Toda palestra sobre biologia evolutiva…

Original: DarwinEatsCake
Todo seminário sobre Teoria Evolutiva começa da mesma forma:
“A Teoria Evolutiva padrão assume , mas eu irei mostrar que  utilizando uma técnica matemática emprestada da que vocês nunca ouviram falar, chamada .”
É da mesma forma que hipsters começam conversas condescendentes sobre uma nova banda indie que eles acabaram de descobrir, na qual a banda é na verdade Coldplay.

Haeck: Que bom! Agora já sei como começar as minhas palestras.

Encontro improvável (guest post)

Momento do encontro entre hereges na paulista. Esquerda para a direita: Guilherme Tomyshio, Pirulla, Rony, eu e Vivian.  Foi usada uma câmera especial que captura a intensidade da malevolencia, evidenciado pela intensidade do brilho dos olhos. Nota especia para o Pirulla e para a Vivan. 





Segue abaixo um texto elaborado por meu amigo Rony Marques, relatando um encontro ocorrido entre eu, o Pirulla, o Guilherme Tomyshio, a Vivian Paixão, Rhafael Examus. Algo muito divertido que já está virando uma rotina. A pluralidade de opiniões e perspectivas é bastante revigorante e estimulante. Talvez esse seja a verdadeira força de se ter um grupo totalmente heterogênio de pessoas sob o mesmo nome, seja ele “ateus” ou “céticos” ou qualquer coisa assim. 


Claro, eu objetaria à minha representação como um bebado irremediavel, mas é uma representação   precisa o suficiente.




Rony Marques ————————————————

Fim de tarde em uma das principais avenidas de São Paulo, a Paulista. Saio do metrô em direção ao parque Trianon e vejo pessoas andando em uma desordem organizada, passando umas pelas outras, porém sem se trombarem. Passo em frente a uma banca e vejo as notícias, quase cópias umas das outras, nas primeiras páginas dos jornais.

Chego perto do bar que vai ser usado como ponto de encontro e vejo as pessoas com quem me encontrarei sentadas em uma mesa próxima a rua. Não consigo deixar de comparar a cena que vejo com a Ultima Ceia, o afresco de Da Vinci: Um cara com cabelos e barbas longas passando a seus companheiros a bebida. O primeiro a pegar a cerveja é um homem, com cara de uns 30 anos, barba escura e um olhar sarcástico e inteligente, ao mesmo tempo; este dois são Paulo Miranda (mais conhecido como Pirulla) e o Fábio Machado, o Haeckeliano, que, para quem não os conhecem, são biólogos e divulgadores da ciência na internet. Além deles, estava o Rhafael, que se identificou mais tarde como um desocupado por excelência, que na hora, respondia sem qualquer vontade um homem que fazia uma pesquisa sobre cigarros e que eu achei que fazia parte do grupo. Ao lado do Fábio estava Vivian, uma carioca, a mais tranquila deles, porém não menos louca. E, como o último apóstolo, estava Guilherme Tomishyo, um físico da UFSCar e fumante moderado, que a propósito, era o único que estava em pé, fumando. Por fim, para fechar o grupo estava o jornalista que decidiu por em palavras o que aconteceu neste encontro, conhecido por seus pais como Rony e por mim como “Eu”.

Ao me sentar na mesa, Pirulla me apresentou a todos do grupo, que me ofereceram um copo de cerveja antes de sequer perguntarem meu nome. Agradeci, peguei meu copo e me juntei a conversa, depois que o pesquisador intruso foi embora.


Se eu realmente fosse tentar transpor todas as conversas, piadas e frases filosóficas regadas a álcool que foram proferidas ou latidas na mesa do bar, teria de escrever um livro comparado em tamanho e complexibilidade a Ulisses. Por isto, irei resumir a conversa e o número de garrafas de cerveja que bebemos. Além disto, eu não me lembro de tudo o aconteceu na mesa (Não foi amnésia alcoólica, só a conversa que foi muito extensa), então não poderia reproduzir tudo, mesmo que quisesse.


Para começo de conversa discutimos a noite inteira sobre política, ciência e religião, ou seja, tudo o que não se discute em muitas outras mesas de bar. Falamos de críticos e críticas ao ateísmo (Alguém leu Conde ali?) e, também, sobre os ateus “bitolados” e com argumentos rasos. Piadinhas sobre histórias de bebedeiras uns dos outros foram contadas e mais umas três rodadas de cerveja se passaram.

No meio de um assunto, um mendigo que passava por ali, veio pedir uma Coca para nós. Chamamos o garçom e pedimos que ele trouxesse o refrigerante e coloca-se em nossa conta. Até ai, tudo bem, voltamos a nossa conversa e o mendigo começou a falar com o garçom. O problema é que o mendigo mudou de ideia e quis uma Fanta, mas o garçom se recusou a dar, pois nós tínhamos pedido uma Coca. Pronto. Foi só isso para que, sem que nós percebêssemos, uma disputa começasse do nosso lado… A briga foi ficando cada vez mais séria, até o ponto em que se tornou uma rincha entre cidades, pois cada um era de um lugar do nordeste que odiava o outro. Estramos no meio da conversa e pedimos a bendita Fanta, antes que alguém pulasse no pescoço do outro. Cinco minutos depois, vemos o mendigo indo embora, feliz da vida com sua latinha de Fanta, enquanto eu pedia desculpas ao garçom.


Mais umas quatro rodadas de cerveja e alguns bons minutos em filas para poder usar o banheiro, e a conversa entra na questão de cotas raciais, onde o Fábio, confuso pela quantidade de álcool no sangue, já não se lembra mais se é a favor ou contra. Depois de uma breve explicação dos prós e contras, feitas por Pirulla, ele faz uma cara de tanto faz e diz que só houve problema, pois as universidades não “criaram” vagas para negros e sim pegaram reservaram vagas já existentes, então o pessoal sente como se tivesse perdido uma vaga, ou ainda, um direito e por isto que houve tanta confusão. Obviamente ele disse de um jeito um pouco mais confuso e enrolado, mas achei interessante botar isto aqui. Me levanto da mesa e vou ao banheiro no meio de uma conversa sobre acústica, entre o Tomishyo e a Vivian, que é formada em letras e está fazendo uma pesquisa na área de fonoaudiologia, ou algo do gênero. Após quinze minutos em uma fila e várias tentativas, por parte dos homens da fila, de tentar usar o banheiro feminino, desisto e volto para a mesa.

Andando em direção a mesa, percebo que um pequeno grupo de mascaras e suspensórios se junta na esquina da rua, pegam um megafone e começam a discursar sobre o mal da Globo, da televisão, os comunistas, os direitistas, fim do mundo, Illuminatis e Nova Ordem Mundial, não nesta ordem. Esperava que isso acontecesse, afinal, estamos na Paulista; o problema é que o cara só falava besteira e a merda do megafone estava muito alto e eles gritavam próximos da nossa mesa. Fábio, já um pouco alterado, e eu resolvemos levantar e nos aproximar dos mascarados para ouvir o que eles berravam aos transeuntes e as outras pessoas no bar, que os ignoravam quase que por completo. Depois de mais alguns minutos, eles desistem de usar o megafone, tentam falar com algumas pessoas que passavam por ali, mas percebem o fracasso e vão para o bar e pedem algumas cervejas.


Nesta parte da noite Rafael já tinha indo embora e percebemos que já tínhamos falado de quase tudo que era possível: deus, política, sacolinhas plásticas, fim do mundo etc. Então começamos a conversar sobre histórias particulares, que mais lembravam aqueles contos fantásticos de rodas de fogueira. Cada um tinha a sua história mal contada que sempre deixou dúvidas em como aconteceu. A melhor, em minha opinião, foi uma das do Pirulla, que tinha um bom número de histórias estranhas para nos contar. Ele disse certa vez, estava dormindo com sua namorada e de repente ela acordou gritando, “Vai bater, vai bater!”. Ele acordou assustado olhou para ela e alguns segundos depois, dois carros bateram na rua ao lado. A história até que não durou muito, mas passamos uma boa uma hora tentando explicar o que aconteceu. No final, chegamos a “obvia” conclusão de que Leprechauns falaram o que iria acontecer em no ouvido dela.


Passamos então a jogar alguns jogos, como “Eu nunca”, o que rendeu um bom número de piadas, risadas, e, pelo menos, umas três ou quatro garrafas de cerveja e uns pasteizinhos. Está parte foi, talvez, a mais engraçada, pois quase todas as perguntas eram obscenas, mas todos respondiam tranquilamente. Fábio, que uma hora já não conseguia ouvir mais as perguntas ou nem lembrava se tinha ou não feito o que perguntamos, acabou bebendo em todas as rodadas, mas no final das contas ele era quem estava mais são entre todos da mesa.


Por fim, pagamos tudo (principalmente eu e o Pirulla), e saímos do bar, tentando não pagar uma única cerveja que pedimos depois, mas o pessoal ficou com certo peso na consciência e acabamos pagando com algumas moedas os três reais que faltavam.


Fomo embora em direção à consolação, onde eles me deixaram em um ponto de Ônibus em frente ao MASP e foram embora, os quatros loucos, que saíram rindo em direção a rua Augusta, para continuar a as aventuras noturnas. Ainda não sei o que eles fizeram depois que eu fui embora, mas com certeza o pessoal não lembra direito o que aconteceu naquela noite, então o breve relato sobre o encontro termina por aqui.






Criacionistas: Proponham ou Calem-se

Segue abaixo um video do antigo usuário do youtube cdk007. Nele, ele convida os criacionistas a enviarem artigos científicos revisados por pares que corroborem suas crenças criacionistas. A idéia é, acima de tudo, tentar desmistificar a noção de que a ciência é uma conspiração atéia com o objetivo de avançar algum tipo de ideologia naturalista, anti-menino Jesus, mas sim é uma área séria e sistemática. Não é a festa da uva, onde qualquer um pode se safar dizendo “é apenas minha opinião”.

Cruzei com esse vídeo a primeira vez a tempos, durante a época de discussões no orkut com criacionistas. Na ocasião, um criacionista dizia ter um teste científico em favor do criacionismo, e o vídeo me pareceu extremamente adequado.

Na época ainda adicionei uma proposta minha. Visto que muitos criacionistas acreditam que existe uma conspiração ateia na ciência, eu me comprometi em facilitar o contato de criacionistas tupiniquins com agencias internacionais que financiam (ou pelo menos dizem financiar) pesquisas que tem como o objetivo demonstrar o criacionismo (como o Discovery Institute) ou que tentam integrar aspectos religiosos na ciência (como a Templeton Foundation). Não que eu ache que nada disso é de fato necessário: um criacionista comprometido conseguiria descobrir instituições nacionais que apoiam esse tipo de empreitada e que seriam muito mais comprometidos com os interesses dos criacionistas. Mas a oferta ainda é válida e por isso reitero ela.

Segue abaixo o video e uma transcrição do conteúdo.

Caros Criacionistas,

Ultima vez que conversamos, eu lhes acusei de, acima de tudo, desonestidade intelectual.


Eu disse que vocês não tem nada a oferecer à comunidade científica. No entanto, muitos de vocês continuam a afirmar que não há provas diretas e verificáveis que a Evolução está errada e a Criação está correta: vocês tem alegado que a sua religião não é baseada em fé, mas em provas reais e irrefutáveis.


Vocês afirmam ter provas, bem, aqui está a sua chance: nós somos todos ouvidos.

Ao longo dos anos, seus sites, videos e livros ofereceram centenas, senão milhares de argumentos supostamente em favor da criação e contra a evolução. A unica regra pela qual vocês tem jogado é que vocês assumem que estão corretos até que todos os seus argumentos sejam provados falsos.
Nós mostramos evidências contra argumentos de 1 a 10, vocês oferecem o argumento 11. Nós mostramos evidências contra o argumento 11, vocês oferecem o argumento 12. Com uma quase ilimitada pilha de ignorância de onde constroem seus argumentos, esse processo pode continuar indefinidamente. Mesmo se refutassemos um milhão de argumentos que poderiam ser construidos, vocês ainda assim não aceitariam a derrota, e sim vocês poderiam construir o argumento um milhão e um.
Sendo assim, proponho o seguinte: Vocês afirmam ter provas, observações irrefutaveis, razões lógicas sólidas. Bem, se isso é verdade, então certamente um argumento, apenas um dos milhares que foram propostos poderia sobreviver ao processo de revisão por pares.

O que é revisão por pares? É um processo pelo qual os especialistas de um campo, as pessoas mais qualificadas para avaliar um trabalho, anonimamente revisão revisam um manuscrito antes de sua publicação. É a “revisão por pares” perfeita? Não. Mas pelo menos é um filtro que separa o lixo sem sentido de coisas que provavelmente são verdade.

Na ciencia dizemos “Publique ou morra!”. Todas as ideias devem ser capazes de passar pela revisão por pares ou devem ser descartados. Então, ao invés de copiar e colar o Answers in Genesis, citando Ken Ham, ou “linkando” para o museu da criação, eu peço para um unico trabalho revisado por pares que sustenta a criação e desmente a evolução. 

Agora eu já posso ouvi-los reclamando que a ciencia é uma gigantesca conspiração de ateus odiadores de Deus que esconde todas as evidências contra a evolução. Sim, isso mesmo, uma conspiraçào envolvendo milhoes de pessoas, de todos os países, culturas e religiões, que se estende por mais de um século no passado…

Apenas no meu laboratório temos 3 auto-proclamados cristãos, um judeu, um muçulmano, um sikh dentre 10 indivíduos. Realmente não soa como um bando de ateus odiadores de Deus para mim.
Mas tudo bem, se você ainda quer alegar que nenhum dos seus trabalhos podem passar a revisão por pares por que um auto-proclamado grupo religiosamente diverso de pessoas são, na verdade, todos ateus enrustidos, tudo bem! Eu vou aceitar no lugar de um artigo revisado por pares, um manuscrito que foi apresentado e rejeitado acompanhado pelos comentários dos revisores e editores da revista
De-me o melhor que você tem. Você não pode afirmar que há uma conspiração se nunca submeteu um artigo pra começar. Uma vez que eu receber um artigo revisado por pares, ou um manuscrito rejeitado com comentários dos revisores eu vou linkar para ele na descrição do vídeo.

Vocês são os que clamam ter provas, então Proponham, ou Calem-se.

Se vocês quiserem que suas ideias sejam respeitadas, você precisa jogar segundo um conjunto de regras justas. Até lá, irei continuar a refutar cada argumento criacionista, um por um. Vou continuar a trazer verdadeiros resultados científicos para um forum público. vou continuar a encoraja as pessoas a fazer aquilo que vocês mais temem: Pensar.

Nota: infelizmente o cdk007 parou de produzir videos, mas a sua lista disponível na internet é bastante completa e muito bem referenciada. Vale a pena assistir.

Haeckeliano por e-mail

Estou tentando facilitar o acesso ao blog. Sei que checar diariamente blogs em busca de atualizações é chato. Mas visto que eu faço isso rotineiramente, esqueço que pode ser um incomodo para as outras pessoas. Até agora tenho espalhado links no facebook, o que se torna cansativo. De qualquer forma, tenho notado que mais pessoas tem entrado a partir de outros links, então tentarei fazer o possível para facilitar a vida de todo mundo.

Sendo assim, coloquei um app para seguir por e-mail no lado direito da página. Está em inglês, mas qualquer um habituado com a internet sabe quais são os passos: coloque seu e-mail, preencha do “captcha” e submeta. Um e-mail será enviado com um link. Basta clicar nele e violá.

Aceito ainda qualquer outra dica para tornar o acesso mais fácil.

Matthew Chapman fala sobre o sincretismo religioso brasileiro.

Estou começando a ler o livro “Trials of the Monkey” (O Julgamento do Macaco), de Matthew Chapman, autor, roteirista de cinema e descendente direto de Charles Darwin. Menciono esse ultimo não porque acredito que a grandeza de seu ancestral tenha reverberado ao longo das gerações. Pelo contrário: Chapman é, de muitas formas a antítese de Darwin, um homem pouco intelectualizado, pragmático, ateu e perdido, características certamente influenciadas pelo nome de seu ancestral. Segundo ele próprio:


[…] Foi quando fui levado para o zoológico aos seis anos de idade e ao observar os macacos enfiando o dedo no nariz, se coçando e tentando fazer sexo em público que tive certeza: evolução era um io-io e, no meu caso, o io-io tinha quase atingido o fim da corda. Ele tinha que ser puxado alguns centimetros para subir novamente. Se Charles Darwin era o topo, eu seria o fundo. […] Simples mediocridade acadêmica não seria o suficiente. Eu tinha que ser pior que isso. Eu tinha que batalhar contra a educação com tudo que eu tinha.   Assim como Charles era obstinado e diligente na sua coleção de fatos, eu o seria em rejeita-los. Essa seria a minha defesa contra o esmagador peso da história da familia.

Assim como seu ancestral, entretanto, ele parece carregar consigo um enorme amor por sua filha e sua esposa religiosa. Curiosamente, a esposa de Chapman é Denise Dummont, ex-atriz brasileira. Chapman se refere a ela de forma incrivelmente amorosa e com grande admiração, inclusive quando comenta de sua fé supersticiosa, característica que inicialmente ele repudiou, para depois aceitar e admirar. Ao comentar sobre a fé de Denise, Chapman acaba falando sobre a fé brasileira de uma forma interessante e distanciada:

Essa fé é a fonte de tudo que eu amo nela e de tudo o que discutimos. Denise se identifica como Católica, e ainda sim acredita no direito da mulher de escolher [aborto], contracepção, e direitos dos homossexuais. A madrinha brasileira de nossa filha é uma lésbica. Mesmo sendo Católica, Denise acredita – tão casualmente e naturalmente quanto você e eu acreditamos na previsão do tempo – em Candomblé, a mais Africana de todos os sectos de Macumba. Trazida por escravos, o Candomble foi sincreticamente combinado com Catolicismo de tal forma que as fitas de boa sorte africanas  que Denise usa ao redor do pulso veem de uma igreja na Bahia onde foram abençoadas por um Padre [Fitas do Senhor do Bonfim]. De todas as deidades na religião do Candomble temos Iemanja, a deusa–ou santa– do mar, para quem nós jogamos oferendas de flores no Ano Novo; Oxalá, o pai de todos os santos; e Oxum, a deusa da água doce, que é uma das santas de Denise. Todo mundo tem pelo menos dois santos, determinados pelo auto-sacerdote, ou Pai de Santo, através dos búzios. 

No Brasil, ninguém é tido como primitivo, ou insano ou excêntrico por acreditar em tudo isso. Uma noite eu jantei com o Chefe do Protocolo do Presidente do Brasil. Ela falava um inglês perfeito e francês e tinha graduação em ciências políticas em uma universidade europeia.  Na noite seguinte, andando na praia, eu a vi dançando ao redor de uma fogueira, enquanto um sacerdote vestido de branco da Bahia conjurava encantamentos ao som de vinte tambores. Intelectuais, empresários, políticos, doutores, qualquer um pode visitar um Pai de Santo e fazer sacrifícios de animais para trazer boa sorte, ou espantar os maus-augúrios e depois ir em uma igreja católica para acender um vela. Um amigo meu, que é um dos mais poderosos homens da TV brasileira, me disse que se ele dobra o dinheiro dele de uma maneira particular, isso iria assegurar sua contínua prosperidade. Ele dobra o seu dinheiro dessa forma. Denise acredita que se ela acender uma vela na frente das fotos de minha mãe morta e do seu pai morto, isso os estimulará a trabalhar em nosso benefício e nos trazer boa sorte.  Fé supersticiosa é o sine qua non da vida Brasileira em diversos níveis.

Não posso deixar de evidenciar o romantismo nessa passagem. Afinal, mesmo com nosso sincretismo religioso, religiões africanas sempre foram, de uma forma ou outra, discriminadas. Porém me parece um ideal interessante de espiritualidade: a assimilação sincrética soa avessa ao fundamentalismo religioso. Se esse de fato é o caso, talvez o sincretismo e a diversidade sejam um bom ideal para a causa humanista secular.

Um peixe chamado Dawkins (e notas sobre feminismo cético)

Saiu recentemente, na nova edição da revista científica “Ichthyological Exploration of Freshwaters”, um artigo de revisão taxonômica e filogenia do genero Puntus de peixes do Sul da Ásia. O trabalho não traz grandes conclusões, fora o estudo de um grupo de peixes diversificados que necessitava de uma avaliação. Porém, chama a atenção o nome do novo gênero proposto para uma pequena linhagem dentro do grupo:
Filogenia molecular baseada no gene cyt-B. Retângulo vermelho evidencia Dawkinsia, genero novo.

Exato. O gênero Dawkinsia é uma homenagem ao Richard Dawkins. O artigo ainda explica:

Etimologia. O gênero foi nomeado segundo Richard Dawkins, por sua contribuição para o entendimento do público da ciência e, em particular, a ciência evolutiva, gênero feminino.

Agora, eu não sou taxonomista (apesar de ter contribuído para alguns trabalhos de taxonomia), e não sei ao certo como funciona o código de nomenclatura de gêneros novos (ou mesmo se peixes tem uma regra especial), mas achei deveras irônico o fato do nome ter o gênero feminino, tendo em vista o fiasco que Dawkins se meteu na comunidade cética.

Para quem não conhece a história: no ano passado, durante uma convenção cética em Dublin, a blogueira e vlogueira Rebecca Watson (a.k.a. Skepchic) recebeu uma cantada em um elevador. Segundo o relato dela:

No bar, mais tarde naquela noite, […], nós estávamos no bar do hotel. “4 a.m.”, eu disse, “já é demais para mim, rapazes, eu estou exausta. Eu vou para a cama”. Então eu andei até o elevador e um homem entrou no elevador comigo e disse: “Não leve isso a mal, mas eu te acho muito interessante e eu gostaria de conversar mais. Você gostaria de vir para o meu quarto para tomar um café?”. Só uma palavra para os sábios: Rapazes, não façam isso. Eu não sei outra forma de dizer que isso me deixa incrivelmente desconfortável, então eu vou simplesmente dizer que eu era uma mulher solteira, em um país estrangeiro, as 4 da manhã, em um elevador de hotel, com você, apenas você… não me chame para o seu quarto de hotel logo após eu ter terminado de dizer que eu fico desconfortável quando homens me sexualizam dessa forma.

Para os que não sabem, “tomar um café” costuma ser um eufemismo.

A ênfase (negrito) é minha, porém é essa parte do discurso que a Rebecca reitera como sendo o ponto da sua colocação sobre o incidente. De qualquer forma, o que aconteceu depois é ainda meio confuso: eu não sei se a Rebecca fez outras afirmações, ou se apenas o que veio depois da frase destacada realmente ofendeu os homens das comunidades céticas, mas a discussão e agressões atingiram um nível tão impressionante que acho que só pode ser descrito como o primeiro e maior flame war internacional da internet. A coisa toda atingiu um nível tão baixo que Dawkins interferiu na conversa, de forma desastrosa, através de um comentário postado no blog Pharyngula (infelizmente o comentário original parece ter sido apagado, mas reproduzo abaixo):

Querida Muslima, 

Pare de reclamar. Sim, sim, nós sabemos que sua genitália foi cortada com uma navalha e … (bocejo)…  não me conte novamente, eu sei que você não pode dirigir um carro, e você não pode deixar sua casa sem um parente homem, e o seu marido pode bater em você, e você será apedrejada até a morte se cometer adultério. Mas pare de reclamar. Pense no que suas pobres e sofredores irmãs americanas tem que lidar. 

Nessa semana eu escutei que uma delas, que se chama Skep”chick”, e você sabe o que aconteceu com ela? Um homem em um elevador convidou ela para o seu quarto para tomar um café. E eu não estou exagerando. Ele realmente fez isso. Ele convidou ela para o seu quarto para tomar um café. Evidente que ela disse não, e evidente que ele não encostou um dedo nela, mas mesmo assim… 

E você, Muslima, pensa que tem que reclamar de misoginia! Pelamor de Deus, cresça, ou pelo menos adquira uma casca mais grossa.
Richard

Aparentemente a ideia era simular uma carta a uma muçulmanda (“Muslima”) que sofre atos horrivels de abuso, sugerindo que os reais problemas trazidos pela misoginia são aqueles sofridos pelas mulheres ocidentais. A intenção é clara: você, mulher vitima de misoginia “leve” não deveria ligar, afinal, tem pessoas passando por piores situações que a sua. Quando esse tipo de “lição de moral” é emitida, eu sempre me pergunto: deveríamos então nos sentirmos melhores quando estivermos com doenças terminais, apenas por não estarmos mortos? A lógica me parece a mesma.

Eu honestamente não sei o que fez Dawkins se portar assim. Suponho que, da mesma forma que existem trolls machistas que adoram ameaçar mulheres, imagino que existam trolls feministas radicais que se aproveitaram da ocasião para defender seus ideais. Quando isso ocorre, rapidamente posições se formam não apenas por alinhamento ideológico, mas por repudio à algum tipo de pensamento: “eu acho tal tipo de pensamento abominável, essa pessoa se identifica como X, logo vou me associar com a posição contrária”. Não que eu ache que isso justifica a atitude de Dawkins, pois mesmo que ele tivesse respondendo à uma falsa visão do que a Rebecca disse, isso não o exime de não checar suas fontes, ou mesmo de falar com a própria Rebecca (visto que eles tiveram contato durante essa mesma conferencia).

Não estou dizendo que todas as feministas são assim, obviamente, mas temos grupos extremos dentro de qualquer grupo, sejam cristãos, ateus, feministas, vegetarianos, etc. Por exemplo, recentemente a vloggeira Laci Green foi perseguida e ameaçada no Tumblr por um grupo de feministas pelo fato de ter usado um termo aparentemente pejorativo para se referir a transexuais, mesmo depois de ter se desculpado oficialmente pelo fato. Eu sempre digo que a proporção de idiotas em qualquer subgrupo da população humana parece ser constante. Não vejo porque seria diferente para as feministas.

Por falar em idiotas e feminismo, recentemente eclodiu outra flame war no FreeThoughts Blogs. Para quem não sabe, os FTB foram idealizados por PZ Myers (o mesmo que bloga no Pharyngula, o blog onde Dawkins postou seu comentário infeliz) para ser um lugar onde bloggeiros pudessem avançar suas idéias e o ideal do Pensamento Livre (que não é o mesmo que dizer o que lhe vier na cabeça). Recentemente, os FTB adicionaram Phil Mason (a.k.a. Thundef00t), um dos maiores vlogeiros ateus do youtube. Thunderf00t é conhecido, entre outras coisas, por defender a liberdade de expressão acima de tudo, o que o fez ser taxado de racista e de misógino. Ele está por trás do Dia de todo mundo desenhar Mohammed, um movimento, na minha opinião, no mínimo equivocado.

De qualquer forma, a inclusão de Thunderf00t no FTB não foi recebida com entusiasmo pelos membros, coisa que foi agravada pela publicação do primeiro post de Thunderf00t, argumentando exatamente que o problema de sexismo em convenções céticas (uma discussão que ganhou força com a discussão acerca do caso da Rebecca Watson) não era uma questão séria:

Resumindo, existe “assédio” em conferências? Eu não vi realmente nada acontecendo nas próprias conferências, apesar que nos bares em outros lugares, claro que ele acontece (apesar que discutivelmente não mais do que ocorrem em qualquer outro bar ao redor do pais). – De meia dúzia de conferências, isso dá uma ideia da extensão do problema.

Ou seja: você, mulher vitima de misoginia “leve” não deveria ligar, afinal, temos coisas melhores para nos preocupar segundo nossa análise de custo-benefício. Soa familiar, não? De qualquer forma, uma onda de críticas irrompeu, culminando na expulsão do Thunderf00t do FTB por PZ Myers, apos aproximadamente 10 dias de site.

O que torna tais situações realmente desagradáveis, até onde vejo, é a desigualdade entre a capacidade de julgar a sua própria postura em relação a estereótipos racistas ou misóginos. Afinal, uma pessoa pode ter atitudes misóginas sem se identificar como tal (o que imagino que seja raro, inclusive). Tal dissonância pode produzir discursos que são idealizados como harmonizadores, mas são realizados como nocivos. Duvido que Dawkins e Thunderf00t se vejam como misóginos e eu não chamaria eles assim. Mas me parece óbvio que seus discursos se aproximam mais de um discurso misógino do que de qualquer outra coisa.

O que podemos tirar de tudo isso? Bem… com certeza podemos dizer que o antigo gênero Puntus, do Sul da Ásia, agora é dividido em diversas linhagens. Cinco linhagens, pra ser mais preciso…

Referência

Rohan Pethiyagoda, Madhava Meegaskumbura, & Kalana Maduwage (2012). A synopsis of the South Asian fishes referred to Puntius (Pisces: Cyprinidae) Ichthyological Exploration of Freshwaters

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