Solo pobre, mata exuberante, agricultura insustentável

Muitos já terão ouvido ou lido que os solos da região amazônica são quimicamente pobres. Certamente esta informação foi recebida com um certo ceticismo, afinal como uma vegetação tão exuberante quanto à da floresta amazônica pode se manter sobre um solo pouco fértil? Bem, apesar de estranho, a informação é verdadeira. Os solos se desenvolvem a partir da destruição (intemperismo) das rochas, que chamamos de material de origem. Este intemperismo é causado pela água (chuvas) que em geral são levemente ácidas devido à reação da água com o CO2 da atmosfera, formando ácido carbônico (H2O + CO2 = H2CO3).
O tal H2CO3 é o ácido carbônico, que ataca as rochas, decompondo-as. Além disso, os organismos (fungos, algas, líquens, raízes de plantas) também contribuem para o intemperismo porque também produzem ácidos. Mas de toda forma, o principal agente intemperizador das rochas e formador de solos é a água (o ditado “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” é verdadeiro e resume bem o intemperismo físico e químico pela água).
O solo é resultado não só da decomposição física (quebra em pedaços cada vez menores) da rocha, mas também da alteração química dos minerais que as compõem (formados a altas temperaturas e pressão, a partir do resfriamento do magma), com a formação de outros minerais, mais típicos do ambiente solo (minerais secundários) e em equilíbrio termodinâmico com as condições amenas da superfície terrestre. Mas o intemperismo não pára com a formação do solo.
Os solos também são intemperizados, principalmente em regiões onde chove muito, notadamente as regiões tropicais, como na Amazônia. À medida que o intemperismo do solo progride, há perda gradual de elementos químicos importantes para a nutrição vegetal, como cálcio, magnésio e potássio, em geral mais retidos mais fracamente pelos solos. Nas regiões de alta pluviosidade, a grande disponibilidade de água permite que haja muito crescimento vegetal. As plantas, mesmo as que crescem em solos pobres, conseguem adquirir nutrientes produzindo raízes profundas que exploram camadas subsuperficiais um pouco mais ricas em termos de elementos nutrientes.
Com o passar do tempo, os nutrientes vão sendo retidos na matéria orgânica. Quando as plantas morrem ou quando o material vegetal é depositado no solo, sua decomposição pelos microrganismos do solo permite a liberação dos nutrientes minerais e reabsorção por outras plantas – a isto se chama ciclagem de nutrientes. Assim, é possível a ocorrência de florestas exuberantes, como a Amazônica, sobrevivendo basicamente dos nutrientes retidos na matéria orgânica.
Quando há a derrubada ou queima destas florestas para implantação de pastagens ou culturas agrícolas, quase toda a matéria orgânica do solo é perdida, juntamente com os nutrientes nela retidos: eis aí a causa principal da dificuldade em se estabelecer agricultura produtiva nestas áreas e a importância da manutenção das florestas como formadoras de matéria orgânica e perpetuadoras da ciclagem biogeoquímica. No início da atividade agrícola, quando ainda há um resto da matéria orgânica original e os nutrientes mantidos nas cinzas do material vegetal, consegue-se produções consideráveis.
Os restos da matéria orgânica nativa são gradualmente decompostos pelas práticas agrícolas convencionais, que em geral não retornam quantidades adequadas de material orgânico ao solo, os produtos agrícolas exportam os escassos nutrientes e o agroecossistema se torna dependente de insumos externos ou simplesmente deixam de produzir economicamente.

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Discussão - 6 comentários

  1. Italo M. R. Guedes disse:

    Edinaide, sugiro que releia o texto para começar a entender. Basicamente o que acontece é a eficiente reciclagem dos nutrientes contidos na matéria orgânica do solo. O solo em si, apesar de pouco fértil, serve basicamente como um substrato para sustentação física da floresta, na maior parte dos casos. Tanto é assim que nos solos da região que não conseguem reter a matéria orgânica, como os Espodossolos (antigos Podzóis), a vegetação é bem mirrada, como as campinaranas.

  2. edinaide disse:

    os solos amazonicos sao pobres nutrientes assim como a floresta pode ter uma vegetaçao tao rica e abundante

  3. beatriz disse:

    ISSO E CHATO NE

  4. manuel disse:

    Caro Ítalo
    Uma sugestão,apenas,nada mais,a página adiante.
    PASSADO
    Ainda os ouvira cantar pelas ruas,à noitinha,depois do regresso dos trabalhos. Soltariam as mágoas ou esperariam,deste modo,recobrar forças para o dia seguinte.
    Ainda os vira sentados em bancos corridos,servindo-se de sopas de pão que fumegavam.
    Ainda envergou os seus pelicos,quando o frio o atormentava e a eles não,porque a enxada ou a picareta os aquecia.
    Ainda sentiu o cheiro forte dos seus sobretudos de lã,lembrando pão saído do forno,quando o jipe ia trancado por causa das intempéries.
    Ainda os viu, atrás de muares,de mão na rabiça do arado rasgando a terra,orientando-se por belgas,ou pela ciência de anos sem conta,ou pela torre de algum castelo ou igreja.
    Ainda passou por muitas varas de porcos,engordando à custa de bolota dos montados.
    Ainda se refrescou com pirolitos feitos com água da Serra de Ossa.
    Ainda comeu à luz de candieiros a petróleo,em vilas cabeças de concelho,e viu correr esgotos a céu aberto.
    Ainda assitiu ao fabrico de carvão de sobro e de azinho. As fábricas lembravam afloramentos rochosos,que se somavam aos muitos que por lá existem.
    Não tiveram conta os quilómetros que andara de jipe por caminhos de herdade e os palmilhados por chão plano e por encostas a subir e a descer,umas vezes cobertas de searas e outras à espera de que lá as pusessem.
    Já passou por alguns “montes” adquiridos com o dinheiro da venda de meia dúzia de metros quadrados urbanos.

  5. Muito obrigado, Manuel, fico feliz que tenha gostado do texto. Esta é, na verdade, uma “segunda edição”, revista e ampliada, de um texto publicado aqui mesmo no Geófagos há algum tempo.

  6. manuel disse:

    Caro Ítalo
    Quem diria,Ítalo, que uma “vegetação tão exuberante” não passe de uma vegetação com “pés de areia”. É o resultado,
    como bem apontou,do “água mole…”,que ,com umas fortes ajudas, vai mais depressa,e mais a fundo.
    E é o CO2 da atmosfera,que,ao nível do solo,tem ainda contribuições da sua própria respiração,em que domina a biótica,da família que apresentou. São os compostos vários,ácidos,complexantes,da decomposição do material orgânico,em que se incluem exudados radiculares.É a temperatura e a humidade a colaborar. Isto no que diz respeito à meteorização.
    Quanto à exuberância com “pés de areia”,o Ítalo também indicou os agentes. A mineralização da rica manta morta,facilitada pela temperatura e humidade,a busca pelas raízes,horizontal e verticalmente,de formas de troca e não de troca,e a contribuição biótica,sobretudo,fungos. O serviço que prestam aquelas hifas,multiplicando a acção das raízes na absorção dos nutrientes. Que bela relação a de fungos e raízes,um exemplo. “Toma lá,dá cá”.
    E pronto,Ítalo,parece que não faltou secundar o mais importante que o Ítalo apresentou. Só resta dizer que “estão avisados,depois não se queixem”.
    Um abraço´,Ítalo,e que “os deuses da floresta Amazónica a protejam”.

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