Por que não discutimos agricultura no Brasil?

Paisagem agrícola no Sul da França. Foto: Ítalo M. R. Guedes

Paisagem agrícola no Sul da França. Foto: Ítalo M. R. Guedes

Há duas semanas tive a oportunidade de visitar uma exposição internacional de produtos agrícolas, o SITEVI, em Montpellier, no sul da França. Na ocasião pude também visitar alguns centros de pesquisa mantidos por associações ou cooperativas de agricultores e auxiliar produtores e empresários brasileiros interessados em importar máquinas e equipamentos agrícolas para o Brasil a estabelecer contatos e parcerias com empresas francesas. Realizei também visitas muito interessantes a algumas propriedades onde se pratica a agriculture raisonnée, que conhecemos como produção integrada.

Tudo extremamente interessante, mas não foi o que mais me chamou a atenção. Durante o período que estive lá, a União Europeia decidiu prolongar por mais cinco anos a permissão para a comercialização de herbicidas à base de glifosato, decisão parcialmente seguida pela França. Dos canais de televisão oferecidos no hotel onde me hospedei, e não eram poucos, creio que não houve um onde não houvesse discussões longas e profundas sobre o acerto ou o equívoco dessa decisão. Programas de debate com políticos, intelectuais e agricultores de diversas correntes, discutindo os vários aspectos, pontos de vista e consequências de uma decisão como essa. Embora essa decisão tenha sido tomada na mesma semana em que a Coreia do Norte lançou mais um míssil em direção ao Japão, ouso dizer que tive a impressão que a liberação do glifosato recebeu mais atenção.

Por que, afinal, isso me surpreende tanto? Porque a França não é um país agrícola, é um país industrializado, gerador de tecnologia de ponta em vários setores da economia. O Brasil, por outro lado, tem se autodenominado uma superpotência agrícola, a agricultura tem tido nos últimos anos uma importância tremenda em nossa balança comercial, e nunca testemunhei algo que sequer se aproximasse do nível de discussão sobre o glifosato e outros assuntos ligados à agricultura como o que vi na França. A agricultura, por aqui, quando se “discute” é de forma em geral maniqueísta, de acordo com a preferência ideológica de quem discute. Ou a agricultura é vilã ou é a salvadora da pátria. Discussões de pequena profundidade e destinada aos horários de menor audiência dos meios de comunicação. Damos importância a outras coisas.

Há um temeroso divórcio entre a população urbana e a prática agrícola, como se uma não influenciasse a outra. Não discutimos a sério a questão do uso excessivo ou inadequado de agrotóxicos, por exemplo, e suas causas. Nunca questionamos a pressão exercida pelas exigências do mercado urbano sobre as decisões tomadas pelos agricultores. Alguém está se perguntando o quanto de agrotóxicos é necessário para se conseguir a fruta ou hortaliça esteticamente perfeita que procuramos nas prateleiras de supermercados? Questionamos, às vezes, se é economicamente sustentável depender economicamente da exportação de commodities agrícolas para a China, mas deixamos de nos perguntar a sustentabilidade de longo prazo de comprar fertilizantes do Marrocos, ou do Canadá, ou da Rússia e exportar, sem contabilizar adequadamente, esses nutrientes naquela mesma soja. Quando veremos esses nutrientes novamente?

Falamos muito da escassez de água no semi-árido nordestino, ao mesmo tempo que achamos bacana que o Vale do São Francisco exporte frutas para a Europa, sem nos questionarmos da razoabilidade de que a cada 1000 quilogramas de uva exportados, pelo menos 850 quilogramas são água. Faz sentido uma região semi-árida exportar água? O dinheiro recebido dessas importações está sendo utilizado para mitigar o problema da escassez? Por quanto tempo continuaremos a ser uma potência agrícola se não discutimos agricultura, se não conhecemos agricultura?

Resolução CONAMA 420/2009

Há muito venho criticando a forma como o compartimento ambiental solo é tratado pelos órgãos responsáveis pela área ambiental não só no Brasil, mas no mundo. Minhas críticas até então vinham sendo conduzidas, principalmente, frente à falta de políticas públicas visando planejamento, conservação e até mesmo preservação desse recurso, tão importante não só como meio de cultivo de alimentos e meio de sustentação de obras, mas também como parte do ciclo hidrológico e de outros ciclos tão importantes para a manutenção da qualidade de vida e da própria existência de vida no planeta, como o do carbono, do nitrogênio, do fósforo, do enxofre, etc…
Bem, mas não é o caso de “teorizar” sobre a importância ambiental do solo. Pelo menos não nesse post. Muito menos é caso de criticar. Estou hoje aqui para elogiar e corrigir o título do meu último post, “Mais um ano de fiascos”. Confesso que até a escrita desse último eu não tinha conhecimento a respeito da publicação da resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA) de número 420. Ela foi publicada no dia 28 de Dezembro de 2009 e “dispõe sobre os critérios e valores orientadores de qualidade do solo quanto à presença de substâncias químicas e estabelece diretrizes para o gerenciamento ambiental de áreas contaminadas por essas substâncias em decorrência de atividades antrópicas“. Tal resolução mostra que o ano, apesar de muitos fiascos, não foi somente deles.
Críticas à parte, a resolução é um avanço sem tamanho para o reconhecimento da ciência do solo como, também, parte das ciências ambientais no Brasil. Bem ou mal é uma primeira tentativa oficial e nacional de propor efetivamente dados para consulta sobre degradação química de solos e suas consequências. O passo mais difícil foi dado. A partir de agora é aperfeiçoá-la e fazer com que ela, cada vez mais, se aproxime da realidade.
A resolução pode ser vista e obtida através do endereço eletrônico http://www.mma.gov.br/port/conama/legiabre.cfm?codlegi=620.
Até a próxima…

Ciência na agricultura: Fertirrigação

Além da aplicação de fertilizantes convencionais ao solo, em algumas culturas, principalmente hortaliças, a adubação de plantio pode ser complementada pela aplicação de fertilizantes solúveis dissolvidos na água de irrigação – esta técnica se chama de fertirrigação.
Uma das vantagens óbvias da fertirrigação é a possibilidade de se subdividir a adubação ao longo do ciclo da cultura visando otimizar a utilização dos nutrientes pelas espécies agrícolas ao disponibilizá-los no momento mais adequado. Por momento adequado refiro-me à cronometragem de acordo com às necessidades fisiológicas da espécie. A aplicação de fertilizantes solúveis junto à água de irrigação visa então prover os nutrientes certos, nas quantidades corretas, o mais próximo possível ao estádio fisiológico em que o nutriente é mais necessário. Isto só é possível se houver disponibilidade de informação quanto à curva de absorção de nutrientes da espécie cultivada em questão.
Em comparação à adubação convencional, a fertirrigação permite ajustes finos de acordo com as fases de desenvolvimento das plantas, melhorando a eficiência no uso de fertilizantes ao minimizar as perdas. Se o método de irrigação utilizado for localizado, como o gotejamento, por exemplo, a economia de fertilizantes pode ser vantajosamente associada à economia de água.
Uma das consequência colaterais do uso de fertirrigação pode ser o menor volume de raízes, principalmente no gotejamento, já que os nutrientes, assim como a água, são aplicados muito próximo ao sistema radicular. Aliás, se a informação existir, pode-se manejar a fertirrigação localizando-a nos pontos onde há maior densidade de raízes. A aplicação precoce da fertirrigação pode não ser completamente benéfica ao desestimular o aprofundamento do sistema radicular, criando uma dependência excessiva por parte das plantas, potencialmente danosa na eventualidade de pane temporária do sistema de irrigação.
Quando utilizada sob ambiente protegido, como estufas, há ainda o risco quase inevitável de salinização do solo, pela mesma razão por que o sistema pode ser vantajoso: pelas menores perdas do sistema. Como em geral não há entrada de água de chuva ou qualquer excesso de água no cultivo protegido, os adubos utilizados, que em gerais são sais, acumulam-se e aumentam a condutividade elétrica da solução do solo, clássico indicador da salinização.
Além de ser tóxico aos vegetais, compremetendo a produção, a salinização afeta negativamente a estrutura física do solo, por causar repulsão entre as partículas de argila e de material orgânico coloidal, impedindo a formação de agregados no solo. Desta forma, o solo sofre quase uma “compactação química”, comprometendo a infiltração de água e o crescimento do sistema radicular. Se houver disponibilidade de água, isto pode ser evitado aplicando-se periodicamente lâminas de irrigação em excesso para que ocorra a “lavagem” dos sais em excesso. Seriam muito interessantes também prática que favorecessem o enriquecimento do solo em matéria orgânica e, antes de tudo, a aplicação racional dos fertilizantes.

Água, recurso renovável ou não?

Participei essa semana de um concurso onde fui questionado se a água é um realmente um bem renovável, ou se por outro lado, haveria alguma situação onde essa classificação não corresponderia à realidade. Confesso que a princípio, naquela situação de tensão, pensar sobre o tema e dar uma resposta firme e adequada não é fácil. Mas depois de algum tempo e, hoje, depois de alguns dias passados, a resposta se torna mais clara e creio que seria um assunto interessante a ser, aqui, tratado.
Pode-se entender por recurso algo (nesse caso um componente do ambiente – a água) que a que possa ser destinado um uso e/ou valor. Já a classificação como renovável ou não renovável está relacionada à capacidade e facilidade de se regenerar ou serem regenerados num curto espaço de tempo, ou não, respectivamente.
A água, comumente, é classificada como um recurso natural renovável. Literaturas sobre o tema são muitas. Entretanto, algumas ressalvas, muitas vezes, deixam de ser feitas. A questão aqui é se tais ressalvas, em alguns casos, podem “mudar” essa classificação. Essa talvez seja uma questão sem uma clara resposta, sem, contudo, comprometer a possibilidade e a necessidade de uma discussão mais aprofundada sobre o tema. É só por meio dela que um maior entendimento é conseguido e, consequentemente, esforços mais efetivos no combate à degradação do recurso podem ser realizados.
A Terra pode deve ser vista como um sistema fechado quando se trata do ciclo hidrológico. Em outras palavras, a quantidade de água no sistema permanece próxima da constância, globalmente. Dessa forma, também globalmente falando, a qualidade da água é que seria o maior problema à capacidade desse recurso se renovar. Mas algumas questões aqui devem ser consideradas. A qualidade da água, após comprometida, é facilmente recuperada? E localmente, essa manutenção da quantidade de água também é verdadeira? Ambas as respostas dependem das situações em questão. Dependem do grau de degradação do corpo d´água, dependem também do grau de degradação da área de recarga do mesmo, da condição climática em questão, das modificações da mesma, enfim, de um conjunto complexo de fatores.
Baseado em algumas situações fictícias, mas de ocorrência frequente no mundo real, procurarei basear minhas colocações a partir daqui.
Imagine o caso de uma microbacia hidrográfica cujo o entorno foi extremamente desmatado e cujo relevo é forte ondulado a montanhoso, situação comumente encontrada nos mares de morros florestados do estado de Minas Gerais. Nesse caso, a mata representa um importante fator cujas funções são várias, manter o solo estruturado, a ciclagem biogeoquímica, a infiltração de água no solo, reduzir as taxas erosivas, entre outros. A remoção da mata, pode então, levar a situações graves, localmente, reduzindo as taxas de infiltração e consequentemente a quantidade de água disponível para “reabastecer” superficialmente e subsuperficialmente a rede hidrográfica. Além disso, as taxas erosivas elevadas podem levar a um intenso assoreamento dos rios regionais, levando à uma séria mudança na configuração, localização e vazão dos mesmos. Dessa forma, pode-se ter uma situação onde a capacidade de renovação do recurso pode ser comprometida.
As mudanças climáticas globais também vêm sendo frequentemente citadas como responsáveis por mudanças na distribuição do recurso água mundo afora. Locais antes com abundantes reservas hídricas estão enfrentando significativa redução das mesmas, enquanto outros não acostumados com intensos índices pluviométricos, hoje os enfrentam. Naqueles locais onde a redução dessas reservas é extrema, dificilmente elas serão repostas no curto prazo. O conceito de recurso renovável, então, também estaria comprometido.
Falando agora em termos de contaminação hídrica, percebe-se um grande número de possibilidades de ocorrência. Seja por meio de atividades agrícolas intensivas com, o uso de agroquímicos descontroladamente, de despejos industriais e urbanos, entre outras atividades, a qualidade dos recursos hídricos podem ser severamente comprometidas. O comprometimento pode ser tal que não existam técnicas suficientemente adequadas para a recuperação desses recursos ou, mesmo, tais técnicas sejam extremamente caras, inviabilizando o processo. Nesses casos, o recurso continua sendo renovável?
Enfim, sem prolongar esse texto, acredito que em situações específicas os recursos hídricos podem perder o “status” de renovável. Afinal de contas, caso isso não fosse verdade, por que estaríamos tão preocupados com a disponibilidade de água ou, melhor dizendo, com a possibilidade de falta da mesma? É importante salientar que essa é uma opinião pessoal, mas que, apesar disso, nos dá uma real dimensão da importância do recurso e da necessidade de conservação do mesmo, bem como de todos os aspectos que positivamente possam influenciar sua qualidade e a quantidade.

A velha questão das Áreas de Preservação Permanente de novo – O caso da nova legislação Catarinense

Por Carlos Pacheco
Ontem, em matéria apresentada pelo Jornal Nacional, a velha discussão sobre as Áreas de Preservação Permentes (APP´s) voltou à tona. Dessa vez, o objeto de discórdia é o novo código ambiental catarinense. A matéria completa pode ser vista aqui. Eu não poderia deixar de dar os meus “pitacos” no assunto, é claro.
Em primeiro lugar esse fato leva-me a uma preocupante constatação. O despreparo dos administradores brasileiros vai além do que eu poderia imaginar. É princípio básico da legislação vingente no país que aquelas municipais não podem ser menos restritivas que as estaduais e que, por sua vez, não podem ser menos restritivas que as federais. Portanto, gastar-se dois anos para criar um código ambiental que fere nitidamente os princípios da legislação ambiental federal é um erro gravíssimo. Pior que isso, é um desperdício de dinheiro público. Mas, enfim, o objetivo desse blog não é discutir política e sim aspectos técno-científicos, então vamos a eles.
Não é segredo para os que acompanham o Geófagos há algum tempo que sou defensor da reforma da legislação referente às áreas de preservação permanente. Meu principal argumento sempre foi o fato de que sem um equilíbrio sócio-ambiental não se consegue um efetivo resultado na preservação e/ou conservação ambiental. Um exemplo claro disso é a retirada das “zonas” produtivas (muitas vezes, em regiões muito acidentadas, são justamente parte das APP´s de matas ciliares) de pequenos agricultores obrigando-os a migrar para centros urbanos como forma de sobrevivência, mesmo que abaixo da linha de pobreza.
Esse fato, ao invés de resolver problemas relacionados à erosão e assoreamento de corpos d’água, muitas vezes cria diversos outros de maior grau impactante graças ao problema social criado. O bom senso deveria aqui reinar, deveria-se pensar também na dignidade do ser humano. Mas isso, não deve, em hipótese alguma, ser feito de forma aleatória. É preciso a existência de critérios para definição da área protegida. Critérios esses ambientais, claro, mas também sociais. Ambientalistas e produtores devem ceder um pouco para que se atinja o bem comum. Além disso, cada caso é um caso. Cada um exige diferentes ponderações e consequentemente diferentes resultados e conclusões. Não é simplesmente reduzir a área protegida. É isso, que ao meu ver, tem sido feito em Santa Catarina. Definitivamente não é por aí. Onde estão os laudos que mostram a melhor relação “custo-benefício” do modelo proposto? Gostaria de estar errado, mas provavelmente eles não existem. Nesse caso, sem tais estudos prévios, o ambiente corre sim um sério risco.
Gostaria de, finalizando esse post, enfatizar a necessidade de compatibilização de ações ambientais com ações sociais. Exemplos não faltam. As técnicas agroecológicas estão aí mostrando ao mundo que é possível melhorar a vida de pequenos produtores rurais mantendo uma boa qualidade ambiental. Fica também a mensagem de que assuntos ambientais são primordialmente técnicos e não políticos. Decisões a respeito dos mesmos devem ser baseados em estudos prévios e não em imposições legais, muitas vezes feitas por pessoas sem experiência no assunto. Flexibilizar a legislação é necessário, mas criteriosamente. Fica então o desafio aos “ambientólogos” de plantão, como compatibilizar o social com o ambiental?

Enquanto só falam sobre a Amazônia…

Um estudo realizado pela equipe do professor Manuel Eduardo Ferreira, da Universidade Federal de Goiás, aponta para uma estimativa de crescimento da área desmatada do cerrado brasileiro de cerca de 14% até 2050. A preocupação com outros ecossistemas brasileiros, além da tão citada Amazônia, já vem sendo por mim levantada aqui, no Geófagos, outras vezes. Isso pode ser visto aqui e aqui.
Reportagem do Estado de São Paulo mostrou dados preocupantes levantados pela equipe do referido professor. Por meio de análises de imagens de satélite eles puderam concluir que, mantido o mesmo ritmo atual de desmatamento, a área suprimida do cerrado brasileiro será de cerca de 40 mil km2 por década, elevando a área devastada de 800 mil km2 para 960 mil km2. A área preservada seria de cerca de 1 milhão de km2. O principal causador de tamanha elevação é o avanço da fronteira agrícola na região. Até 2020 devem ser incorporados cerca de 60 mil km2 à essa atividade. Avanço naqueles que, há cerca de quatro décadas atrás, eram considerados solos inaptos ao cultivo. Estima-se que a área desmatada chegará à metade do tamanho do estado de Goiás ou equivalente a dez vezes aquele referente ao Distrito Federal. A expansão da fronteira agrícola se dá em direção, principalmente, do cerrado nordestino (Piauí, Bahia e Maranhão).
O Cerrado é o segundo maior ecossistema brasileiro, ficando atrás somente da Amazônia. Sua riqueza, com grande presença de espécies endêmicas, é reconhecida como de grande importância há tempos. Basta lembrar que esse ecossistema, juntamente com a Mata Atlântica, constituem os dois Hotspots de biodiversidade brasileiros, propostos pelo ecólogo inglês Norman Myers para identificar áreas de conservação e preservação prioritárias, desde de 1988. Além disso, no cerrado estão importantes nascentes de bacias hidrográficas importantes como a Amazônica, do São Francisco e do Prata.
Enfim, que dê-se a devida importância também a outros ecossistemas brasileiros.
Carlos Pacheco

Avanço do nível do mar no litoral brasileiro

Há alguns meses atrás tive a oportunidade de visitar duas regiões por mim já conhecidas, uma no litoral sul e outra no litoral norte do estado do Espírito Santo. Fiquei chocado com o que vi. O nível do mar subiu absurdamente nos últimos cinco ou seis anos, desde a minha visita anterior. Fiquei curioso com aquela situação e fotografei com a finalidade de documentar o acontecido. Ao mesmo tempo fiquei chateado por, no passado, não ter tomado a mesma atitude pois a documentação e a comparação das duas épocas seria de grande valia. A verdade é que observei estradas, residências, hotéis e pousadas, todos à beira mar, sendo consumidas pela força das marés, que ao meu ver, estariam ganhando força ao longo do tempo. Procurei então uma forma de explicar esse fenômeno, afinal, não é comum em tão curto período observar-se mudanças tão drásticas em se tratando de meios naturais. Lembrei-me logo do tão falado aumento dos níveis do mar devido ao aquecimento global, no entanto, tal hipótese era muito improvável pois espera-se que tais desastres naturais advindos desse fenômeno global aconteçam a longo prazo. Entretanto, para minha surpresa, assistindo ao Jornal Nacional de sábado, 01/11/2008, vi uma reportagem tratando de pesquisas realizadas pela Universidade Federal da Paraíba que concluiram que, a degradação e represamento dos rios Paraibanos eram os grandes responsáveis pelo avanço do mar sobre o continente daquele estado. A explicação é fácil de ser entendida. Menos água transporta menos sedimentos. Esses últimos são os principais responsáveis pelos depósitos de areia que formam as praias. A presença de maiores quantidades de areias equivale a praias maiores, que por sua vez, impedem o avanço do nível do mar sobre o continente propriamente dito. No entanto, com a reduzida chegada de sedimentos, a reposição de areia nas praias tem sofrido uma sensível redução, tornando o balanço entre chegada e retirada (via mar) negativo. Ou seja, está se perdendo mais areia para o mar do que o rio é capaz de repor. Dessa forma, a dinâmica tem sido alterada graças à degradação dos rios e o mar tem ganhado força, destruindo paisagens continentais importantes naquela região. Logo me lembrei de diversos outros casos semelhantes registrados na literatura, alguns deles no próprio litoral brasileiro, como aquele ocorrido na foz do Rio São Francisco, entre os estados de Sergipe e Alagoas. O avanço do nível do mar nesse caso tem produzido, além da destruição de paisagens continentais, também a intrusão de água salgada na calha do rio, tendo efeitos importantes na dinâmica daquele ecossistema. Portanto, a hipótese mais provável dos casos por mim citados no início desse texto é que a degradação dos cursos d´água que banham aquela região estejam comprometendo toda a dinâmica do ciclo hidrológico. O resultado então é o avanço do nível do mar causando prejuízos consideráveis à população e ao ambiente. Corrobora com essa hipótese uma das principais bacias hidrográficas que tem sua foz no estado do Espírito Santo, que é a do Rio Doce. Quem conhece essa bacia sabe que ela é uma das mais degradadas do território brasileiro, com índices de assoreamento assustadores. É necessário revermos nossos conceitos imediatamente. Não tenho dúvidas que um dos principais causadores de tais fenômenos é o desperdício. Quantos e quantos de nós ainda hoje tomam banhos demorados, esquecem as torneiras abertas, lavam calçadas com quantidades abundantes de água, entre outros. Fica o alerta, ou mudamos nossas atitudes ou sofremos as consequências de nossos atos.
Carlos Pacheco

Comportamento sortivo de alguns dos principais cátions metálicos traço.

Repetidamente venho recebendo solicitações para escrever um pouco mais sobre o comportamento de cátions metálicos traços em solos. Esses nada mais são do que alguns dos anteriormente referidos metais pesados. Questionamentos sobre a força de ligação, preferências por sítios de adsorção, entre outras têm sido o foco da discussão em conversas e solicitações via e-mail. Sendo assim, procurarei esclarecer um pouco mais essa questão. Levarei em consideração durante esse post a possibilidade de ocorrência de contaminação por diversos cátions simultaneamente e concentrarei a discussão em torno de alguns dos principais metais associados à depósitos antropogênicos, sendo eles, o crômio (Cr), cobre (Cu), chumbo (Pb), zinco (Zn), níquel (Ni) e cádmio (Cd). Elementos ametálicos e semi-metálicos também inclusos na definição de metais pesados serão objetos para futura discussão.
Primeiramente, é necessário relembrar as principais formas de retenção de elementos-traço em solos. Os aspectos aqui giram em torno dos processos sortivos (adsorção e dessorção), complexação pela matéria orgânica, da formação de precipitados e da formação de estruturas contendo tais elementos. A curto prazo e para solos tropicais e sub-tropicais úmidos, as questões relacionadas aos processos sortivos são, sem dúvida, as mais importantes. Nesse sentido, ainda precisa-se segregar o processo de adsorção em específica e não específica. Simplificadamente, o primeiro consiste na formação de ligações fortes e não estequiométricas onde o metal fica ligado diretamente à matriz sólida via ligação covalente. Já o segundo processo, se dá por meio de ligações fracas, eletrostáticas e estequiométricas. Nesse caso, os metais ficam interpostos por uma ou mais moléculas de água entre eles e a matriz sólida, o que não permite a formação de fortes ligações.
Estudos conduzidos nas últimas três décadas têm sido bastante objetivos e enfáticos ao caracterizar a afinidade de metais específicos pelos sítios de adsorção disponíveis em solos, sejam eles tropicais úmidos ou não. Parace-me próximo ao consenso que para todos esses solos uma sequência de afinidade é bem definida, sendo ela Cr=Pb>Cu>Zn>Ni>Cd. As principais alterações observadas na literatura referem-se à mudança de ordem entre Cr e Pb e Ni e Cd.
Os primeiros metais da lista, especialmente Cr e Pb, repetidamente aparecem como os metais mais afins aos sítios de adsorção específica. O Cu também o é. Entretanto, Cr e Pb parecem estar mais relacionados aos sítios de adsorção específica minerais, enquanto o Cu parece estar mais associado à formação de complexos orgânicos.
É importante ressaltar aqui a importância da caracterização dos compostos orgânicos aos quais o Cu está se ligando para formação dos complexos. Isso porque quando ligado à matéria orgânica de elevada solubilidade, esse elemento pode formar complexos solúveis, aumentando sua biodisponibilidade. Via de regra, esse fato ocorre quando o Cu se liga a material orgânico de menor massa molecular.
Em relação ao  Cr e o Pb, eles têm se mostrado muito afim da, principalmente, fração oxídica dos solos ou da formação de precipitados. O primeiro caso se torna especialmente importante para solos bastante intemperizados como os Latossolos e Argissolos, de ocorrência comum no território Brasileiro. Já a formação de precipitados se dá, sobretudo, em solos menos desenvolvidos e com valores de pH mais básicos, como alguns solos calcários pobremente desenvolvidos.
Os três outros metais, Zn, Ni e Cd, têm frequentemente mostrado preferência para os sítios de adorção não específicas. Esses metais, portanto, tem comportamento eletrostático. Por esse motivo, são mais facilmente dessorvidos, ou seja, mais facilmente liberados da matriz sólida. Esse fato os torna extremamente perigosos, principalmente o Cd que é o mais tóxico dos três. Isso porque, uma vez liberados, tais metais estarão solúveis na solução do solo, podendo ser lixiviados para águas subterrâneas ou absorvidos por espécies vegetais, entrando assim na cadeia alimentar animal.
Dessa forma, pode-se concluir que, uma vez em solos, Cr, Pb e Cu tendem a formar ligações fortes e, por isso, são dificilmente liberados. Já o Zn, Ni e Cd são mais fracamente ligados à matriz sólida, sendo facilmente liberados em contrapartida à substituição dos mesmos no complexo de troca quando da entrada de outros cátions, não necessariamente metálicos traços, porém, com preferência aos sítios de adsorção ou com maior força iônica em solução.
O estudo e conhecimento de tais formas de retenção de elementos-traço em solos apresenta importância ambiental elevada, uma vez que pode conduzir a definição de destinos ambientalmente mais adequados aos resíduos que os possuam. No entanto, é necessário lembrar que os posts aqui publicados tem o intuito de introduzir o leitor aos assuntos neles contidos. Caso deseje-se um maior aprofundamento é necessário a busca por outras fontes, que detalhem os pormenores da questão a ser abordada.
Em um próximo post serão tratados questões referentes à especiação de espécies metálicas e comportamento de metais pesados presentes na forma aniônica em solos e sedimentos.
Carlos Pacheco

As fezes não morrerão de sede

Alguém já parou para pensar que absurdo é usar-se água limpa em abundância para transportar dejetos humanos para a rede de esgotos quando milhões de pessoas sequer têm o suficiente para beber? Este é o tipo de questão que vem naturalmente ao longo da leitura de um excelente artigo publicado na Scientific American Brasil de setembro (não estou ganhando nada pelo marketing), escrito pelo engenheiro ambiental americano Peter Rogers, sob o título “Preparando-se para enfrentar a crise da água”. Li o artigo ontem a noite, após a publicação deste post, mas fiquei feliz em encontrar trechos como este: “E a escassez se tornará mais comum em parte porque a população do mundo está aumentando. Uma parcela está ficando mais rica – aumentando assim a demanda – sem contar que a mudança climática global está ampliando a aridez e reduzindo as reservas em muitas regiões”. Mas o autor não se satisfaz em apenas desfiar informações – ele faz sugestões, algumas das quais o cidadão médio acharia bem antipáticas: “Estabelecer preços mais altos para a água está (…) quase no topo da minha lista de prescrições.” Nasci e cresci numa das regiões mais secas do semi-árido nordestino (Patos, na Paraíba), sei exatamente o que é escassez de água e quão frustrante é ver sociedade e governo agindo quase anualmente como se períodos de seca fossem uma anormalidade, um desvio do esperado. Aprendi quase no berço a economizar água de toda forma possível, nos pequenos hábitos, como desligar o chuveiro enquanto me ensaboava ou a torneira enquanto escovava os dentes. Tive oportunidade de morar numa região em que a água é um recurso abundante (Viçosa, Minas Gerais) e pude ver como meus hábitos econômicos surpreendiam e muitas vezes faziam rir aqueles para quem escassez de água era algo muito remoto e possivelmente exagerado, coisa de Jornal Nacional para ganhar audiência. Sinceramente creio que se mudanças drásticas nos hábitos da sociedade não forem adotadas, atitudes antipáticas terão que ser tomadas ou o mundo real baterá rudemente às nossas portas. Aos que têm acesso aos Periódicos da Capes e desejem se aprofundar no assunto, recomendo o excelente artigo Water Use, escrito por Peter H. Gleick, no Annual Review of Environment and Resources de 2003.
Ítalo M. R. Guedes

O contexto ambiental brasileiro e a Amazônia

Ja faz algum tempo que venho observando o comportamento dos chamados “formadores de opinião” brasileiros com relação às questões ambientais. Nos noticiários, documentários e outros meios de divulgação sempre ouço e vejo uma grande omissão relacionada aos aspectos ambientais do país. Quando fala-se em ambiente no Brasil quase sempre fala-se em Amazônia, como se questões relacionadas a outros ecossistemas não existissem. Cito a seguir algumas poucas, das muitas questões ambientais corriqueiramente observadas no país. Vejo, diga-se de passagem com muita preocupação, o cerrado brasileiro ser exterminado e não vejo, também com muita preocupação, os tais formadores de opinião criticarem tal fato. Vejo a Mata Atlântica às mínguas e seu território continuar sendo ocupado. Vejo o rio São Francisco moribundo, sendo transposto, sem que antes haja sua revitalização. Continuo vendo corpos d´água que são verdadeiros esgotos a céu aberto em diversas cidades que visito. Os resíduos sólidos de grande parte dos municípios (infelizmente ainda a maioria deles) continuam sendo dispostos de maneira inadequada. E chamo de disposição inadequada não só a existência de lixões, mas também os chamados aterros controlados, que ao contrário dos aterros sanitários, não possuem tratamento do percolado gerado na decomposição da massa orgânica de lixo. O destino final desse lixiviado não tratado, obviamente, são os corpos d´água, apresentando-se então como potenciais poluentes. É claro que a importância estratégica e ambiental da Amazônia é inquestionável e políticas públicas e pesquisas relacionadas a esse ecossistema são de extrema importância para o país e para o mundo. Porém, outras tantas questões ambientais e, principalmente, outros tantos problemas ambientais, sejam eles de ecossistemas nativos, rurais ou até mesmo urbanos existem e possuem grande importância, devendo ser resolvidos. É necessário abrir-se os olhos também para tais questões, tomando-se as providências cabíveis, elaborando-se políticas públicas de desenvolvimento sócio-ambiental, preconizando de maneira enfática a educação ambiental da população brasileira e, principalmente, dos governantes e legisladores desse país. É necessário que exista um planejamento com políticas de médio e longo prazo para tais questões. Aplicar a legislação com a mesma intensidade para todas as camadas da sociedade, diferente do que é observado hoje, também é fator primordial para o sucesso do desenvolvimento ambiental do país. Não obstante, é necessário conhecer a realidade dos diversos ecossistemas brasileiros, investindo em pesquisas dos mesmos, elaborando leis menos utópicas e mais realistas, levando-se em conta características peculiares dos mesmos e também da população neles residentes. É necessário, portanto, cuidar sim da Amazônia, mas em conjunto com os outros ecossistemas e não em detrimento desses. Por fim, nunca é demais lembrar que o ambiente deve ser encarado como o todo e não apenas uma parte. Ele não é só o verde ou só os animais, ele também é todo o conjunto de interações entre as diversas esferas do planeta, incluindo nelas a capacidade do homem de modificar o meio em que vive, respeitando sempre suas características culturais.
Carlos Pacheco

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