Videos no Canal do FSEMZUSP!

Para quem ainda não sabe, o Fórum de Sistematica e Evolução do Museu de Zoologia da USP está com um canal no YouTube e está disponibilizando filmes de palestras e outros eventos que ocorrem no museu.

Eu estava na cola deles sobre isso à séculos, desde que descobri que o MZUSP tem um sistema de filmagem bastante avançado (e com uma qualidade de som ótima, como vocês irão notar). A internet carece de filmes científicos de alto nível em português, e acredito que essa seja uma oportunidade ótima para divulgação e popularização.

Eles também estão colocando aulas que foram ministradas durante o curso de aperfeiçoamento de monitores, que ajudei a organizar. As aulas tem caráter mais didático, então talvez seja ideal para quem quer saber um pouco mais sobre os assuntos expostos.

O único motivo pelo qual estou falando disso é que eles ainda tem menos vizualizações do que meu blog, o que é uma evidência forte de que estão tremendamente sub-aproveitados. Então, entrem lá, se inscrevam e aproveitem as palestras!

Acompanhem também as novas palestras no site deles e no perfil deles no facebook.

Links:
Canal: http://www.youtube.com/user/FSEMZUSP
Google Site: https://sites.google.com/site/fsemzusp/
Facebook: https://www.facebook.com/profile.php?id=100003741473576

Variáveis, ou porque precisamos de ratinhos

A um certo tempo atrás, meu colega Pirula fez um video falando sobre testes em animais no qual ele menciona sobre a necessidade de controlar variáveis durante a realização de um estudo com o objetivo de identificar efeitos de tratamentos médicos.

Apesar da questão ética ser de grande interesse meu, não é exatamente esse o meu foco aqui. Durante o vídeo, Pirula dá alguns exemplos do que seriam “variáveis” e passa a bola para o Bernardo (do canal NerdCetico) explicar em mais detalhes. Eu assisti o vídeo do Bernardo e não acho que ele fez um bom trabalho. Meu objetivo aqui não é mostrar que o Bernardo está errado, pois não sei disso: ele tem formação matemática e eu não. Ou seja, a diferença de nossas explicações podem ser meramente um reflexo do jargão das diferentes áreas. Porém posso dizer que estou relativamente familiarizado o jargão experimental de alguns ramos do conhecimento, especificamente em biologia. Visto que o tema original era sobre experimentação em animais, imagino que minha exposição chegue mais próxima do que o Pirula tinha originalmente em mente, e complemente a explicação sobre o porque precisamos controlar variáveis de um ponto de vista estatístico prático (se é que podemos conceber algo assim).

Sendo assim, vamos aos termos:

O que são variáveis?
Variáveis são quaisquer aspectos de um sistema sob investigação que podem variar entre as diferentes observações. Em outras palavras, é o que pode variar entre diversos objetos ou fenômenos que caem dentro da mesma categoria. Por exemplo, se eu estou investigando cadeiras,  variáveis possíveis são desde o peso, o material do qual ela é feita e até mesmo se o seu design se enquadra no movimento bahaus ou não. Ou seja, não existe uma regra que determina que uma variável necessariamente é expressa em valores numéricos, como normalmente se pensa.

Em sistemas biológicos temos uma multitude de características que variam entre os diversos organismos: cor, tamanho, forma, número de células, capacidade de manutenção de temperatura, grau de atividade, idade, etc. Dentro dessa pluralidade de variáveis podemos reconhecer alguns tipos gerais:
-Variáveis Qualitativas, Categóricas ou Discretas:  são todas aquelas que podem ser expressas em categorias que agrupam todos os objetos que possuem aquela característica específica. Por exemplo, quando tentamos identificar a espécie em roedores silvestres, a pelagem é uma característica bastante importante, podendo variar em cor e em tonalidade. Normalmente tais variáveis não apresentam o que chamamos de “ordenação”, ou seja, não existem valores intermediários entre as categorias: um organismo pode ser autotrofo ou heterótrofo, sendo que não existem intermediários entre essas categorias.
Variáveis Quantitativas ou Contínuas: são todas aquelas que variam ao longo de um escala contínua. A grande maioria das grandezas físicas varia dessa forma: peso, massa, aceleração, etc. Muitas variáveis biológicas também se comportam desta forma, como taxas metabólicas, comprimentos de estruturas biológicas, período de atividade, força de mordida, porcentagem de matéria vegetal na dieta, etc.

Variáveis Ordinais (ou semi-quantitativas): assim como as variáveis categóricas, são compostas por classes mutuamente exclusivas. Assim como as variáveis contínuas, essas categorias estão ordenadas de alguma forma, ou seja, existem valores mais baixos, intermediários e maiores. Exemplos desse tipo de variáveis são contagens de eventos, ou qualquer outro tipo de variável expressa por números inteiros (e.x: 1, 2, 3, 4…).

Nem sempre um tipo de fenômeno precisa ser avaliado necessariamente como um tipo único de variável. Por exemplo, podemos avaliar a altura dos indivíduos de uma população de como uma variável quantitativa (medida em centímetros) ou de forma qualitativa (indivíduos “altos” e “baixos”) ou ordinal (indivíduos “pequenos”, “médios” e “grandes”). Tudo depende do tipo de investigação que está sendo feito, nossa capacidade de medir os fenômenos, etc.

Relações entre variáveis

Uma metodologia comum em investigações científicas é o estudo das relação entre diferentes variáveis, com o objetivo de testar previsões teóricas (ex: tal remédio é seguro para o uso). Nesse contexto, costumamos interpretar o valor de uma variável como uma função dos valores de outra variável. Por exemplo, no exemplo abaixo, y é uma função dos valores de x:

Neste exemplo, a relação entre as variáveis é linear, ou seja podemos entender que a relação entre elas é dada por uma reta (ou por uma equação de primeiro grau), na qual cada valor de x tem um valor associado de y. O que é interessante notar é que nessa caso temos uma variável y que depende do valor de x de forma linear (ou seja, segundo uma equação de primeiro grau do tipo). Por esse motivo chamamos y comumente de variável dependente e o x de variável independente. 

Quando analisamos estatisticamente duas variáveis, digamos, dosagem de uma droga experimental e taxa de recuperação, o que fazemos é tentar achar as relações de dependências entre elas. Ou seja, no exemplo, precisamos achar como a taxa de recuperação (Tr) depende da dosagem (d) da droga experimental. Estatisticamente a relação entre essas duas variáveis é dada pela função

onde a0 e a1 são coeficientes da função linear e epslon (simbolo que parece um “e” no fim da equação) é o que chamamos de “erro“, que contem tudo aquilo que não estamos interessados no momento, como peso do indivíduo, idade, dieta, etc. Dessa forma, os métodos estatísticos nos permitem avaliar o que é o real sinal nos nossos dados (ou seja, qual é o efeito da droga na recuperação) do que não nos interessa naquele momento.

Porque controlar o erro?
Visto que o erro em uma analise pode ser controlado estatisticamente, então porque devemos controlar esse erro, ou melhor, no contexto da discussão inicial, porque devemos usar animais de laboratório, que são todos homogeneizados para minimizar tais erro?

O motivo é basicamente estatístico. Quando nosso erro não está controlado, ele pode apresentar uma magnitude grande demais, o que dificulta a identificação da real relação entre as variáveis. No exemplo abaixo, a relação entre as variáveis é a mesma (y=0.5+0.03*x), mas o erro na segunda analise é muito maior do que na primeira. Note também que as retas são bastante diferentes, indicando que a reta obtida com maior erro é muito diferente da real.

Outro ponto é que para o erro (pequeno ou grande) ser considerado como tal em analises estatísticas, ele tem que ser aleatório, ou seja, não pode mostrar forte associação ou padronização com qualquer outra variável que possa ser relevante para o nosso estudo. Quando isso ocorre, tais variávies precisam ser incorporadas  explicitamente na analise, onde cada variável que existe na população deve ser avaliada:

Onde todas as variáveis são expressas por x e seus coeficientes lineares por a. Nesse exemplo, a taxa de recuperação é uma função não apenas da dosagem do remédio, mas da idade, peso, dieta, tipo sanguíneo, sexo, etc.

Entretanto, a solução não é simplesmente coletar mais informações sobre os indivíduos que estão na análise. Existe um numero mínimo de indivíduos que precisam ser utilizados que aumenta a medida que avaliamos mais e mais variáveis. Esse número mínimo é uma função de diversos fatores, e existe toda uma área dedicada ao estudo desse tipo de coisa, porém uma coisa pode ser colocada categoricamente: o número de indivíduos na sua análise nunca pode ser inferior ao número de variáveis abordadas explicitamente. Ou seja, se formos em uma população humana natural, quantas variáveis devem variar de forma significativa? Cinqüenta? Trezentas? Acho que dá para pegar a idéia. Adicionalmente, quando avaliamos um número muito grande de correlações, existem sempre a possibilidade de identificar correlações onde na verdade não existem nenhuma, por puro acaso (é o que os estatísticos chamam de erro do tipo I).

Isso talvez ajude a entender porque muitas das análises sobre benefícios de algum tipo de alimentação variam tanto. Via de regra, tais estudos tem que ser realizados na população humana, incluindo todos os problemas metodológicos colocados. Ou seja, o resultado pode variar tanto não porque os “cientistas não se decidem se ovo é bom”, mas porque os indivíduos amostrais para esse tipo de investigação (e.g. seres humanos sem controle algum) são particularmente ruins para análises estatísticas.

Em outras palavras, testar um produto em uma população não controlada não é apenas perigoso (afinal, estamos falando de medicamentos, e não shampos para cabelos secos), mas é ciência ruim.

Porque devemos comer carne

Original: John S. Wilkins, evolvingthoughts.net

Humanos, assim como outros primatas, comem principalmente raízes, vegetais e nozes, mas irão comer carne quando disponível. Carne é uma valiosa fonte de proteínas e outros recursos nutricionais, e não pode ser desperdiçada. Mas, apesar dessa ser uma afirmação de fato, ela não é uma afirmação de obrigação ou permissão moral. Eu irei argumentar que nossa história evolutiva torna a ingestão de carne não apenas inevitável, mas algo que vale a pena, apesar de que eu não advogaria em favor da quantidade de carne que ingerimos hoje no mundo ocidental.

Existem muitas teorias de ética, mas uma das mais antigas e influenciais é a visão que pode ser traçada até Aristoteles: a Boa Vida é aquela que leva ao florescimento da vida humana. Isso é chamado de “eudaimonia” em Aristoteles. Agora, dessa perspectiva, o que devemos fazer é o que contribui para a eudaimoni, e por acaso todos concordam que humanos evoluíram para, e se desenvolvem melhor quando, comem uma dieta primariamente constituída de matéria vegetal, com uma pequena quantidade de carne, a famosa “pirâmide alimentar” da escola primária. Existem nutrientes que humanos requerem que a carne provêem e são impossíveis ou muito difíceis de serem obtidos de outra forma.

Eudaimonismo é uma ética “espécie-relativa”. Diferentemente da ética universal do vegetarianismo, direitos e deveres morais não são necessariamente estendidos para outras espécies, mas eles se aplicam à todos os humanos. Em “Expanding the Circle” (Expandindo o Circulo), Peter Singer argumenta que direitos morais são universais a todos os seres sencientes; uma visão eudaimoniana não presume isso. Esse é o universalismo de Kant, não de Bentham. Nós sabemos que todos humanos têm direitos e posturas morais; nós precisamos saber com que base nós devemos conferir direitos a animais. Nós presumimos que membros da especie humana têm uma natureza moral.

Sociedades escolhem conferir direitos baseados nas propriedades morais das pessoas. Pode ser objetado que essa visão faria crueldade contra animais permissível. Isso não procede. Como Kant notou, crueldade contra animais afeta seres humanos, degradando sua natureza moral, e apenas com base nisso ela deveria ser proibida. Mas nós podemos também conferir direitos para não-humanos com base no fato de deterêm algumas ou todas as propriedades morais dos humanos. Por exemplo, adultos de grandes primatas tem as capacidades cognitivas aproximadas de uma criança de três à cinco anos; e então eles deveriam ter os direitos e proteções conferidas a aqueles humanos.

Portanto não devemos comer, ou permitir que comam, grandes primatas ou outras espécies com capacidades cognitivas comparáveis. Mas os animais de abate não estão nessa classe (e aqueles que estão, em algumas culturas, como cachorros, deveriam ser excluidos da categoria de “animais de abate”). Nós deveríamos demandar que animais sejam abatidos (e criados) de forma humana (ou seja, sem crueldade ou dor), mas isso não é o suficiente para que seja proibido consumi-los.

Uma implicação disso entretanto é que nós devemos fazer todas as coisas que contribuem para o florescimento humano, e que isso irá incluir a redução da quantidade de carne ingerida, por vários motivos: muita carne leva a várias doenças, desde gota até problemas cardíacos; carne é um recurso caro e ultimamente insustentável nos níveis atuais; e animais de abate são rotineiramente invasores e ecologicamente nocivos.

Em todas as coisas, proporcionalidade é a chave para o florescimento. Muito de qualquer bem pode se tornar um mal. Um pouco de carne é bom; muito dela é um mal. Isso também é uma visão antiga dos gregos. Epicurianos diziam que o prazer é bom, mas muito dele não é. Em contraste com os extremismos do vegetarianismo, todas as coisas, em moderação, para o florescimento da humanidade, este é o caminho.

O caso do sexto naufrago


Abaixo reproduzo um experimento desenvolvido pelo filósofo Stephen Law, e publicado como parte de um artigomais amplo sobre o ceticismo sobre a existência de Jesus Cristo na revista Faith and Philosophy. Aqui Law discute um exemplo hipotético ilustrativo para avaliar os critérios normalmente utilizados por estudiosos do novo testamento para justificar a existência do Jesus histórico. Um desses estudiosos é Bart Ehrman, que mencionei recentemente.


Destes critérios, Law avalia explicitamente o critério da Múltipla Atestação (a existência de várias fontes originais para uma dada afirmação), o critério da Descontinuidade (a dissonância entre o que é afirmado em uma fonte e a ortodoxia vigente naquela região naquele período) e o critério do Constrangimento (o fato de que pessoas não falariam sobre algo que teria consequência negativa para a difusão da mensagem que ela quer passar).


Eu não tenho uma opinião formada sobre o assunto, mas concordo com Law no sentido que acho os critérios usados para atestar a existência de Jesus um tanto fracos, ou não tão impressionantes quando avaliados no contexto. Podem existir outros, obviamente, dos quais não estou familiarizado, ou mesmo que minha avaliação sobre sua suficiencia seja equivocada (obviamente, não sou historiador). 


Também concordo que o principio avançado por ele, o principio da contaminação, me parece válido. O principio basicamente consiste em afirmar que é razoável ser cético a respeito de toda uma estória se essa apresenta aspectos fantásticos e mundanos (os estudiosos do novo testamento que afirmam a existência do Jesus Histórico rejeitam os aspectos fantásticos da narrativa dos evangelhos, enquanto aceitam os aspectos mundanos da história). Porém me pergunto o que acontece se algum historiador não assume que tai aspectos fantásticos não são… bem, fantásticos?


De qualquer forma, acho o exercício de Law estimulante, e valeria a pena ver o quão razoável as pessoas acreditam que seja a história do sexto náufrago.


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Suponha que cinco pessoas são resgatadas de uma grande, porém inabitada ilha na qual eles naufragaram 10 anos antes. O grupo de náufragos sabia que se eles sobrevivessem eles seriam, eventualmente resgatados, pois a ilha era uma reserva natural visitada por ecólogos a cada dez anos.


Na medida que os náufragos recontam suas estórias, eles incluem os fantásticos casos de um sexto indivíduo que naufragou com eles. Essa pessoa, eles afirmam, logo se destacou dos outros por realizar milagres – andar no oceano, curar miraculosamente outro naufrago que havia morrido em decorrência de uma mordida de cobra, criando grandes quantidades de comida do nada e etc. O misterioso sexto naufrago tinha pontos de vista éticos incrivelmente originais e, apesar de não-ortodoxos, eles foram entusiasticamente recebidos por outros náufragos. Finalmente, alguns anos atrás, o sexto náufrago morreu, mas retornou a vida três dias depois, e logo em seguida ascendeu aos céus. Ele inclusive foi visto diversas vezes após esse ocorrido.


Vamos adicional mais alguns detalhes para esse cenário hipotético. Vamos supor que os cinco náufragos contam principalmente a mesma história sobre o sexto membro do grupo. Apesar de diferente em estilo, os relatos são geralmente consistentes. De fato, um retrato vivido e poderoso do sexto náufrago emerge do testemunho coletivo, contendo tantos detalhes quanto, digamos, o Evangelho a respeito de Jesus.


Curiosamente, as estórias sobre o sexto náufrago incluem um número de detalhes que são embaraçosos para o restante dos náufragos. De fato, todos eles concordam que dois dos sobreviventes de fato traíram e mataram o sexto náufrago. Adicionalmente, algumas façanhas supostamente realizadas pelo sexto náufrago estão em clara contradição com o que os sobreviventes acreditam sobre ele (por exemplo, apesar de acreditarem que o sexto naufrago era totalmente desprovido de maldade, eles atribuem a ele ações que aparentam ser deliberadamente cruéis, ações que subsequentemente são difíceis de serem explicadas pelos sobreviventes). Esses são detalhes que dificilmente seriam do interesse dos náufragos de serem inventados.


Tamanha é a admiração pelo sexto membro e por suas visões éticas impares que os sobreviventes tentam de forma insistente em nos convencer que ambas são verdade, e que é importante que nós também abracemos seus ensinamentos. De fato, para o grupo resgatado, o sexto naufrago é uma figura reverenciada, uma figura que eles querem que nós reverenciemos também.


Agora, suponhamos que nos temos, até o momento, nenhuma boa evidencia independente que existiu um sexto náufrago, muito menos que ele realizou milagres atribuídos a ele. Qual seria nossa atitude em relação a essas afirmações?


Claramente, nós seriamos corretamente céticos sobre as partes miraculosos do testemunho em relação ao sexto náufrago. O testemunho coletivo deles não é nem de perto evidencia o suficiente de que tais eventos aconteceram. Mas e sobre a existência do sexto náufrago? É razoável acreditar, apenas com base nesse testemunho, que um sexto náufrago era pelo menos uma pessoa real, e não parte de um delírio, uma ficção deliberada ou o que quer que seja?


Note que as evidências apresentadas pelos cinco náufragos satisfazem os três critérios previamente discutidos.


Primeiro, nós temos múltiplas testemunhos: não um, mas cinco afirmações individuais sobre a existência do sexto náufrago (adicionalmente, note que nós estamos lidando com testemunhas elas mesmas, e não registros de segunda ou terceira mão, então não existe possibilidade de outros terem alterado a estória original. como seria o caso dos testemunhos do Novo Testamento).


Segundo, seus relatos contem detalhes que são claramente altamente embaraçosos (na verdade, são seriamente incriminantes) para quem relata. Isso levanta a pergunta: porque iriam os náufragos deliberadamente incluir tais detalhes em uma estória inventada – um história que, por exemplo, está em clara tensão com o que eles acreditam sobre seu herói, e que, de fato, os descreve como traidores assassinos?


Terceiramente, porque deveriam eles atribuir à um sexto náufrago visões éticas não-ortodoxas ou qualquer outro tipo de visão dissonante com a sabedoria comumente aceita? Se, por exemplo, o sexto náufrago é uma invenção desenvolvida com o objetivo de estabelece-los como gurus de um novo culto, porque irão eles atribuir ao seu líder mítico visões que dificilmente seriam aceitas por outros?


Existe pouca duvida de que poderia ter existido um sexto náufrago que disse e fez coisas atribuídas a ele. Mas se pergunte: o testemunho coletivo do grupo resgatado coloca a existência do sexto náufrago acima de qualquer suspeita? Se não acima de qualquer suspeita, seria sua existência algo que deveria ser  razoavelmente que aceito? Ou seria mais sábio, nesse ponto, que reservemos julgamento e adotemos uma postura cética?

Chomsky chama Harris e Hitchens de fanáticos religiosos

Hoje Daniel Dannett publicou em sua página no Facebook um vídeo do Noam Chomsky, linguista e intelectual de esquerda, dando sua opinião sobre Sam Harris e Christopher Hitchens:

Em primeiro lugar eu acho que eles [Harris e Hitchens] são fanáticos religiosos. Eles por acaso acreditam na religião do Estado, que é muito mais perigosa do que outras religiões […]. Ambos são defensores da religião do Estado, a religião que diz que precisamos apoiar violência e atrocidades do nosso próprio governo porque está sendo feita por todos estes maravilhosos motivos, que é exatamente o que todo mundo diz em todo Estado.

Acho um tanto estranho chamar qualquer tipo de posição ideológica extremista como “religiosa”. Afinal, se religião é qualquer coisa, a ausência dela (secularismo) deveria ser algo que não pode ser classificado como religião. De qualquer forma, não posso dizer que discordo da crítica do Chomsky: o endosso que Hitchens ofereceu à invasão do Iraque sempre me foi desconfortável e as justificativas que ele ofereciam sempre me soavam boas o suficiente apenas se você assumia que intervencionismo militar era algo aceitável.

Essa crítica do Chomsky não é nova. De fato, ele parece ver o movimento “neo-ateísta” como inútil (por apenas oferecer uma mensagem à pessoas que já concordam) ou danoso (por endossar o tipo de violência que ele critica), opinião essa fortemente enviesada pela sua opinião sobre Harris e, principalmente, Hitchens. Tal discórdia parece ter começado logo após 11 de Setembro, quando Chomsky publicou um comentário sobre o atentado que foi interpretado por Hitchens e Harris como uma tentativa de justificar o ocorrido como consequência da política intervencionista Norte-Americana. O debate que se desenrolou não foi nada amistoso, sendo que umas das acusações mais sérias que Chomsky fez a Hitchens é que ele estava sendo deliberadamente enganoso.

Nos comentários do meu post passado, meu colega Xis indagou o porque dos “neo-ateus” tenderem para a direita. Meu chute foi que o 11 de Setembro teve um impacto grande na geração do movimento, e que a defesa de ações intervencionistas e autoritárias eram algo esperado dentro do movimento, visto que a motivação para a crítica à religião e para tais ações é a mesma (terrorismo muçulmano). O debate de Chomsky e Hitchens me parece consistente com essa narrativa, assim como o fato de Harris ter colocado que nenhuma de suas posições era particularmente nova.

Sam Harris: defendendo a discriminação?

Eu gosto de muito o que Sam Harris diz. Sua abordagem consequencialista sobre moralidade e sua visão sobre livre-arbitrio são ambas muito similares a o que penso e é sempre muito bom ver alguém com algum tipo de voz no cenário internacional difundindo ideias compatíveis com as suas sobre questões tão importantes como ética e moralidade. E é por esse motivo que fiquei profundamente decepcionado com um recente post em seu site.

Ele inicia comentando sobre o teatro que os passageiros tem que passar quando são aleatoriamente selecionados em aeroportos para serem revistados (muitas vezes de forma bastante invasiva) e terem seus sapatos removidos para a procura de material explosivo. Ele conta o caso de um casal de idosos e uma garotinha apavorada de três anos que teve que remover sua sandália para que fossem investigadas. Concordo que muitas dessas medidas são abusivas e desnecessárias, mas para Harris, o buraco é mais embaixo:

Existe algo que podemos fazer para parar essa tirania de justiça? Algum semblante de justiça faz sentido- e, desnecessário dizer, as malas de todos deveriam ser revistadas, apenas porque é possível colocar uma bomba na bagagem de outros. Mas a TSA [segurança dos aeroportos] tem uma quantidade finita de atenção: Cada momento revistando o Coral Góspel Mórmon subtrai do escrutínio destinado à ameaças mais prováveis. Quem poderia falhar em compreender isso?

Imagine o quão fátuo seria lutar uma guerra contra o IRA e mesmo assim se recusar à discriminar [para a revista] os Irlandeses? E mesmo assim é assim que nós estamos lutando nossa guerra contra o terrorismo Islamico.

Confesso, eu não tenho que passar pela experiência de ser continuamente discriminado. Sem dúvida seria frustrante. Mas se alguém vagamente parecido com o Ben Stiller fosse procurado por crimes contra a humanidade, eu entenderia se eu virasse algumas cabeças no aeroporto. Entretanto, se eu fosse forçado a esperar atrás de uma fila para uma revista desnecessária de mais pessoas, eu certamente iria ressentir a adicional perda do meu tempo.

Nos deveríamos descriminar muçulmanos, ou qualquer pessoa que concebivelmente possa ser um muçulmano e deveríamos ser honestos a respeito disso.

Yep, é isso mesmo. Ele não disputa a paranoia (que me parece obvia) ou mesmo sequer a inutilidade operacional de tais revistas, coisa que ele reconhece. Não… o problema é que não estão revistando quem deveria ser revistado: os muçulmanos, ou pessoas que se pareçam com um. E, aliás, o que diabos é “se parecer com um muçulmano”? Alguém de pele escura e de barba?

Isso sem contar a justificativa dada por Harris para a discriminação é absurda. Claro que se você parece com alguém que está sendo procurado pela polícia, é esperado que você seja abordado mais frequentemente. Mas os muçulmanos que seriam presumidamente parados nessas revistas não se parecem com ninguém: eles apenas se parecem com um estereótipo de muçulmano, um grupo que presumidamente tem maior chances de conter terroristas por algum motivo esdrúxulo. Ver alguém como Sam Harris defendendo uma prática claramente discriminatória por nenhum bom motivo é bastante embaraçoso.

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Atualização (04/05/2012)

Sam Harris publicou um adendo em seu blog sobre o assunto. Não é uma desculpa, é uma explicação sobre o porque de sua postura não ter se desviado do que ele já defendia. Ou seja, quem ficou impressionado, assustado ou decepcionado com sua postura na verdade não havia parado para pensar nas consequências do seu tipo de discurso. Eu posso aceitar isso e confesso que eu sou um dos que não parou para pensar, aparentemente.

Ele ainda reitera que ele não está defendendo discriminação racial (apenas discriminação, por assim dizer), mas aqui eu acredito que ele está sendo insincero. Ele sabe muito bem que muçulmanos são normalmente associados à um estereotipo racial, e defender o “profiling” com base em primeiras impressões é apelar para esse estereótipo ou qualquer outro aspecto fenotípico, estético ou estilístico. Estereótipos esses que falham, obviamente, como indicadores de inclinações terroristas. Harris então compara o “profiling” que ele ele advoga, com o “profiling” psicológico, algo que é obviamente impossível de ser feito em um aeroporto em uma fila de espera.

Ao meu ver, ou Harris está realmente confuso sobre o que ele de fato está defendendo, ou ele notou que foi descuidado em suas colocações e está tentando remediar da melhor maneira possível sem ferir profundamente seu ego.

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