Qualidade do Solo, áreas afins e respostas de pouca aplicabilidade

Em um texto anterior falei sobre Qualidade do Solo e as formas de abordá-la. Neste, gostaria de discutir dois aspectos – as áreas afins e as respostas de pouca aplicabilidade – que tem permeado alguns estudos, não só nesta linha de pesquisa, mas em outras da Ciência do Solo.
Estudos sobre Qualidade do Solo naturalmente forçam quem os conduz a agrupar avaliações químicas, físicas e biológicas, o que faz com que interajam pessoas que trabalham com Fertilidade, Física e Microbiologia, além de Manejo e Conservação, só para falar do básico, sem considerar especialidades. No entanto, todas essas são subáreas da Ciência do Solo, que é uma das áreas da Agronomia. Em geral, os cientistas/pesquisadores envolvidos são agrônomos com pós-graduação em Ciência do Solo. Eles estudaram o solo profundamente, debruçaram-se sobre livros de Gênese e Pedologia, Química e Mineralogia, entenderam não só o que é o sistema solo, mas também como ele funciona. Não que saibam tudo – obviamente não – mas tiveram acesso aos conhecimentos que subsidiam sua busca científica e criaram em suas mentes um verdadeiro “banco de dados” sobre o assunto. Além disso, conhecem o ciclo do solo dentro da roda da vida e sabem seu papel na manutenção do verde que se respira e do verde que se come. Mais que isso tudo, e tão importante quanto, suponho que amem o assunto. Por quê? Porque para estudar a fundo alguma coisa é preciso amá-la, é preciso considerá-la uma parte da sua busca como pessoa (que vive neste mundo) e como profissional (que pode contribuir para este mundo).
Nas universidades e instituições de pesquisa muitas pessoas de áreas afins tem se arvorado a trabalhar com solo sem sequer ouvir a opinião daqueles que verdadeiramente praticam “A” Ciência do Solo – área da Agronomia. Tenho visto e ouvido coisas assustadoras, escritas e ditas por pessoas de áreas afins. Algo que posso citar como exemplo do que me tem chocado é a falta da informação sobre a classe de solo (Isto mesmo!!!). Como é possível confiar em comparações, ou considerá-las no mínimo dignas de leitura, se sequer a classe do solo é citada? (se vocês leram o texto anterior viram que a comparação é um fundamento de trabalho em Qualidade do Solo). Como podemos afirmar que a qualidade do solo sob o manejo A é melhor do que a qualidade do solo sob o manejo B, se não sabemos sequer se a classe de solo é a mesma nas duas áreas? E o solo da área de referência, é o mesmo? Uma vez ouvi um absurdo de um desses pára-quedistas que era meu superior hierárquico e a quem eu deveria supostamente obedecer: eu disse que era preciso buscar uma nova área para a nossa referência, pois havia constatado que a classe de solo era diferente daquela onde estavam os tratamentos (os tratamentos eram sistemas de manejo e a referência era uma área de mata nativa, todos na mesma propriedade) e ouvi que isto não era necessário porque bastava que a textura fosse a mesma. Não. Não basta que a textura seja a mesma, ela é só um atributo do solo entre as dezenas que estudamos para classificá-lo. Além disso, para o trabalho em questão, outros atributos poderiam influenciar as variáveis que seriam avaliadas até muito mais que a textura. Para piorar, nem a textura havia sido avaliada, então que estória é essa de “se a textura for a mesma”? Não preciso dizer que busquei sim a nova área para a testemunha e que depois de um tempo busquei também outros ares…
Outro ponto que quero discutir é a utilidade de um Índice de Qualidade do Solo que, a meu ver, reside principalmente na possibilidade de se avaliar a sustentabilidade de determinado uso ou manejo. Não vejo utilidade prática em se dizer, por exemplo, que o cultivo do solo degradou sua qualidade quando comparado a uma área ainda sob vegetação nativa. É claro que ao se retirar a vegetação nativa um desequilíbrio é provocado no sistema e a tendência é que a qualidade do solo diminua, principalmente se a área nativa em questão for uma mata (a principal fonte de adição de matéria orgânica – a vegetação – foi retirada, a ciclagem de nutrientes não mais existe de forma efetiva, houve revolvimento, etc.). No entanto, para que serve esta informação? Ao mesmo tempo, acho utópico desejar que a qualidade do solo em uma área cultivada volte aos patamares da qualidade do solo em uma área de vegetação nativa – isto se a área em questão foi mata antes, porque caso tenha sido um campo sujo, a qualidade do solo pode até melhorar com um manejo adequado. Não estou pregando a incorporação de novas áreas sob Cerrado à agricultura! Ninguém destorça, por favor! Só estou querendo mostrar que qualidade é um conceito extremamente relativo.
Quanto mais um sistema de cultivo ou manejo respeita os atributos químicos, físicos e biológicos do solo, de forma a mantê-los ou até mesmo melhorá-los, melhor será a qualidade do solo e, portanto, maior é o potencial de sustentabilidade. A agricultura orgânica, por exemplo, preconiza a qualidade do solo como um de seus pilares – se consegue ou não mantê-la ou melhorá-la é uma questão que não cabe neste post, mas que, com certeza, só pode ser respondida com estudos sérios e bem conduzidos.
Em suma, creio que é preciso avaliar a qualidade do solo em diferentes condições e diferentes sistemas, para que se possam propor soluções para seu uso sustentável. No entanto, este objetivo não será alcançado com trabalhos realizados sem o devido conhecimento sobre Ciência do Solo (e sem o devido respeito a esta Ciência). Também não acredito na realização de trabalhos que visam apenas somar “mais um” a uma literatura que acaba servindo para aumentar currículos, mas que, no fundo, não contribui como deveria para equacionar a complicada equação produção de alimentos x preservação do solo.

Apêndice (1)

Caros, o texto abaixo é a resposta que escrevi a um comentário da nossa leitora Sibele sobre o post A Terra e seu Destino. Em seu comentário, Sibele nos enviou um trecho de texto maravilhoso chamado A Natureza e as Cidades, que confirmou meu sentimento de que… bom, vocês lerão.
Eu resolvi colocá-lo também como post porque quis que alcançasse outras pessoas (nem todos lêem os comentários). Além disso, acrescentei algo no finalzinho. Segue o dito:
“Nunca fui Polyana. Aliás, me deram o livro quando criança e só consegui ler as primeiras páginas. Achei chato e bobo. Mas sou otimista porque sei a Natureza da Vida. E sei de sabido, não de ensinado. Sinto (e sei) que há algo de muito bom emergindo por aí. Este algo não tem nome nem forma, mas é profundamente são e é este algo que vai dar mais plenitude à Vida. Primeiro, cada um desperta do seu próprio jeito, depois espalha por aí com seus próprios gestos o que aprendeu e, com isso, se desperta o mundo… aos poucos… de um sono profundo de tempos imemoriais. Esse despertar é inevitável. Bastará ter paciência e fazer a parte que cabe a cada qual. Voltando ao “Terra e seu Destino” e ao “A Natureza e as Cidades”, faço algumas perguntas, que farão companhia à pergunta final do último: o que é transitório e o que é permanente? com o que nos preocupamos no dia a dia – será com o permanente ou será com o transitório? a terra é permanente e exibe em sua essência a mesma essência que nos anima. Assim, somos também permanentes, mas a que parte nossa damos mais valor? será a transitória? ou será a permanente?”
Obs.: Sou recente no Geófagos e talvez destoe um pouco (às vezes), mas enquanto não incomodar meus colegas, vou “indo”…

A terra e seu destino

Uma das coisas que mais me deixam feliz em escrever aqui é o amor que todos nós, geófagos, temos pelo solo. Acredito já ter expressado esta minha paixão (não! Paixão é passageira, amor é duradouro), corrijo, este meu amor pelo solo no meu primeiro post – O solo é a mãe de todas as coisas. Mas confesso que com o Manisfesto Geofágico do Elton, onde ele também expressa o que vai por dentro dele, a vontade voltou e a inspiração também.
Muitas vezes dou palestras sobre “Manejo do solo na produção agrícola”, ou temas afins, para estudantes de Agronomia e sempre começo com a pergunta: “O que é Solo?”. Os alunos, em geral, ficam meio perplexos com a aparente simplicidade e a falta de resposta a tal pergunta. E eu a faço justamente para que eles parem por alguns segundos e se lembrem que a terra está bem ali, aos nossos pés, e que, mesmo assim (talvez por isso mesmo) nos passa despercebida, seguindo seu destino de provedora. Da vez mais recente, um deles respondeu: “Sistema trifásico que sustenta a Vida” – resposta decorada das aulas de Solos, dada com uma frieza tão glacial que me entristeceu, e composta de duas partes: a primeira, mecanicista (sistema trifásico) e a segunda, poética (que sustenta a Vida). Ambas verdadeiras, mas confesso que é pela segunda que sou pega.
No ano passado, quando começou uma grande (elas são sempre grandes!) obra de anel viário perto do meu trabalho, algo me fez pensar sobre a terra e seu destino. Ela, a terra, estava disposta em enormes montes, esperando para ser jogada em caçambas de caminhões e ir cumprir a função de tapa-buracos (literalmente) em algum outro lugar… Há a terra que nasce para gerar o alimento que vai para as mesas continuar a Vida; há a terra que nasce para ser jogada num caminhão e tapar buracos que darão lugar a viadutos e anéis viários ou, ainda, para dar espaço a fundações de prédios onde morarão centenas de pessoas… Destinos mais nobres que outros? Não sei, é difícil julgar o que é nobre. Como disse Carlos Drummond de Andrade em A Verdade Dividida, cada um opta conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
A mensagem que quero deixar é que, qualquer que seja o destino da terra, é preciso traçá-lo com cuidado porque a terra é a pele do Planeta Terra – a Geoderma. Seja para o plantio e o cultivo do alimento que chega às nossas mesas, seja para dar lugar a obras da engenharia, nós traçamos seu destino… Mas só enquanto ela traça, maternalmente, o nosso.
PS: para os que quiserem ler A Verdade Dividida clicar aqui

Referências sobre Agricultura Urbana

Caros,
Sigo a sugestão da nossa leitora Sibele e publico algumas referências sobre Agricultura Urbana aqui. Abraços fraternos a todos!
Literatura sugerida
ALTIERI, A.A.; COMPANIONI, N.; CANIZARES, K.; MURPHY, C.; ROSSET, P.; BOURQUE, M.; NICHOLS, C.I. 1999. The greening of the “barrios”: urban agriculture for food security in Cuba. Agriculture and Human Values, 16: 131-141.
FAO, 1999. Issues in Urban Agriculture. Disponível em: http://www.fao.org/ag/magazine/9901sp2.htm
GOCKOWSKI, J.; MBAZO’O, J.; MBAH, G.; MOULENDE, T.F. 2003. African traditional leafy vegetables and the urban and peri-urban poor. Food Policy, 28: 221-235.
LADO, C. 1990. Informal Urban Agriculture in Nairobi, Kenya. Land Use Policy, 7: 257-266.
MAXWELL, D.G. 1995. Alternative food security strategy: a household analysis of urban agriculture in Kampala. World Development, 23: 1669-1681.
MAY, J.; ROGERSON, C.M. 1995. Poverty and sustainability cities in South Africa: the role of urban cultivation. Habitat International, 19: 165-181.
GOVERNO DE MINAS GERAIS. s.d. Programa Minas sem Fome. Disponível em: www.fomezero.gov.br/dowload/folder_alta.pdf
SEMAB. s.d. Políticas públicas e suas intervenções a nível municipal em agricultura urbana na cidade de Teresina – PI, Brasil. Disponível em: www.ipes.arcoinfo.org
CASTELO BRANCO, M.; ALCÂNTARA, F.A.; MELO, P.E. (eds.) Hortas Comunitárias vol. I – O Projeto Horta Urbana de Santo Antônio do Descoberto. Brasília: Embrapa Hortaliças. 160p. 2007.
CASTELO BRANCO, M.; ALCÂNTARA, F.A. (eds.) Hortas Comunitárias vol. II – Os Projetos Horta Urbana de Teresina e Hortas Peri-urbanas de Novo Gama e Abadia de Goiás. Brasília: Embrapa Hortaliças. 122p. 2008.

Agricultura Urbana – Parte I

Hoje vou escrever sobre Agricultura Urbana para dar um rápido histórico, mas com a intenção de falar mais sobre o assunto em futuros textos aqui no Geófagos. Vocês já ouviram alguma coisa sobre este tipo de agricultura? Quem respondeu sim, por favor deixe comentários… Eu gostaria muito de saber o alcance que o assunto já tem (agradeço de antemão!).
Adianto que alguns podem confundi-la com a produção de hortaliças, frutas, ervas aromáticas e medicinais nos quintais das casas, como nossas avós faziam no passado (ainda fazem, principalmente no interior) e como alguns fazem hoje nas varandas de seus apartamentos. Inclusive, há hoje uma grande curiosidade por parte da população de grandes centros sobre como produzir alimentos em pequenos espaços dentro das casas ou apartamentos. No entanto, isto se refere a uma camada da população com maior escolaridade e boa qualidade de vida (leia-se: boas condições de saúde, educação etc.), enquanto a Agricultura Urbana carrega em si um caráter sócio-econômico muito forte e está associada à precariedade do atendimento de uma necessidade básica (leia-se: acesso ao alimento).
Muitos já a definiram usando critérios como o destino que se dá aos produtos ou o sistema de produção adotado. No entanto, de maneira bem simples, podemos defini-la como a produção agrícola dentro da cidades. Há, ainda, a agricultura peri-urbana, praticada no entorno das cidades, mas não vou fazer diferença entre as duas porque essa diferença (espacial) não quer dizer muito no que diz respeito às vantagens e desvantagens desse tipo de produção. Assim, considero aqui tanto a produção dentro das cidades quanto em sua periferia como urbanas.
Em vários países do chamado mundo em desenvolvimento, a Agricultura Urbana é hoje uma realidade. Pode-se dizer que esta atividade apareceu sempre em momentos de crise (causados por guerras civis ou problemas econômicos), quando a população carente ou pessoas que se viam desempregadas começaram a produzir alimentos não só em seus quintais, mas também em áreas abandonadas da cidade ou cedidas por particulares ou entidades públicas. Com ou sem regulamentação governamental, esta atividade cresceu em países africanos como Uganda, Nigéria e Zimbabwe nas últimas décadas do século passado e, apesar de problemas técnicos, econômicos e ambientais, tornou-se uma importante alternativa de acesso ao alimento para as famílias envolvidas. Também na Ásia e na América Latina, iniciativas foram surgindo de acordo com necessidades específicas. Cuba é um país onde a Agricultura Urbana ganhou contornos muito peculiares. Lá, por motivos econômicos, passou a ser mais viável produzir alimentos (hortaliças, principalmente) no perímetro urbano das cidades do que a longas distâncias. Daí surgiram projetos de agricultura urbana comunitária, com apoio governamental e resultados compartilhados pelos produtores (abro literalmente parênteses para dizer que o caso cubano é bastante complexo e muito rico em informações importantíssimas, mas é um caso ímpar por várias razões sócio-políticas e, por isso mesmo, é difícil compará-lo com outras realidades).
No Brasil, os primeiros relatos sobre Agricultura Urbana, como meio de acesso ao alimento, vêm da década de 1990. Uma das iniciativas mais conhecidas é a de Teresina (PI), mas outras em Fortaleza (CE), Rio de Janeiro (RJ) e Sete Lagoas (MG) também são desta época. Em Goiás e no Distrito Federal as iniciativas são um pouco mais recentes e acredito que elas existam também em outros estados. De toda forma, um aspecto comum a todas elas é seu caráter comunitário. Atualmente, existem várias ações incentivadas por políticas públicas e, em sua maioria, subsidiadas por recursos dos governos municipais, estaduais ou nacional. Áreas públicas ou privadas são cedidas para as famílias interessadas ou selecionadas, assim como insumos para a produção (sementes, adubos etc.). Em alguns casos há assistência técnica, em outros não. A grande maioria das famílias envolvidas possui rendimentos mensais que as colocam abaixo da linha da pobreza ou da linha da miséria. As hortaliças são preferidas para o cultivo porque apresentam ciclo rápido e demandam pouca área. Os produtos são utilizados como complemento da alimentação e o excedente é comercializado na própria cidade (a comercialização é feita das formas mais variadas). Muitas pessoas se integram à atividade porque não têm emprego formal e a abandonam quando encontram um – às vezes não um emprego formal, mas um “bico” que garanta uma fonte de renda temporária.
É uma atividade que deve ser avaliada com cautela e que (me parece óbvio) não deve ser encarada como uma solução com S maiúsculo para falta de acesso ao alimento e muito menos para a pobreza – falaremos disso na Parte II. Há muitas dificuldades para a implementação e para a manutenção dos projetos e, além disso, custos sociais e ambientais envolvidos. Em termos científicos (estudos sociológicos, econômicos e agronômicos/ambientais), a Agricultura Urbana é algo recente, pouco relatado e estudado.
Nota: Quem tiver interesse em saber mais sobre o histórico da Agricultura Urbana é só dizer e eu envio, com todo prazer, literatura específica.

Intemperismo de gente – um devaneio!

O intemperismo é um processo de formação do solo. Por ele as rochas se transformam em solo e por ele o solo envelhece. O intemperismo é um processo de formação de gente. Por ele as pessoas se transformam em pessoas melhores e envelhecem enquanto isso… ou envelhecem enquanto se transformam em pessoas melhores. Pelo intemperismo o solo se forma de baixo para cima. Pelo intemperismo as pessoas se formam de baixo para cima, mas as que sabem que assim estão sendo formadas são as que entrelaçam suas mãos com as mãos do tempo. Assim, se tornam suas amigas e se deixam intemperizar serenamente. Aprendem mais fácil a arte-ciência da vida – a suavidade de oferecer a cada coisa seu valor exato, sendo o exato definido por cada qual.
Nota: Peço licença para esse pequeno devaneio, arremedo de prosa e verso. Afinal, hoje é domingo!

Alimentos que brotam das gôndolas dos supermercados

Às vezes fico pensando que algumas pessoas não se lembram de onde vêm os alimentos. Uma dessas vezes aconteceu ontem quando li o texto comentado pelo Ítalo no post abaixo. Concordo em gênero, número e grau com o Ítalo e talvez nem precisasse escrever este post, pois ele já disse boa parte das coisas que eu diria. Mas faço questão.
São dois pontos. Primeiro, sobre a produção dos alimentos que consumimos e que nos mantêm vivos. A impressão que tenho é que algumas pessoas que viveram a vida inteira (ou quase) em grandes centros e que não têm nenhum contato (mesmo que indireto) com o campo, acreditam que os alimentos brotam nas gôndolas dos supermercados. É muito legal chegar no seu apartamento no fim de um dia cansativo de trabalho, abrir a geladeira e encontrar lá dentro as coisinhas que você trouxe do super ou do hipermercado, de preferência já picadinhas e embaladinhas numa bandejinha de isopor. É, porque alguns alimentos, para essas pessoas, também já brotam das gôndolas nessa forma tão prática: embalados! Você chega em casa e está tudo lá a seu dispor e você pode testar aquela maravilhosa receita que aprendeu no programa de culinária da TV a cabo.
Sem ironia, realmente acredito que algumas pessoas não se lembram (ou simplesmente não pensam a respeito) que os alimentos são produzidos na terra. Sim, na terra sujinha, na poeira! Produzidos por produtores e trabalhadores que aram a terra, semeiam, cuidam, irrigam, colhem e… em alguns casos, embalam. Na minha opinião não precisamos de mais área para cultivo de alimento ou de biocombustíveis. Precisamos sim recuperar áreas já degradadas pelo cultivo intensivo e ou prolongado e manejar de forma sustentável as áreas já incorporadas ao cultivo agrícola. Isto é sustentabilidade.
O trabalho da pesquisa agrícola é voltado para a produtividade (e não para a expansão de área agrícola) e para a sustentabilidade da produção, ou seja, para que se possa produzir hoje e no futuro – para que as pessoas possam continuar tendo alimento em suas geladeiras. Isto me remete ao segundo ponto, sobre o trabalho da Embrapa. Mas sobre este o Ítalo já discorreu com primazia. Aqui só quero dizer que a equação alimentos na mesa x conservação ambiental no nosso país é resolvida com a colaboração dos pesquisadores que dia a dia trabalham na Embrapa.

“Consumidores de luxo” de potássio

Por Flávia Alcântara
O último texto do Juscimar me lembrou uma questão que tenho vivido na prática, desde que comecei a trabalhar como pesquisadora e passei a me envolver efetivamente com fertilidade do solo. Digo “efetivamente” porque uma coisa é a academia e outra é a realidade do campo e da pesquisa. Acho muito bom que tenhamos uma nova reserva de potássio em nosso território e concordo plenamente com o fato de que só há vantagens em acabar a cartelização do KCl (ou de qualquer coisa!). Obviamente tenho minhas preocupações ambientais e sociais no que diz respeito à extração nessas reservas, mas isto é outro ponto.
O assunto sobre o qual quero tratar aqui perpassa o fato de termos uma nova reserva e, ao mesmo tempo, pode ser modificado por esse fato – se para pior vai depender de quem trabalha na área. Essa assunto é a utilização excessiva de potássio que, me parece, ocorre hoje na agricultura brasileira. Grande parte do potássio extraído das reservas mundiais é utilizada para a obtenção dos formulados comerciais (fertilizantes com proporções definidas de nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K) – os famosos NPK). Outra parte é utilizada como fertilizante simples, o próprio KCl, principalmente nas adubações de cobertura (adubações realizadas durante o ciclo das plantas para complementar a adubação de plantio, em que se fornece N, K e, em alguns casos, micronutrientes). Bom, a utilização excessiva de K sobre a qual falo é causada pela utilização excessiva de formulados. Explico. Os formulados mais utilizados comercialmente são o NPK 4-14-8 e o NPK 4-30-16. Estas fórmulas significam o seguinte, tomando como exemplo a primeira: em 100 quilos do produto estão presente 4 quilos de N, 14 quilos de P-P2O5 e 8 quilos de K-K2O. Portanto, fornecem os três nutrientes, ao mesmo tempo, em proporções diferentes.
O que acontece nos solos brasileiros é que a necessidade de adubação fosfatada é muito maior do que a necessidade de adubação potássica, mesmo que esses dois elementos estejam presentes em teores proporcionalmente baixos no solo. Isto ocorre devido à alta capacidade de fixação do P dos nossos solos altamente intemperizados, nos quais, a grosso modo, as plantas só absorvem o P após ter sido praticamente saturada toda a capacidade de fixação desse elemento no solo – é como se elas ficassem com a raspa do taxo. Assim, são necessárias, em geral, altas doses de P (aplicado na forma de P2O5) para que se obtenha teores adequados ao crescimento e desenvolvimento das culturas (para sobrar uma raspa generosa!). Caso a dose recomendada de P-P2O5 seja alta, é extremamente difícil, com a utilização de um desses formulados, que se consiga suprir essa necessidade sem ultrapassar as doses recomendadas de N e K, mesmo que estas sejam também altas – numericamente nunca serão tão altas quanto a de fósforo, basta olhar os boletins de recomendação. Na prática o que ocorre é a utilização de formulados (ex.: 3 ou 4 ton./ha) sem levar em consideração a análise química do solo, que muitas vezes nem é realizada.
A utilização dessas doses de formulados é uma decisão tomada por produtores e ou engenheiros agrônomos com base em vários critérios que não discutirei aqui, mas que vão desde a facilidade de aplicação (para se utilizar fertilizantes simples, ou seja, um que forneça N, outro que forneça P e outro que forneça K, é preciso fazer mistura, o que requer mais tempo e mão-de-obra) até a sugestão do vendedor ou do vizinho ou agrônomo da fazenda ao lado. A facilidade de aplicação é compreensível, mas a displicência não. O que comecei a notar no meu trabalho como responsável por um laboratório de fertilidade do solo e pelas minhas andanças por aí é que, apesar de os teores de P no solo continuarem baixos ou médios, os teores de K estão quase sempre altos ou muito altos. É a utilização dos formulados. Quero deixar claro que não sou contra os formulados, mas saliento que, na maioria dos casos, eles devem ser utilizados juntamente com fertilizantes simples. Podemos suprir todo ou quase todo o N e o K numa adubação de plantio com um formulado e complementar a dose de P requerida com um fertilizante simples fosfatado. Isto é pura matemática. É bom senso.
E qual é o problema do excesso de K nos solos? Como disse o Juscimar não se conhece sintomatologia de excesso de K, mas como cátion que é, o K em excesso poderá causar desequilíbrios em relação ao Ca e ao Mg (também cátions) por ser absorvido preferencialmente pelas plantas. Já vi casos de deficiência de Ca no meio do ciclo (em tomateiro) por causa do excesso de K e ouvi vários relatos similares. Nesses casos, ocorre o “consumo de luxo” de K – a planta o absorve mas não o utiliza. Além, disso, e aí entram as reservas de potássio do Brasil (e do mundo), estamos desperdiçando potássio! Mesmo com uma nova reserva no Brasil, mesmo com dezenas de novas reservas que apareçam pelo mundo, estamos desperdiçando potássio! Esta não é uma era de desperdício e é preciso que todos entendam isso. Esta é uma era de sustentabilidade. Portanto, que comecemos a pensar sobre a necessidade de consumo interno de potássio. Qual é o real “tamanho” dessa necessidade? E que façamos bom uso da nossa nova reserva, com reserva.

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