Qual a política do politicamente incorreto?

A muito tempo essa história de “politicamente (in)correto” vem me incomodando. Desde que ele começou a ser usado rotineiramente por comediantes, ou em associação a esses comediantes, eu não pude deixar de ficar com um gostinho ruim no fundo da boca. Afinal, eu associava ser “politicamente incorreto” com trasngressão do status quo. Tanto foi que, até antes mesmo de saber o porque do debate, eu fui inadvertidamente me associando com os defensores do politicamente incorreto: afinal, transgressão do status quo político sempre me soou algo muito atraente e válido.

Para meu horror, no entanto, eu vi que o que era chamado de “politicamente incorreto” era uma reafirmação do direito de ofender minorias, enquanto o “politicamente correto” se associava a rejeição desse discurso. Tinha algo muito errado nessa história, e eu não conseguia identificar  o porque disso.

Bom, isso até hoje de manhã.

Lendo mais uma vez o Trials of the Monkey (sim, eu sou um leitor esporádico e muito lerdo) me deparei com a seguinte passagem, na qual Matthew Chapman está comentando sobre suas frustrações como roteirista de Hollywood:

“Mesmo sem McCarthy, 95% dos filmes de Hollywood são no máximo sentimentais, no mínimo violentos e sentimentais. Na nação mais tecnologicamente avançada do mundo, um número extraordinário de seus habitantes é também trivialmente supersticioso como cartas de tarot. Existem filmes duros, não-sentimentais, caricaturas noir, mas seu cinismo é superficial, apolítico, um exercício de estilo que não desafia nada. Uma minúscula porcentagem dos filmes lida com assuntos complexos, mas quase sempre chega a conclusões aceitavelmente sentimentais e politicamente corretas. (…) Sugira que pode ter algo distorcido e brutal no paraíso capitalista, e não importa o quão dramática e convincente sua história é, você vai conseguir escutar a descarga do banheiro antes de você conseguir dizer adeus, e a coisa mais importante que você pode aprender é que um FINAL FELIZ é quase que mandatório. Quanto mais ousado você é em inspecionar os cantos mais feios da Vida Americana, mais é importante que você tenha um FINAL FELIZ ou pelo menos -com licença enquanto vomito- um final que sugira que a vida vale a pena. Tragédia, uma forma de drama que funcionou perfeitamente pelos últimos dois mil anos, é absolutamente tabu, e você não deixar de pensar o porque disso. Porque a nação mais rica e poderosa do mundo é tão insegura ao ponto que qualquer coisa remotamente crítica ao status quo é tão bem vinda quanto alguém vomitando sangue em um comercial de cigarros?”

E na minha concepção, isso é o que sempre foi ser politicamente correto. É o filme de terror (ou melhor, splatter) que todos os comportamentos considerados errados (a fornicadora, o medroso, o drogado) são mortos em decorrência direta ou indireta de seus pecados (sic), como quem diz “Viu? Quem faz sexo antes do casamento tem uma chance muito maior de ser morto por um palhaço-demônio com um gancho no lugar da mão”. Ou o filme de ação onde o vilão é o arquétipo do cientista maluco (ou engenheiro maluco) e o herói é o bom-moço do interior, simples, estóico e verdadeiro aos princípios de livre-comércio e completamente ignorante. É o filme onde o feio nunca é o herói, onde a mocinha é sempre salva, onde o gordo é sempre o alivio cômico, onde o vilão é um nazista, ou um russo ou um muçulmano. É o entretenimento fácil, que preda nossos preconceitos mais primitivos. “Ainda bem que sobreviveram um mocinho e uma mocinha. Agora eles podem repovoar o mundo, depois que todos forem mortos pelo palhaço.” Melhor ainda se eles forem cristãos neo-pentecostais e loiros.

E, nesse caso, eu não vejo outra alternativa a não ser me posicionar como “politicamente incorreto”, pois identifico o alinhamento político e ideológico por trás dessas ideias e me oponho, mesmo que seja em um assunto tão trivial quanto cinema.

O mais estranho dessa história toda é que o termo “politicamente correto” parece ter uma história relativamente longa, e foi usado por segmentos de esquerda e de direita ao longo dos anos de forma pejorativa. Não estou bem certo o porque disso. Provalmente porque todos temos uma vontade subconsciente de sermos transgressores e combater o que está politicamente estabelecido (até, ironicamente, os conservadores), ou talvez porque nossa visão leiga de “política” como um jogo sujo de poder nos força a nos opor a qualquer coisa que faça referencia a ela.

O que me parece, entretanto, é que a “retidão politica” ou a falta dela depende de… bem… de que tipo de política está em jogo. Estamos falando da politica de segregação racial, ou a proposição de leis com motivações unicamente religiosas, então eu claramente prefiro ser politicamente incorreto. Mas quanto a políticas de inclusão social, ou a valorização do ensino público, eu prefiro ser politicamente correto. Afinal, se vamos ser politicamente incorretos em relação a tudo, não vamos apoiar politica alguma. Como será que alguém que é politicamente incorreto (sic) entende sua posição em relação a liberdade de expressão? De forma a-política? Dificilmente.

Então, quando um politicamente incorreto fala que “Só disse que preto é ladrão porque era engraçado” (como se alimentar preconceitos para ganhar uns trocados fosse algum tipo de desculpa), me vem a pergunta: a que tipo de politica essa pessoa está se opondo ou satirizando?

Food for thought!

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Atualização: segundo a sugestão da Gabi, fica aqui a dica para o filme “O Riso dos Outros“, que de fato é excelente. Não havia referenciado ele, pois acredito que a maioria já tenha visto. Mas de qualquer forma ele é uma ótima exposição da retórica do “politicamente incorreto”. Cookie-points para as contribuições de André Dahmer, que é o cara.

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Discussão - 3 comentários

  1. D-Dimensões disse:

    Massa. Eu nunca tinha parado pra pensar no significado dessas palavras, se é que tem algum significado além daquele que quem usa quer passar (não interessa de que lado você está).É engraçado que, pensando dessa forma, a alcunha vai se solidificando. De tanto eu ouvir dizer que ser contra racismo e machismo é ser “politicamente correto” já aceitei essa minha condição. Então se alguém me diz que filmes politicamente corretos são aqueles com mensagens bonitinhas, acho que eu acabo sem querer defendendo esses filmes. E acho que o mesmo vale do “outro lado”. Alguém que escuta dizer que é politicamente incorreto porque defende videogames violentos, pode acabar defendendo Rafinhas Bastos simplesmente pq faz parte do mesmo “grupo”.

    • Fabio disse:

      Pois é. Meu caminho foi oposto, exatamente por ter estado tão ligado com o cenário cinematografico na minha adolescencia. O politicamente correto era sinonimo não apenas da linguagem PC, como também dessas narrativas pão-com-manteiga que apelam para um sentimento de conforto. Ao ler o livro do Chapman me toquei que era isso que havia me incomodado tanto nessa retórica desde o inicio. Agora estou mais confortavel em assumir qualquer uma das duas alcunhas, pois não acho que isso vá me colocar necessariamente na mesma cama de alguem que eu não queira estar.

  2. darkgabi disse:

    tipo isso. podia ter deixado aki a dica dakele documentário “o riso dos outros”, q fala meio q isso.

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