Aborto dos “Justos”: Como o Cristianismo Conservador Promove Aquilo que Diz Odiar

Original: Away Point

Uma das grande ironias da sociedade americana é que a maioria dos abortos nos EUA são causados por cristãos conservadores. Leia as estatísticas: 49% das gestações nesse país não são intencionais, uma taxa que tem se mantido dolorosamente estável por aproximadamente 30 anos. Quase metade dessas gestações terminam em aborto. Ou, para avaliar no sentido oposto, mais de 90% dos abortos nos EUA são resultados de gravidez acidental. As taxas dos EUA de gravidez acidental e aborto excedem em muito a de outros países com similar desenvolvimento econômico. Assim como nossa taxa de religiosidade. O fato de estarmos fora do padrão para ambos não é coincidência.

Três aspectos do cristianismo conservador promovem o aborto: pró-natalismo, a obsessão com pecado sexual, e a ênfase no sentimento de certeza e retidão em detrimento da compaixão.
  1. Cristianismo biblico não é pró-vida. Não é nem mesmo pró vida humana. As estimativas recentes de Steven Pinker são que apenas no Velho Testamento são descritas 1.2 milhões de mortes nas mãos de Yahweh ou seus serventes. Ele é, no entanto, pró-nascimento. Sejam férteis e multipliquem-se (Genesis 1:28) A mulher será salva dando à luz filhos (1 Timóteo 2:15). Martin Lutero, lider da reforma protestante, colocou em suas próprias palavras: “Se uma mulher eventualmente se esgota e morre, não importa. Que morram dando à luz, pois para isto existem”. A reprodução competitiva cristã, uma estratégia para aumentar os adeptos, está no coração da postura anti-contracepção Católica e o movimento Quiverfull protestante.
  2. Filhinho da mamãe, talvez do papai. Todos nós sabemos o que isso significa. Na época que as religiões Abrahamicas emergiram, o desejo masculino de investir apenas em sua própria prole tomou a forma da objetificação da mulher e da sua posse pelos homens. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo (Êxodo 20:17). Mulheres flagradas em adultério (ou sem seus himens intactos) eram mortas pelos antigos hebreus, assim como elas são por muçulmanos conservadores hoje em dia. A obsessão cristã com pecado sexual ou até com a pureza feminina produziu o mito da virgindade americana. Em contraste com sociedades seculares mais abertas, adolescentes americanas tipicamente não procuram contraceptivos por até um ano depois de se tornarem sexualmente ativas. Contracepção as fariam culpadas do pecado de sexo premeditado.
  3. 38.000. Esse é o número de denominações cristãs. Já se perguntou porque? O cristianismo tradicional diz respeito à crença correta, à ortodoxia, e não à viver corretamente. Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo Atos 16:31. Contraste isso com a virtude central do budismo, ahimsa, de não-violência. Católico (significando universal) e ortodoxo (significando crença correta) são resquícios de uma das primeiras divizões do cristianismo depois que ele derrotou o paganismo. Mas o cisma e a fragmentação são apenas uma das consequências do enaltecimento da crença. Muitos crentes preferem estar corretos a estar em comunidade. Eles preferem estar certos a demonstrar compaixão. Eles preferem estar certos à resolver problemas. Eles preferem se opor ao aborto do que preveni-lo.
Os resultados são claros. A forma mais eficiente de reduzir o aborto é de-estigmatizar a educação sexual, des-mitologizar a virgindade, e investir em amplo acesso aos contraceptivos mais eficientes disponíveis. Em uma Holanda altamente secular, esta formula nocauteou o aborto para 7 em cada 1000 mulheres anualmente, um terço da taxa dos EUA. Então, porque a Direita Religiosa mantêm o foco em leis restritivas, ao invés de acesso à contraceptivos? Porque eles conferem direitos de pessoas a zigotos, em contradição com a essência da “pessoalidade”? Porque eles se opõem à educação sexual medicamente precisa? Porque eles prometem desfinanciar programas de planejamento familiar?

Porque aborto não é o que realmente interessa a eles. Eles querem pureza, eles querem retidão. Alguns querem reprodutoras designadas. Até aqueles que conscientemente promovem mais nascimentos são sujeitos às estratégias competitivas que estão nos ingredientes das religiões do deserto desde o começo.

O mundo está no cume de uma revolução dos contraceptivos. Comparado com o melhor controle de natalidade disponível para os seus pais (a Pílula), as ultimas gerações de contraceptivos de longa duração reversíveis, também conhecidos como LARCs, diminuem o risco de gravidez acidental em 10 a 50 vezes. Cada ano uma em cada doze mulheres que toma a Pílula engravida. Isso significa duas ou três gestações extra por mulher durante sua idade reprodutiva – crianças não desejadas ou abortos. Com DIUs hormonais ou implantes, essas taxas caem para uma em 500, porque os LARCs agem desligando a fertilidade da mulher. Como se isso não fosse o suficiente, alguns LARCs também se livram da impureza mensal (Levítico 15:19-24) causada pela maldição da Eva.

Se alguem quisesse prevenir abortos, ele iria advogar pela demonstração de LARCs em toda sala de aula no país. Eles iriam se certificar que os contraceptivos mais eficientes estão disponíveis para todos. Eles iriam focar em gravidez consciente e não em virgindade. Aqueles que dizem querer acabar com o aborto não o fazem, porque eles não o querem.

Nota: Publicado originalmente em 22 de Janeiro de 2012, na semana da Confiança na Mulher, para honrar a sabedoria moral e espiritual que as mulheres investem ao tomar decisões sobre seus direitos reprodutivos.

Sobre a Autora: Valerie Tarico é uma psicologa e escritora de Seattle, Washington. Ela é autora de Trusting Doubt: A Former Evangelical Looks at Old Beliefs in a New Light e Deas and Other Imaginings, e é fundadora da www.WisdomCommons.org. Seus artigos podem ser vistos em Awaypoint.Wordpress.com.

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