Sobre transgenia na agricultura

Acredito muito no potencial da biotecnologia agrícola, principalmente da manipulação genética de espécies vegetais cultivadas. Ao afirmar que acredito no potencial desta tecnologia, no entanto, quero afastar qualquer tipo de ingenuidade ou dogmatismo ideológico. Não acredito como artigo de fé, como boa parte dos opositores, mas baseado em muitas leituras e muita reflexão. E quando falo de leituras, refiro-me a artigos científicos revisados por pares, não a folhetos de ONGs cheios de palavras de ordem tão emotivas quanto vazias, nem em livros de ideólogos praticantes. O argumento de que a transgenia é brincar de Deus não me diz absolutamente nada, porque sou agnóstico. Dizer que a transgenia é uma artificialização excessiva me parece ingênuo – onde está o limite desta artificialização? Não seria a própria agricultura uma artificialização excessiva? Vestir roupas, usar óculos?
Uma preocupação que me parece válida é o fato de que boa parte da expertise em biotecnologia está na posse de grandes empresas multinacionais, cujos interesses e ações podem levar à dependência de agricultores e mesmo afetar a segurança alimentar nacional. Mas esta preocupação não é um argumento contra a transgenia ou outras técnicas biotecnológicas – é um argumento a favor da pesquisa e do domínio nacionais nesta área, conduzidos por universidades e empresas de pesquisa agrícola, tornando o conhecimento gerado um patrimônio do povo e permitindo inclusive a criação de empresas nacionais usando tecnologia gerada no país.
As técnicas de melhoramento vegetal convencionais contribuíram e têm contribuido muito para os aumentos de produtividade agrícola, melhorias na resistência ou tolerância a pragas e patógenos, na eficiência no uso da água e nutrientes, no teor de compostos funcionais, na adaptação de espécies a diversas regiões climáticas. Há instâncias, no entanto, em que o melhoramento tradicional encontra limites biológicos de difícil superação, a não ser talvez pela transgenia. Que fique bem claro que a transgenia não é obrigatoriamente feita utilizando-se genes de espécies não aparentadas entre si. Imaginemos por exemplo a possibilidade de se inserir um gene de alguma jurubeba selvagem que confira resistência a nematóides em uma linhagem de tomates – ambas pertencem à família Solanacea, têm ancestrais comuns.
Vejo ainda maior potencial na transgenia quanto à introdução em espécies agrícolas de genes que as permitam produzir em regiões ditas marginais, como terras afetadas por secas, ou salinidade dos solos e da água, além de outras. No sertão nordestino é cultivada uma espécie de cactácea chamada palma forrageira (na verdade, são pelo menos duas espécies, dos gêneros Opuntia e Nopalea) que tem excelente resistência à escassez de água, produzindo bem em condições semi-áridas e sendo uma das únicas fontes de alimento (e mesmo água) para o gado durante as longas secas.
Estas espécies infelizmente têm teores relativamente baixos de proteína, necessários para a produção de massa animal (carne). Não sei se há variabilidade natural nas espécies de palma para permitir um trabalho de melhoramento visando um considerável aumento nos teores de proteína. A transgenia poderia superar este problema inserindo genes que permitissem maior síntese de proteínas, o que possivelmente refletiria em maiores produtividades animais, quem sabe em menores áreas, diminuindo a pressão sobre a caatinga. Empresas multinacionais de biotecnologia talvez não tenham interesse neste tipo de produto, mas certamente o domínio por parte de universidades e empresas de pesquisa, associado à demanda da sociedade, poderia tornar real uma tecnologia desse tipo.
Atualização:
O Professor Mario Lira Junior, da UFRPE, acrescentou algo nos comentários acerca da palma forrageira que acho relevante transcrever no corpo do post:
“Uma ressalva – a palma, seja de qual espécie for, tem na realidade teores muito bons de carboidratos de alta disponibilidade e proteína, considerando a base matéria seca. O problema é que o teor de matéria seca é muito baixo. Este baixo teor de [matéria seca] reduz a capacidade de ingestão da palma, e pode levar a problemas de falta de fibra na alimentação de ruminantes. No entanto, é relativamente fácil fornecer fibras a bovinos, se alguma gramínea for conservada, como o capim elefante.”

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Discussão - 14 comentários

  1. bruno disse:

    Muito bom!
    Você parece ler muito. E a sua região agradece o exemplo!
    Peço por uma melhor, e mais constante, manutenção dos posts!
    abraços de um nordestino.

  2. Iuri Jacob disse:

    Primeiramente, achei excelente o blog. Muito informativo mesmo para um leigo como eu, que não sou da área, mas que devoto profundos interesses por ciência e tecnologia.
    Contudo gostaria de compartilhar da opinião da Clarissa, que acertadamente percebeu uma singela parcialidade na argumentação do post. Existe ainda uma questão de cunho ético envolvendo a produção de transgênicos que não foi totalmente resolvida ou debatida de forma satisfatória. Questão similar ocorre no caso do estudo das células-tronco.
    Mas concordo com o post quando diz que isso não deve interferir no desenvolvimento da pesquisa e da ciência. Enfim, o progresso científico não pode ser interrompido por vaidades humanas. Acho que esse é o verdadeiro argumento do post.

  3. Clarissa disse:

    Ítalo,
    realmente, as discussões nos comentários sempre rendem coisas interessantes. Concordo com tudo o que você disse acima e acho interessante continuar a discussão em um novo post.
    Apesar de comentar pouco, eu leio sempre o seu e outros blogs. 🙂
    Só para colocar lenha na fogueira (quem sabe renda algo para o futuro post):
    Dalton R. (2001). Transgenic corn found growing in Mexico. Nature 413(6854): 337.
    Quist D., Chapela I.H. (2001). Transgenic DNA introgressed into traditional maize landraces in Oaxaca, Mexico. Nature 414: 541-3.
    Metz M., Futterer J. (2002). Biodiversity (Communications Arising): Suspect Evidence of Transgenic Contamination. Nature 416(6881): 600-1.

  4. Clarissa, você está certa. Escrevi também “no calor da inspiração” e só me dei conta de que falara sobre a segurança da tecnologia nos comentários, não no texto em si. De toda forma, os comentários e a rica discussão que se desenvolve nela estarão sempre associadas ao post. Mas sem dúvida, o que você e o Érico falaram me deram a idéia de escrever um post sobre os riscos comprovados da transgenia, inclusive o escape gênico, que considero o mais grave em termos ambientais. Ainda assim, espero que entenda que este post em particular realmente objetivava mostrar o potencial da tecnologia. O formato de post em blogs apresenta certas limitações. Textos muito longos em geral não são completamente lidos e uma discussão mais completa invariavelmente requerirá mais de um post. Obrigado pelas sugestões e críticas, espero que continue lendo o Geófagos.

  5. Clarissa disse:

    Olá, Ítalo,
    Fui reler meu comentário e creio que não fui clara. Me desculpe por isso. Eu não quis dizer que seria irresponsabilidade *sua*, mas sim uma irresponsabilidade de todos nós, de todas as pessoas que limitam o debate a apenas alguns aspectos de interesse (o que se aplica também as pessoas que fazem discursos apaixonados mas vazios, conforme você cita em seu texto). Eu me referia a um contexto geral.
    Realmente, no seu texto você não diz que a tecnologia é sem riscos, mas também não afirma que ela possui riscos. Tudo bem que a intenção não era fazer uma revisão extensa sobre o tema, porém, para um leigo que leia o texto, pode parecer que essa tecnologia só tem benefícios a oferecer.
    Você só deixou claro que a tecnologia não é completamente segura no seu comentário em resposta ao Érico. Isso não está claro no texto, onde você afirma “é um argumento a favor da pesquisa e do domínio nacionais nesta área, conduzidos por universidades e empresas de pesquisa agrícola, tornando o conhecimento gerado um patrimônio do povo e permitindo inclusive a criação de empresas nacionais usando tecnologia gerada no país”.
    Ps.: Quando eu escrevi o meu comentário eu não tinha visto nenhum dos comentários anteriores, pois a janela estava aberta há muito tempo.

  6. Clarissa,
    Concordo com você que a tecnologia ainda não é completamente segura, entre outras coisas devido à possibilidade de escape gênico, principalmente em regiões onde haja espécies selvagens dos mesmos gêneros das espécies modificadas. Discordo, porém, quando você diz ser irresponsabilidade minha não abordar os possíveis perigos. Primeiro, este post não se pretendeu uma revisão exaustiva do assunto, nem esse é o espaço para isso; segundo, o que eu quis foi mostrar o potencial da transgenia sem em momento algum dizer que a tecnologia era sem riscos, inclusive sugiro que a pesquisa nesta área realizada por instituições públicas de pesquisa poderiam torná-la mais segura, o que não precisaria ser dito se eu achasse que já havia segurança suficiente.

  7. Clarissa disse:

    Oi, Erico, obrigada!
    Com o google acabei lendo o editorial e estou no artigo original.
    Faz a gente pensar sobre a nossa alimentação, não? Hoje em dia temos que nos preocupar com agroquímicos, fitoestrógenos e os outros disruptores endócrinos… e agora pensar no potencial de outras substâncias nos alimentos que consumimos poderem induzir doenças neurodegenerativas.
    Vivemos mais, mas entramos em contato com um maior número de substancias diferentes… temos estilos de vida pouco saudáveis. Acho que a parte privilegiada da população mundial (nós) come mal e come demais.

  8. Érico disse:

    Clarissa, o paper original é “Peripherally Applied Aβ-Containing Inoculates Induce Cerebral β-Amyloidosis”
    Abraço.

  9. Clarissa disse:

    Nossa, essa indicação do “Prion-Like Behavior of Amyloid-β”, eu preciso ler!

  10. Clarissa disse:

    Não há dúvidas que a manipulação genética trouxe grandes benefícios e possui um grande potencial. Você tem razão em dizer que precisamos elevar o nível do debate para além do dogmatismo ou de argumentos ideológicos.
    Porém, limitar a discussão aos benefícios da transgenia é irresponsável e se encaixa dentro da atitude arraigada de que podemos usar os recursos da natureza “ao nosso bel prazer”.
    Creio que não são suficientemente discutidos quais são ou serão os mecanismos de controle e a limitação de onde as culturas transgênicas serão cultivadas e como evitar a hibridização com as populações nativas. A perda de diversidade genética por hibridização ou escape dos ‘transgenes’ para as populações naturais, com surgimento de novas pragas agrícolas ou a extinção de espécies ou linhagens raras na natureza, e os efeitos imprevisíveis em espécies de invertebrados não-alvo (ex.: envenenamento de espécies que não são pestes e o aumento populacional de espécies que não eram pestes, mas ocupam o nicho vago) são perigos reais e documentados.
    Concordo que a tecnologia pode trazer benefícios, mas considero essa tecnologia ainda pouco segura para os ecossistemas naturais.
    E sobre artigos científicos:
    http://www.plantphysiol.org/cgi/content/full/125/4/1543
    http://www.sciencemag.org/cgi/content/abstract/science.1187881

  11. Professor Mário,
    Fico feliz ao descobrir que você continua nos lendo. Muito relevante sua ressalva acerca da palma, pela qual agradeço e tomo a liberdade de incluir no texto. Agradeço ainda mais a indicação da leitura do blog para seus alunos, esperamos poder contribuir para elevar um pouco o nível da discussão e promover o pensamento crítico, não dogmático.

  12. Caro Érico,
    Obrigado pela indicação dos artigos. Em meu texto não fiz uma defesa dos produtos transgênicos atuais per se. Penso que fiz uma defesa da necessidade de não cedermos às sugestões de ideólogos de visão curta e de continuarmos com as pesquisas, principalmente por órgãos públicos, da transgenia, inclusive para que possamos torná-la uma tecnologia mais segura.

  13. Mario Lira Junior disse:

    Caro Ítalo,
    Correndo o risco de ficar na turma do eu também, concordo com sua posição sobre os transgênicos, que em certa medida é o que tenho tentado passar a meus alunos. Assim, eu vou postar um link para que eles tenham uma chance mais fácil de encontrar o seu material.
    Apenas uma ressalva, a palma, seja de qual espécie for, tem na realidade teores muito bons de carboidratos de alta disponibilidade e proteína, considerando a base matéria seca. O problema é que o teor de matéria seca é muito baixo. Este baixo teor de umidade reduz a capacidade de ingestão da palma, e pode levar a problemas de falta de fibra na alimentação de ruminantes. No entanto, é relativamente fácil fornecer fibras a bovinos, se alguma gramínea for conservada, como capim elefante velho…
    De qualquer modo, este é apenas um comentário de nordestino, e de quem conhece a pesquisa na palma mais ou menos de perto, e apenas para informação geral, sem nenhuma relação mais direta com seu tema…
    Novamente meus parabéns.

  14. Érico disse:

    Interessante vc ter tocado neste assunto.
    Como conhecedor de biologia celular e também leitor de papers, meu ponto de vista sempre foi parecido com o teu. A transgenia parece segura, inclusive é um evento relativamente comum na natureza e pode ser um dos fatores importantes da evolução das espécies.
    Um paper publicado este mês na PLoS Genetics, porém, me trouxe grandes dúvidas sobre o tema. O título do paper é “Amyloid-Like Protein Inclusions in Tobacco Transgenic Plants”. Isso me chamou a atenção imediatamente, pq pode trazer consequências também para a segurança de consumo dos alimentos transgênicos. Para piorar, algo que há algum tempo suspeitava, foi publicado esta semana na Science: “Prion-Like Behavior of Amyloid-β”. São dois papers que se complementam, e apimentam a discussão sobre transgênicos.
    Claro que ainda precisam de mais estudos. Precisa ainda estabelecer se essas placas Amilóides também são características de outros produtos transgênicos. E se o consumo deles pode aumentar a incidência de acúmulo das placas nos animais que consumiram os alimentos. Eu aposto que sim. Mas esperemos novos estudos.

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