Sustentabilidade, adubos e bosta urbana

No filme Waterworld, com o ator americano Kevin Costner como protagonista, a maior parte das terras emersas desapareceu (possivelmente por descongelamento de geleiras polares em uma Terra mais quente) a ausência de terras agricultáveis força os humanos a reciclarem seus mortos visando a reutilização dos nutrientes neles armazenados. Embora não ache a idéia de modo algum absurda, não creio que precisemos de atitudes como esta tão cedo.
Penso, no entanto, que a humanidade se defrontará com desafios semelhantes em um futuro próximo e soluções inovadoras serão necessárias. Para produzir alimentos para uma população crescente e manter os preços destes alimentos em níveis acessíveis, tem sido necessário fazer agricultura em grande escala. Para se conseguir produzir grandes quantidades de alimentos de origem vegetal a preços razoavelmente acessíveis, uma tarefa na verdade difícil, os agricultores tem feito uso de métodos que homogeneizem ao máximo os campos agrícolas, tornando o ambiente físico e químico o mais apropriado possível para que as espécies cultivadas expressem todo ou quase todo potencial genético. Entre outras técnicas, a adubação usando-se fertilizantes químicos de alta solubilidade se tornou o método mais usual de se disponibilizar nutrientes em quantidades adequadas aos cultivos.
Os adubos, ou fertilizantes, garantem a nutrição mineral das plantas cultivadas e a necessidade de seu uso advém do fato de que os solos possuem um estoque finito de nutrientes minerais. Uma vez exauridos estes estoques, faz-se necessária a aplicação de fertilizantes concentrados para a manutenção da produção agrícola. Os nutrientes minerais são absorvidos pelas raízes e então distribuídos para as várias partes do corpo da planta. Quando se colhe uma cultura agrícola, embora alguma parte da vegetação possa permanecer no campo de cultivo, e o ideal é que permaneça, devolvendo ao solo parte dos nutrientes absorvidos, através da decomposição do material orgânico, uma fração considerável, e em alguns casos majoritária, é retirada da área de cultivo e os nutrientes nestes produtos são irreversivelmente “exportados”.
O fato de estes nutrientes exportados não serem recuperados para as terras produtoras é uma das causas maiores da necessidade do uso de fertilizantes. Mas qual o problema de se usar adubos? Alguém mais ou menos familiarizado com o assunto pensaria logo na poluição das águas subterrâneas e estaria certo. Este problema, porém, pode ser contornado ou resolvido pela adoção de práticas adequadas de manejo da adubação. O grande problema é que as fontes de adubo são finitas e estão escasseando rapidamente. O cloreto de potássio, por exemplo, maior fonte de adubos potássicos, vem de depósitos minerais de evaporitos em países como China e Rússia, embora também haja alguma coisa no Brasil. As principais fontes de rocha fosfatada estão no norte da África e já se exaurem. Mesmo a uréia, produzida a partir do nitrogênio atmosférico, depende do petróleo para sua fabricação.
Utilizando uma frase querida aos eco-catastrofistas, este modelo é claramente insustentável. E quais as soluções para isso? Apesar de ver grande potencial na utilização de práticas como a rotação de culturas, o uso de adubos verdes, a agricultura de precisão, as técnicas de produção integrada, o plantio direto, a agricultura orgânica, acho que as alternativas do tipo Waterworld podem vir a ter algum papel no futuro.
Adotando um tom ironicamente profético, acredito que chegará um tempo, e não está longe, em que serão necessários cálculos para se retornar os nutrientes exportados aos campos de cultivo, talvez na forma de fezes tratadas e desidratadas ou, melhor ainda, compostadas, com ou sem calcário, uso de biossólidos (lodos de esgoto urbano e industrial) e outras. Quase toda a cenoura produzida na pequena cidade mineira de Rio Paranaíba, por exemplo, é vendida em São Paulo ou na distante Fortaleza. Dentro das cenouras vão preciosos nutrientes que jamais verão os solos de Rio Paranaíba novamente. Isto não pode continuar desta forma, definitivamente, não há sustentabilidade neste modelo. Se os moradores das grandes cidades, preocupados com o meio ambiente, confortáveis em encontrar um bode expiatório para a degradação no mundo, querem contribuir para uma agricultura sustentável, que nos devolvam a bosta! É necessário começar a pensar, ousadamente.

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Discussão - 7 comentários

  1. Flávia Alcântara disse:

    É Ítalo, precisamos pensar… mais que nunca.
    O que vejo é muita gente “forçando” um pouco a “barra” para resultados positivos do uso de lodo de esgoto ou outros resíduos devido a interesses algumas vezes claros e outras nem tanto. O uso de lodo de esgoto ainda é restrito a algumas espécies, principalmente ornamentais. Mais uma vez é preciso Ciência com C para nos trazer alguma luz.
    Creio que temos inúmeras alternativas antes de chegar ao Waterworld e insisto que o principal é o uso consciente dos recursos de que dispomos, sejam eles convencionais ou alternativos. Será que precisamos mesmo de tanto adubo? Quem faz análise química de solo? E daqueles que a fazem, quantos a utilizam para calcular a adubação? Estamos entupindo nossos solos de K? (sobre este assunto, há algo aqui http://scienceblogs.com.br/geofagos/2009/04/consumidores_de_luxo_de_potass.php Será que nosso maior problema é a escassez de alimento? Não será o desperdício (perdas pós-colheita)? Não será a famosa má distribuição? Vamos pensar! E é para fazer pensar que estamos aqui.

  2. Paula,
    Sinceramente, nada sei sobre os custos, embora imagine que seja ainda economicamente mais viável para as empresas importar adubos minerais, provavelmente pela alta concentração de nutrientes nestes materiais. A questão é – no curto prazo, que é o que interessa à indústria, embora não seja de forma alguma sustentável, entre outras razões, porque estes minérios só são renováveis em termos de tempo geológico. Embora haja ainda uma série de problemas com os resíduos orgânicos urbanos, tais como contaminação por metáis pesados e a presença de patógenos, a aplicação deste material aos campos de cultivo poderia trazer enormes vantagens, não apenas ligadas à economia no uso de fertilizantes minerais. Mas como disse no post, minha idéia é que isso venha a ser adotado mais amplamente no futuro, quando a exploração de novas jazidas se torne inviável ou inaceitável ou impraticável.

  3. Paula disse:

    Há um custo estimado em se transformar lodo e restos orgânicos (animais e vegetais) em adubo?
    Isso porque isso me parece uma solução fantástica para rios e lagos eutrofizados – ou pelo menos a diminuição deles.
    Fato é: se o mundo importa P da China, Rússia e Africa e porque deve ser economicamente mais viável do que reciclar matéria orgânica, separar e concentrar P, por exemplo. Ou não? Qual é a “desculpa” para fazer uma coisa e não a outra? O preço dos biodigestores/composteiras? Falta de espaço?

  4. Senhores,
    Vamos por partes. João, esse perigo é real. Há no entanto a técnica de compostagem de resíduos orgânicos que tende a eliminar microrganismos patogênicos. Algo do gênero talvez pudesse ser feito com as fezes humanas, logicamente misturadas com uma miríade de outros restos da digestão urbana. Manuel, excelente comentário, que aliás daria um bom post. Todas as sugestões terão de ser adotadas de alguma forma futuramente, muitas já são ativamente implementadas em vários campos de cultivo pelo mundo. Daniel, a própria idéia do blog Geófagos é mostrar à sociedade leiga a importância crucial da agricultura e das ciências agrárias para a sobrevivência da humanidade, para a resolução dos problemas modernos que sem este conhecimento é, no máximo, incompleta. Obrigado a todos pelos comentários e sugestões, continuem nos lendo.

  5. Daniel disse:

    Olha, é raro ver textos que apontam problemas tão difíceis de se perceber. Difíceis pois ficam ofuscados, sob as sombras de problemas mais “populares”. A gente tem tanta coisa pra ver quando vamos pensar em sustentabilidade que coisas simples como essa acabam fugindo.
    Muito interessante e bem escrito seu texto, gostei da citação de Waterworld, que é um filme que eu adoro.
    E realmente, precisamos pensar ousadamente, e ousar pensadamente também.
    Continue escrevendo!

  6. manuel disse:

    Caro Ítalo
    Aqui está mais um texto dos seus,Ítalo,um texto desafiante,
    mesmo sem estar a pensar em mais catástrofes do que as correntes,que essas já chegam,e sobejam.
    Assim,em primeiríssimo lugar,seria mais do que excelente dar de comer a quem não o tem,que,segundo,a Oxfam,já ultrapassou mil milhões de bocas. Depois,racionalizar os consumos,de modo a que todos papassem só o que tinham na vontade,sem exageros. Finalmente,atender a uma série de medidas que o Ítalo já referiu,ou estão subentendidas no texto,e que se apresentam adiante.
    Mas antes,duas ou três considerações. Como se sabe, os nutrientes das plantas cabem nos dois agrupamentos,macro e microelemantos. São os do macroelentos que trazem maiores preocupações,devido às quantidades necessárias. Entre eles,há dois com características muito especiais,o azoto e o fósforo. Tanto um como outro não abundam no solo,antes pelo contrário,ainda que o azoto abunde no ar,à volta de 80%. O maior problema está no fósforo.
    Chegou a altura das medidas.
    1.Procuarar novas jazidas sedimentares de P e K.No fundo dos oceanos há carradas de fósforo,que,segundo,consta,já estão despertando apetites.
    2.Procurar a cooperação dos microorganismos do solo,em especial do rizóbio,fixador do azoto atmosférico. Parece haver largo campo para descobrir novas capacidades.
    3.Explorar a colaboração da fauna do solo no incentivar da disponibilidade dos nutrientes,por acção mobilizadora,
    química,e não só.
    4.Reciclar resíduos urbanos,industriais,agrícolas,livrando-os de componentes tóxicos.
    5.Deixar na terra o maior número de resíduos,sem prejudicar o manejo.
    6.Procurar plantas mais eficazes,menos comilonas.
    7.Racionalizar a adubação. Só o quanto baste,na forma mais eficaz.
    8.Porque que a cabecinha do homem não pára,retomar uma idéia antiga,a da Pedra Filosofal,por miúdos, a conversão de tudo em ouro.Neste caso,tudo em N,P,K,no que fosse preciso,menos em ouro,que tem sido um desastre.
    E pronto,Ítalo,não me lembro de nada mais. Um abraço,e muito boa saúde.

  7. Joâo Carlos disse:

    Foi algo que eu sempre me perguntei: “por que os dejetos orgânicos não são reciclados?” Mas, recentemente, me veio outra dúvida: qual é o risco de os dejetos de pessoas doentes disseminarem as doenças?

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