Mudanças climáticas versus desenvolvimento

A reflexão sobre os impactos das mudanças climáticas globais sobre a agricultura e o inverso tem feito parte constantemente de minhas atividades e atribuições profissionais, principalmente desde o último ano. Tenho dedicado muito esforço intelectual e mesmo físico à questão, tendo me concentrado com um pouco mais de foco às práticas de manejo do agroecossistema que minimizem a emissão de gases de efeito estufa ou mesmo que os sequestrem, as ditas ações mitigadoras, como o plantio direto e a aplicação de carvão como condicionador de solo.
Um colega por quem tenho grande respeito e que trabalha diretamente na área de sustentabilidade agrícola me chocou um tanto hoje ao afirmar que não gostava desta ênfase excessiva nas medidas de mitigação por parte de países em desenvolvimento. Vejam bem, ele não pertence a esta espécie retrógrada que se auto-denomina de “céticos do clima” – ele não tem dúvida que as mudanças climáticas causadas pelo clima são reais. Sua opinião no entanto é de que os países em desenvolvimento, como o Brasil, não deveriam arcar com o ônus da mitigação destas mudanças em detrimento de seu desenvolvimento social e econômico. Para ele, quem deveria arcar com este ônus seriam os países ditos desenvolvidos. Antes que se lancem as pedras, ele não é agrônomo, é um biólogo com doutorado em impacto ambiental.
Não digo que seus argumentos não tenham alguma lógica, mas não posso deixar de pensar que os impactos das mudanças climáticas não se restringirão aos países desenvolvidos. Embora alguns cenários prevejam condições de relativo conforto para a agricultura no sudeste do Brasil, estes mesmos cenários, e talvez evidências atuais, prevêem condições mais que preocupantes para o semi-árido e mesmo para a Amazônia. Por nosso despreparo, talvez venhamos mesmo a sofrer mais as consequências do que os países desenvolvidos. Bem, é uma questão a se pensar, se alguem quiser opinar sobre o assunto, sinta-se à vontade.

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Discussão - 3 comentários

  1. Paula disse:

    Ítalo,
    Quanto das ações mitigadoras – como plantio direto, aplicação de carvão, etc, etc, etc – REALMENTE apresentam um ônus para quem as aplica – digo em termos de custo x produtividade?
    Sempre tive essa dúvida… o que quero saber na realidade é: é mesmo DESVANTAJOSO em algum sentido aplicar sustentabilidade à agricultura?
    Abraços!

  2. manuel disse:

    Caro Ítalo
    Muito gosto em o “ver”. É muito sério o tema que nos traz,a mitigação dos gases de efeito de estufa,os maus de uma fita muito vista. O labor rural,agrícola e florestal,é de facto,
    como bem se sabe,um dos réus,mas está ele bem acompanhado,
    visto não faltarem outros réus,não importa o seu vulto. E é a combustão,em doses industriais,ao longo de muitos anos,e com cara de se intensificar,de materiais fósseis,carvão mineral,petróleo,gás natural. Nesta combustão,para além do CO2,liberta-se também,ainda que em menor escala,N2O. A indústria de cimento,como se sabe,dá,igualmente,a sua apreciável contribuição.
    Quanto ao metano,se há os sedimentos das barragens,se há o arroz, se há os ruminantes,não se pode esquecer o papel das “wetlands” que vão por aí,por esse vasto mundo,de norte a sul,de leste a oeste, do “permafrost” de extensas regiões árticas e das térmitas.
    Estas “wetlands” e este,ou esta,”permafrost”,pela sua condição redutora, também é responsável por muito N2O,de nitratos,provenientes da fixação de N2 atmosférico por leguminosas,de antiga presença,em paisagens agrícolas e não agrícolas,mas também de origem de relâmpagos de todos os tempos.
    Tudo isto,caro Ítalo,para distribuir o mal pelas aldeias,para defender a agricultura,a chamada irmã pobre,que, por isso mesmo, apanha dos irmãos ricos.
    Depois,para terminar,é caso para dizer,como tem sido referido,que uma agricultura altamente produtiva,tem desviado muito carbono do seu ciclo activo,ainda que numa medida infinitamente menor do que aconteceria se deixassem os materiais fósseis a dormir o seu sono de milhões de anos.
    Mais uma vez,Ítalo,muito gosto em o “ver”,muito bom trabalho,e muito boa saúde.

  3. Caro Ítalo,
    Concordo muito mais com você do que com ele. Considero que ambas as partes têm enormes responsabilidades nesta questão. Talvez, por motivos históricos, os países desenvolvidos teriam maior responsabilidade do que os países em desenvolvimento. Mas, por outro lado, acredito que seja plenamente possível aos países em desenvolvimento, em particular ao Brasil, criar novos modelos de desenvolvimento, realmente sustentáveis (e não somente de fachada), que sirvam de exemplo para os países desenvolvidos. Porém, um trabalho conjunto é sempre melhor. Os países desenvolvidos têm muita experiência na implantação de sistemas de transporte público eficazes e de qualidade, um ponto que considero absolutamente crucial para qualquer modelo de desenvolvimento sustentável, por exemplo.
    De qualquer maneira, como você disse, esta não é uma questão uniateral – é uma questão global.
    Muito bom você trazer este assunto à discussão.
    abraço,
    Roberto

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