Chimpanzés geófagos, malária e a origem da vida

Há algum tempo, através do blog Terra Sigillata, agora publicado aqui, neste excelente post, tomei conhecimento do artigo: “Geophagy: soil consumption enhances the bioactivities of plants eaten by chimpanzees“, escrito por uma equipe do Muséum National d’Histoire Naturelle, da França, encabeçada pela pesquisadora Noémie Klein. A equipe documentou a ingestão de solo por chimpanzés do Kibale National Park, em Uganda, depois de se alimentarem de plantas com suposta ação contra a malária e, após ensaios em laboratório, os pesquisadores concluíram que a presença do solo potencializou de alguma forma a ação anti-malária dos extratos vegetais.
A análise mineralógica das amostras de solo utilizadas tanto pelos chimpanzés quanto por um curandeiro de uma aldeia próxima ao parque revelou que o mineral dominante era uma argila conhecida como caulinita, muito comum em solos de regiões tropicais, como África e Brasil. É interessante notar que a caulinita faz parte da composição de uma série de medicamentos utilizados no combate de problemas digestivos e para curar diarréias, mas o efeito de incrementar a ação anti-malária de materiais vegetais não tinha sido antes observada.
Os autores levantaram algumas hipóteses para explicar a ação da caulinita, sem no entanto entrar em detalhes quanto à química dos processos porventura atuantes. Arrisco-me a aventar uma hipótese e o mecanismo que acredito ter potencializado a ação anti-malária é o mesmo que pode ter possibilitado a formação das primeiras moléculas de RNA precursoras da origem da vida. Como já foi diversas vezes comentado no Geófagos, os materiais coloidais presentes no solo, como a matéria orgânica humificada e os minerais de argila, como a própria caulinita, expõem cargas eletrostáticas.
Uma importantíssima função destas cargas é a retenção dos elementos químicos que servem de “alimento mineral” para as plantas, além de outros elementos ou substâncias que exponham cargas de sinal contrário (cargas negativas retêm ânions e cargas positivas adsorvem cátions). Embora a maior parte dos minerais de argila e a matéria orgânica exponham cargas negativas na faixa de pH predominante dos solos (o pH pode influenciar muito o sinal das cargas expostas), alguns minerais do solo, entre eles a caulinita, podem expor também cargas de sinal positivo.
As moléculas orgânicas presentes no solo ou na água, quando ionizadas, tendem a expor cargas negativas, ou seja, tendem a ser aniônicas, de forma que são preferencialmente adsorvidas por minerais com carga positiva, como a caulinita. Imaginemos que as espécies com função medicinal ingeridas por chimpanzés contenham compostos mais simples, com potencial reduzido de combater os efeitos da malária. Se alguns desses compostos pudessem reagir entre si, formariam uma outra substância com função anti-malária mais potente . Para reagir eles têm antes que se aproximar, e é aí que entra a caulinita: ao adsorver os compostos, ela os aproxima, permitindo que reajam. Na ausência da argila, esta reação seria muito mais difícil, pois dependeria do encontro casual dos compostos.
Mas onde entra a origem da vida, de que falei acima? Segundo alguns biólogos e geoquímicos, na sopa orgânica inicial pré-vida, as moléculas precursoras das primeiras e primitivas células estavam presentes, mas não as macromoléculas essenciais tanto à transmissão de informação genética, DNA e RNA, como aquelas responsáveis pelo funcionamento dos organismos, as proteínas. Recentemente descobriu-se que o RNA pode agir tanto como portador das informações genéticas quanto como enzimas, que são proteínas, o que levou alguns a sugerirem que a vida pode ter surgido em um “mundo de RNA”.
Alguns pesquisadores descobriram ainda que outros minerais de argila, principalmente a montmorillonita (comum em solos da região semi-árida do Nordeste), tem a capacidade de catalizar a formação de moléculas de RNA. Como? Exatamente aproximando moléculas menores (monômeros) pela adsorção e permitindo que reajam formando moléculas maiores (polímeros), possíveis precursoras da vida. Viemos do pó e com o pó nos curamos.
Observação: Este post é uma versão revisada e atualizada de um outro publicado em janeiro de 2008.

Sobre transgenia na agricultura

Acredito muito no potencial da biotecnologia agrícola, principalmente da manipulação genética de espécies vegetais cultivadas. Ao afirmar que acredito no potencial desta tecnologia, no entanto, quero afastar qualquer tipo de ingenuidade ou dogmatismo ideológico. Não acredito como artigo de fé, como boa parte dos opositores, mas baseado em muitas leituras e muita reflexão. E quando falo de leituras, refiro-me a artigos científicos revisados por pares, não a folhetos de ONGs cheios de palavras de ordem tão emotivas quanto vazias, nem em livros de ideólogos praticantes. O argumento de que a transgenia é brincar de Deus não me diz absolutamente nada, porque sou agnóstico. Dizer que a transgenia é uma artificialização excessiva me parece ingênuo – onde está o limite desta artificialização? Não seria a própria agricultura uma artificialização excessiva? Vestir roupas, usar óculos?
Uma preocupação que me parece válida é o fato de que boa parte da expertise em biotecnologia está na posse de grandes empresas multinacionais, cujos interesses e ações podem levar à dependência de agricultores e mesmo afetar a segurança alimentar nacional. Mas esta preocupação não é um argumento contra a transgenia ou outras técnicas biotecnológicas – é um argumento a favor da pesquisa e do domínio nacionais nesta área, conduzidos por universidades e empresas de pesquisa agrícola, tornando o conhecimento gerado um patrimônio do povo e permitindo inclusive a criação de empresas nacionais usando tecnologia gerada no país.
As técnicas de melhoramento vegetal convencionais contribuíram e têm contribuido muito para os aumentos de produtividade agrícola, melhorias na resistência ou tolerância a pragas e patógenos, na eficiência no uso da água e nutrientes, no teor de compostos funcionais, na adaptação de espécies a diversas regiões climáticas. Há instâncias, no entanto, em que o melhoramento tradicional encontra limites biológicos de difícil superação, a não ser talvez pela transgenia. Que fique bem claro que a transgenia não é obrigatoriamente feita utilizando-se genes de espécies não aparentadas entre si. Imaginemos por exemplo a possibilidade de se inserir um gene de alguma jurubeba selvagem que confira resistência a nematóides em uma linhagem de tomates – ambas pertencem à família Solanacea, têm ancestrais comuns.
Vejo ainda maior potencial na transgenia quanto à introdução em espécies agrícolas de genes que as permitam produzir em regiões ditas marginais, como terras afetadas por secas, ou salinidade dos solos e da água, além de outras. No sertão nordestino é cultivada uma espécie de cactácea chamada palma forrageira (na verdade, são pelo menos duas espécies, dos gêneros Opuntia e Nopalea) que tem excelente resistência à escassez de água, produzindo bem em condições semi-áridas e sendo uma das únicas fontes de alimento (e mesmo água) para o gado durante as longas secas.
Estas espécies infelizmente têm teores relativamente baixos de proteína, necessários para a produção de massa animal (carne). Não sei se há variabilidade natural nas espécies de palma para permitir um trabalho de melhoramento visando um considerável aumento nos teores de proteína. A transgenia poderia superar este problema inserindo genes que permitissem maior síntese de proteínas, o que possivelmente refletiria em maiores produtividades animais, quem sabe em menores áreas, diminuindo a pressão sobre a caatinga. Empresas multinacionais de biotecnologia talvez não tenham interesse neste tipo de produto, mas certamente o domínio por parte de universidades e empresas de pesquisa, associado à demanda da sociedade, poderia tornar real uma tecnologia desse tipo.
Atualização:
O Professor Mario Lira Junior, da UFRPE, acrescentou algo nos comentários acerca da palma forrageira que acho relevante transcrever no corpo do post:
“Uma ressalva – a palma, seja de qual espécie for, tem na realidade teores muito bons de carboidratos de alta disponibilidade e proteína, considerando a base matéria seca. O problema é que o teor de matéria seca é muito baixo. Este baixo teor de [matéria seca] reduz a capacidade de ingestão da palma, e pode levar a problemas de falta de fibra na alimentação de ruminantes. No entanto, é relativamente fácil fornecer fibras a bovinos, se alguma gramínea for conservada, como o capim elefante.”

Campos cinzas e verdes cidades

Tenho um amigo, médico, que mora em Brasília, pessoa de considerável cultura, muito preocupado com os problemas atuais do mundo, um típico profissional urbano jovem. Meu amigo não lê meu blog nem gosta muito de me ouvir falando de minha vida profissional porque não consegue se interessar por agricultura nem acredita que exista algo como uma “ciência agrária”. Na verdade, notei ultimamente que meu amigo tem uma enorme antipatia por agricultores. Ele sinceramente os considera os maiores culpados pelos problemas ambientais modernos e acha perfeitamente razoável que boa parte da propriedade rural seja destinada à manutenção de áreas naturais como reservas. Também acho razoável esta exigência.
O que não consigo compreender é como a “consciência ecológica” de meu amigo possa ficar tranquila simplesmente por achar que sua antipatia pelos agricultores já o torna uma pessoa ambientalmente amigável. Também não consigo entender porque ele se sente tão bem porque comprou um apartamento no mais novo bairro chique da cidade, que se diz ecológico por ser arborizado, apesar de sua construção ter levado à destruição de uma área imensa de cerrado quase intocado.
Aliás, parafraseando o rei da França, gostaria de dar uma olhada no trecho do testamento de Adão que obriga o proprietário rural a manter reservas naturais na propriedade, e ainda assim ser considerado um destruidor da natureza, enquanto o proprietário urbano não tem nenhuma obrigação deste tipo, mas pode ser considerado um ambientalista consciente porque conhece um número grande de palavras de ordem, não gosta de agricultores e compra produtos orgânicos (presumivelmente produzidos em uma gôndula de supermercado neutra em carbono). Talvez a construção de bairros ecológicos e mercados orgânicos seja a solução, inclusive se se apropriarem de terras produtivas, evitando que os agricultores maus possam produzir comida.
Pergunto-me porque não há um Código Florestal para as cidades. Quantos metros de mata ciliar são deixados às margens dos rios que cortam nossas cidades? Para cada prédio construído, qual a porcentagem da área mantida com vegetação nativa? Serão os agricultores cidadãos de segunda categoria, cabendo-lhes exclusivamente o ônus de salvar a natureza e produzir mais e de forma ambientalmente correta em áreas cada vez menores, enquanto construtoras erguem prédios praticamente dentro do mar, desmatam, tomam terras produtivas, agravam problemas urbanos sem que se lhes exija nenhuma compensação ambiental? Ninguém vê o contrasenso?

Este é um blog de um brasileiro, nordestino

Este é um blog criado e escrito principalmente por um nordestino. Recebeu uma grande ajuda por um bom tempo de um grupo grande de mineiros, que para alguns não são muito diferentes de nordestinos. Desde o início nossa visão foi de servir para divulgar ciência para brasileiros, sem nenhuma distinção, e creio que tem conseguido. Raras foram as vezes em que me desviei de assuntos de ciência para tratar de outros assuntos. Com certa teimosia tenho evitado polêmicas porque este blog não foi pensado nem criado para isso. Mas a situação agora me parece de exceção.
O país acaba de sair de uma campanha política execrável em que se despertou e se deu voz ao que há de pior na sociedade brasileira – uma direita naturalmente conservadora, retrógrada e hipócrita. Para surpresa de muitos, mas não de todos, essa direita é também jovem e preconceituosa. Como essa juventude de direita não estuda História, não surpreende que fenômenos mais característicos de uma Alemanha hitlerista e anti-semita se repitam por aqui. Para excrescências como as mayaras petrusos, os judeus do Brasil são os nordestinos.
Mas não há ideologia verdadeira por trás dessa direita espúria, amamentada por uma mídia irresponsável, há palavras de ordem vazias, dolorosas, para quem é nordestino e antes de tudo brasileiro, mas vazias. Não deixa de nos alarmar o fato de que a intolerância parece vicejar bem no meio de uma juventude alienada, consumista e iletrada, que confunde o ter com o ser, como outros já disseram. Para estes, quem não tem, não é. Confrontado com essa triste situação, nada resta ao Geófagos do que continuar tentando divulgar um pouco de cultura, para quem quer que seja, quixotescamente esperando que isso possa fazer alguma diferença.
O Brasil é grande e é para todos.

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