Chomsky chama Harris e Hitchens de fanáticos religiosos

Hoje Daniel Dannett publicou em sua página no Facebook um vídeo do Noam Chomsky, linguista e intelectual de esquerda, dando sua opinião sobre Sam Harris e Christopher Hitchens:

Em primeiro lugar eu acho que eles [Harris e Hitchens] são fanáticos religiosos. Eles por acaso acreditam na religião do Estado, que é muito mais perigosa do que outras religiões […]. Ambos são defensores da religião do Estado, a religião que diz que precisamos apoiar violência e atrocidades do nosso próprio governo porque está sendo feita por todos estes maravilhosos motivos, que é exatamente o que todo mundo diz em todo Estado.

Acho um tanto estranho chamar qualquer tipo de posição ideológica extremista como “religiosa”. Afinal, se religião é qualquer coisa, a ausência dela (secularismo) deveria ser algo que não pode ser classificado como religião. De qualquer forma, não posso dizer que discordo da crítica do Chomsky: o endosso que Hitchens ofereceu à invasão do Iraque sempre me foi desconfortável e as justificativas que ele ofereciam sempre me soavam boas o suficiente apenas se você assumia que intervencionismo militar era algo aceitável.

Essa crítica do Chomsky não é nova. De fato, ele parece ver o movimento “neo-ateísta” como inútil (por apenas oferecer uma mensagem à pessoas que já concordam) ou danoso (por endossar o tipo de violência que ele critica), opinião essa fortemente enviesada pela sua opinião sobre Harris e, principalmente, Hitchens. Tal discórdia parece ter começado logo após 11 de Setembro, quando Chomsky publicou um comentário sobre o atentado que foi interpretado por Hitchens e Harris como uma tentativa de justificar o ocorrido como consequência da política intervencionista Norte-Americana. O debate que se desenrolou não foi nada amistoso, sendo que umas das acusações mais sérias que Chomsky fez a Hitchens é que ele estava sendo deliberadamente enganoso.

Nos comentários do meu post passado, meu colega Xis indagou o porque dos “neo-ateus” tenderem para a direita. Meu chute foi que o 11 de Setembro teve um impacto grande na geração do movimento, e que a defesa de ações intervencionistas e autoritárias eram algo esperado dentro do movimento, visto que a motivação para a crítica à religião e para tais ações é a mesma (terrorismo muçulmano). O debate de Chomsky e Hitchens me parece consistente com essa narrativa, assim como o fato de Harris ter colocado que nenhuma de suas posições era particularmente nova.

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Discussão - 8 comentários

  1. Washington disse:

    Boa noite, Fábio! Descobri seu blog no Facebook. Pretendo dar minha pequena contribuição aqui.Sou agnóstico, mas tendo para o ateísmo, vamos dizer assim.Sam Harris não é de direita. O máximo que ele pode aproximar é do que seria um centrista, moderado ou um liberal (num contexto norte-americano). Ele critica duramente a direita, sobretudo os cristãos conservadores e seus dogmas. Harris é um racionalista. Com essa coisa toda do terrorismo islâmico que cresceu na última década (ou melhor, ficou mais evidente) resolveram criar um neologismo chamado “islamofobia”. Acontece que hoje qualquer crítica ao islamismo é vista como “islamofobia”. Criticar o islamismo não é discriminar muçulmanos. Por que posso falar que Jesus de Nazaré nada mais é que uma releitura do mito de Mitra ou que Chico Xavier era um esquizofrênico que sofria de problemas mentais sem ser acusado de “cristianofóbico” ou “espiritimofóbico”? Mas se eu disser que Maomé era um pedófilo por ter se casado com Aisha, uma menina de nove anos, logo vem um “progressistas” defensor do moralismo muçulmano e diz: “Islamofóbico!”. Nem posso dizer que o Corão nada mais é que uma releitura mal feita das bíblias judaicas e cristãs… Ah, vá. Já li um artigo do Christopher Hitchens em que ele afirma que os países de maioria islâmica da ONU queriam elevar a homofobia a racismo. Espertinhos eles, não? São iguais aos judeus que chamam qualquer um de antissemita simplesmente por criticar alguns aspectos do Estado de Israel.Discriminação contra cristãos, islâmicos, judeus, hindus, candomblecistas, daimistas e pessoas de qualquer credo ou grupo sempre serei contra. Mas quero ter meu direito de criticar todas as religiões, inclusive o islamismo. Sam Harris busca na essência do judaísmo, do cristianismo e do islamismo os preceitos que legitimam a violência religiosa que vivemos hoje. Harris critica Chomsky pela sua visão meramente economicista e colonialista que esquece que a religião contribui também para a violência. Aliás, parte dessa esquerda “progressista” adora criticar o machismo, a misoginia e a homofobia do Ocidente e da direita conservadora anglo-saxã mas eles fazem um absoluto silêncio quanto ao machismo oriental e islâmico ou então às execuções de homossexuais que acontecem na maioria dos países islâmicos. Hipocrisia deles!Como agnóstico e secular, sou contra qualquer totalitarismo sobretudo aquele que é cometido em nome da religião.No mais, o blog é muito bom e já entrou na minha lista de leituras. Um grande abraço.

    • Fabio disse:

      Obrigado Washington,Existem críticas e críticas, obviamente. Um exercício que acho bem interessante é tentar ler as colocações dos que são acusados de islamofobia, homofobia, maxismo, sectarismo, etc, na luz mais benevolente o possível. No caso do Sam Harris, no último post foi o que tentei fazer, e não vejo como foi uma interpretação errada, por exemplo. Da mesma forma, não consigo entender a defesa de Hitchens da intervenção militar. Obviamente que disso não tiro nada mais do que o fato deles terem posições políticas que discordo. Deixo para os mais capazes diagnosticar a amplitude desse fenomeno.

    • Washington disse:

      Bem, estou meio sem sono; então vou comentar. **rs**Confesso que achei péssimo ele ter apoiado a Guerra do Iraque. Mas entendo a lógica do cara. Hitchens se definia como um herdeiro do Iluminismo intervencionista contra os regimes totalitários. Para ele, países como o Iraque, Irã, Arábia Saudita e et caterva eram islamofascistas (assim ele os definia). Não que ele fosse um neocon, direitista ou coisa do tipo. Hitchens morreu como um progressista e se definia como tal. Ele não apoiava a política maluca do Bush Jr., mas ele dizia que “nós vamos à guerra com o presidente que temos”.Apesar desses deslizes, considero Hitchens uma das mentes mais brilhantes dos últimos tempos.Boa noite e acho que agora veio o sono. **rs**

    • Washington disse:

      Só uma correção do primeiro comentário. No segundo parágrafo quis dizer: “os países de maioria islâmica da ONU queriam elevar a ISLAMOFOBIA a racismo.” Digitar sem conferir dá nisso. **rs**

    • Olá, tudo bem, tive contato com sua postagem através de um link postado no Facebook.Pra mim o cerne da coisa é este: os ícones do movimento “neo-ateu” pretendem ressuscitar um “sitz in leben” do século XIX, que gira em torno do positivismo e sua narrativa, que sofrera um golpe mortal com as Guerras Mundiais, tentara ressuscitar nos anos 60 e com a Revolução de 68 tomara outro golpe. A questão da crença ateísta é central para tal, mas vem acompanhada de muitos outros pontos societais que eles defendem.Assim, o direitismo, o ocidentalismo, e todos os demais bordões não são fortuitos, e assim deve ser compreendida a postura direitista de Harris e Hitchens – que justificara a chassina de pessoas que estavam a levar ajuda humanitária para palestinos na Faixa de Gaza.Dizer que eles não são de direita por criticarem a direita religiosa é dizer que Diogo Mainardi também não seria de direita. É tão antiintelectual quanto ignorar pesquisas humanísticas das origens cristãs e ainda comprar versões tão malucas quanto criacionismo, de nomes como a teosofista Archarya S.Abçs

  2. Unknown disse:

    Desculpe o linguajar, mas o senhor “informadordeopinião”, está dizendo mentiras. Esse papo de que o Hitchens caiu pra direita é absurdo. Até os últimos anos da sua vida ele sempre se definiu como de esquerda, não tanto quanto antes, mas na esquerda ainda sim. Os pontos principais pontos defendidos pelo Hitchens podem ser definidos, como ele mesmo disse, pelo texto do George Orwell, “Why I Write”.Em um momento do texto Orwell diz que tudo que ele escreveu desde 1936 é direta ou indiretamente:contra o totalitarismo e em favor da democracia socialista. E até o anos finais, ele mantinha um certo respeito pelo Trotsky(apesar das coisas que este fez).Link: do texto do Orwell:http://orwell.ru/library/essays/wiw/english/e_wiwOutra coisa, o Hitchens sempre foi contra as politicas de Israel, só que ele dizia que entre apoiar Israel ou o Hamas/Hezbollah, ele ficaria do lado de Israel.Sobre o intervencionismo. Hitchens foi a favor da intervenção britânica nas Malvinas, enquanto a maior parte da elite de esquerda foi contra. Mas ele foi a favor, não pq adorava a Tatcher ou pq era imperialista, mas sim pq via a intervenção inglesa como uma forma de solapar a ditadura argentina(o que de fato aconteceu). E foi a favor da intervenção da OTAN nos Balcãs para destruir a ditadura de Milosevic e parar o genocídio.Por fim, essa mania de criar uma falsa dicotomia entre direita esquerda é algo que me dá arrepio. Parece que vc está comprando um pacote fechado de ideologias e qualquer que saia fora disso automaticamente significa que a pessoa “traiu o movimento”. A essa altura do campeonato, em 2012, esse tipo de separação ainda permanecer enraizada, é preocupante. Isso pra mim é ser anti-intelectual. Deixar de ver as nuances em prol de um pacote fechado de ideologias.Sobre o Chomsky, a treta dele com o Harris e com o Hitchens é pq ele simplesmente se nega a enxergar o papel do fundamentalismo religioso no terrorismo e nas ações de Estados como o Irã e a Arábia Saudita. Para ele isso é irrelevante, é um parte muito pequena dos problemas do Oriente Médio. Para ele tudo se refere a uma resposta à violenta politica externa americana.Ps: Desculpe pelo comentário gigante. Mas senti que deveria responder a um dos comentários. Ótimo blog, muito informativo. Desculpe se ofendi vc ou qualquer outro.

  3. Manuel Flores disse:

    o problema do hitch e do harris é que pro mais brilhantes e inspiradores eles sejam tem horas que eles soam como nazi-fascistas ou imperialistas do século XIX, que viam os outros povos e culturas como bárbaros que deviam ser civilizados ou mortos se recusassem a cultura ocidental democratica e laica, que eu amo e defendo, mas não acho que deve ser imposta mas proposta

  4. Senhor desconhecido, somente hoje dei conta de sua resposta.Que infelizmente pode ser descartada por não conter nenhum inferencial apropriado.
    Todas as magnetitas e biotitas do mundo têm conhecimento de que Hitchens renegou, desde 1976, seu passado de esquerda militante, ainda mais o trotskista. É completamente gratuito seu paralelo, ele que foi se tornando plutocrata, com a coerência da democracia radical de Orwell. Ele quase vira um tipo “Pondé”, como se vê no ridículo debate com o Gabeira.

    Hitchens foi espancado em debates tanto pelo conservador religioso Lane Craig, quanto pelo George Galloway e pelo libertário Richard Seymour. Contra o Bill Maher, então, foi algo que eu no lugar do Hitch, ficaria muito tempo sem sair de casa.

    Hitchens foi defensor da política externa do Bush. Defendeu o massacre do comboio humanitário que ia à Palestina. Enquanto apoiou Thatcher, silenciou sobre o apoio dela ao Pinochet. Quê mais se precisa dizer? Basta ser honesto. Isso de defender Israel contra os palestinos apelando para extremistas islâmicos ( ignorando os extremistas sionistas), é o que toda direita faz.

    Olha o quão “humanista” ele era, falando ao Greenwald: “If you’re actually certain that you’re hitting only a concentration of enemy troops…then it’s pretty good because those steel pellets will go straight through somebody and out the other side and through somebody else. And if they’re bearing a Koran over their heart, it’ll go straight through that, too. So they won’t be able to say, “Ah, I was bearing a Koran over my heart and guess what, the missile stopped halfway through.” No way, ’cause it’ll go straight through that as well. They’ll be dead, in other words.”

    Desde o livro do Bobbio ficou desmascarado que quando alguém vem com o discurso da inutilidade da distinção “esquerda x direita” na política, está tergiversando do fato de ser de direita. Aliás, para não mais repetir estas bobagens, sugiro se informar com o livro do Bobbio e também o “Após o Liberalismo” e “O Fim do Mundo como o concebemos” do Wallerstein. Porque estes cacoetes sobre o fim da distinção morreram na virada do século, só tendo durado uma década.

    O que o Chomsky não engole é isso de pegar o fundamentalismo fanático como pretexto para inculcar um programa de uma narrativa retro-positivista novecentista.

    No mais, é interessante lembrar que Hitchens tergiversava sobre o financiamento bilionário dos EUA à Aliança Islâmica do Mujahedin Afegão na década de 80.

    Ponto.

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