Fazendas Verticais, uma proposta plausível

Acabei de ler “The Vertical Farm – Feeding the World in the 21st Century“, livro seminal do microbiologista da Columbia University Dr. Dickson Despommier, o qual se propõe a divulgar para o mundo a ideia de que a agricultura em ambiente controlado feita dentro de edifícios localizados nas áreas urbanas resolveria muitos dos problemas ambientais gerados pela agricultura e ainda garantiria um suprimento adequado de comida de qualidade para uma população crescente.Problemas prementes como perdas pós-colheita, erosão, poluição por agroquímicos, desmatamento, disposição de resíduos urbanos, revitalização de áreas urbanas marginais, seriam todos grandemente melhorados, segundo a proposta de Despommier, pela adoção em larga escala das Fazendas Verticais. Por mais cético que eu seja em relação a soluções miraculosas, acho que a ideia das Fazendas Verticais deve ser seriamente avaliada.

Há quatro anos sou responsável pela Área de Pesquisa em Cultivo Protegido da Embrapa Hortaliças e apesar de minha falta de entusiasmo inicial por esse sistema de produção, as informações coligidas e os dados gerados nesse período, além da observação de numerosos empreendimentos por todo o Brasil, convenceram-me do grande potencial da agricultura em ambiente protegido – potencial de aumento de produtividade, de redução no uso de agrotóxicos e de aumento na eficiência no uso de insumos, principalmente água e fertilizantes. Apesar de ter feito um doutorado em Ciência do Solo e ser um entusiasta da área, convenci-me, antes mesmo de ler o livro de Despommier, que o cultivo sem solo pode livrar a prática agrícola de problemas de difícil resolução, além de aumentar muito a eficiência na aquisição e no uso de nutrientes pelas plantas. Enfim, a experiência profissional provavelmente me predispôs a aceitar a plausibilidade das Fazendas Verticais, e agora com grande entusiasmo.

O livro “The Vertical Farm” não deve ser lido esperando-se detalhes mecanísticos ou funcionais, não é um manual de como se construir uma estufa ou uma fazenda vertical. Na verdade, o livro é às vezes exasperantemente superficial, mas o próprio autor adverte quanto a isso ao afirmar que boa parte dos tópicos é tratada com a profundidade de um resumo executivo. Esta é, no entanto, uma obra seminal, preocupada muito mais em lançar as ideias, esperando que germinem e que outros melhor preparados tecnicamente as cultivem, preocupem-se com os detalhes. E como defesa de uma ideia o livro é magistral. Embora com generalizações questionáveis, Despommier delineia com muita habilidade a história da agricultura dos primórdios até nossos dias num texto além de agradável, informativo.

A agricultura, ao juntar os homens, permitiu o surgimento das cidades. A oferta confiável de comida, inclusive excedendo o imediatamente necessário, fez possível os artesãos e os artistas, dividindo os que produziam comida e os outros. Os outros criaram uma cultura urbana artificialmente distinta da cultura rural e dela separada. A separação e o estranhamento foram em grande parte  a causa de boa parte dos problemas ambientais dos séculos recentes. O cultivo em ambiente controlado pode desfazer este cisma milenar e, após doze mil anos, reunir a cultura agrária à cultura urbana, num parto ao contrário, reinventando ambas no processo. Essa é minha leitura.

Alguns detalhes técnicos da proposta terão que ser exaustivamente pensados e a experiência de indivíduos, empresas e instituições que trabalham com cultivo protegido deve ser ativamente buscada sob risco de insucesso ou de caminhos tortuosos. Gostaria de dar minha contribuição ao tema e discutirei aqui em posts futuros alguns temas superficialmente abordados no livro mas de importância prática crucial. O conceito das Fazendas Verticais, na primeira exposição, parece mirabolante e irrealista. Não é. O conhecimento existe, os antecedentes já existem, a necessidade existe. O mundo problemático em que vivemos precisa de ideias fora do esquadro, do antes nunca pensado. Navegar é preciso.

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Discussão - 1 comentário

  1. Glenn disse:

    Saudações, Italo, tudo certo?
    Fazia muito tempo que não lia o geófagos e achei muito importante esse tópico ser trazido pro blógue.
    Tenho grande interesse em agricultura não convencional e a grande problemática do desperdício, assim como na evolução humana, então não podia deixar de dar o meu pitaco.
    Das técnicas mais interessantes de produção local de alimentos (com diversidade e não gastando tantos recursos, isso quando não os regenera) são a aquaponia e os sistemas agroflorestais.
    O primeiro é o uso de um sistema híbrido entre aquicultura e hidroponia, onde um aproveita os excessos do outro. O segundo é uma mimetização de florestas plantadas a partir do zero, e imitando a sucessão ecológica.

    Quanto a cultura urbana, ela se potencializa principalmente pós-industrialização, muitos séculos depois do advento da agricultura. Os antropólogos até falam em ‘destruição do núcleo familiar’ causado pela revolução industrial e do afastamento do homem em relação a terra…

    Em sampa, por exemplo há exemplos excelentes de Agricultura urbana e periurbana (APU), onde muitos agricultores ainda ganham o sustento da terra, mesmo na maior metrópole do país. A produção daqui se dá principalmente nas duas áreas de proteção ambiental (APAs) que são Unidades de Conservação que servem pra amortecer o impacto da cidade sobre o Parque da Serra do Mar, que tem um de seus pedaços no extremo da zona sul de sampa. Por estarem em áreas de manancial são obrigados a não usar insumos sintéticos potencialmente poluentes.

    Aqui, como já em vários outros lugares, o desmembramento da cisma secular (e não milenar) das culturas rural e urbana (que está mais prum artifício cultural) está em curso.

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