Carvão como melhorador de solos

Muitos trabalhos de pesquisa recentes, brasileiros e estrangeiros, têm avaliado o uso de carvão de origem vegetal como condicionador de solos, com o objetivo de aumentar os teores de matéria orgânica e a capacidade de troca de cátions do solo, melhorar a eficiência no uso de fertilizantes, promover o crescimento de microrganismos benéficos ao crescimento vegetal, entre outras características agronomicamente desejáveis.
 
A possibilidade de se usar o carvão como condicionador de solos surgiu ao se observar que certas características químicas das Terras Pretas de Índio (TPI) amazônicas, como maiores teores de matéria orgânica do solo, nitrogênio, fósforo, cálcio e potássio, maior capacidade de retenção de nutrientes (CTC potencial), valores mais altos de pH devem-se à presença na fração orgânica destes solos de grandes quantidades de carvão (também chamado de carbono pirogênico ou, na literatura internacional, biochar), até 70 vezes mais do que nos solos adjacentes que lhes deram origem, predominantemente Latossolos, resultado da adição de material carbonizado por populações pré-colombianas ao longo de muito tempo. A existência das Terras Pretas sugere que, pelo menos teoricamente, solos de baixa fertilidade, como os Latossolos da Amazônia, podem ser transformados em solos férteis, não apenas pela adição de fontes minerais de nutrientes, mas pela adição de compostos orgânicos estáveis na forma de carvão

Um problema comum a tratamentos que utilizem materiais orgânicos como condicionadores de solo é a inevitável decomposição, razoavelmente rápida em alguns casos, tornando necessária a reaplicação periódica do material. A decomposição ou outra forma de oxidação levam à diminuição nos teores de matéria orgânica e conseqüente perda dos efeitos benéficos alcançados. Para que isso não ocorra, há duas saídas possíveis – a adição periódica de insumos orgânicos ou a aplicação de material naturalmente resistente à decomposição.
 
O carvão, quando incorporado ao solo, demonstra notável resistência à decomposição devida a características químicas intrínsecas, como a presença de grupos funcionais fenólicos, que permitem sua permanência no sistema solo por períodos relativamente longos de tempo, ao contrário de outros materiais orgânicos cuja persistência no solo depende da proteção conferida pelas partículas minerais ou pela continuidade da aplicação. As Terras Pretas Amazônicas têm mantido seus altos teores de matéria orgânica centenas e até milhares de anos após as populações pré-colombianas que lhes deram origem as terem abandonado. Por sua recalcitrância e alto teor de carbono, a aplicação de carvão ao solo tem sido considerada uma prática eficaz de seqüestro de carbono visando mitigar os efeitos da agricultura sobre as mudanças climáticas globais.

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Discussão - 4 comentários

  1. Márcio disse:

    Uma pequena colaboração colegas!!!!
    No meu ver esses povos ancestrais nos deixaram um vasto complemeno em nosso solo amazonico, coisa que daqui ha alguns milhoes de anos nossos descendentes nao poderão usufruir, porque antes tudo era limpo, por que a maneira de viver e as coisas q consumiam eram mais organicas, coisas que futuramente seriam benéficas ao solo, hoje nós vivemos num mundo onde a “química” nos rodeia, onde não poderemos deixar riquezas nos solo devido a não capacidade do solos absorverem tais resíoduos, ao contrário empobrece cada vez mais… obrigado e gostei mto desse site de informaçãoes.. abraços

  2. Leonardus disse:

    Grande Ítalo, ótimo post!
    Embora “construir” Terras Pretas de Índio em grandes áreas seja realmente difícil, não consigo entender como nós não conseguimos fazer um bom uso dos nossos resíduos.
    Esses povos ancestrais, com menor conhecimento e sem terem que se preocupar com mudanças climáticas, já conseguiam fazer bom uso do seu resíduo. Mas nós, civilizados e desenvolvidos científica e tecnologicamente, não conseguimos fazer o devido uso do nosso resíduo orgânico. Pior ainda, nossos “lixões” são frequentemente um problema ambiental, poluindo solos e águas, sem falar no mau cheiro e de como a visão deles é péssima.
    O não uso do nosso resíduo orgânico nos faz perder grande parte da nossa capacidade de sustentabilidade! Se bem utilizado, esse resíduo poderia ser utilizado como fonte de energia e de fertilizantes. Além de diminuir a contaminação do ambiente, e de torná-lo mais agradável.

  3. Caro Manuel, você foi ao ponto. Também eu tenho a impressão nítida de que essa tecnologia, aliás antiquíssima, não se pode bem utilizar em grandes áreas. Minha idéia é de que ela é adequada, se for, a pequenas áreas, como as que se utilizam para a produção de hortaliças. Manuel, não sei se estou revestido de mais autoridade, mas tenho grande gosto em poder, aos poucos, retornar ao Geófagos e expor um pouco da experiência que tenho ganhado no exercício desta nossa profissão. Fico feliz que, apesar da lacuna de meses, você continue nosso fiel leitor. Grande abraço e muitíssima saúde.

  4. manuel disse:

    Caro Ítalo
    Cá o temos de novo,cheio de força,revestido de mais autoridade. Não é em vão que se é investigador da EMBRAPA.
    E assim,será um atrevimento o eu, sobre o seu compreensivo texto, tecer algumas considerações.
    1.Não é de admirar que a persistência por largo tempo de gentes num determinado local enriqueça o solo que utiliza,
    onde deixarão todos os seus restos
    2.Um dos enriquecimentos vem do aumento do CTC.
    3.Compreende-se que se deseje ver isso acontecer nos vastos solos tropicais,por todas as razões e mais uma.
    4. Não se podendo fazê-lo pelo processo das Terras Negras, é desafiante querer utilizar “charcoal” ou “biochar”.
    5.Materiais desta natureza,de combustões incompletas,não são mais do que cinzas com carvão,um carvão com restos orgânicos,de composição variada,talvez ricos,como o Ítalo refere,de polifenóis,de propriedades antissépticas,difíceis de decomposição,cinzas em que figuram óxidos e sais,sendo,
    pelos óxidos,alcalinas,muito convenientes,pois,para fazer subir o pH dos solos.
    6.Não se pode,porém,parece,querer estender a sua aplicação
    a grandes árias,fazendo isto lembrar a necessidade dos adubos químicos,face à incapacidade das disponibilidades de correctivos orgânicos satisfazerem as encomendas que não param de crescer.
    E pronto,caro Ítalo,basta de considerações,algumas,ou todas,não apropriadas,ou,talvez, mesmo, abusivas.
    Com o meu muito gosto de o voltar a ler,e um abraço,muito boa saúde,e muito bom trabalho.

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