Um livro é uma commodity?

O que é o bom gosto? É possível cultivá-lo ou é inato? Será necessário estudar um tratado de Estética ou há como desenvolver ao longo de uma vida um senso do bom gosto? Não é inato, não é próprio de uma classe apenas, não é nem mesmo exclusivo a tradições culturais eruditas – há bom gosto na cultura popular, embora não na descartável cultura de massas, é minha impressão suassuniana.

Existe algum preconceito nessa visão, de que não pode haver bom gosto na cultura de massas? Não confundamos cultura popular com cultura massificada. Uma tem a ver com a expressão artística não erudita do povo, com a apropriação e, por assim dizer, adaptação das formas de expressão artística por indivíduos ou movimentos de bom gosto vindos do povo. Quem duvidaria do extremo bom gosto e da sofisticação de versos como estes de Patativa do Assaré:

“Canto as fulô e os abróio

Com todas coisa daqui:

Pra toda parte que eu óio

Vejo um verso se bulí.

Se as vêz andando no vale

Atrás de curá meus male

Quero repará pra serra,

Assim que eu óio pra cima,

Vejo um diluve de rima

Caindo inriba da terra.”

São versos de uma força evocativa admirável, sem falar na perfeição métrica e na habilidosa escolha das palavras. Patativa pegou o rude e arcaico dialeto sertanejo, mais apropriado a ameaças e juras de morte, na visão confortavelmente estereotipada, e fez com ela poesia de primeira categoria.Prefiro muito mais seus poemas em sertanejo do que os que escreveu em português padrão, que não era sua língua real, artificiais, formulaicos e sem espontaneidade.

Por outro lado, pode haver mau gosto na arte erudita. Vladimir Nabokov detestava a obra de Dostoievski (mas a conhecia profundamente), principalmente do Crime e Castigo, por considerá-lo confuso e de mau gosto. Nesse caso, não sei se era um julgamento estético ou um preconceito de classe. A São Petersburgo onde o aristocrata Nabokov viveu era muito diferente da São Petersburgo descrita por Dostoievski. Os verões da família Nabokov, por exemplo, eram passados em ricas propriedades rurais distantes da multidão vulgar e da inquietação política da capital da Rússia sob os Czares. Duvido que o jovem Vladimir tivesse jamais sentido “aquele peculiar mau cheiro de verão tão conhecido de cada petersburguense sem condição de alugar uma casa de campo” de que se queixa o nervoso Raskólnikov.

Paradoxalmente, mesmo o mau gosto é gosto e como Ariano Suassuna se queixava, o mal da cultura de massa é a ausência de gosto, ou melhor, é a ditadura do gosto médio, pior do que o mau gosto. Nabokov não negava que Dostoievski era um artista, embora o considerasse um artista do mau gosto e Suassuna, em sua Iniciação à Estética, fala mesmo de artistas que preferem fazer uma Arte do Feio. Os produtos da cultura de massa são outra coisa, são comércio, não arte. Para mim, isso fica explícito e claro na expressão “best seller”, o que vende melhor – não se faz referência à qualidade artística, mas à capacidade de vender.

George Orwell entendeu bem, em seu 1984, o “espírito” da cultura de massas ao descrever os livros produzidos por máquinas novelizadoras no Departamento de Ficção do temido Ministério da Verdade, livros que “não passavam de artigos que tinham de ser produzidos, como botinas ou compotas”, volumes que “só têm seis enredos, que são misturados e adaptados”, produtos para o entretenimento dos “proles”. Aliás, o livro, na cultura de massas, deixa de ser uma obra de arte e passa a ser mais um produto da poderosa e onipresente indústria do entretenimento, como séries de televisão, novelas e matérias do Jornal Nacional.

Em um dos trechos de 1984 transcritos acima, os livros são comparados a artigos banais como cadarços e geleias. Na tentativa de deixar mais clara minha tese, gostaria de transcrever o original em inglês: “Books were just a commodity that had to be produced, like jam or bootlaces.” Não vou discutir a pequena infidelidade da tradução de Wilson Velloso. Quero na verdade me deter um pouco na palavra “commodity” do original. No dicionário de inglês que uso em meu celular, commodity é definida como “an article of trade or commerce, especially a product as distinguished from a service”.

Um livro, ao ser definido como commodity, não passa de “um artigo de negociação ou comércio”, não diferente de uma tonelada de soja ou uma carga de açúcar. E assim as músicas de Apocalypso, a maior parte dos filmes holywoodianos, a Veja, copos de plástico e guardanapos de papel. E talvez as personalidades que se formam consumindo todo esse lixo cultural.

“Um subdesenvolvido erudito”

Goethe, por meio do Poeta, no “Prólogo no Palco” de seu Fausto, já reclamava que o gosto do público piorava e o teatro se rendia às necessidades comerciais. Já então, ou desde muito antes, a Alta Cultura perdia espaço para a cultura do entretenimento, substituição levada ao extremo em nossos tempos, em que um Pedro Bial posa de intelectualoide. Imaginar que um intelectual pudesse apresentar um reality show é comparável a se pensar um ativista dos direitos animais narrando com entusiasmo uma briga de galos. Mas é assim a manipulação da realidade da Globo.

Assisti ali agora uma entrevista em que esse Genetton Moraes Neto tenta conversar com o cantor paraibano Geraldo Vandré e achei o negócio todo constrangedor, embora eu tenha terminado de assistir com uma boa impressão do artista. O repórter quer o tempo todo arrancar respostas “simples e diretas”, mastigadinhas e pré-digeridas, de Vandré, que se esquiva habilmente. O cantor, na verdade, consegue ao longo de toda entrevista evitar as tentativas de espetacularização de sua pessoa que o repórter faz, suas respostas, quase inaudíveis boa parte do tempo, são sutis, lacônicas e reticentes, mas não ambíguas. Perguntado por que não canta mais, ele é bem claro – porque não há espaço mais para uma arte de qualidade, há espaço e desejo de consumo de entretenimento, de “cultura” massificada e sem significado e, como ele mesmo diz num trecho memorável, “ele não faz qualquer coisa”. Vandré me pareceu infinitamente decepcionado com o rumo do mundo, mas seu espírito não está anestesiado.

Eu penso entender a ânsia da Globo em entrevistar Geraldo Vandré. Há um momento na entrevista em que o obtuso repórter tenta constrangedoramente arrancar de Vandré um reconhecimento de decepção de que sua canção Caminhando tenha sido transformada em canção de protesto, mas não consegue, o artista não é tolo. A tentativa foi bem clara de anular, neutralizar como insignificante um momento de verdadeira cidadania, de  transcendência, embora fugaz, da História Brasileira, da resistência à podre ditadura, à qual a Globo verdadeiramente não se opôs. Mas não se trata de simplesmente diminuir um fato histórico.

A própria entrevista e a malfadada tentativa de espetacularização de um erudito subversivo faz parte de um movimento mais amplo – a neutralização da resistência à indústria de entretenimento excremental. Não é outra coisa o que se faz ao se expor constantemente a figura do escritor paraibano Ariano Suassuna ao público, ao se vulgarizar de forma rasa sua obra, para que o público não identifique Suassuna como o crítico ferrenho da massificação cultural que a própria Globo promove, mas como “o autor daquela comédia que passou na Globo”.  É uma manobra terrivelmente sutil, ardilosa. Suassuna é uma figura carismática, é um homem do espetáculo, da aula-espetáculo, que a Globo não mostra, é uma imagem que vende, certamente contra sua vontade. Este outro paraibano Vandré recusa-se até mesmo a isso: ao invés de uma peça cômica, mais ao gosto do público, anuncia que está produzindo um poema sinfônico e fecha magistralmente, “não há nada mais subversivo que um subdesenvolvido erudito”.

O amor pelos cães e a imaturidade epidêmica

Duas coisas me surpreenderam quando cheguei em Águas Claras para morar – a ausência de pedestres e a profusão de pessoas passeando com cachorros. A ausência de pedestres eu entendi rapidamente: o jovem profissional urbano de sucesso teme ser confundido com a massa pobre deserdada e utiliza o automóvel até para ir à padaria da esquina. A questão dos cães, no entanto, permaneceu obscura para mim até há pouco.
A luz começou a surgir quando observei que minhas tentativas de civilidade eram quase sempre recebidas com frieza, como quando tentava dar um bom dia dentro do elevador. As relações humanas nesta cidade são dificílimas, a não ser em duas situações – quando se fala de futebol ou de cães. Dois cidadãos que em qualquer ocasião se ignorariam mutuamente, conversavam animadamente quando acompanhados de seus cães e a conversa giraria invariavelmente ao redor dos cães, sobre os cães, quase para os cães. Não me surpreenderia se repentinamente parassem de conversar e começassem a latir.
O que acho mais estranho é que, sinceramente, nunca vi ninguém com outro animal de estimação que não fosse canino, nem mesmo gatos. Será que gatos são mais difíceis de criar que cachorros? Então se fez a luz! Não, o problema é que os gatos, como as pessoas, não são tão subservientes (ou, no jargão dos cinófilos, “carinhosos”).
Mas que luz é essa, tão obscura ainda? O que só agora entendi é que as pessoas nesta cidade, e talvez em outras grandes cidades, estão substituindo as relações humanas pelas relações caninas. As pessoas são muito complicadas, desapontam, não são fáceis de agradar. Até mesmo ter filhos passa a ser preterido por ter cães. Um idiota recentemente me disse que para ele cães e crianças estão na mesma categoria, mas ele preferiu ter um cão.
Para mim, o amor moderno pelos cães é mais um sintoma da imaturidade epidêmica das pessoas. O jovem profissional urbano tem medo da complexidade das relações humanas. Teme-se até mesmo a infelicidade, qualquer desconforto é visto como depressão e se trata com remédios e com cães. O cão, como me disse o idiota acima citado, também é gente, a ele se permite tudo. O respeito pelas pessoas é posto em último plano, como atesta o mar de merda no parque da cidade, onde deixei de passear com meus filhos por medo de zoonoses.
Não tenho medo da complexidade, prefiro pessoas a cães. Não tenho medo de decepções, na verdade, as decepções e o sofrimento me tornaram uma pessoa melhor, mais madura. Não desisti de ter filhos pelo temor infantil de que venham a me decepcionar. A maior decepção para mim será se eles decidirem abandonar sua humanidade e trocar as pessoas pelos cães e que só dêem bom dia a quem abanar o rabo para eles.

Este é um blog de um brasileiro, nordestino

Este é um blog criado e escrito principalmente por um nordestino. Recebeu uma grande ajuda por um bom tempo de um grupo grande de mineiros, que para alguns não são muito diferentes de nordestinos. Desde o início nossa visão foi de servir para divulgar ciência para brasileiros, sem nenhuma distinção, e creio que tem conseguido. Raras foram as vezes em que me desviei de assuntos de ciência para tratar de outros assuntos. Com certa teimosia tenho evitado polêmicas porque este blog não foi pensado nem criado para isso. Mas a situação agora me parece de exceção.
O país acaba de sair de uma campanha política execrável em que se despertou e se deu voz ao que há de pior na sociedade brasileira – uma direita naturalmente conservadora, retrógrada e hipócrita. Para surpresa de muitos, mas não de todos, essa direita é também jovem e preconceituosa. Como essa juventude de direita não estuda História, não surpreende que fenômenos mais característicos de uma Alemanha hitlerista e anti-semita se repitam por aqui. Para excrescências como as mayaras petrusos, os judeus do Brasil são os nordestinos.
Mas não há ideologia verdadeira por trás dessa direita espúria, amamentada por uma mídia irresponsável, há palavras de ordem vazias, dolorosas, para quem é nordestino e antes de tudo brasileiro, mas vazias. Não deixa de nos alarmar o fato de que a intolerância parece vicejar bem no meio de uma juventude alienada, consumista e iletrada, que confunde o ter com o ser, como outros já disseram. Para estes, quem não tem, não é. Confrontado com essa triste situação, nada resta ao Geófagos do que continuar tentando divulgar um pouco de cultura, para quem quer que seja, quixotescamente esperando que isso possa fazer alguma diferença.
O Brasil é grande e é para todos.

Vergonha para os políticos II

Membros da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo (SBCS) e diversos pesquisadores irão participar do “19th World Congress of Soil Science”, que será realizado na cidade de Brisbane, Austrália e, na oportunidade, será apresentada a candidatura do Brasil para sediar o próximo evento, no ano de 2018. Será uma ótima oportunidade para mostrarmos para as sociedades de todo o mundo a força dos pesquisadores brasileiros. Hoje a SBCS é terceira maior ficando atrás apenas da Americana e Alemã e a frente de escolas muito tradicionais como a francesa e a russa. Numa conversa informal com o 2º. Vice Presidente da SBCS, o Prof. Victor Hugo da Universidade Federal de Viçosa, ele me informou que a diversas Sociedades Sul-Americanas já enviaram cartas de seus representantes ratificando o apoio ao Brasil como sede do evento, porém a grande frustração fica por conta de uma carta do presidente Lula que foi solicitada pela SBCS como apoio ao evento. Até agora ninguém da assessoria do presidente ou o Ministro da Educação ou Ciência e Tecnologia se pronunciaram, mesmo com a interveniência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Embora se tenha uma carta do Governador do Estado do Rio de Janeiro, cidade escolhida como sede, alguém tem dúvida da relevância desse documento assinado pelo presidente, de popularidade recorde, creio que não! Na contramão da ciência, a governo federal liberou bilhões de reais para serem gastos em obras para a próxima Copa do Mundo de Futebol e liberou os municípios a gastarem cerca de 120 % além de sua arrecadação para custear tais obras. É inegável o legado que ficará para a população brasileira de tais obras de infraestrutura, mas o que a SBCS e os pesquisadores pediram foi apenas uma simples carta, mas como ciência não dá voto porque se meter em campanha para sediar congresso de Terra!

Vergonha para os políticos do Rio Grande do Norte

O Igor Santos já comentou o caso e hoje li a entrevista no Jornal da Ciência. O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis se diz decepcionado com a falta de visão dos políticos municipais e estaduais do Rio Grande do Norte. O poder público potiguar não foi capaz sequer de asfaltar a rua que dá acesso ao Instituto do Cérebro, em Natal. É de surpreender que só agora ele se tenha dado conta da cegueira e estupidez da classe política. Pergunto-me apenas se há muitos lugares no país em que ele não se decepcionaria. Já disse aqui e repito – o mundo precisa de cientistas, não de políticos, muito menos de politiquetes.

Sobre a natureza do Geófagos

Senhores,
Concordo plenamente que o cientista ou os que tratam de ciência, seja por qual meio for, não se devem isolar na torre de marfim, lugar comum batidíssimo e por certo um sítio incômodo em que se viver. Nada disto se sugere. No entanto, quando se idealizou o Geófagos, tinha-se em mente exatamente o fato de que os blogs de ciência de então discutiam muito mais política e outros assuntos do que ciência propriamente.
A proposta inicial e atual, razoavelmente bem entendida e aceita pelo leitor típico e majoritário do Geófagos, é a de um blog com explicações de fatos científicos relativos principalmente às Ciências Agrárias, aliás muito pouco divulgadas na blogosfera. Tenho a incômoda impressão de que as opiniões políticas se aproximam muito mais das crenças religiosas do que das opiniões científicas e um dos nossos objetivos iniciais era também divulgar o método científico e as formas de se pensar daí decorrentes.
Siceramente, de forma alienada ou não, não desejaria que o Geófagos fosse visto como um espaço de discussão política. Parece-me claro que alguns blogs que inicialmente se propuseram a ser de ciência são hoje muito mais procurados pelas discussões de cunho político do que pela divulgação científica. Não tenho nada contra, mas não creio que o Geófagos seja necessário nesta contenda.
Blogs políticos há muitos, bons e profissionais, não acho que emissão de opiniões amadorísticas acrescente muito ao que está sendo feito por aí. Da mesma forma, geralmente não vejo com muito agrado as bobagens que são ditas sobre ciência em espaços dedicados a outros assuntos por profissionais de outras áreas. Nesta internet de opiniões bidimensionais, em que todos se julgam aptos a se pronunciar sobre todo e qualquer assunto, alguns portos de tridimensionalidade parecem ser necessários.

O Desafio das Idéias e a Ordem Estabelecida: Um Ensaio

É um grande desafio ter idéias próprias, livres – como diz nosso Amigo Ítalo, usando as palavras de Riobaldo: pensar forro! – É complicado pensar forro.
Não vou considerar como “complicador” o fato de que duas ou mais pessoas possam ter, separadamente, as mesmas idéias – chamo a isso de pressão do conhecimento – pois a cada nova descoberta, um conhecimento vai pressionando o outro e as novas idéias surgem, pipocam, quase que ao mesmo tempo, em pessoas diferentes, em lugares diferentes. Foi mais ou menos assim com Darwin e Alfred Wallace; Mendeleiev e Lothar Meyer; Oparin e Haldane; e muitos outros.
Nesta relação de desafios, não vou considerar também o fato que algumas pessoas possuem uma facilidade, uma capacidade inata de raciocínio, de conclusões lógicas dentro de seu universo de conhecimento. Conheço algumas pessoas assim, que não frequentaram a escola formal, mas possuem uma capacidade de raciocínio lógico, contextualização e síntese acima da média geral.
E é bom lembrar ainda que, além dos desafios, quem se propõe a raciocinar, às vezes pode esbarrar no ridículo e chegar a conclusões medíocres. O que é comum e natural, pois isso faz parte do processo, vem com o pacote. O anedotário da ciência e tecnologia está cheio de frases e posturas equivocadas e famosas de alguns gênios destas áreas. Mas esses pequenos equívocos em nada desabonam seus autores.
Os grandes desafios de ter idéias próprias, aos quais quero me referir, são outros. O primeiro deles são os estudos. É preciso exercitar o cérebro para que ele possa funcionar com desenvoltura. O estudo, além de exercitá-lo, fornece um arsenal de informações que são, no fim das contas, a matéria prima de onde surgem as idéias. Estudar demanda disciplina, tempo e descaso com as vaidades humanas. Daí o grande desafio para a maioria das pessoas que não nasceram gênios. O mundo das vaidades é uma tentação quase irresistível, como argumenta, e se justifica para a esposa, um veterinário amigo meu em relação às suas vaidades: “fui pressionado pela mídia!”
O outro desafio, talvez o maior deles, é que as novas idéias podem esbarrar na ordem estabelecida, ir de encontro, bater de frente com o “sistema”, bater de frente com os dogmas e desafiar o senso comum. E isso já rendeu processos, execrações públicas e mortes na Fogueira do Santo Ofício. Para ficar nos exemplos mais famosos, foi assim com Giordano Bruno, Joana D’Arc, Galileu Galilei e Darwin que, se este não enfrentou A Fogueira, suas idéias enfrentaram e ainda enfrentam o Tribunal do Santo Ofício.
O processo de pensar forro é um grande desafio. É mais fácil seguir o rebanho, não importa para onde ele vá. E assim, vejo o mundo caminhando irremediavelmente na direção do que previu o “visionário” George Orwell, no romance 1984, com o seu Big Brother. Sim! É daí que nasceu o Big Brother da holandesa Endemol.
Vejo meus colegas quase desesperados correndo em busca de “publicações e papers“, sendo pressionados por seus orientadores, pelos departamentos, pelas agências de fomento, pelos concursos públicos, pelo “sistema”. Ninguém quer saber de qualidade, nem de maturidade profissional. O que importa é o número. E quanto mais rápido, melhor! Vejo pouca gente criticando esse processo. E essa pouca gente, até onde sei, resume-se ao Geófagos.
A falta de bom senso é tanta que, recentemente, participei de um concurso público para docente de uma universidade federal em que a prova escrita tinha peso 4. A pessoa que passou no concurso não ficou entre os primeiros colocados na prova didática. Não estou querendo dizer que um bom professor não necessite saber escrever bem, ao contrário, mas não estamos selecionando alguém para a Academia de Letras, e sim para professor. Então, se era preciso atribuir peso, deveria ser para a prova didática. É o que me parece óbvio. Fui o segundo colocado na prova didática, mas quando ponderaram a nota do currículo, fui DESCLASSIFICADO. Eu não tinha um “currículo bom” na avaliação deles. Classificaram três pessoas e meu nome nem apareceu na lista. Meus 12 anos de efetivo serviço de docência e extensão rural não serviram para nada, pois são anteriores a cinco anos, a data limite que estabeleceram. Não estou querendo dizer que eu deveria ter sido classificado apenas porque tirei boa nota na prova didática, mas sim que a coisa fosse feita com coerência, razão e bom senso.
Acabei de assistir a um filme chamado Austrália. Falaram muito mal desse filme, por razões de clichês e outras filigranas. É um filme mediano na minha avaliação, mas traz nos diálogos uma frase memorável e forte: “não é porque é assim, que deveria ser assim!” Vejo o mundo caminhando na direção oposta desta consciência. Não vejo nada de bom nisso. Mas posso, talvez, estar equivocado!

Agricultores maus, ambientalistas bonzinhos e cientistas loucos

Acredito que qualquer pessoa preocupada com a utilização prática do conhecimento científico e tecnológico saberá que a geração do conhecimento, em si, a produção de dados, nada tem de bom ou ruim. O conhecimento gerado a partir do estudo da estrutura dos átomos pode levar tanto à bomba atômica quanto à raditerapia para tratamento de câncer. Posso estar errado, mas creio que o mal uso do conhecimento científico se deve mais à ação de políticos do que à vontade de cientistas, o que não quer dizer que não haja cientistas ideologica e politicamente engajados.
O assunto em voga hoje nos meios preocupados com a questão ambiental brasileira é uma audiência pública convocada pela presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), senadora Katia Abreu (DEM-TO). A audiência faz parte de uma discussão acalorada entre ruralistas e ambientalistas sobre a ocupação de terras pela agricultura em detrimento de áreas de preservação ou conservação natural de variada natureza. O encontro contará com a participação do pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite, Evaristo Eduardo de Miranda, que apresentará resultados de um estudo concluindo que, após descontadas as áreas de conservação e reservas indígenas, sobrariam 29% da área agricultável não utilizada no Brasil. Nas entrelinhas está a mensagem de que os ruralistas utilizariam esta informação para tentar abrandar a legislação ambiental brasileira visando mais terras para a agricultura.
Ora, como afirma um outro pesquisador da Embrapa, estes 29% correspondem a 240 milhões de hectares, o que é muita terra. Como já discutimos aqui no Geófagos, dizer que o aumento de áreas naturais protegidas comprometem a produção de alimentos de um país é um argumento falacioso. Existe uma diferença entre produção e produtividade agrícola. A primeira é o total produzido e contabilizado, por exemplo, o Brasil produz x toneladas de soja. Produtividade é a capacidade de produção de determinada área, geralmente um hectare, que corresponde a dez mil metros quadrados. O aumento da produção agrícola de um país pode depender ou do aumento da área plantada ou da elevação da produtividade pela adoção de melhores tecnologias agrícolas. Assim, o aumento na produtividade não está diretamente associado ao aumento na área sob agricultura. Nem o aumento da área plantada siginifica que a produção agrícola total será aumentada. Aumento de produtividade é aumento de eficiência. A abertura de novas áreas agrícolas é simplesmente uma solução mais fácil de se aumentar a produção sem que obrigatoriamente se implemente ou se adote mais tecnologia.
A Embrapa, conceitualmente, existe para gerar conhecimento científico e tecnológico para aumentar a produtividade no campo. Obviamente, haverá grandes produtores que utilizarão tecnologia gerada pela empresa. Mas vejo agora que existe uma tendência de demonização da empresa pelos meios eco-idiotas e eco-fundamentalistas. Um exemplo didático é esse texto, constrangedor de tão tendencioso, do novo blog Laboratório, da Folha de São Paulo. De forma insidiosa, em minha opinião, o autor do texto transfere a suposta maldade dos ruralistas para a Embrapa, que fica parecendo ser o braço letrado dos fazendeiros maus. Não houve competência sequer para checar fatos, como quando afirma que a Embrapa não se propõe a recuperar áreas degradadas, ignorando trabalhos importantes na área feitos em unidades como a Embrapa Agrobiologia, Embrapa Meio Ambiente, Embrapa Cerrados, entre outras (afinal de contas, a ausência da checagem de informações e de imparcialidade não é uma crítica dos jornalistas de ciência aos blogueiros de ciência? Ah, não é uma crítica, é o que alguns deles fazem quando escrevem blogs). Mas é óbvio que é mais interessante atacar a Embrapa, que junta em si as nefastas figuras do cientista e do agricultor, do que cumprir a desagradável tarefa de pesquisar e de ouvir o lado oposto. Não é coisa que a imprensa brasileira anda fazendo muito.
Ao mesmo tempo, ao equacionar a Embrapa e o interesse dos agronegociantes, o jornalista arquetípico convenientemente ignora o trabalho feito, por exemplo, na própria Embrapa Hortaliças (aos ambientalistas do asfalto informo que a esmagadora maioria dos horticultores brasileiros é composta de pequenos agricultores), na Embrapa Semi-Árido e muitas outras. Mas isso não importa aos jovens ambientalistas urbanos hipócritas e aos mocinhos manipuladores de informação do Greenpeace. O que importa é combater o mal.

É muito fácil ser um jornalista frívolo

A senhora Ruth de Aquino, jornalista da Época, escreveu recentemente esta bobagem imensa, adotando a tão pouco original mas aparentemente apreciada posição de se ridicularizar cientistas e pesquisas científicas.
Reforçar estereótipos consagrados é uma fórmula fácil de sucesso. Vender o cientista como um nerd distanciado dos assuntos mundanos é a forma mais eficiente que pessoas medíocres encontram de minimizar a inteligência, o esforço e a perseverança de quem resolve ser pesquisador. É muito mais cômodo ridicularizar os outros do que reconhecer a própria mediocridade.
Além dos estereótipos consagrados, a balança politicamente esquerdista tem enfatizado a necessidade de pesquisas científicas de relevância social imediata. A pesquisa básica, grande responsável pela revolução tecnológica por que passamos, jamais seria realizada se fosse necessário demonstrar sua relevância social. Darwin não seria jamais reconhecido como o maior pensador e um dos maiores cientistas da História se se guiasse pela relevância social do que lhe ocupou a mente por toda a vida. Nem preciso falar de Einstein, Feynman, Hawking. Mas à senhora de Aquino nada disso importa. Interessante mesmo é vender um texto “engraçado”.
Em um país com um dos maiores níveis de analfabetismo científico, inclusive entre as classes ditas cultas, não há como se surpreender com um artigo tão tolo, parcial e fútil quanto esse. É muito fácil rir da ciência quando não se tem idéia do que é uma amostragem estatisticamente válida, quando nada se sabe das infindáveis horas em laboratórios, casas de vegetação, bibliotecas e salas de aula necessárias para que se possa formar um cientista. Muito fácil rir de pesquisas científicas quando se está com a barriga cheia da comida barata e de qualidade possibilitada pela pesquisa científica. Tremedamente cômodo criticar pesquisadores escrevendo frivolidades em um computador desenvolvido a partir das pesquisas deles. Frivolidades que são lidas pela mesma internet fruto do trabalho intenso dos cientistas malucos de quem é tão divertido escrever mal. Não duvido que a senhora de Aquino seja das pessoas “cultas” que se orgulham de sua iliterácia científica.

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