Notas de Um Brasil Profundo

Este ensaio, embora não tão profundo como o Brasil, ou nada profundo, me foi inspirado por três pessoas importantes ao Geófagos, Ítalo, Manuel e Sibele. Foi a partir de seus comentários em alguns textos meus que fiquei “ruminando” estas coisas.
Nas minhas últimas andanças, ou peregrinações, tive a oportunidade de ver alguns lugares que eu ainda não conhecia desse Brasilão Imenso e rever outros por onde passei faz tempo. Mas a impressão é sempre a mesma: o Brasil é muito mal utilizado e muito mal administrado. Todo mundo sabe disso, né? Mas, enfim… Como o texto ficaria muito grande, resolvi fazer um comentário rápido contendo minha impressão sobre cada ambiente por onde passei (nada científico ou estatístico), são apenas impressões, que podem sim virar textos mais elaborados depois.
Na região do Médio Araguaia, nas redondezas de Conceição do Araguaia, no Pará, onde fui faz um tempo, o problema relacionava-se, previsivelmente, ao mal uso das pastagens, correndo o risco de se tornarem áreas degradas, à semelhança do Médio Rio Doce (deste falarei mais adiante). Lembro-me que certa vez um produtor rural, cliente da Emater MG no município onde eu trabalhava, discutia comigo estas questões da degradação das pastagens e das dificuldades que ele enfrentava. Num dado momento da conversa ele disse que sua solução era, talvez, ir embora para “o norte” (Tocantins, Pará, etc.), como muitos estavam fazendo. Foi quando eu disse a ele, em tom de seminarista para não ofendê-lo, que se muitos de nós fôssemos para o norte, mas não mudássemos nossos hábitos com o uso das terras, nós iríamos transferir os problemas de um lugar para o outro. Ele concordou comigo (e continuou meu amigo e cliente da Emater).
No Planalto Central, observei áreas de veredas com acesso direto do gado, bem como extensas plantações chegando à borda das áreas alagadas. O Código Florestal proíbe isso. Mas, infelizmente, no Brasil há uma distância muito grande entre o que prevê a legislação e o que se encontra na prática. Considero o agronegócio importante, pois precisamos usar, com racionalidade, os recursos naturais de que dispomos. E eis aí a Extensão Rural fazendo falta! Em cultivos extensivos, de milhares de hectares, deve-se prescindir de explorar estas áreas de reservas, que estão previstas em lei (embora não sejam fiscalizadas). Diferentemente da Zona da Mata Mineira, a seguir.
No Domínio dos Mares de Morros, principalmente na Zona da Mata Mineira, se a legislação e o código florestal forem aplicados à risca, nós vamos expulsar os pequenos e médios produtores de suas terras. Entre outros “problemas ambientais”, suas áreas cultiváveis estão praticamente restritas aos terraços que em grande parte, naquela área e conforme a lei, deveriam estar preservados com a vegetação nativa que margeia as coleções de água. Portanto, na Zona da Mata a coisa é um pouco mais complicada. Nós não podemos simplesmente, pela letra fria da lei, tirar essa gente de suas terras (ou as terras dessa gente, o que é mais comum, infelizmente). É preciso conciliar a manutenção dessa população em suas propriedades, mas de forma digna, observando critérios sócio-econômicos, ambientais e critérios técnicos de manejo e conservação do solo e da água. O que é perfeitamente possível. Eis aí a Extensão Rural fazendo falta de novo!
No Médio Rio Doce, a pecuária extensiva, entre outras atividades, pelo uso constante do fogo como técnica de manejo de pastagens e outros métodos inadequados de uso e manejo do solo, promoveram os altos índices de degradação que encontramos por lá. Em geral são Argissolos Eutróficos muito degradados. Em determinados locais os índices de degradação, considerados alto e muito alto, ultrapassam 80% destas áreas. Estes dados são de minha dissertação de mestrado (disponível em pdf na página da Biblioteca da UFV). O problema, embora possível de ser solucionado com tecnologias relativamente simples, é grave, e dada sua extensão, demanda um maior volume de recursos financeiros. Boas opções, neste caso, são a recuperação das pastagens nas áreas baixas e o cultivo de espécies florestais nas áreas mais declivosas. Aqui, mais que nos outros ambientes considerados, é preciso utilizar, de forma mais intensiva e em conjunto, as práticas mecânicas e vegetativas de controle da erosão hídrica e recuperação de áreas degradadas.
Na transição da Mata Atlântica para a Caatinga, entre Minas Gerais e Bahia, no Médio Jequitinhonha, encontra-se uma razoável diversificação de uso dos solos, com culturas anuais, culturas perenes e pastagens. Embora se trate de uma área aparentemente um pouco menos degradada do que o Médio Rio Doce (por menor precipitação e tipo de solo?), as práticas inadequadas de uso e manejo do solo são uma constante. Mas neste caso a adequação dessas práticas aos critérios técnicos e a recuperação de suas áreas degradadas, aparentemente, demandam menor tempo e menor volume de capital do que no Médio Rio Doce.
Na região da Caatinga, trata-se do óbvio, é preciso incentivar o uso de alternativas adaptadas às condições edafoclimáticas (solo e clima) da região. Para esta área, bem como para a Zona da Mata, Médio Rio Doce e Jequitinhonha (e outros específicos), imagino um programa para pequenos, médios e grandes produtores rurais, que contemple cursos de qualificação e requalificação profissional, em administração rural e atividades diversas. Com assistência técnica presente, recursos de crédito faciliatado e incentivos fiscais. Mas tal programa deve vislumbrar um momento em que os produtores não sejam mais altamente dependentes destes incentivos. É o paradigma do extensionista: o ótimo de desempenho de suas funções é o momento em que seus clientes não precisem mais dele.
Mas esta é apenas uma proposta de um (ex-) extensionista agropecuário. Passível de críticas e sugestões.

Nota de Rodapé (6)

Prezados,
Minha avaliação do imbróglio de Honduras continua a mesma. Espero que a Democracia saia ilesa de lá. Embora eu não acredite que isso vá acontecer, devido a pressões várias, principalmente aquelas orquestradas pela Alba.
Resolvi, por minha própria conta e risco, substituir por esta nota o post que aqui havia colocado tratando do assunto. Ele fugia um tanto dos propósitos do blog.
Se eventualmente alguém se interessar, pode pedi-lo por e-mail: [email protected]
PS. Meus sinceros agradecimentos aos comentários de João Carlos; Roberto Takata e Gabsz.

Manifesto Geofágico

(Porque o Geófagos, além de livre, também é cultura! Você pode até pensar que endoidamos, mas não há de dizer que mentimos!).
Só a Geofagia nos une. Biologicamente. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
À diferença, ou à semelhança – como queiram – do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, pregamos aqui A LIBERTAÇÃO DA CIÊNCIA e da Verdade Geofágica.
Contra todas as amarras. Puristas, elitistas, idiomáticas, norte-americanistas, imperialistas, Inquisitórias, religiosas, eclesiásticas, moralistas, socialistas, comunistas, capitalistas, obscurantistas, maniqueístas, neo-medievalistas, egoístas, individualistas, populistas, conformistas…
A favor da Geofagia, pois todos os seres vivos são Geófagos. Em maior ou menor grau, direta- ou indiretamente, todos o são! E contra isso não há o que se possa fazer. Ninguém vive do éter! O sujeito, que é o dono do verbo, sobrevive porque pega mata e come!
Sob o Sol, tudo emana da Terra e em seu seio se curva! Não há como fugir desta lei!
Darwin acabou com o enigma humano e outros sustos da psicologia monoteísta. Alguém tinha de fazê-lo um dia, e Darwin o fez! Grande Darwin! Oráculo do Geófagos, Guru da Geofagia!
E já dizia o Livro do Gênesis (3:19), no tempo dos princípios e dos primórdios, “viestes do pó e ao pó retornarás”! Sentença que o elitismo eclesial da nobreza e a ignorância da plebe impediram de se interpretar à risca.
Mas nós afirmamos categoricamente, sem ardil de retórica: sois pó!
Caulim or not Caulim: that is the question!
Oswald manifestou-se “contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo”.
In vino veritas? Não, Velho Caraíba, nós afirmamos, a verdade está no Solo!
O vinho, a uva, a videira SÃO terra úmida e sol reluzente. O resto é processo.
Ibitinga, tauá, tabatinga, ibirapitanga, pitanga, curumim-cutuba, cunhã-taí, cunhã-porã. São nada mais que processos.
E assim, naturalmente, sem magia ou revolução, O Anátema torna-se O Verbo, assumindo o lugar que é seu por direito, que lhe foi subtraído pelo império dos dogmas, enquanto se mantinham amordaçadas a Ciência e a Verdade, que o Geófagos exige libertas, em nome da razão e do bom senso!
Filhos do Sol e do Solo, não percam seu tempo buscando respostas no céu. Busquem os vestígios dos eventos geotectônicos, olhem para o chão, datem as rochas, os sedimentos, descubram os fósseis. Lá está a verdade.
A saúde de todas as espécies, Senhores Primatas, todas, vegetais e animais e outras, indistintamente, está no equilíbrio dinâmico da natureza – umbilicalmente ligada ao Solo. Lá, mais uma vez, está a verdade. Mas a medicina elitista insiste em ser curativa. Rende mais dividendos. Enquanto isso vamos navegando, de escorbuto em escorbuto, mais ou menos.
Você, Caraíba, e todos nós somos Geófagos. Gregos, Russos e Romanos. Gauleses, Saxões, Otomanos. Árabes, Latinos, Australianos. Ameríndios, Chineses e Africanos. A Geofagia nos une, mesmo que nos separe a Geografia, quando não as guerras e a hipocrisia.
Morte e vida incontestes. “Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência”. Substância. Conhecimento. Geofagia!
O que atropela a verdade é a roupa e a arrogância, “o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior”. A metáfora do homem vestido. Nus somos puros e belos.
Nunca fomos desnudados. O potássio de seus músculos que foi banana que foi feldspato ou mica. O cálcio de seus ossos que foi leite que foi capim que foi mármore que foi calcário que foi carapaça de moluscos no Cretáceo. E você ainda se acha ‘o dono do pedaço’.
Foucault não é suficiente. É na Geofagia que está a construção e a desconstrução do sujeito.
A Geofagia nos constrói e nos destrói na mesma medida!
Sois pó!
Caulim or not Caulim: that is the question!

Enfim, uma chance de começar de novo!

Devo anunciar aos Amigos Geófagos que passei em um concurso público para docente no Instituto Federal de Minas Gerais, Campus de São João Evangelista (antiga Escola Agrotécnica). Para que a coisa se concretize, falta o MEC autorizar a “assinatura do contrato”, pelo que aguardo com uma certa ansiedade.
Enfim, meu currículo foi avaliado naquilo que ele tem de algum valor, o que corresponde, em boa parte, à minha experiência profissional.
A “massa corporal” de meu currículo foi adquirida com muito exercício e suor, e não por efeito anabolizante de papers e outras drogas similares.
Ironicamente, desta vez não fui muito bem na prova didática. Mas o processo de realização do concurso, a meu ver, foi coerente com os seus propósitos. Entre outras coisas, foi atribuído peso 1,5 para a prova didática e peso 1 para as outras avaliações. A prova objetiva foi de questões fechadas (embora eu prefira a prova aberta, dissertativa). Os currículos, de todos, foram avaliados naquilo que tinham a oferecer. Dos nove candidatos, foram classificados sete.
Vou retornar ao exercício da profissão de professor. Coisa de que gosto muito, além da extensão rural. A extensão me permitiu levar conhecimentos e adquirir conhecimentos, foi uma troca justa e muito gratificante, sem contar o prazer de trabalhar com nosso povo, nas pequenas comunidades rurais, nos municípios pequenos. A extensão rural é uma espécie de irmã da docência. O bom professor e o bom extensionista têm muito em comum.
Considero um bom professor aquele que, entre outras coisas, tem noção da importância de seu trabalho, tem responsabilidade e amor à profissão, e não se vê como “educador”, mas sim como um orientador no processo de aquisição de conhecimentos. Porque, geralmente, experiências e conhecimentos nós adquirimos sozinhos, pelo nosso próprio exercício. Facilita muito quando uma alma caridosa nos aponta alguns caminhos.
O bom professor é, enfim, um plantador de boas sementes. E tudo indica que aqui vou eu, mais uma vez, semear minhas sementes enquanto posso.

O Desafio das Idéias e a Ordem Estabelecida: Um Ensaio

É um grande desafio ter idéias próprias, livres – como diz nosso Amigo Ítalo, usando as palavras de Riobaldo: pensar forro! – É complicado pensar forro.
Não vou considerar como “complicador” o fato de que duas ou mais pessoas possam ter, separadamente, as mesmas idéias – chamo a isso de pressão do conhecimento – pois a cada nova descoberta, um conhecimento vai pressionando o outro e as novas idéias surgem, pipocam, quase que ao mesmo tempo, em pessoas diferentes, em lugares diferentes. Foi mais ou menos assim com Darwin e Alfred Wallace; Mendeleiev e Lothar Meyer; Oparin e Haldane; e muitos outros.
Nesta relação de desafios, não vou considerar também o fato que algumas pessoas possuem uma facilidade, uma capacidade inata de raciocínio, de conclusões lógicas dentro de seu universo de conhecimento. Conheço algumas pessoas assim, que não frequentaram a escola formal, mas possuem uma capacidade de raciocínio lógico, contextualização e síntese acima da média geral.
E é bom lembrar ainda que, além dos desafios, quem se propõe a raciocinar, às vezes pode esbarrar no ridículo e chegar a conclusões medíocres. O que é comum e natural, pois isso faz parte do processo, vem com o pacote. O anedotário da ciência e tecnologia está cheio de frases e posturas equivocadas e famosas de alguns gênios destas áreas. Mas esses pequenos equívocos em nada desabonam seus autores.
Os grandes desafios de ter idéias próprias, aos quais quero me referir, são outros. O primeiro deles são os estudos. É preciso exercitar o cérebro para que ele possa funcionar com desenvoltura. O estudo, além de exercitá-lo, fornece um arsenal de informações que são, no fim das contas, a matéria prima de onde surgem as idéias. Estudar demanda disciplina, tempo e descaso com as vaidades humanas. Daí o grande desafio para a maioria das pessoas que não nasceram gênios. O mundo das vaidades é uma tentação quase irresistível, como argumenta, e se justifica para a esposa, um veterinário amigo meu em relação às suas vaidades: “fui pressionado pela mídia!”
O outro desafio, talvez o maior deles, é que as novas idéias podem esbarrar na ordem estabelecida, ir de encontro, bater de frente com o “sistema”, bater de frente com os dogmas e desafiar o senso comum. E isso já rendeu processos, execrações públicas e mortes na Fogueira do Santo Ofício. Para ficar nos exemplos mais famosos, foi assim com Giordano Bruno, Joana D’Arc, Galileu Galilei e Darwin que, se este não enfrentou A Fogueira, suas idéias enfrentaram e ainda enfrentam o Tribunal do Santo Ofício.
O processo de pensar forro é um grande desafio. É mais fácil seguir o rebanho, não importa para onde ele vá. E assim, vejo o mundo caminhando irremediavelmente na direção do que previu o “visionário” George Orwell, no romance 1984, com o seu Big Brother. Sim! É daí que nasceu o Big Brother da holandesa Endemol.
Vejo meus colegas quase desesperados correndo em busca de “publicações e papers“, sendo pressionados por seus orientadores, pelos departamentos, pelas agências de fomento, pelos concursos públicos, pelo “sistema”. Ninguém quer saber de qualidade, nem de maturidade profissional. O que importa é o número. E quanto mais rápido, melhor! Vejo pouca gente criticando esse processo. E essa pouca gente, até onde sei, resume-se ao Geófagos.
A falta de bom senso é tanta que, recentemente, participei de um concurso público para docente de uma universidade federal em que a prova escrita tinha peso 4. A pessoa que passou no concurso não ficou entre os primeiros colocados na prova didática. Não estou querendo dizer que um bom professor não necessite saber escrever bem, ao contrário, mas não estamos selecionando alguém para a Academia de Letras, e sim para professor. Então, se era preciso atribuir peso, deveria ser para a prova didática. É o que me parece óbvio. Fui o segundo colocado na prova didática, mas quando ponderaram a nota do currículo, fui DESCLASSIFICADO. Eu não tinha um “currículo bom” na avaliação deles. Classificaram três pessoas e meu nome nem apareceu na lista. Meus 12 anos de efetivo serviço de docência e extensão rural não serviram para nada, pois são anteriores a cinco anos, a data limite que estabeleceram. Não estou querendo dizer que eu deveria ter sido classificado apenas porque tirei boa nota na prova didática, mas sim que a coisa fosse feita com coerência, razão e bom senso.
Acabei de assistir a um filme chamado Austrália. Falaram muito mal desse filme, por razões de clichês e outras filigranas. É um filme mediano na minha avaliação, mas traz nos diálogos uma frase memorável e forte: “não é porque é assim, que deveria ser assim!” Vejo o mundo caminhando na direção oposta desta consciência. Não vejo nada de bom nisso. Mas posso, talvez, estar equivocado!

Origem dos Murundus: uma questão em aberto!

Os Murundus são geoformas (formas do terreno ou unidades do relevo) encontradas em diversas áreas do território brasileiro, bem como na África (sabendo-se que os da África possuem dimensões muito maiores). Segundo o Dicionário Aurélio, murundu significa montículo, morrote, outeiro. Trata-se de pequenas elevações do terreno, cujo formato tem a semelhança de uma seção esférica ou meia laranja, com variada convexidade, cujas configurações podem variar de arredondadas a elípticas. Geralmente não passam de três metros de altura. A maioria possui menos de dois metros. Segundo alguns autores, sua base pode atingir até 15 metros de diâmetro. Ocorrem de forma abundante em determinadas áreas, formando campos de murundus.
Para quem nunca viu, ou notou, um ambiente desses, o aspecto da área é semelhante àquele que se tem quando se observa à distância uma área de aterros, comuns nas obras de engenharia civil, em que os caminhões depositam suas cargas em uma sequência de vários montículos de terra. A imagem é mais ou menos essa.
A gênese dos murundus é um objeto de discussão na Ciência do Solo, pois ainda não há um consenso a esse respeito. Simplificadamente, a questão é a seguinte:
Alguns autores defendem a origem predominantemente geomorfológica dos murundus, portanto seriam relevos residuais, ou seja, a dissecação (erosão) diferencial do terreno seria a sua principal causa. A erosão diferencial, em linhas gerais, é aquela que, em uma unidade de área, remove preferencialmente determinadas seções da superfície de forma mais acentuada, deixando outras para trás. Ou seja, rebaixa o nível do terreno de forma desigual, deixando alguns “núcleos” que formam os morros da paisagem que vemos.
Outros autores defendem a origem biológica, que seria promovida pela mesofauna, principalmente pelos térmitas (cupins), de forma geralmente cumulativa, um ninho sobre o outro, com alguma contribuição indireta da fauna de predadores desses organismos. Assim, os montículos seriam ninhos abandonados (fósseis) de térmitas, bem como grandes termiteiros ainda ativos que podem ser observados em alguns casos. Ambos oferecendo alguma resistência aos processos erosivos de superfície.
Os defensores da origem geomorfológica argumentam que, em algumas áreas, principalmente nas vertentes de vales, não existem evidências de ação da mesofauna, como canais ou restos da estrutura dos ninhos de térmitas. A morfologia interna dos montículos em tais áreas se assemelha àquela dos Latossolos. Além disso, os murundus tendem a ter uma concordância de topos, isto significa que suas partes mais elevadas têm alturas mais ou menos concordantes, sugerindo uma superfície regular que sofreu erosão diferencial.
Os defensores da origem biológica argumentam que, em muitos casos, principalmente em depressões fechadas, existem evidências da ação biológica da mesofauna, justamente canais e restos da estrutura de termiteiros. O interior desses murundus apresenta uma organização estrutural característica dos ninhos de térmitas. Além do fato de que podemos encontrar montículos com termiteiros ainda ativos. Tais autores apontam, entre outros argumentos contrários à origem geomorfológica, que sob uma dinâmica de erosão diferencial tais elevações deveriam ser, preferencialmente, mais alongadas no sentido da declividade do terreno e aqueles murundus das partes mais elevadas deveriam ser menores do que os das cotas mais baixas, o que não parece ser o caso, principalmente o fato de que a hipótese geomorfológica não explica a ocorrência de murundus em depressões fechadas.
Até prova em contrário, parece-me mais plausível a origem biológica. Pois, mesmo naqueles casos em que não há evidências da ação biológica, onde a estrutura interna dos murundus assemelha-se à dos Latossolos, acredito que não podemos descartar a ação dos térmitas. Neste caso, a ausência de evidência não implica necessariamente em evidência de ausência. O ambiente, favorável à gênese dos Latossolos, pode ter favorecido a latolização daquela unidade do relevo “apagando” as evidências da ação biológica. Neste sentido, seria interessante datar as diversas áreas, observar se há diferenças de idade geológica, diferenças paleoclimáticas, diferenças ou semelhanças na micromorfologia e outras razões que poderiam promover a evolução diferencial de pedogênese entre elas, ou seja, fazendo com que em alguns murundus, mais envelhecidos, não existam mais vestígios da ação biológica. É apenas uma especulação.
Aos interessados, isso dá uma boa tese de doutorado. Embora já existam alguns trabalhos tratando do assunto, a dúvida ainda persiste.

Ciência, Certezas e Equívocos: Nota de Rodapé (5)

A razão desta “nota” é para dizer que é preciso ter muito cuidado coma as “certezas”. Portanto, peço à Comunidade Geófágica que me permita uma explicação, não uma justificativa, para o meu equívoco do texto passado. É sempre possível tirar alguma lição dos fatos, quaisquer que sejam eles.
Naquele texto, errei a cidade de Chicó e João Grilo, personagens da peça Auto da Compadecida. A história se passa em Taperoá, na Paraíba. Mas há uma canção de autoria de Raimundo Fagner, Manera Fru Fru, Manera, do disco O Último Pau de Arara (há duas versões do disco – tenho ambas). Nesta canção, Fagner repete três vezes a frase “é só catimbó e o Chicó tá no Icó“. Nem sei quantas vezes ouvi isso. Daí, mesmo Ariano Suassuna dizendo o contrário, eu tinha “certeza” de que Chicó estava no Icó, e pronto.
Li a peça Auto da Compadecida por ocasião do famigerado vestibular e por recomendação de um Professor que tive. Muito tempo depois, fizeram a minissérie e o filme O Auto da Compadecida. Assisti a ambos. Geralmente, as versões cinematográficas ou televisivas de livros e peças de teatro ficam pobres em relação aos originais. Mas neste caso não. Todos são bons, pois a obra é excelente, com elementos shakespearianos evidentes – Ariano Suassuna sabe das coisas. Enfim: mesmo depois de tudo isso, Chicó continuou no Icó, eu tinha certeza disso. Coisa de cabeça-dura.
Neste sentido, para quem pretende de alguma forma trabalhar com a Ciência, é bom lembrar sempre de que no terreno das certezas, quem costuma reinar imperiosamente são os equívocos. Fica aí um recado aos cabeças-duras, feito eu.

Esse Brasilão Imenso

Cumpri mais uma etapa de minha “Peregrinação” pelo Brasil. Desta vez me bandeei para o lado da Caatinga. É outro mundo. Muito bem descrito por Euclides da Cunha em Os Sertões.
Fui de ônibus, junto ao nosso povo, em um Gontijo “Sertanejo” (N.° 15305), linha de Belo Horizonte – MG a Fortaleza no Ceará. É chão que não acaba mais. Os passageiros, como sempre, são gente humilde e lutadora. Um jovem casal, com três crianças, saiu de Governador Valadares para tentar a vida em Canindé, no Ceará. Um senhor, Seu Francisco, partiu de Belo Horizonte, ia visitar sua mãe em Icó, também no Ceará, a cidade de João Grilo e Chicó, imortalizada pelas mãos e pela cabeça privilegiada de Ariano Suassuna em O Auto da Compadecida.
Durante a viagem, os ambientes foram se sucedendo, das pastagens degradadas do Médio Rio Doce, em Minas Gerais, a uma maior diversidade de uso dos solos na Bahia. A partir de Itaobim, ainda em Minas Gerais, a BR-116 segue cortando uma área de transição entre a Mata Atlântica e a Caatinga. As terras são utilizadas com pastagens, culturas de eucalipto, café, mandioca, e hortaliças nos arredores das cidades (lembrei-me do assunto tratado por nossa colega Flávia, aqui no Geófagos). E assim, à medida que se avança para a Bahia, vai-se lentamente adentrando a Caatinga, na Bahia central, onde se encontram plantações de palma forrageira e muitos leitos secos de rios.
Observei extensas áreas de Murundus (morrotes com mais ou menos um metro a um metro e meio de altura em relação ao nível do terreno). Sua gênese é um objeto de discussão muito interessante, merece um post no Geófagos.
À medida que adentrávamos a Caatinga, fui recordando minha graduação, quando ainda haviam umas disciplinas intituladas Estudos dos Problemas Brasileiros, as tais EPBs. Lembro-me de que se falavam de uns “Projetos de Combate à Seca no Nordeste”, da antiga SUDENE. Na época eu ainda não tinha a maturidade necessária para observar e criticar tal equívoco. Qualquer iniciativa que objetive “o combate à seca” no Nordeste já nasce equivocada. Ninguém combate a seca e sai vitorioso, é uma luta nos moldes de Dom Quixote de La Mancha com seus Moinhos de Vento. Parece que enxergaram o equívoco e mudaram o nome da coisa para “Programa de Convivência Com a Seca”. Aí sim, menos mal! Dá para fazer uma ou outra proposta!
Abrindo um parênteses, em relação aos norte-americanos, o meu antiamericanismo refere-se à sua política externa e ao seu modus vivendi. Mas devemos reconhecer que eles são pragmáticos. Cito como exemplo Las Vegas, onde corre “um rio de dinheiro” em pleno deserto. Foi uma excelente idéia, diga-se. Adequaram uma atividade rentável a uma região desértica, imprópria para a maioria das atividades econômicas.
Não estou propondo, necessariamente, uma Las Vegas para a Caatinga, com uma Boulevard Caatingueira. Até porque as condições climáticas da Caatinga ainda permitem uma série de atividades econômicas, inclusive agropecuárias e alguns usos do solo. O Nordeste não é um deserto. Mesmo assim, todas as atividades que incentivem o turismo são bem vindas.
Além disso, há outras questões fundamentais. Lembro-me de uma excelente crônica do saudoso jornalista Henfil, irmão do Betinho (Herbert de Souza). A crônica tem o título de “Golô”. Nome dado a um retirante nordestino que “morava” em uma praça de Belo Horizonte. Na crônica, em defesa de Golô e seus irmãos, Henfil pede que não mandem donativos para o Nordeste. Mandem, sim, caminhões de advogados. Pois os maiores problemas do Nordeste não serão resolvidos com donativos ou água, mas sim com advogados, toneladas de advogados.
PS. Quem tiver interesse na crônica, pode me pedir por e-mail:
([email protected]).
PS.2 [Errata] A cidade de João Grilo e Chicó é Taperoá, na Paraíba, e não Icó, no Ceará, como afirmei equivocadamente no texto. Esta correção é creditada a um paraibano legítimo, Ítalo Rocha, pessoa muitíssimo cara ao Geófagos. Portanto, peço humildes desculpas à Comunidade Geofágica, ao Ítalo, aos paraibanos e à Ariano Suassuna pelo meu equívoco.
Muita saúde a todos!
Elton.

Luz + Água + Solo = Vida Abundante

(Tocando em frente…)
A vida, como nós a conhecemos, embora detentora de princípios e processos complexos, muitos deles ainda pouco conhecidos, manifesta-se sob uma lógica muito simples, como a expressada pela “equação” título deste texto: Luz + Água + Solo = Vida Abundante.
Nascemos “pisando o solo”. Talvez por isso a humanidade o negligencie tanto. Em uma das muitas e impagáveis canções metafóricas do saudoso Raul Seixas há uma frase em que ele denuncia o que muita gente pensa: “… o chão é o lugar de cuspir” (está na canção “De Cabeça-Pra-Baixo”).
A humanidade tem “cuspido” bastante sobre o solo. No sentido estrito e no sentido lato. O solo e as coleções de água viraram nossos depositários escatológicos.
Como já disse, nascemos “pisando” o solo. A água foi, e ainda é, o primeiro e mais eficiente veículo que encontramos para “levar para longe de nós” os nossos dejetos e coisas indesejáveis, ou que perderam o valor.
A Ciência do Solo, talvez por herança, também padece desse “preconceito”. Há um texto no Geófagos tratando deste assunto. Se não o melhor, pelo menos um dos melhores textos já publicados aqui. É de autoria de nosso Guru Ítalo Rocha. O texto é este: Ciência… do solo? Não deixem de ler!
Voltando à “equação”:
1) Luz: (a) é a energia motriz da fotossíntese, nossa “fábrica de alimentos”; (b) mantém o planeta aquecido em temperaturas amenas, com grande quantidade de água líquida superficial.
2) Água: no estado líquido é o veículo fundamental da vida. É usada em todos os processos, reações e mecanismos de construção e desconstrução dos seres vivos.
3) Solo: (a) todos os seres vivos dependem do solo, direta- ou indiretamente; (b) permitiu que a vida alcançasse a sua maior variabilidade possível em todos os continentes e ecossistemas.
Vejam que, garantidas estas três coisas, luz, água e solo, temos tudo o que necessitamos para sobreviver, como espécime e como espécie. O resto é conforto, ganância e ilusão. Não necessariamente nesta ordem.
A humanidade e a civilização tiveram grandes saltos evolutivos, que possibilitaram a ocupação de todo o Globo Terrestre. Como resultado disso, podemos dizer que “hoje” temos uma vida boa, como nunca havíamos experimentado antes.
Mas, ao longo desse caminho nós nos perdemos, de forma imperdoável, acumulando “riquezas”, explorando a natureza de forma predatória e nos distraindo “buscando” entidades religiosas, místicas e mitológicas que não nos acrescentaram nada de pragmático. Tudo isso de forma irracional. O Sol, pelo menos, já teve seus dias de Divindade. A Terra também, nas culturas Celta e Grega. Mas só teremos, realmente, o direito de nos considerarmos civilizados, no dia em que todo ser humano entender e respeitar o Sol, a Água e o Solo como se estes fossem uma espécie de Santíssima Trindade, genitora dos filhos de Gaia, Geófagos por excelência.
Evidentemente, e por razões óbvias, não estou pregando aqui que essa Trindade se torne objeto de culto e adoração religiosa. É claro que não, ora pois, pois! Quero lembrar apenas que a vida é modesta em suas exigências. O quanto o Sol, a Água e o Solo merecem ser reconhecidos e respeitados por sua importância nesse processo. E o chão, enfim, deixe de ser um lugar de cuspir.

Somos Todos Africanos!

A Ciência tem dito há muito tempo que todos nós viemos da África. Mas um estudo da Universidade da Pensilvânia, liderado pela pesquisadora Sarah Tishkoff, publicado recentemente pela Science, anunciado em diversos veículos de comunicação, inclusive no Brasil (Folha de São Paulo e Revista Veja – edição 2112, por exemplo), e já um tanto badalado aqui na internet, joga mais luz sobre a origem do homem moderno.
Em estudos de diversidade genética dos vegetais, cultivados ou não, considera-se como centro de origem de determinada espécie o local do globo onde ela apresenta a maior diversidade genética. Foi exatamente isso que os pesquisadores do referido estudo fizeram. Identificaram na África o local onde se encontra a maior diversidade genética entre nossos irmãos. Fica numa região entre a Angola e a Namíbia.
Para a espécie humana, há outro fator importante que reforça os resultados genéticos. A afinidade linguística e cultural.
Assim sendo, o Jardim do Éden fica mais próximo dos brasileiros do que poderíamos imaginar. Angola e Namíbia são países banhados pelo Oceano Atlântico, logo ali na frente. Um grande contingente de africanos daquela região veio (foi trazido) para o Brasil nos tempos da Colônia. Mais que isso, a Ciência tem dito há muito tempo que todos nós somos descendentes dos africanos – europeus, caucasianos, asiáticos, esquimós, australianos, ameríndios, todos, indistintamente.
Eu, que sempre digo ser descendente “por afinidade” dos índios Botocudos e Malalis, tenho motivos para comemorar.
Saúde a todos!

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