Ateus literalistas bíblicos

Critica biblica sempre foi uma passagem importante do arsenal retórico dos ateus. Isaac Asimov disse

“Quando lida apropriadamente, a Biblia é a força mais potente para ateísmo jamais concebida”

Eu não conheço nenhuma estatística, mas acredito que isso seja verdade para um grande numero de pessoas. Ao menos, foi o que funcionou para mim. Me recordo claramente de ler com entusiasmo as primeras passagens do Gênesis, apenas para me deparar com uma representação gráfica de como o mundo deveria ser:

Representação do Universo segundo o Genesis

Duas coisas me vieram a cabeça: inicialmente pensei em como a descrição da cosmologia Bíblica era pobre em comparação com outras cosmologias gregas e até cosmologias ficcionais (na época estava lendo a saga de Dragonlance). A outra foi o quão inverossímil era essa representação: eu sabia que a Terra não era plana, que não existia nenhum firmamento, que a Terra girava entorno do Sol e não o contrário, que depois do céu tinha o espaço, que o centro da terra tinha magma e não o submundo de Sheol, etc. Talvez o mais absurdo fosse a representação das comportas do Céu, as que presumidamente se abriram durante o diluvio. Eu podia ver os parafusos das dobradiças. Que deus usaria parafusos?!

Mas enfim, quase ninguém pensa que o mundo é assim. Até criacionistas são esclarecidos o suficiente para saber que não vivemos em um mundo descrito dessa forma, e inclusive inventam histórias bastante… criativas para explicar o porque disso estar descrito assim na Bíblia (a teoria do dossel é de fato a mais divertida). Religiosos moderados vão obviamente dizer que essas passagens não devem ser tomadas literalmente, mas interpretadas segundo alguma linha que tornam a Bíblia compatível com o que nós sabemos da realidade, inclusive evolução.

Crônicas de Nárnia: Cosmologia
fortemente influenciada por
mensagens cristãs.

Eu não tenho um problema com isso, na verdade. Tratando a Bíblia como um livro qualquer, não existe nenhum motivo para imaginar que as narrativas do Gênesis devam ser tomadas literalmente. São textos fortemente carregados de conteúdo poético e, aparantemente, copiados de diversas fontes distintas para construir uma narrativa com a intenção de passar uma mensagem. Não acredito que o Gênesis tenha sido construído para dizer como o mundo é e como ele foi criado, mas mais para dizer como o que existe e o que todos entendiam como a realidade era obra da intenção divina (com umas e outras mensagens subliminares escondidas). Nada diferente do que cristãos fazem hoje em dia.

Porém me parece que alguns ateus não aceitam isso de forma tão simples. Muitos deles parecem exigir que a única interpretação bíblica válida é a literalista (e, sim, literalismo é uma linha de interpretação), e que essa interpretação é a intenção dos autores (presumidamente o Deus bíblico, no caso). Porém, como uma prima minha me ensinou recentemente, você tira de um livro o que suas limitações permitem que você tire. Não há necessidade alguma de que a intenção do autor guie a sua capacidade de assimilação de uma obra literária ou filosófica. Eu não sou obrigado a virar religioso apenas porque li “Crônicas de Nárnia”, apesar de existir um componente fortemente religioso nas ideias de C. S. Lewis (que era, por sinal, um apologeta cristão). E sim, muitas linhas de crítica literária rejeitam a ideia de intenção autoral como sendo relevante.

Vida de Pi e Contato: livros falam de religião,
mas não demandam que o leitor chegue a uma
unica conclusão


O significado de muitas obras (não apenas literárias, mas artísticas) emergem da interação da obra com o observador. Obviamente a obra é influenciada fortemente pelas ideologias e ideias do autor, porém isso não restringe a interação com o receptor da obra. Adicionalmente, nem sempre o que o autor pensa sobre o assunto determina a conclusão do leitor. Podemos ver isso claramente em filmes/livros como Contato e A vida de Pi. Nenhuma conclusão sobre teísmo/ateísmo é obvia nem necessária a partir desses textos, porém ambas são possíveis. A intenção dos autores não podem ser de passar uma mensagem ou outra, pois não podemos ser ateus e teístas ao mesmo tempo, mas sim de fazer pensar sobre um assunto, no caso religião.

Eu entendo a resistencia em aceitar interpretações não-literais da Bíblia por parte de muitos ateus, pois já senti ela. Afinal, interpretação literal da Bíblia foi o que me expulsou do cristianismo, e eu adoraria acreditar que eu estava sendo lógico e racional quando isso aconteceu. Mas isso é uma ilusão: eu tinha 12 anos, o quão racional essa escolha pode ter sido? Fora isso, acredito que parte da resistência de se admitir a possibilidade de interpretações não-literais venha da ideia de que isso abre a porta para que qualquer interpretação seja feita. Mas isso também não é verdade: a interpretação de que o Gênesis dá a sequência do surgimento evolutivo das espécies na Terra é claramente equivocada, assim a de que Adão e Eva foram os primeiros Homo sapiens. Ou seja, é possível estabelecer que algumas interpretações são falsas e outras não.

Até onde vejo, exigir que religiosos moderados aceitem o literalismo como “única posição intelectualmente honesta”, apenas para criticar essa posição é tentar encaixar uma pessoa em um estereótipo que seja fácil de ser atacado. Não é apenas uma falácia, como é preconceito. Então… vamos parar com isso, que tal?

Sério.

Evolução não é um fato. Parte 1: Parentescos

Então, tanto Dawkins quanto Gould parecem acreditar que evolução, além de ser uma teoria, é um fato, e que um bom exemplo desse fato são nossas relações de parentesco e ancestralidade com outros primatas.

Ok, então evolução é um fato. Mas, o que é um fato?

Fatos podem ser entendidos como aquilo que torna uma afirmação verdadeira, e se relaciona de alguma alguma forma a algum aspecto da realidade. Por exemplo, quando afirmo que “Elefantes possuem trombas”, tal afirmação apenas é verdadeira, se elefantes apresentam um nariz modificado em um apêndice longo, o qual chamamos de “tromba”.

Então fica a pergunta: qual é exatamente o fato “evolução”, e a qual afirmação que ela se refere? Muitas vezes não está exatamente claro o que o fato “evolução” exatamente é. No caso da passagem do Gould e do Dawkins, o que é chamado de “fato” são as relações de parentesco entre humanos e chimpanzés, enquanto a Teoria Evolutiva seria o que explica como tais grupos se diferenciaram e quais forças evolutivas atuaram para diferencia-los (ex: seleção natural, deriva genética, etc). A principio parece tudo OK do ponto de vista científico, pois temos um fato que é tentativamente explicado por um modelo teórico (uma teoria). Porém, quando tentamos elaborar uma afirmação verdadeira que faz referência ao fato da ancestralidade comum entre chimpanzés e humanos, encontramos um problema: qual é o fato que torna “chimpanzés e humanos são parentes” uma afirmação verdadeira?

O primeiro a abordar essa questão de maneira sistemática foi Carl Linnaeus, o cara que inaugurou o esforço moderno de classificação da biodiversidade. Avaliando as características de humanos e outros animais, Linnaeus chegou a conclusão de que humanos pertencem à mesma classe de animais que os grandes primatas sem rabo. Desde então, os avanços da biologia molecular tem reforçado a idéia de que humanos são intimamente relacionados com os grandes primatas, especificamente, os chimpanzés.

Porém a questão aqui se complica. A área acadêmica que estuda as relações de parentesco entre espécies   (a sistemática filogenética) não é um mero exercício de diagnose de fatos*: existem diversas linhas concorrentes que disputam qual seria a melhor maneira (se é que ela existe) de se reconstruir as relações de parentesco entre as espécies, sendo que algumas delas (ou todas elas) partem de premissas biológicas explicitamente evolutivas. Em outras palavras, se a relação de parentesco entre humanos e chimpanzés é um “fato”, tal “fato” é fortemente dependente de premissas teóricas.

E não apenas isso: as relações observadas estão longe de ser inequívocas.

Recentemente Grehan & Schwartz (2009) publicaram uma análise que, ao contrário da maioria dos trabalhos atuais, colocava humanos como parentes mais próximos de Orangotangos, e não de Chimpanzés. A conclusão é claramente um absurdo pois viola quase tudo o que sabemos sobre a genética dessas espécies. Porém os autores foram cuidadosos o suficiente para fazer um arranjo metodológico tão fechado, que a conclusão das analises era inequívoca, e a publicação do trabalho não poderia ser recusada, mesmo que violasse o que toda a comunidade científica acreditava sobre o assunto.

Isso mostra duas coisas. Primeiro – e isso é uma digressão – que o mimimi de criacionistas e proponentes de Design Inteligente (um famoso exemplinho aqui) de que são incapazes de publicar em periódicos científicos por causa do lobby materialista é pura bobagem. Trabalhos bem feitos, honestos e rigorosos podem sim ser publicados, independente das ideologias ou opiniões de revisores. Criacionistas não conseguem publicar simplesmente por serem incompetentes, ou porque não sabem/querem fazer ciência. Fim da digressão.

O segundo ponto, voltando ao assunto, é que tal reconhecimento de “fatos” (e.g. o “fato” do parentesco entre chimpanzés, humanos e lesmas) está longe de ser a prova de falhas e inequívoco, precisamente porque tal parentesco não é fato, mas uma hipótese. E se alguem continuar insistindo que as relações de parentesco são fatos, pergunte: quais são os fatos que tornam essa afirmação verdadeira. Aposto que rapidamente serão mencionadas montanhas de dados, desde evidência morfológica, registro fóssil e dados moleculares (aqui para uma lista simplificada). Mas nenhum desses fatos (e aqui são fatos mesmo) é o grau de parentesco (ou “evolução”, como usado por Gould e Dawkins), mas sim eles sustentam uma dada hipótese de parentesco.

Nada disso é controverso. Pesquisadores da área não se referem às relações de parentescos como fatos, mas sim como hipóteses, mais especificamente, hipóteses filogenéticas. Tais hipóteses são constantemente modificadas e refinadas, muitas vezes sendo radicalmente reformuladas pela descoberta de uma nova fonte de dados moleculares ou fósseis, por exemplo. E o ponto é: isso acontece exatamente porque relações de parentescos entre espécies não são fatos, mas sim conclusões dependente de teorias e de fatos. O acumulo de evidências que contrarie um certo cenário evolutivo pode derrubar tal cenário em favor de outro, como acontece com qualquer hipótese científica.

Resumindo: dizer que parentesco entre espécies é um fato é cometer uma falácia de equivocação, chamando uma hipótese (filogenética) de fato.

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* Existem sim pesquisadores que acreditam que sistemática filogenética é apenas isso, mas isso é outra discussão.

Referência Grehan, J., & Schwartz, J. (2009). Evolution of the second orangutan: phylogeny and biogeography of hominid origins Journal of Biogeography, 36 (10), 1823-1844 DOI: 10.1111/j.1365-2699.2009.02141.x

Evolução não é um fato. Preâmbulo

Certo dia eu me deparei com o seguinte tweet do Dawkins:

Nós não vamos explicar “teoria” a eles, então vamos parar de tentar. Evolução é um FATO. É um FATO que somos primos de lesmas e chimpanzés.

Após ler isso, me lembrei imediatamente de um post no Bule Voador, no qual o autor citava* Gould:

“[…] a evolução é uma teoria. Mas também é um fato. E fatos e teorias são coisas diferentes, e não estágios de hierarquia de certeza crescente. Fatos são dados do mundo. E teorias são as estruturas de ideias que explicam e interpretam os fatos. Os fatos não desaparecem enquanto os cientistas debatem teorias rivais que tentam explicá-los. A teoria gravitacional de Einstein substituiu a de Newton, mas as maçãs não ficaram pairando no ar, à espera da definição. E os seres humanos evoluíram a partir de ancestrais parecidos com símios, quer através do mecanismo proposto por Darwin, quer através de qualquer outro ainda por descobrir”

Então, tanto Gould quanto Dawkins acreditam que evolução, além de ser uma teoria, é um fato. Obviamente Gould e Dawkins não estão sozinhos em afirmar isso. Como fui lembrado por um post do I Fucking Love Science no Facebook, Donald Johnson, o descobridor do australopitecínio mais famoso da história, Lucy, afirmou que:

“Eu não ‘acredito’ em evolução tanto quanto não ‘acredito’ em gravidade. É um fato”

Tal visão não é única apenas no discurso popular de pesquisadores. Barnosky e Kraatz (2007) igualmente afirmam que

“Apesar de toda a discussão a respeito de semantica, evolução é um fato”.

Isso me deixa em uma situação complicada pois, diferente de grandes biólogos como Dawkins e Gould, eu não acredito que evolução seja um fato. Não apenas isso, acredito que dizer que ela é um fato é, ou retórica vazia, ou denota um desentendimento de como estudamos evolução. Por esses motivos, nos próximos posts dessa série eu tentarei abordar brevemente as principais colocações sobre o assunto, colocando o porque de eu acreditar que elas estão erradas.

Os links ficarão disponíveis a medida que os posts estiverem prontos.

1a Parte: Relações de Parentesco
2a Parte: Registro Fóssil
3a Parte: Dinâmicas Populacionais
4a Parte: Seleção Natural

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* Apesar dessa passagem ser uma citação Ipsis Litteris de um artigo do Gould, ela não está destacada como tal no texto do Bule. Na verdade, esse mesmo post está recheado de passagens similares, que foram citadas na integra, porém não foram referenciadas como tal. Tentei deixar um comentário no post apontando isso, mas ele me parece bloqueado para comentários no momento. Achei que era relevante apontar isso em algum momento.

RIP: Winner

Acabei de receber a notícia por e-mail de que o urso polar do Zoológico de Buenos Aires, Winner, faleceu na noite retrasada, durante a véspera de Natal. Aparentemente as causas da morte foram a onda excessiva de calor e o estouro de fogos de artifício da comemoração.

Não sei como isso é possível – Winner aparentemente não era idoso- mas acredito que a temperatura excessiva pode ter colocado o bichinho em um estado de estresse fisiológico extremo: ursos polares estão acostumados a uma temperatura médias entre zero e -34 ºC. A temperatura essa segunda chegou à 36,7 ºC. Somando a isso o seu notório nervosismo, talvez seja possível que os fogos de artifício tenham realmente feito o trabalho final. Qualquer um que tenha um cachorro sabe como eles podem ficar durante finais do Brasileirão. E o que são ursos, se não enormes cachorros?


Mas não sei se o problema foi só na segunda. Quando visitei o zoológico, Winner me chamou bastante atenção. Ele claramente não estava aguentando o calor e parecia muito estático, o que é estranho para um animal descrito como “agitado”. Talvez a exaustão de um dos verões mais quentes que ele provavalmente viveu, tenham contribuido para sua morte.


Me parece obviamente cruel manter um animal em cativeiro para mero entretenimento humano, mas confesso que sou bastante ambivalente em relação a zoológicos. Reconheço a crueldade, mas adoro visita-los. O zoológico de Buenos Aires é particularmente bonito (não apenas os animais, mas também a arquitetura e o parque) e todos os recintos me pareciam grandes e relativamente bem proporcionados. Observei muitos indicios de que haviam programas de enriquecimento ambiental, o que me deixou bastante satisfeito. Mas mesmo assim, acredito que é necessária uma boa justificativa para manter esses animais cativos, mesmo se as condições de vida deles fossem perfeitas (e não são). E talvez ter uma clareza de nossas justificativas éticas sobre o assunto nos ajude a analisar quais animais deveriam estar em cativeiro e quais não. Me parece que animais altamente adaptados para ambientes polares em uma região temperada talvez fosse um exemplo destes últimos.


Abaixo, a unica imagem que tenho de Winner.


🙁

Qual a constitucionalidade do "Dinheiro Laico"?

Para quem ainda não sabe, o Ministério Público Federal está movendo uma ação para a remoção do dizer “Deus seja louvado” das cédulas de real. O principal argumento da ação é sobre a laicidade do estado, e como o estado não pode dar preferências para nenhuma religião, mesmo que seja um conjunto de religiões. Segundo o trecho da ação:

Imaginemos a cédula de real com as seguintes expressões: ”Alá seja louvado”, ”Buda seja louvado”, ”Salve Oxossi”, ”Salve Lord Ganesha”, ”Deus Não existe”. Com certeza haveria agitação na sociedade brasileira em razão do constrangimento sofrido pelos cidadãos crentes em Deus.

Ou seja, a ideia é: faça com os outros o que gostaria que fizessem com vocês. Soa familiar, não?

De qualquer forma, tal ação foi rejeitada em primeira instancia pela juíza Diana Brunstein, da 7ª Vara Federal Cível de São Paulo. Na sentença, a juíza diz que a afirmação de que a frase seria uma afronta à liberdade religiosa e a laicidade do estado

não veio acompanhada de dados concretos, colhidos junto à sociedade, que denotassem um incômodo com a expressão “Deus” no papel-moeda.

Achei muito curiosa essa colocação, visto que sabia do abaixo-assinado proposto pela LiHS após a primeira rejeição da ação (falo um pouco sobre isso aqui). Não tardou e a LiHS resolveu reiterar a existência do abaixo assinado, para que possamos assim juntar massa crítica o suficiente para que sejamos ouvidos. Eles convocaram blogueiros, vlogueiros e grupos seculares para ajudar na divulgação (atualização: convocação ignorada, aparentemente, pela ATEA). Como apoio a ideia desde que foi inicialmente rejeitada, fica aqui registrado meu endosso. Para assinar a petição, clique na figura abaixo ou aqui.

Mas tem uma coisa que me tem incomodado bastante nessa história, e ela se refere a relação entre a laicidade do estado e o dizer na nota. Apenas para deixar claro, vamos ver o que seria exatamente a laicidade do estado. Segundo a Constituição Federal, em seu artigo 19

É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;

II – recusar fé aos documentos públicos;

III – criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si.

Até onde sei, é esse artigo que é usado para estabelecer o estado brasileiro como sendo laico.

A pergunta é: como o dizer na nota fere o primeiro item do artigo 19 da constituição? Na minha opinião não parece ferir, ou se fere, fere muito pouco. Notem que a linguagem do artigo não parece focar em discurso ideológico, mas em práticas. Então fica a minha pergunta para os que acreditam que o dizer fere o principio constitucional: como? Acho que é uma pergunta justa e que merece resposta. Não nego que o “Deus” da nota é o Deus judaico-cristão, e que isso denota uma preferencia em detrimento de não-religiosos, por exemplo. Mas como isso estabelece um culto, ou subvenciona eles ou estabelece uma relação de dependência ou aliança? Que evidencias nós temos de que isso acontece através dessa frase?

Isso não quer dizer que um estado laico pode (ou deve) expressar preferencia por um segmento religioso da sociedade, não é isso que estou dizendo. Apenas estou colocando que essa defesa em particular do estado laico não parece ter respaldo constitucional.

Então, porque defender a remoção? Bem, primeiro porque a constituição não foi divinamente inspirada (sic). Ela pode ser imperfeita, incompleta e mesmo estar errada. O principio da laicidade, em um sentido mais amplo, pode não estar completamente incluido na constituição, mas isso não significa que o princípio não tem valor.

O outro ponto é mais pragmático: a questão pode ser um termometro para a aceitação social de argumentos laicos no cenário publico. Se um caso aparentemente tão irrelevante for indeferido, então talvez ainda estejamos em um ambiente bastante inóspito para o secularismo. Por outro lado, se obtivermos uma vitória, isso pode abrir precedentes (e talvez, jurisprudencia?) para casos mais relevantes no futuro.

Então… assine a petição e dê uma forcinha para o estado laico.

Qual a política do politicamente incorreto?

A muito tempo essa história de “politicamente (in)correto” vem me incomodando. Desde que ele começou a ser usado rotineiramente por comediantes, ou em associação a esses comediantes, eu não pude deixar de ficar com um gostinho ruim no fundo da boca. Afinal, eu associava ser “politicamente incorreto” com trasngressão do status quo. Tanto foi que, até antes mesmo de saber o porque do debate, eu fui inadvertidamente me associando com os defensores do politicamente incorreto: afinal, transgressão do status quo político sempre me soou algo muito atraente e válido.

Para meu horror, no entanto, eu vi que o que era chamado de “politicamente incorreto” era uma reafirmação do direito de ofender minorias, enquanto o “politicamente correto” se associava a rejeição desse discurso. Tinha algo muito errado nessa história, e eu não conseguia identificar  o porque disso.

Bom, isso até hoje de manhã.

Lendo mais uma vez o Trials of the Monkey (sim, eu sou um leitor esporádico e muito lerdo) me deparei com a seguinte passagem, na qual Matthew Chapman está comentando sobre suas frustrações como roteirista de Hollywood:

“Mesmo sem McCarthy, 95% dos filmes de Hollywood são no máximo sentimentais, no mínimo violentos e sentimentais. Na nação mais tecnologicamente avançada do mundo, um número extraordinário de seus habitantes é também trivialmente supersticioso como cartas de tarot. Existem filmes duros, não-sentimentais, caricaturas noir, mas seu cinismo é superficial, apolítico, um exercício de estilo que não desafia nada. Uma minúscula porcentagem dos filmes lida com assuntos complexos, mas quase sempre chega a conclusões aceitavelmente sentimentais e politicamente corretas. (…) Sugira que pode ter algo distorcido e brutal no paraíso capitalista, e não importa o quão dramática e convincente sua história é, você vai conseguir escutar a descarga do banheiro antes de você conseguir dizer adeus, e a coisa mais importante que você pode aprender é que um FINAL FELIZ é quase que mandatório. Quanto mais ousado você é em inspecionar os cantos mais feios da Vida Americana, mais é importante que você tenha um FINAL FELIZ ou pelo menos -com licença enquanto vomito- um final que sugira que a vida vale a pena. Tragédia, uma forma de drama que funcionou perfeitamente pelos últimos dois mil anos, é absolutamente tabu, e você não deixar de pensar o porque disso. Porque a nação mais rica e poderosa do mundo é tão insegura ao ponto que qualquer coisa remotamente crítica ao status quo é tão bem vinda quanto alguém vomitando sangue em um comercial de cigarros?”

E na minha concepção, isso é o que sempre foi ser politicamente correto. É o filme de terror (ou melhor, splatter) que todos os comportamentos considerados errados (a fornicadora, o medroso, o drogado) são mortos em decorrência direta ou indireta de seus pecados (sic), como quem diz “Viu? Quem faz sexo antes do casamento tem uma chance muito maior de ser morto por um palhaço-demônio com um gancho no lugar da mão”. Ou o filme de ação onde o vilão é o arquétipo do cientista maluco (ou engenheiro maluco) e o herói é o bom-moço do interior, simples, estóico e verdadeiro aos princípios de livre-comércio e completamente ignorante. É o filme onde o feio nunca é o herói, onde a mocinha é sempre salva, onde o gordo é sempre o alivio cômico, onde o vilão é um nazista, ou um russo ou um muçulmano. É o entretenimento fácil, que preda nossos preconceitos mais primitivos. “Ainda bem que sobreviveram um mocinho e uma mocinha. Agora eles podem repovoar o mundo, depois que todos forem mortos pelo palhaço.” Melhor ainda se eles forem cristãos neo-pentecostais e loiros.

E, nesse caso, eu não vejo outra alternativa a não ser me posicionar como “politicamente incorreto”, pois identifico o alinhamento político e ideológico por trás dessas ideias e me oponho, mesmo que seja em um assunto tão trivial quanto cinema.

O mais estranho dessa história toda é que o termo “politicamente correto” parece ter uma história relativamente longa, e foi usado por segmentos de esquerda e de direita ao longo dos anos de forma pejorativa. Não estou bem certo o porque disso. Provalmente porque todos temos uma vontade subconsciente de sermos transgressores e combater o que está politicamente estabelecido (até, ironicamente, os conservadores), ou talvez porque nossa visão leiga de “política” como um jogo sujo de poder nos força a nos opor a qualquer coisa que faça referencia a ela.

O que me parece, entretanto, é que a “retidão politica” ou a falta dela depende de… bem… de que tipo de política está em jogo. Estamos falando da politica de segregação racial, ou a proposição de leis com motivações unicamente religiosas, então eu claramente prefiro ser politicamente incorreto. Mas quanto a políticas de inclusão social, ou a valorização do ensino público, eu prefiro ser politicamente correto. Afinal, se vamos ser politicamente incorretos em relação a tudo, não vamos apoiar politica alguma. Como será que alguém que é politicamente incorreto (sic) entende sua posição em relação a liberdade de expressão? De forma a-política? Dificilmente.

Então, quando um politicamente incorreto fala que “Só disse que preto é ladrão porque era engraçado” (como se alimentar preconceitos para ganhar uns trocados fosse algum tipo de desculpa), me vem a pergunta: a que tipo de politica essa pessoa está se opondo ou satirizando?

Food for thought!

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Atualização: segundo a sugestão da Gabi, fica aqui a dica para o filme “O Riso dos Outros“, que de fato é excelente. Não havia referenciado ele, pois acredito que a maioria já tenha visto. Mas de qualquer forma ele é uma ótima exposição da retórica do “politicamente incorreto”. Cookie-points para as contribuições de André Dahmer, que é o cara.

Porque a síntese evolutiva não é uma festa do pijama – Uma resposta zangada a um anti-darwinista

Bom, eu já havia previsto que isso iria acontecer em algum momento.

Já a alguns meses venho acompanhando uma discussão no Research Gate (link para me seguir lá aqui) sobre as alternativas ao neo-darwinismo para a compreensão da evolução biológica. Como esperado, essa pergunta foi um imã de criacionistas, com a participação especial do nosso querido Enésio, falando o que ele sempre fala: em algum momento no futuro não-tão distante será lançada uma nova síntese evolutiva, que não será “selecionista” e blablabla. Só faltou a distinção entre fato, Fato e FATO, ou seja lá qual é o chavão que ele sempre usa.

Mas esse não é exatamente sobre o que quero falar no momento. Meu problema principal com essa discussão tem sido com o Dr. Emilio Cervantes, que até onde pude notar é um pesquisador daqui da Argentina, que parece ser algum tipo de botânico*. Desde o começo da discussão, ele tem batido na mesma tecla: neo-darwinismo está errado porque se baseia em um “fantasma semântico”, que é seleção natural. E o porque isso, exatamente? Oras, porque a natureza não tem uma mente para selecionar, logo o termo é contraditório. Obviamente, os criacionistas de plantão bateram palma, sem notar que a ausência de uma mente selecionadora na natureza não é lá uma coisa muito boa para o criacionismo. Ademais, segundo o Dr. Cervantes, Darwin confundiu criação de variantes domesticadas com o que acontece na natureza, e isso fere mais ainda a ideia de seleção natural como tendo qualquer significado.

Enfim, não entrarei em detalhes do resto da discussão, mas colarei abaixo minha última resposta. Em seu comentário anterior, depois de ignorar minhas respostas ou responde-las com ad hominem, Dr. Cervantes alega que é necessário testar a evolução de grupos caso-a-caso, e que não existe uma teoria que explica tudo em biologia. Eu concordo com esses pontos, mas discordo do discurso que ele apresentou. Acho que a minha resposta em si explica muito do que eu penso sobre o assunto e talvez resuma minhas impressões do debate, e da posição anti-darwinista do Dr. Cervantes.

Sem mais delongas:



Bom, eu na verdade concordo com isso, mas por motivos completamente diferentes.

A síntese evolutiva não foi uma festa-do-pijama entre paleontologos, taxonomistas e geneticistas, onde eles calharam de deixar os embriologistas de fora porque eles eram meio estranhos, e na qual eles decidiram “Puxa vida! Vamos apenas dizer que tudo funciona bem em conjunto e ver se cola”.

Ela foi uma unificação precisa de duas teorias (genética mendeliana e neo-darwinismo, sensu Weismann) através dos desenvolvimentos teóricos de genética de populações, e o entendimento de que essas teorias eram consistentes com o que se observa na natureza (incluindo o registro fóssil). Ela não é uma coleção de narrativas adaptacionistas não-testadas, como muitos dos críticos E defensores da síntese costumam acreditar.

O outro lado da moeda é que, sendo um corpo de conhecimento teórico especifico, ele só se aplica em casos nos quais suas premissas são verdadeiras. Então, ela não é onipotente, e todo mundo que usa esse arcabouço teórico sabe para que ele serve, como testar previsões com ele e que tipo de dado é necessário para que ele possa funcionar. Quando premissas e demandas teóricas falham, o mesmo ocorre com a teoria.

E é verdade que provavelmente não existe uma teoria unificadora em biologia. Por exemplo, qualquer teoria de ontogenia não vai se aplicar a organismos sem ontogenia, como bactérias. Mas isso não significa que teorias ontogenéticas são desprovidas de valor, longe disso. Ela explica o que ela pode de fato testar em cenários que se adequam à suas premissas.

O poder da síntese é ter premissas gerais como “herança genética mendeliana”, algo que é verdade para bactéria e para humanos. Mas fora isso, esses dois grupos diferem em quase tudo (ex: bactéria tem consideravel transferencia genética horizontal, humanos são diploides, etc) o que nos faz reconhecer que talvez existam mais premissas que podem ser incluidas em nossos modelos para melhorar seu poder explanatório.

Geralmente, todos os proponentes da síntese estendida não estão chamando por uma rejeição da síntese evolutiva. O que eles estão fazendo é chamar para a inclusão de mais fenômenos que não se adequam aos modelos clássicos. Essa inclusão não é apenas “vamos simplesmente colocar tudo nos livros texto e encerrar o dia”, mas o desenvolvimento teórico que está voltado à integração da síntese com esses fenômenos  Alguns são relativamente fáceis de integrar, como topologias adaptativas multidimensionais e construção de nicho, outras não são tão fáceis, como ontogenia. Se isso mudar nossas equações e previsões teóricas, que assim seja! Mudança baseada em evidencia é melhor que estagnação por negação de evidencias. Conscientização para essas questões é importante, iconoclastia má-orientada não.

E, não importa o que façamos, qualquer teoria vai ser necessariamente limitada. Mesmo que nós achemos um modelo que seja útil para todas as espécies que tenhamos estudado, existem potencialmente centenas de milhares mais que ainda não descobrimos, muito menos estudamos. As recentes estimativas são que conhecemos apenas 13% da biodiversidade presente. Jogar fora qualquer teoria biológica porque ela tenta ser ampla e defender o estudo de casos isolados é, na melhor das hipóteses, contraditório no presente contexto.

Mas, se o ponto é mesmo que “seleção natural” é um conceito vazio, então eu sugeriria direcionar a sua análise semântica para temos como “buracos negros” (que não são nem buracos, nem negros), o uso de “evidente” em matemática (nada que é evidente precisa de demostração) e “afinidades” em química (elementos não tem preferências). Na verdade, esse ultimo exemplo foi levantado por Darwin, quando a mesma objeção que você levantou chegou a ele: que seleção natural era contraditória, porque apenas criadores podem selecionar. Palavras podem ter mais de um significado e, sim, isso pode ser confuso (veja a ambiguidade do termo “singularidade” e “Big Bang” em cosmologia). Isso é tudo verdade. Mas dizer “por isso elas estão erradas”, é falacioso.

Darwin também apontou que sua idéias foi derivada da observação de criadores, mas ele dispendeu uma grande quantidade de páginas explicando como isso poderia ser atingido na natureza, e é ai que dinâmicas Maltusianas entrem na jogada. A relação entre seleção natural e artificial é, para mim, evidente partindo de uma leitura do Origens das Espécies. É uma relação de analogia, e não de identidade. Os principais filósofos da evolução parecem concordar comigo.

Nós podemos ter uma discussão produtiva sobre o uso de termos, e quais seriam os melhores de serem usados. Isso é difícil, pois linguagem é uma coisa complicada. Ela evolui por si próprio. Mas nós tivemos sucessos moderados com termos como “macaco” e “mais evoluído”. Mas termos e teorias são coisas diferentes.

Resumindo, sim, nós devemos ser específicos sobre o que nós estamos falando e tornar bem claro o que a teoria sintética é, o que ela deve explicar e o como ela faz isso. Na prática, isso deve levar a mais cautela no pronunciamento de afirmações não-substanciadas sobre adaptação (ou sobre qualquer outra coisa), e isso é bom. Pelo menos é isso que espero.


* Quando comentei o caso para um colega, que permanecerá inominado, ele comentou “aposto meu pinto que ele é ecologo ou botanico“. Não é preciso dizer que ele manteve o pinto dele.

Referência

Mora, C., Tittensor, D., Adl, S., Simpson, A., & Worm, B. (2011). How Many Species Are There on Earth and in the Ocean? PLoS Biology, 9 (8) DOI: 10.1371/journal.pbio.1001127

Ronald Regan, montado em um velociraptor com uma sub-metralhadora.

Essa obra de arte em questão chegou até mim através do blog do Jon Wilkins, onde ele oferece uma lista de sugestões de presentes para o seu geneticista de populações favorito (sem querer forçar a mão de ninguem, mas a camiseta com o bigode do J. B. S. Haldane não está nada mal).

Obviamente, o republicano do coração de todos, montado no dinossauro mais erroneamente representado da história, disparando uma metralhadora não tem nada a ver com genética de populações, mas quem liga?

Para quem ficou curioso (assim como eu) o artista em questão é Jason Hauser, e está no DeviantArt. O seu portfolio inclui (mas não se restringe a) pérolas como:

(clique nas imagens para ve-las em maior tamanho)

“Theodore Roselvelt contra o Pé-Grande”

“George Washington, caçador de zumbis”

“Benjamin Franklin Vs. Zeus”

“Thomas Jefferson contra um Gorila”
Mas, obviamente a jóia mais rara dessa coleção é a obra intitulada “Bem Vindo à Internet”

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