“Contra os Agro-intelectuais”

Acabo de ler um texto excelente sobre as bobagens modernas ditas acerca da agricultura, principalmente por aqueles que dela nada entendem. O texto, escrito pelo agricultor americano Blake Hurst e publicado no The American, pode ser lido aqui. Alguém que tenha acompanhado alguns posts meus verão a afinidade. Traduzo um trecho:
“Cultivos transgênicos na verdade fizeram diminuir o uso de agroquímicos e aumentar a segurança dos alimentos. Serão as pessoas que se recusam a usá-los moralmente superiores a mim? Os herbicidas diminuíram a necessidade de se cultivar mecanicamente o solo, fazendo com que a erosão dos solos decrescesse em milhões de toneladas. O maior dano que causei ao ambiente como agricultor foi o solo (e os nutrientes) que costumava mandar pelo Rio Missouri abaixo até o Golfo do México antes de adotar o plantio direto, tornado possível apenas pelo uso de herbicidas. A combinação de herbicidas e sementes geneticamente modificadas tem tornado minha agricultura mais sustentável, não menos, e realmente reduz a poluição que lanço ao rio.”
Um bom texto para se meditar e elevar o nível da discussão. Já prevejo o desagrado dos fundamentalistas ambientais, revoltados porque o dogma da boa agricultura orgânica esteja sendo hereticamente questionado.

O fascínio da Ciência (ou Desaprendendo para ensinar)

Entre os que defendem a visão científica do mundo como a forma mais eficaz para realmente explicar o universo e todo o resto, é comum utilizarmos como argumento o fato de o conhecimento científico não ser estático, dogmático, ao contrário de outras formas de interpretação da realidade. Em meu próprio campo de estudo, acabo de esbarrar, esta é a palavra mais apropriada, com algo do tipo. Entre minhas atribuições como bolsista PRODOC-Capes está a de ministrar aulas. Estou atualmente responsável pela disciplina de Matéria Orgânica do Solo na pós-graduação e, previsivelmente, preciso ler muito para oferecer o que há de mais atual na literatura científica sobre o assunto. Quando estudei comecei a me familiarizar com as pesquisas sobre decomposição da matéria orgânica do solo, lá pelos idos do começo do milênio, foi-me ensinado que uma das variáveis mais importantes no controle da decomposição era a razão entre conteúdo de carbono e conteúdo de nitrogênio de um composto orgânico, conhecida como relação C/N: quanto maior esta relação, mais carbono em relação a nitrogênio, mais difícil de se decompor o material, maior a imobilização de nitrogênio pelas células microbianas, o que poderia afetar negativamente a nutrição vegetal. Melhor do que a relação C/N como indicadora de qualidade do material orgânico, aprendi então, era a relação lignina/N: a relação C/N era muito geral e não indicava exatamente quais compostos carbonáceos eram mais resistente à decomposição, a relação lignina/N já refinava a coisa, ao considerar que os compostos ricos em lignina eram os mais resistentes, afetando mais diretamente a capacidade decompositora dos microrganismos. Estava eu ontem me preparando para uma aula sobre nitrogênio no solo a ser dada amanhã, quando encontro este recente trecho de um texto sobre o assunto, de autoria do cientista do IAC, Heitor Cantarella: “A relação lignina/N também tem sido usada como um indicador para a mineralização de substratos orgânicos, porém a relação C/N tem se mostrado mais útil para tal” e cita uma quantidade de artigos recente apoiando a afirmação. As implicações desta mudança de visão não são pequenas: é necessário reavaliar-se práticas de manejo do solo visando não só a nutrição de plantas como o sequestro de carbono em solos tropicais. Senti-me irremediavelmente ultrapassado, mas não. Isto é a ciência em funcionamento, saudável funcionamento: fatos mais recentes e conclusivos desdizem o que antes se acreditava, oferecendo uma perspectiva mais confiável, possivelmente, dos processos naturais. Que outra forma de interpretação do mundo permite isso? O dogmatismo religioso, talvez?

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