparência é um grande problema.
A batatinha comum, certamente a hortaliça mais consumida mundialmente, sofre no Brasil de uma doença chamada sarna comum, causada por bactérias do gênero Streptomyces, que não apresenta risco algum à saúde humana. Os sintomas mais comuns da sarna são lesões superficiais na casca da batatinha. Interessantemente, esta doença não afeta nem a produtividade nem a qualidade da batata – afeta sua aparência apenas. Por afetar a aparência, no entanto, sua aceitação comercial é grandemente reduzida e sua presença significa prejuízo sério para o produtor. A utilização de variedades resistentes, neste caso, é problemática pela escassez de variedades altamente resistentes e pela inexistência de variedades imunes. Claro, há práticas de manejo integrado que podem minimizar a incidência da doença, como o controle biológico, o manejo adequado da irrigação… Mas o que quero dizer é que uma situação difícil é criada por causa da ditadura da boa aparência.
Este conservadorismo em relação à aparência pode trazer prejuízos também em termos de variedade de escolha para o consumidor. Um grande problema enfrentado por cozinheiros é a produção de batatas fritas. Ao contrário do que propala o conhecimento comum, não é uma técnica específica que permite a confecção de batatas fritas sequinhas, sem encharcamento por óleo, como se vê em grandes redes de fast-food. Na verdade, há variedades específicas para a confecção de batatas fritas, com teor de água e de sólidos solúveis adequados à fritura e que naturalmente impedem o encharcamento. Um exemplo é a variedade holandesa Atlantic. Sei de pelo menos uma tentativa de se introduzir esta variedade no mercado paulista – tentativa falhada porque a cor da casca desta variedade não agradou o consumidor. De São Paulo para cima, as variedades de batata de casca rosada, adequadas para se fritar, como a Atlantic e a BRS Ana, não são bem aceitas pelos consumidores. Não há nenhuma outra razão para a não aceitação que não uma antipatia estética. Absurdo mas verdadeiro.
O consumidor, como já disse, está certo em exigir alimentos de qualidade. Mas exigir apenas, sem que se ofereça uma contrapartida mínima é cômodo e errado. É necessário buscar-se informações sobre o que realmente significa qualidade para que não se criem padrões absurdos de consumo baseados em pressupostos falsos, como o de que aparência significa invariavelmente qualidade. Parece-me claro que o consumidor tem, em muitos casos, um considerável grau de culpa pela utilização excessiva de agrotóxicos em frutos e hortaliças e pela menor variedade nos alimentos consumidos.

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Discussão - 6 comentários

  1. Rafael [RNAm] disse:

    Valeu Ítalo, isso é uma coisa q sempre esteve na minha cabeça e nunca pensei em escrever.
    E sobre frutas fora de época? Este é um tema interessante, não?
    Como se consegue frutas sazonais por todo ano; a exigencia de constância da industria; a falta de noção do consumidor de qual fruta é realmente da época; coisas desse tipo.
    Abraço

  2. manuel disse:

    Caro Ítalo
    Ainda há bocadinho bati,e entrei. É que o Sempre Aflito não me saiu bem. Pior ainda,não me despedi. Talvez componha o ramalhete com a página seguinte.
    CLORETO DE SÓDIO
    Chegavam as carroças com as dornas atulhadas de cachos de uvas e encostavam-se às janelas. Era por elas que se fazia a transferência,com forquilhas,para os lagares. Atingido um certo nível,uma meia dúzia de homens,de pernas ao léu,encarregavam-se do esmagamento com os pés.
    Não consta que tivessem cartões de sanidade,nem que tomassem banho previamente. Ali ficavam até darem a tarefa por concluída. Havia,é claro,os intervalos para as refeições e para as necessidades. Sempre que entravam ou saíam do lagar,mergulhavam,sem grandes demoras,os pés numa celha com água.
    Não consta,também,que alguém,alguma vez,se tivesse preocupado com o chão que pisavam,nas idas e vindas,eles ou quem os contratava. Tudo aquilo era natural,como naturais eram as uvas e as moscas que por ali andavam na sua vida.
    Não consta,igualmente,que alguém,alguma vez,se tivesse preocupado com aquela fracção de cloreto de sódio que apareceria no vinho,mas que não viera dos cachos. Tudo aquilo era natural,como naturais eram as leveduras que enxameavam o ar e que os cachos já trariam,e que iriam converter,a sua vocação,o açúcar em etanol e dióxido de carbono.
    O mosto borbulhava,o mosto exalava. Tudo aquilo era naturalmente natural.
    Com as minhas muitas desculpas,muito boa noite,muito boa saúde,e muito bom trabalho.
    PS. As coisas da historiazinha são de há quase um século,do tempo da “idade média”,escusado seria dizer.

  3. manuel disse:

    Muito boa noite,Ítalo
    Aproveitando este intervalo,e com a sua permissão,até nova ordem,aqui lhe deixo mais umas linhas do “caderno”. É que vem um bocadinho a propósito,pois entra uma banana.
    SEMPRE AFLITO
    Era altura de fazer uma paragem . Dali, via-se meio mundo, e um castanheiro dava boa sombra. Um pastorinho aproximou-se. Então,não tens medo de andar por aqui sozinho? Olha que em tempos havia por aqui lobos. Podem, também,querer levar-te uma ovelha, ou mais. Não senhor,ninguém nos faz mal. O cão não deixa. Eles que se atrevessem.
    Queres uma banana? Mas que coisa tão esquisita. Nunca viste?
    Não senhor. Toma que vais gostar. Comeu e gostou,pelo que levou mais. Tem cuidado contigo,que ainda és pequenino.
    Por ali devia haver muitos pombos,que casas para eles morarem não faltavam. Igrejinhas,de torres rectangulares,
    faziam-lhes companhia. Uma maior,muito arruinada,de tempos
    muito antigos,ficara lá para trás. O homem,sempre aflito,a
    solicitar amparo lá do alto,quando não vê outra saída. É o
    habitual apelar a Santa Bárbara só quando faz trovões.
    Os romanos tinham andado também por ali.Foram-se embora,pois
    chega sempre uma altura para isso,mas deixaram ricos testemunhos da sua passagem. E eram termas,e eram estradas,
    e eram minas. Muito sabia essa gente.
    Os romanos tinham andado também por ali. Foram-se embora,pois chega sempre uma altura para isso,mas deixaram ricos testemunhos da sua passagem. E são termas,e são estradas,e são minas. Muito sabia essa gente.
    Publicada por msg em 8:29

  4. manuel disse:

    Caro Ítalo
    Muito gosto em o ler. Para já,posso-lhe garantir que não é um gosto aparente. Veja lá como o Ítalo consegue,
    aparentemente,transformar uma coisa séria,numa coisa leve,de tal modo,que suscitou já dois leves comentários.
    Afinal,Ítalo,é o que se passa,e tem passado,na vida em geral. A realidade,Ítalo,é,sobretudo,a aparência. É o triunfo da aparência. É o parece mal a comandar. E,sem querer,como num hábito enraizado,uma segunda natureza,somos levados pela aparência. Coitados dos feios,mas sobretudo das feias,ainda que de coração bonito.
    De qualquer maneira,como o Ítalo frisou,e isso é que deve importar,variedades mais ou menos resistentes existem,estando,pelo que se lê,a tentar arranjar mais. Depois,será uma questão das gentes serem esclarecidas,gostando de o serem,procurando esclarecerem-se, exigindo serem esclarecidas.
    Muito boa saúde,e mais textos,mesmo aparentes.

  5. Claudia Chow disse:

    Em casa a gente come a batata de fritar de casca rosada!!
    Abaixo a ditatura da beleza!! Para as batatas, bananas e afins! 🙂

  6. Sibele disse:

    E eu que pensava que as mulheres eram as maiores vítimas da ditadura da boa aparência! Pobres batatinhas!

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