Voltando às origens…

Após um longo tempo afastado, estou de volta. Diversos afazeres nesses últimos tempos me afastaram do Geófagos e agora chegou a hora do retorno. Antes de voltar definitivamente resolvi dar uma olhada nos históricos de publicações do blog e, como já imaginava, percebi que nos útlimos tempos nos dedicamos, talvez demasiadamente, à “ciência do solo aplicada” e até outras ciências, sobretudo àquelas ligadas ao ambiente. Entretanto, pouco nos dedicamos à “ciência do solo básica”, extremamente importante para o entendimento de questões aplicadas e também um dos principais objetivos do Geófagos, que é o de divulgar a ciência do solo para outros segmentos sociais além da academia. Iniciarei, portanto, uma volta às origens, iniciando com posts relacionados à gênese dos solos, chegando, no final dessa saga, às principais classes de solos segundo o Sistema Brasileiro de classificação e suas principais características. Evidentemente, principal enfoque será dado aos solos comumente encontrados em ambientes tropicais úmidos e, sobretudo, naqueles predominantes no território brasileiro.
Os solos à muito deixaram de ser considerados apenas como um resultado de desgate de rochas. Desde a visão do geólogo russo Dokuchaev, no século XIX, que eles passaram a ser entendidos como um corpo natural, com propriedades próprias, resultados de interações entre as diversas esferas do planeta (geosfera, biosfera, atmosfera, a própria pedosfera, etc…) através do tempo. Comumente considera-se como fatores de formação dos solos o material de origem, clima, organismos, relevo e tempo. A interação desses fatores determina os processos gerais de formação e, a predominância de um ou mais processos gerais, determina os processos específicos que deram origem a determinado tipo de solo.
O próximo post será dedicado a conceituar gênese do solo, enfocar a importância do seu estudo e exemplificar maneiras de estudá-la. Posteriormente, detalhamentos desses fatores e processos serão dados em outros posts.
Até a próxima…

Na Amazônia, pela primeira vez

Isso mesmo, estou na Amazônia pela primeira vez. Bem, não exatamente no meio da floresta – estou em Manaus. Cheguei hoje à tarde e meu organismo aos poucos se recupera do cansaço e do fato de estar aparentemente duas horas atrasados. Meu dia hoje durará exatamente 26 horas. Por enquanto ainda não vi nada que possa classificar como tipicamente amazônico, apenas suei algo como o volume de água que consumo em dois dias, provavelmente.
Terça feira devo atravessar um trecho do Rio Negro em direção a Iranduba, onde há um polo de produção de hortaliças sob cultivo protegido. Alguem talvez se pergunte o porquê de se utilizar ambiente protegido aqui – basicamente para aproveitas o “efeito guarda chuva”, as estufas costumam ficar abertas dos lados, permitindo a circulação do ar e evitando as temperaturas excessivamente altas.
Estou aqui para dar um curso. Vim falar sobre manejo de solos, cultivo protegido e fertirrigação, em ordem decrescente de domínio do assunto. Os alunos serão principalmente agrônomos extensionistas, dos mais variados locais do estado do Amazonas. Acho que será uma experiência muito interessante.

Mudanças climáticas, produção agrícola e qualidade de hortaliças – Blog Action Day

As mudanças climáticas, em decorrência do aumento na concentração dos gases de efeito estufa na atmosfera, devem afetar a agricultura de várias e possivelmente imprevisíveis maneiras. Mudanças nos valores de temperatura média e na distribuição de chuvas podem mesmo já estar influenciando padrões de localização regional de certas espécies cultivadas.
Como a fotossíntese depende tanto da interceptação da luz quanto da absorção de dióxido de carbono, alguns pesquisadores hipotetizam que o aumento da concentração de CO2 atmosférico poderia causar aumento na produção de algumas espécies agrícolas, principalmente aquelas que utilizam a rota fotossintética C3, embora o aumento concomitante de temperatura possa ser danoso a estas mesmas espécies.
Além da migração dos cultivos, há evidências convincentes de que a qualidade da matéria orgânica vegetal produzida em um mundo sob maiores concentrações de CO2 atmosférico também mudaria. A maior disponibilidade de dióxido de carbono para a fotossíntese poderia favorecer a produção de compostos ricos em carbono, tais como lignina e polifenóis. Teores mais altos de lignina provavelmente afetariam de alguma forma a palatabilidade do material vegetal.
Pelo que se tem pesquisado, em climas tropicais o que se prevê são aumentos de temperatura e da freqüência de chuvas torrenciais, ambos aspectos que devem afetar diretamente a qualidade de hortaliças As conseqüências disto para a produção de hortaliças, por exemplo, em que a qualidade do produto importa tanto ou mais que a quantidade produzida, seriam enormes. Afetados seriam também a susceptibilidade a pragas e doenças, qualidade pós-colheita, o valor nutricional das hortaliças.
Apesar da existência de informações acerca dos possíveis efeitos das mudanças climáticas globais sobre a produção de hortaliças, muito do conhecimento gerado está ainda disperso e não coordenado, dificultando uma visão de conjunto que possibilitasse o planejamento não apenas de demandas de pesquisa ainda não atendidas, mas até mesmo de medidas futuras visando a segurança alimentar nacional em termos de produção de hortaliças.

Efeitos das mudanças climáticas na produção de hortaliças

Com o apoio do Fundo de Amparo à Pesquisa do Distrito Federal – FAP/DF, a Embrapa Hortaliças vai estimular as discussões a respeito da necessidade de a pesquisa em hortaliças incluir a perspectiva do aquecimento global. Com esse objetivo, a Unidade promove no dia 20 de novembro o workshop “Efeitos das Mudanças Climáticas na Produção de Hortaliças“, que discutirá os desafios que as mudanças globais vão impor a este segmento da pesquisa agrícola.
Para o pesquisador Ítalo Guedes, um dos coordenadores do workshop, embora já existam pesquisas relacionadas ao assunto, as informações ainda estão um pouco esparsas. Segundo ele, a expectativa é que o evento possa auxiliar os pesquisadores, e outros envolvidos na pesquisa e produção de hortaliças, a terem uma visão mais completa sobre o que tem sido feito e o que ainda está por fazer. “Falta uma concepção mais clara sobre isso, e a ideia de promover uma discussão em torno da questão de como as mudanças climáticas afetam, ou poderão afetar, a produção de hortaliças pode ajudar os nossos pesquisadores a desenvolverem os seus projetos de pesquisa dentro dessa nova realidade”, associa Ítalo.
Ele evoca o fato de a agricultura ser altamente dependente dos fatores climáticos, o que a torna bastante vulnerável à mudança global do clima, além de poder atuar também como provedora de gases que provocam o efeito estufa. Por outro lado, a adoção de práticas agrícolas sustentáveis, como o plantio direto, práticas agroecológicas, rotação de culturas, manejo racional da adubação e da irrigação, entre outras, podem não apenas diminuir a emissão de gases de efeito estufa, mas também fazer com que a agricultura sequestre carbono, mitigando os efeitos das mudanças climáticas globais. Ítalo informa que esses serão alguns dos tópicos que vão compor a pauta de discussões durante o workshop, que “vai chamar a atenção e visualizar os pontos mais vulneráveis na produção de hortaliças”.
Têm presença confirmada no evento os pesquisadores Eduardo Assad, da Embrapa Informática Agropecuária (Campinas-SP), que coordenou nacionalmente, de 1993 a 2007, o Zoneamento Agrícola de Riscos Climáticos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e Clyde Fraisse, da Universidade da Flórida e integrante do grupo de pesquisa que estuda os impactos das mudanças climáticas na produção agrícola naquela região dos Estados Unidos.
Durante o encontro, qualificado pelo pesquisador como “uma semente para futuras discussões”, a perspectiva é incluir na pauta da produção de hortaliças essa preocupação, que já ganhou espaço quando se refere às grandes culturas. No Brasil, principalmente. “Nos Estados Unidos e na Europa, a produção agrícola e seus efeitos nas alterações climáticas vêm sendo discutidos desde a década de 90, enquanto que entre nós os debates ainda são pontuais”. Na sua avaliação, quer seja em outros países, quer seja no Brasil, as mudanças, em maior ou menor grau, talvez sejam inevitáveis, e é fundamental que a Embrapa participe – e até mesmo incentive – de toda discussão em relação aos efeitos das alterações climáticas sobre qualquer setor da produção agrícola.
Vez das hortaliças
Articulador do workshop, o chefe-geral e pesquisador da Embrapa Hortaliças, Celso Moretti, lembrou que o evento enquadra-se no rol de atividades propostas no seu plano de trabalho, explicitado quando da escolha para a chefia da Unidade, em 2008. “A primeira dessas ações previa justamente a expansão da base tecnológica e o avanço na fronteira do conhecimento, e as mudanças climáticas, com as decorrentes discussões e estratégias, se inserem neste contexto”, observou. Na sua opinião, o Brasil não tem sido omisso nesta questão, apesar das queimadas e dos desmatamentos que permanecem na ordem do dia: os esforços direcionados à produção de combustível não fóssil são exemplos das contrapartidas do País, frente às medidas que estão sendo discutidas no mundo inteiro para minimizar/neutralizar os efeitos das mudanças climáticas. Segundo ele, a agricultura encontra-se no meio dessa guerrilha, mas até certo ponto. “Existem iniciativas nessa área, porém o foco maior tem sido direcionado às grandes culturas – soja, café, cana-de-açúcar, entre outras -, e como elas podem afetar e serem afetadas pelas alterações do clima”, exemplifica. Moretti defende a ampliação dessas discussões, tendo em vista a produção de alimentos de uma maneira geral. Sem excluir as hortaliças, naturalmente. “Os riscos do aquecimento global à produção de hortaliças podem até ser maiores do que para outros alimentos, guardadas as devidas proporções”, sustenta o pesquisador, para quem esta será a pedra de toque do workshop.
Informações sobre o evento: [email protected]
Anelise Macêdo – MTb 2749/DF
Assessoria de Imprensa
Área de Comunicação e Negócios (ACN)
Embrapa Hortaliças

Que a terra mostre meus erros

Alguns fiéis leitores do Geófagos, além de fiéis comentadores são quase colaboradores permanentes. O Sr. Manuel, um agrônomo português que sempre nos honra com relevantes comentários, narrou há pouco um caso interessante ocorrido certamente durante sua atuação profissional: uma generalizada deficiência do micronutriente maganês em videiras de certa região portuguesa em solos em que a falta deste nutriente não seria esperada.
Coincidentemente, durante o curto período em que trabalhei em uma empresa de adubos no interior de Minas Gerais, observei, em um pomar de laranjeiras, o claro sintoma foliar de falta de ferro, um outro micronutriente metálico, em um solo em que talvez fosse mais lógico encontrar excesso de ferro. Apesar da distância geográfica, das diferenças entre espécies e solos, em ambos os casos o agente causador da falta dos dois micronutrientes nestas folhas foi o mesmo: o calcário.

Sintoma de deficiência de manganês em planta ornamental:

Manganês.jpg

Sintoma de deficiência de ferro em cafeeiro:

Ferro.jpg
Alguem mais atento aos fatos da agricultura estranhará o que disse, afinal o calcário não é em geral utilizado como um melhorador das condições químicas do solo? Verdade, mas como afirma o dito popular, até os remédios podem ser venenos, dependendo da dose. O calcário, majoritariamente composto de carbonato de cálcio (CaCO3) é largamente utilizado em solos ácidos de regiões tropicais para corrigir a acidez e, principalmente, tornar indisponível o íon alumínio (Al3+), extremamente tóxico à maioria das plantas e muito solúvel sob condições de baixo pH, como nos Latossolos dos Cerrados. Basicamente, a reação que leva à correção da acidez do solo é a seguinte:
CaCO3 + H2O = Ca2+ + HCO3 + OH-
O íon OH-, hidroxila, além de reagir com os íons H+, diminuindo a acidez, reagem também com o alumínio, da seguinte forma:
Al3+ + 3OH- = Al(OH)3
O hidróxido de alumínio (Al(OH)3) é bastante insolúvel, ficando o alumínio assim numa forma pouco disponível para as plantas, anulando seu efeito tóxico. Mas as hidroxilas não são seletivas, não reagem apenas com o alumínio – podem reagir também com outros cátions metálicos que não são tóxicos ou até mesmo com nutrientes:
Fe3+ + 3OH- = Fe(OH)3
Mn2+ + 4OH- = MnO2 + 2H2O + 2e-
Tanto o hidróxido de ferro quanto o óxido de manganês são insolúveis, tornando estes dois nutrientes indisponíveis às plantas e causando os sintomas de deficiência. Isto é comum em plantios onde a calagem (aplicação agrícola do calcário) é feita de forma incorreta, em excesso, em geral porque não se faz a análise química do solo para a correta recomendação da calagem. Foi exatamente isso o que ocorreu no pomar de laranjeiras ao qual me referi acima: um agrônomo inexperiente ou descuidado recomendou a aplicação de calcário “no olho”, por adivinhação, e recomendou em excesso. O pH do solo subiu demais e o micronutriente ferro ficou indisponível às plantas, na forma insolúvel de hidróxido de ferro.
No caso das videiras do senhor Manuel, apesar de o calcário também ter sido o “culpado”, a história foi um tanto diferente e curiosa. Dou a palavra ao agrônomo português:
“O solo,aparentemente,tinha,porém,manganésio para dar e vender,assim se pode dizer. Só que estava muito pouco disponível. Coisas que acontecem quando sucedem outras coisas. E o que tinha acontecido? Anos atrás, as estradas eram de macadame calcário. A passagem de carros e carretas levantava nuvens de poeira calcária,que o vento dominante se encarregava de ir depositando,sobretudo, numa das bermas. E calcário a mais faz das suas e,neste caso particular,levou o manganésio a um estado muito menos solúvel.”
Como se costuma dizer nas escolas de agronomia, os médicos têm uma clara vantagem sobre os agrônomos: seus erros são encobertos pela terra. Os erros dos agrônomos, a terra mostra.

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