Bactérias que promovem o crescimento de plantas

A Agronomia é muito mais do que simplesmente adubar e aplicar agrotóxicos, como querem alguns muito mal informados. Minha visão da ciência agronômica está muito mais para uma Ecologia Aplicada ou uma Eco-engenharia, o que não impede, obviamente, que certos profissionais manchem a profissão em prol de interesses imediatistas. Mas quero falar mesmo é da beleza oculta da verdadeira Agronomia e, para isso, sirvo-me de um artigo recentemente publicado na Scientia Horticulturae, periódico da editora Elsevier, intitulado “Effects of plant growth promoting bacteria (PGPB) on yield, growth and nutrient contents of organically grown strawberry“.
Neste trabalho, realizado na Turquia com morango produzido sob sistema de agricultura orgânica, Esitken e colaboradores (2010) observaram que a aplicação, nas folhas e/ou nas raízes, de bactérias promotoras do crescimento vegetal (Plant Growth Promoting Bacteria) durante 3 anos de safras estimulou tanto o crescimento das plantas quanto a produtividade da cultura. Os pesquisadores usaram estirpes de bactérias dos gêneros Pseudomonas e Bacillus.
Em relação ao tratamento que não recebeu a aplicação de bactérias, houve um aumento estatisticamente significativo no número de frutos pela aplicação de vários tratamentos contendo as bactérias. Além disso, os conteúdos dos nutrientes minerais fósforo e zinco foram maiores nas folhas das plantas tratadas, indicando que elas estavam mais bem nutridas. Além do efeito nas plantas, os tratamentos contendo bactérias parecem ter proporcionado aumento na disponibilidade de fósforo no solo, embora eu ache que esse possa ter sido um efeito indireto pelo estímulo a maior produção de ácidos orgânicos pelas plantas.
É um bonito exemplo do uso agronômico de microrganismos que ocorrem naturalmente no solo, mas em quantidades normalmente muito pequenas, como um “biofertilizante”. Mas o que e quais são estas “bactérias promotoras do crescimento vegetal”? São espécies de bactérias normalmente associadas ao solo em torno das raízes (rizosfera), mais rico em compostos orgânicos, e que por uma série de mecanismos, beneficiam as espécies vegetais, agrícolas ou não, em termos de crescimento e produção.
Os efeitos benéficos das bactérias em questão são comumente imputados à produção de certas substâncias, liberadas por este organismo no ambiente que circunda as raízes, a já referida rizosfera. Estas substâncias podem ser hormônios que estimulam o crescimento vegetal, como auxinas, citocininas, giberelinas; compostos que aumentem a solubilidade e disponibilidade de formas inorgânicas do nutriente fósforo, como ácidos orgânicos de baixo peso molecular, ou que facilitem a mineralização/disponibilização de formas orgânicas de vários outros nutrientes.
Boa parte da ação estimuladora das bactérias promotoras do crescimento vegetal é conseguida através da ação antagonista contra microrganismos fitopatogênicos (que causam doenças em plantas), quer seja pela liberação de enzimas, quer pela produção de substâncias antibióticas ou fungicidas; ou ainda pela competição por recursos (alimento). Acredito que certos solos tidos como naturalmente produtivos, como as Terras Pretas de Índio, devem sua fama em parte também a fatores que estimulam o crescimento deste grupo de bactérias.

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Discussão - 8 comentários

  1. renan Souza Martins disse:

    Bom sou aluno de Agronomia estou fazendo um trabalho sobre bacterias queria saber 3 tipos de BACTERIAS BENÉFICAS PARA A AGRICULTURA:

    Nome comum?
    Nome Cientifico?
    Por que?
    Função?

    Por favor se puderem me ajudar fico agradecido

  2. Thiago Francisco da Silva disse:

    Olá, sou estudante da Agronomia e atualmente desenvolvo trabalhos com rizobactérias e bactérias diazotroficas, em pesquisas encontrei relatos da Rússia comunista da década de 60 onde havia 10.000 mil hectares de experimentos com as mesmas, e atualmente pouco se ouve falar desse tesouro biológico. enquanto os profissionais da área agronômica não se derem conta que esse e o caminho mais sustentável e ecologicamente correto para produção agricola continuaremos contaminando e poluindo nosso planeta. (maceió/AL-UFAL)

  3. Ronaldo Barbosa disse:

    Prezado senhor,
    Trabalho em uma empresa de biotecnologia em Porto Alegre/RS.
    Atuamos basicamente em saneamento basico, porém, sei do potencial dos microorganismos na agricultura. Gostaria de manter contato com o senhor para informações e quem sabe uma consultoria neste seguimento.
    Meus contatos (41)3473-2185 9680-3048
    Cordialmente
    Ronaldo Barbosa

  4. Caríssimo Manuel, muito obrigado pelas palavras. Olhe, durante esse período que passei sem escrever, tive pena de não ter seu endereço de e-mail ou algo do tipo, para lhe comunicar o porquê da ausência. Você é provavelmente nosso mais fiel leitor e senti que merecia explicações. Cá estamos de volta, no entanto, para ficar e continuar. Grande abraço transoceânico.

  5. manuel disse:

    Caro Ítalo
    Cá o temos de novo,apostado em continuar a fazer cescer,e desenvolver,o “ser” que criou.
    Do maior interesse o seu texto,por razões óbvias,como já foi apontado. Sempre é melhor ir resolvendo os problemas com a prata da casa. O adubo azotado é caro,e não só,e o fósforo tem de ser muito bem aproveitadinho,que se está vendo o fundo lá das reservas. Para isso,há que recorrer,entre outras ferramentas,ao concurso dos microorganismos do solo,que tantos são.
    E pronto,Ítalo,muito boa saúde,e,mais uma vez,muito gosto em o ler.

  6. Caro Professor Mário,
    Muito obrigado pelo comentário. Realmente, embora o assunto não seja bem minha especialidade, tenho trabalhado há algum tempo com a dinâmica da matéria orgânica do solo e inevitavelmente os microrganismos do solo, uma hora ou outra, têm que ser um pouco entendidos. Tive a sorte, também, de ter feito a disciplina de MIcrobiologia do Solo, durante o doutorado na UFV, com um excelente professor, Maurício Dutra Costa, e um dos assuntos que mais me chamaram a atenção foi exatamente o das PGPB. Grande abraço e obrigado pelo link.

  7. Mario disse:

    Caro Ítalo,
    Inicialmente, meus parábens pela excelente descrição de um trabalho que aparentemente não é diretamente na sua área de concentração.
    Aproveito para lembrar que variantes desta técnica são usados desde os gregos, pela inoculação de rizóbio em leguminosas. Como um exemplo atual da importância destas bactérias, o Brasil é o único país grande produtor de soja que não aplica fertilizante nitrogenado, graças à fixação biológica de N. Isto resulta em algo como dois bilhões de dólares anuais de economia, e é um dos principais responsáveis pela excelente competitividade do nosso grão, apesar do transporte tétrico. Ontem li outro trabalho indicando uma economia de algo em torno de 240 kg de N/ha na cana de açúcar, que resultaria segundo os autores em uma economia em torno de 330000 t de N/ano. Considerando que o fertilizante nitrogenado é caro, com eficiência relativamente baixa, e baseado em grande uso de gás natural para produção comercial, fica evidente que a fixação biológica é uma ferramenta muito importante do ponto de vista ecológico.
    Como o Pacheco comentou, as Ciências Agrárias têm sido menos prestigiadas do que deviam por aqui. Outro ponto que é comum de não ser observado é que toda vez que dizem que exportamos pouca tecnologia nos jornais estão falando uma asneira sem tamanho. Cada grão de soja, ou de açúcar ou asinha de galinha que exportamos é a mais pura tecnologia sendo exportada. Tem muito mais tecnologia nacional em um litro de álcool do que em um carro inteiro… pena que seja bem menos “sexy”.
    Novamente meus parábens, e abraços.

  8. Grande Ítalo,
    Em primeiro lugar gostaria de dizer que é muito bom ver você escrevendo novamente para o seu “filho” Geófagos. Com relação ao post é excelente que essa visão agronômica diferenciada seja passada para o público que a desconhece. As ciências agrárias, de modo geral, não têm a mesma visibilidade das “biológicas” ou “tecnológicas” e por isso é importante que mais e mais vezes tenhamos a divulgação de assuntos a elas relacionados.
    Abraços,
    Pacheco

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