A humilde origem do homem no solo

O descaso para com o solo pode ser um dos sintomas do distanciamento do homem moderno em relação ao mundo natural, distanciamento inclusive da natureza modificada e posta a serviço da sobrevivência humana, sob a forma da agricultura. Nos primórdios da civilização ocidental esse descaso seria impensável, talvez mesmo herético, como deixam entrever alguns aspectos linguísticos e religiosos ainda hoje presentes em nossa cultura.
O substantivo hebraico ‘adama‘, significando ‘solo’, deu origem ao nome Adão, ancestral de todos os homens segundo a tradição judaico-cristã. Aliás, a palavra ‘homem’ deriva do latim ‘homo‘, vindo do termo ‘humus‘, a parte viva, orgânica, do solo. “Do pó vieste, ao pó voltarás”. Imagino algum perspicaz ancestral atento ao fato de que nos lugares onde jaziam os corpos mortos surgia um solo mais escuro, mesmo negro, mais fértil e propício à vida – humus. Ao solo negro e fértil às margens do Rio Nilo os antigos egípcios chamavam de ‘Chemi’, mesma palavra com que designavam sua pátria. Os gregos pegaram a palavra emprestada e dela vem ‘química’. A origem dos elementos e da vida claramente associada ao solo negro e fértil, às substâncias húmicas.
Curiosamente, as palavra ‘humildade’ e ‘humanidade’, assim como ‘homem’, têm suas profundas raízes em ‘humus’. O desinteresse pelo mundo natural e pelo solo parece de certa forma representar a perda da humildade do homem, a perda de suas origens.

A Savanização do Mundo: um ensaio

Por Elton Luiz Valente
Antes de ir ao assunto destas linhas, é importante lembrar que o Cerrado não é Savana. A Savana encontra-se na África, em condições de solo e clima diferentes daqueles do Cerrado. O Cerrado é um bioma exclusivo da América do Sul. As duas vegetações têm alguma semelhança fitofisionômica e a Savana foi descrita primeiro, daí diz-se que o Cerrado é uma vegetação savânica, ou seja, semelhante à savana, mas não igual.
Já publicamos aqui no Geófagos um texto onde se comenta, em linhas breves e gerais, a relação do homem com vegetações de natureza savânica, como o Cerrado.
O homem originou-se na África, em meio à Savana. Isso implica dizer que ele foi gerado, moldado, forjado, sofreu os processos da seleção natural e da evolução das espécies em meio à vegetação savânica. Portanto, quando ele se encontra em um ambiente destes é bem possível que sejam ativados instintos atávicos, provocando sensações ancestrais nos seus cinco (ou seis, ou mais) sentidos. É mais ou menos o mesmo efeito que faz o cheiro, o calor e a pulsação do colo da mãe em um moleque, ou outro filhote de mamífero qualquer.
O homem enxerga o ambiente savânico instintivamente, com todos os seus sentidos ativados, gostando do que vê e se sentindo muito bem ali – aqueles indivíduos urbanos, hi-tech, que têm horror a picada de insetos e otras cositas mas, são uma variedade que surgiu recentemente na espécie, correspondem ao “erro amostral” desta minha “análise livre”. Observem que Gorilas e Chimpanzés, nossos primos mais próximos, também não gostam da floresta, eles gostam da borda da floresta. Quem gosta do interior das florestas são os primatas com rabo, nossos primos mais distantes. O homem pode até conservar um pedaço de floresta numa encosta, num canto qualquer, mas ele não ama a floresta, ao contrário, o homem tem medo dela, lá ele se sente ameaçado, uma presa fácil. Diferente dos ambientes savânicos, que fazem parte da sua essência evolutiva. Fazer com que o homem ame ou pelo menos preserve as florestas não é tarefa fácil, mesmo mostrando os inúmeros benefícios que a conservação delas pode nos render.
Vejam que a primeira providência do colonizador é o desmatamento. Ele precisa de área para suas culturas e gosta muito daqueles campos imensos, savanizados, que ele próprio produz. O homem savanizou o globo terrestre. A savanização do mundo é sua obra máxima, natural, com um viés bíblico, profético. É o seu legado. Exceto por uma mancha de floresta amazônica aqui, umas coníferas ali (que estão sofrendo constante pressão de desmatamento), o restante do mundo, por onde o homem passou, já está savanizado. Some-se a isso a pressão econômica do agronegócio, que impulsiona o homem a agredir a própria Savana (o Cerrado que o diga), ou seja, por dinheiro ele é capaz de agredir o seu ambiente mais querido, “o seu lar primevo” – a ganância é outro traço marcante de nossa personalidade – Bingo! Não vai sobrar floresta no mundo. O homem vai desmatá-las todas. A degradação ambiental, as mudanças climáticas e outras questões direta- ou indiretamente vinculadas aos desmatamentos, se possível, só serão resolvidas depois, podem apostar!

Planejando o futuro…

Olá a todos,
Gostaria, com a permissão de meus amigos geofágicos, de usar esse espaço para compartilhar a grande alegria que impera na minha casa e que se estende para toda minha família e amigos.
Na última quarta-feira (25/02/2009) nasceu a minha filha, Marina Vitória. Hoje, depois de 7 dias de vida ela está ótima, ainda não trocou a noite pelo dia e parece uma máquina de sucção de tanto que mama. Muitos de vocês leitores têm conhecimento dos fatos ocorridos comigo e minha esposa quando perdemos dois filhos. É uma pancada muito forte, principalmente para as mulheres que realizam todo o trabalho árduo desde a gestação até o parto.
Antes mesmo do ato da concepção da Marina, havia grande dúvida quanto a uma nova tentativa e se deviamos ou não fazer algum tipo de tratamento, se é que existe, para garantir uma próxima gestação mais segura. Contudo, sendo fiel aos ensinamentos do Tio Charles (Charles Darwin; pseudônimo já bem conhecido aqui no Geófagos), tinha certeza que tudo foi uma questão de probabilidade (no primeiro caso) e seleção natural (no segundo caso) e que um dia tudo daria certo, como deu agora. E para coroar isso, nada melhor que o segundo nome, Vitória, que me veio à mente após o nosso amigo Ítalo se equivocar e chamar a Marina por esse nome. Talvez tenha cido um dos equívocos mais acertados do nosso amigo, que me ajudou muito nos momentos difíceis.
Obrigado a todos aqueles que torceram por nós e grande abraço
Juscimar

Pero Vaz de Caminha, a Heterose, a Evolução e a Raça Brasileira: Um Ensaio

Por Elton Luiz Valente
Senhores, isto não é uma hipótese, muito menos uma tese, nem contestação, talvez uma constatação e apenas um ensaio, uma digressão para aproveitar o restinho das férias.
Nestes tempos politicamente corretos, mas de idéias vazias e interesses torpes, uma expressão que traz a palavra “raça”, no que se refere às populações humanas, deve causar algum frisson, tanto entre os bem intencionados quanto entre os hipócritas. Digo já! Sou contrário às “cotas raciais” ou qualquer outra coisa do gênero. Na sua tentativa de juntar pela força da lei, as cotas segregam e eu sou a favor da mistura livre, da beleza da miscigenação. Nesse quesito, a História Brasileira é quase uma fábula, e nem é necessário citar Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre ou Sérgio Buarque de Holanda, renomados estudiosos da Brasilidade. Mas sobre a fábula, o médico, antropólogo, etnólogo, professor, ensaísta, poeta e primeiro radialista do Brasil, Roquette-Pinto, disse certa vez: “Martius demonstrou que a história do Brasil seria fábula ou romance se lhe faltassem as bases da etnografia regional, e da etnografia geral“.
Então vamos à História e aos fatos. Aqueles europeus caucasianos, ou judeus, ou outros quaisquer, segregacionistas, endogâmicos, principalmente os mais ricos, os da “nobreza”, da Europa, Estados Unidos, África do Sul (do apartheid calvinista), Austrália e etc., que por razões segregacionistas diversas como econômicas, religiosas ou de puro preconceito, praticavam e ainda praticam a endogamia, produziram como resultado aquela gente com muito peito e pouca bunda, para ficar só no fenótipo.
Por outro lado, aquele europeu que veio para o Brasil, sem pendor ou pudor segregacionista e com muita necessidade, e se deslumbrou com nossas índias nuas e com as pretinhas africanas cheias de charme, produziu no seu afã um choque genético racial, uma heterose, um vigor híbrido, um verdadeiro avanço no sentido da evolução humana, tanto Darwinista quanto sócio-cultural ou etnogenética, em todos os sentidos. Eis a Mulher Brasileira, com peito, bunda, brilho, inteligência e etc. Ou alguém aí não conhece a Juliana Paes?
Estes europeus, dados à miscigenação, vieram já no primeiro contingente da Esquadra de Cabral que aportou nestas terras. Aqueles dois grumetes que fugiram e os dois degredados que aqui foram deixados certamente estão entre eles e, de quebra, inauguraram a raça brasileira. Mas o ilustre da Esquadra é outro, chama-se Pero Vaz de Caminha. Há um trecho de sua famosa Carta – que a hipocrisia da Igreja Católica cortou de nossos livros de história – em que ele descreve, com maestria e deslumbramento, a anatomia pubiana de nossas índias. Vou transcrevê-lo daqui a pouco. Salomão, quando comparado a Pero Vaz de Caminha, perde de longe com o seu pretenso Cântico dos Cânticos. O poema de Salomão é uma tentativa de sedução fracassada de um bode velho. O trecho da carta de Caminha é o deslumbramento de um artista diante do novo, do inusitado e do belo.
E não sejamos machistas. A coisa aconteceu também, ou principalmente, do ponto de vista das mulheres. Muitas das Damas da Corte e muitas das mulheres dos senhores de engenho, barões e coronéis se deixaram seduzir pelos índios e pelos negros africanos.
Vide o caso (com trocadilho e em todos os sentidos) de Ceci e Peri – a nobre portuguesa e o índio guarani – Ficção? José de Alencar sabia das coisas! E tem mais. As índias e africanas também se deixaram seduzir por aqueles branquelas europeus. Na região leste de Minas Gerais tem uma história emblemática, em que a filha do Cacique de uma tribo dos Aymorés, Lorena, se apaixonou por um colonizador português. Diante da proibição veemente do Cacique, que era contra o romance, ela pulou de um despenhadeiro, na face escarpada de um paredão de granito que hoje recebe seu nome, Pedra Lorena, na cidade mineira de Aimorés. Triste e sublime amor. Qualquer semelhança com Romeu e Julieta ou Ceci e Peri, ou Iracema, terá sido mera coincidência.
Mas para a felicidade geral da nação, são muitas as histórias menos trágicas e mais libertadoras, como o famoso casamento de João Ramalho com Bartyra, filha do Cacique Tibiriçá, para horror de Padre Anchieta e seu séqüito de jesuítas do Planalto de Piratininga (São Paulo), pois João Ramalho, além de ter muitos filhos com outras índias, era um homem casado, cuja família ficara em Portugal.
Ainda no século XVI, os calvinistas (intolerantes e radicais extremados), cujas aventuras fracassaram por aqui, espalharam boatos de toda sorte na Europa, principalmente na França, apimentando-os com a nudez de nossas índias, para detratar o ilustre Nicolas Durand de Villegagnon, famoso Cavaleiro de Malta, Diplomata e Almirante francês que fundou a lendária França Antártica no Brasil. A França Antártica foi uma colônia francesa instalada no Rio de Janeiro por Villegagnon entre 1555 e 1567, e teve até uma capital na Baía de Guanabara, denominada Henriville em homenagem a Henrique III da França. Consta que a confusão armada pelos calvinistas envolveu até a belíssima Jacy, filha do temido e respeitado Cacique Cunhambebe, da tribo Tupinambá, amigo e colaborador de Villegagnon, com o qual redigiu um dicionário Tupi-Francês. E a França Antártica se perdeu, mais por conflitos internos e desentendimentos entre os próprios calvinistas, que aqui estiveram a convite Villegagnon, do que propriamente pela resistência portuguesa. Ou seja, fracassaram porque não souberam lidar com a liberdade que a natureza lhes proporcionava aqui.
E não vamos nos esquecer de Chica da Silva (ou Xica da Silva, como queiram), que é em si o resultado da preta no branco, e que encantou de forma arrebatadora o famoso contratador João Fernandes de Oliveira, nada menos do que o então mais poderoso e mais rico cidadão destas plagas. E a mulata se tornou A Rainha de Diamantina (Arraial do Tijuco) no século XVIII.
Se estas são as histórias dos famosos, dos nobres e as filhas dos caciques que, portanto, foram dignas de registros históricos, imagine-se o que não fez a peãozada, a plebe, e as não menos graciosas índias, negras e mulatas menos famosas, ou seja, o povão, principalmente os que aqui chegaram nos primeiros anos da colonização, como aqueles dois grumetes foragidos da Esquadra de Cabral, dos quais nem se sabe o nome, mas que escaparam de uma existência de horror e sevícias (sendo eles os seviciados) para viver a liberdade plena sob a glória e sobre as filhas de Tupã.
Então, para finalizar, voltemos à Carta de Caminha, onde ele descreve as índias de Pindorama. Este trecho da Carta deveria fazer parte da letra do Hino Nacional Brasileiro, de tão revelador que é. Primeiro porque Caminha demonstra conhecer bem o assunto, quando compara a anatomia feminina entre nossas índias e as damas de Portugal. Segundo, por sua segurança em tratar deste assunto com o Rei de Portugal e ainda dizer que as daqui são mais formosas do que as de lá. Terceiro, se Caminha com todo o domínio da matéria ficou deslumbrado com nossas índias, imagine quem ainda não tinha visto uma mulher completamente nua, ao vivo, e se deparou com uma Cunhã-Porã nas praias brasileiras. É impossível não misturar as raças.
Eis o trecho da Carta:
“…Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas de cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam.” “…E uma daquelas moças era tão tingida de baixo a cima, e certo era tão bem feita e tão redondinha, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela…
E fim de papo!

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