Cotas: preparando o terreno

Enquanto termino de preparar meu post um pouco mais estendido sobre cotas universitárias, gostaria de dividir esse documentário muito interessante sobre a questão de cotas raciais na UnB.

Acho que muitos bons pontos são levantados de ambos lados. Enquanto concordo de forma geral que todas as formas de sectarismo são perversos, não posso deixar de reconhecer que tal sectarismo está presente na mentalidade e na nossa cultura, de uma forma ou outra.

Um ponto que me chamam a atenção profundamente nesse documentário é a prevalência de indivíduos brancos combatendo as cotas raciais. Não sei se foi algo intencional dos produtores do documentário, mas é algo que nos faz pensar.

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Discussão - 6 comentários

  1. D-Dimensões disse:

    Eu já assisti a esse documentário, realmente, bem bacana. Eu tendo a ficar meio em cima do muro, tendendo para o lado a favor das cotas. Mas o motivo não é uma análise criteriosa sobre o assunto, mas algo meio pessoal: eu simplesmente não gosto de quando uma maioria quer dizer a um grupo segregado o que eles devem ou não devem fazer. Como religiosos dizendo como ateus devem debater, homens dizendo como mulheres devem protestar contra machismo, ou brancos dizendo o que negros podem ou não considerar racismo. Se existe uma comunidade negra forte dizendo que o sistema atual é segregador, quem sou eu pra dizer que não? E eu me lembro que na universidade que estudava eu podia contar nos dedos os negros que eu conhecia. Vou dizer que é coincidência?

    • Fabio disse:

      Olá D. Compartilho sua “encimadomurisse”. Na minha experiência, minha indecisão parte mais do princípio de que não tinha uma forma objetiva de avaliar as premissas. Meu próximo post é um exercício sobre o assunto e confesso que minhas conclusões soam estranhas até para mim. Espero que lhe seja útil.

  2. Rodrigo plei disse:

    “Um ponto que me chamam a atenção profundamente nesse documentário é a prevalência de indivíduos brancos combatendo as cotas raciais. Não sei se foi algo intencional dos produtores do documentário (…)”Seguindo esse raciocínio, os produtores poderiam também ter subido o número de indivíduos negros a favor das cotas no documentário.Polêmicas à parte, eu conheço várias pessoas negras que consideram essa questão de cotas infame. Assim como conheço brancos a favor dela.Eu acho que esse debate tem que ser levado com menos paixonite e mais imparcialidade.

    • Fabio disse:

      Idealmente sim, mas acredito que devemos estar preparados para paixonites e, em casos extremos, retórica. Muito dos últimos argumentos que vi vindo dos favoráveis às cotas eram simplesmente respostas retóricas espertas contra a posição oposta (que não necessariamente era bem representada). Isso pode chegar a ser cansativo e contraproducente.

  3. Sou negro, pobre, estudei a maior parte da minha vida em escola pública (só até a terceira série em privada) e sou contra as cotas (as raciais desde sempre, quanto às cotas para pobres/estudantes de escola pública de início eu era francamente favorável mas fui mudando de idéia com o passar do tempo até me tornar francamente contrário). Sobre seu detalhe, é interessante notar que a maioria dos defensores no vídeo são negros também, né? :PDigo, é mesmo esperado que boa parte dos defensores sejam aqueles pretensamente beneficiados e que seja mais fácil encontrar críticos entre os que pretensamente estão sendo prejudicados. Prestar atenção a esse fator pode até ajudar quando o crítico do sistema for um suposto beneficiário ou o oposto (no sentido que tira a impressão de que o cara tá falando só porque é interessado, o discurso da Christina Hoff Sommers tende a soar mais forte do que o do Warren Farrell mesmo que ambos digam exatamente a mesma coisa sobre o feminismo contemporâneo) mas não ajuda em nada a avaliar suas premissas.Quanto às cotas raciais 1 – não acredito em justiça (vingança) histórica2 – tenho problemas com discriminação positiva baseada em generalizações sobre um grupo porque tendem a formar grupos de indivíduos duplamente privilegiados e outros de indivíduos duplamente onerados, ou seja, em vez de resolver um problema de desigualdade cria outro (pensemos no caso da aposentadoria mais cedo para mulheres, se baseia na generalização de que mulheres trabalhadoras exercem uma injusta dupla-jornada mas ignora-se que por um lado muitas mulheres trabalhadoras têm empregadas domésticas que lhe fazem todo o serviço e por outro lado existe um enorme número de homens que dividem os afazeres domésticos ou até tomam conta dele sozinho: neste caso para fazer justiça a uma maioria acaba se formando um grupo minoritário de duplamente privilegiados e outro de duplamente castigados). No caso das cotas racias pode acontecer o mesmo (caso o critério racial realmente seja levado em conta, caso contrário nem haveria necessidade deste tipo de cota). Isto é, brancos muito pobres teriam o duplo revés de terem que carregar toda a dificuldade educacional relacionada à pobreza e ainda ficarem com um número reduzido de vagas em disputa.3 – acho válida a hipótese de que se acirre o preconceito sobre os negros agora sob a pecha de que se conseguiram se formar foi porque as coisas lhe foram facilitadas, mesmo que não seja verdade4 – acho válida a hipótese de que ajude a contruir uma sociedade racializada (ou mais racializada)

  4. Quanto às cotas sociais eu era favorável inicialmente mas assim que elas começaram comecei a perceber que os resultados não acompanhavam as premissas, digo: as cotas sociais se baseiam mais ou menos na(s) seguinte(s) premissa(s) “o acesso às universidades públicas é desigual e pessoas pobres geralmente não conseguem transpor seus concursos mesmo quando são muito inteligentes e esforçadas porque em sua quase totalidade estudaram em escolas muito ruins e não tiveram acesso a cursinhos extra-curriculares e preparatórios como a grande maioria dos ‘playboys’ que lotam as universidades públicas, é justo então que criemos um sistema que equalize a disputa”Ok, eu concordava, mas acho que não levei em conta, assim como boa parte dos defensores do sistema, o eterno jeitinho brasileiro, a lei de Gérson, e como isso com certeza se misturaria num típico bolo à brasileira.O fato é que o sistema de cotas no Brasil atende muito mais, me parece, a um rol de espertos que a um grupo de desprivilegiados socialmente. Comecei a peceber logo no começo das cotas na UERJ, quando pipocavam notícias de estudantes de colégios de renome frequentados por membros das classes médias e alta como Colégio Militar e CAP-UERJ passando por meio das vagas facilitadas.Logo depois pude testemunhar in loco o fenômeno, porque estudei naquela universidade em 2004 e realmente, a maior parte dos cotistas era gente bem vivida que tinha estudado em escolas públicas sim, mas de referência, como as supracitadas, ou até em particulares já que a cota racial na UERJ não limita isso.Hoje sou aluno da UFRJ (abandonei o curso na UERJ sem terminar, por, digamos, razões socioeconômicas), não sou cotista (minha vida tem melhorado um pouco, graças a Zeus, minha renda na época do vestibular ficava acima da renda de corte da UFRJ, 1 salário mínimo per capita) mas tenho colegas cotistas com situação socioeconômica muito superior à minha.E Daniel, comofaz? comofaz para ter pai advogado, mãe oficial da Marinha e passar por meio de um sistema de cotas que exige que sua renda seja inferior a 1 salário mínimo per capita? Elementar, meu caro Vátson: você não declara viver com os seus pais. Tenho conhecido pessoal que estudou de graça na PUC (Prouni) sendo filha de professores universitários usando este fácil e infiscalizável subterfúgio, meus colegas cotistas da UERJ e da UFRJ em sua franca maioria não teriam conseguido passar pelos critérios de corte sem burlá-los.Até algum tempo eu dizia que era a favor do sistema de cotas social com a ressalva de que os critérios fossem mais rigorosos ou fiscalizados, mas caiu a ficha: não dá, não dá para fiscalizar os critérios. A maioria do público que presta vestibular é composta de adolescentes e pós-adolescentes, gente de 17, 18,19 anos e que em geral não têm mesmo renda comprovável (sobretudo se forem de classe média para cima, já que estes começam a trabalhar mais tarde), NINGUÉM É OBRIGADO A MORAR COM OS PAIS, ou seja, não dá para fiscalizar, para burlar o sistema é só querer: você se inscreve como morando sozinho, na hora de apresentar a documentação apresenta a conta de luz da casa de praia da avó ou da casa de fundos de um tio, faz uma declaração de próprio punho afirmando não ter renda fixa (o que tecnicamente é a mais pura verdade), pronto. Está dentro.

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