A Veja falou de papeis de gênero, confundiu com orientação sexual e (quase) ninguém notou

Já deve fazer mais de um mês que tivemos aquele lindo editorial “Parada Gay, cabra e espinafre” do José Roberto Guzzo na Veja sobre homossexualidade que causou tanta revolta e discussão. O editorial foi desconstruído de quase todas as formas possíveis, sendo que a melhor, de longe, foi a produzida pelo deputado Jean Wyllys.
O que poucos notaram, entretanto, é que na semana seguinte desse fiasco a mesma revista produziu uma matéria intitulada “Educados no sexo neutro”. A matéria é tão repulsiva que sugiro um bom anti-ácido antes da sua leitura (ela pode ser lida na integra aqui). Estranhamente, apesar do assunto e enfoque serem afins do da matéria do Guzzo, quase ninguém notou sua existência na época, com exceção talvez da Jaqueline Jesus, uma psicologa que escreveu um post bastante explicativo (e referenciado) sobre o assunto.
A tese central da matéria está explicada na sua chamada:

“Uma corrente pedagógica defende a tese de que meninos e meninas devem ser criados de forma igual. O perigo é confundi-los acerca de sua sexualidade” 

A matéria segue explicando que:

“Segundo esse ponto de vista, não se deve influenciar a criança a adotar comportamentos que sempre foram vistos como típicos de seu sexo. A educação de gênero neutro abriga um objetivo nobre que, para ser alcançado, exige práticas arriscadas. A ideia dos que advogam essa corrente pedagógica é eliminar de uma vez por todas os velhos padrões que põem a mulher como dona de casa e o homem como o macho provedor, a mulher como o ser delicado que atende às vontades masculinas e cuida da prole. A liberdade de escolha para inverter os papéis tradicionais, para quem segue essa corrente, é um exemplo positivo na educação dos filhos.”

Mas como isso pode influenciar negativamente a sexualidade das crianças não é explicado. A matéria, entretanto, dá dois exemplos. O primeiro é referente a filha do casal Angelina Jolie e Brad Pitt:

Shiloh Jolie Pitt- Uma criança que aparentemente não é
mais linda e sexualmente confusa ¬¬
“Eles dizem criar sua filha Shiloh, hoje com 6 anos, dentro das normas da educação de gênero neutro. Angelina já foi vista comprando roupas de menino para Shiloh. Permite que a menina use gravata, sapatos masculinos e cortes de cabelo idem. A atriz costuma se desentender com a sogra, que insiste em presentear a neta com roupas femininas e fantasias de princesa. O resultado é que o lindo bebê que aparecia no colo de Angelina em seu primeiro ano de vida hoje surge nas fotos com a aparência masculinizada.”
Tirando a total repulsa que qualquer ser humano decente deveria sentir depois de ler essa frase, fica a pergunta: como esse exemplo corrobora a afirmação de que educar crianças nessa linha pedagógica “confunde sua sexualidade”? A menina tem 6 anos! Que tipo de sexualidade uma criança dessa idade deveria ter? É isso que os jornalistas da Veja estão advogando agora? Sexualidade em crianças pré-púberes?
O segundo exemplo é mais repulsivo ainda:

“Até hoje a ciência não descobriu se a homossexualidade é inata ou adquirida no meio social, mas já se tem certeza de que toda criança nasce com predisposição a desenvolver características psicológicas do sexo a que pertence. A literatura médica está repleta de casos em que os pais tentaram dar outra orientação sexual aos filhos, com resultados lamentáveis. O caso recente mais conhecido é o do canadense David Reimer. Em 1966, antes de completar 1 ano, Reimer teve o pênis extirpado numa cirurgia de circuncisão desastrada. Seus pais cruzaram os Estados Unidos para consultar o psicólogo Jolin Money, na época considerado uma autoridade em diferenças entre os gêneros. Money aconselhou uma cirurgia de mudança de sexo, com a construção de uma vagina artificial seguida de um bombardeio de hormônios femininos. Na ocasião, Money tentava comprovar a teoria de que não eram as características físicas que determinavam o sexo, e sim a educação dada pela família. Os pais concordaram com a cirurgia e Reimer, rebatizado de Brenda, foi criado como uma menina. Logo se constatou o fracasso da empreitada. Aos 2 anos, Reimer rasgava seus vestidos com raiva. Recusava-se a brincar com bonecas. Mais tarde, na escola, sofria bullying por causa de seus trejeitos masculinos. Seus pais só lhe contaram sobre a cirurgia de mudança de sexo aos 14 anos. Em 2004, aos 38 anos, Reimer se matou.”

Agora, o caso do David Reimer é bastante conhecido e a matéria deixa de fora detalhes bastante convenientes sobre a história. Primeiramente, David tinha um irmão gêmeo Bryan, que não sofreu o mesmo infortúnio que ele. Apesar disso, o Dr. Money forçava os gêmeos a encenarem relações sexuais quando crianças. David afirmou lembrar ter que ficar “de quatro”, com seu irmão por trás dele, forçando sua genitália contra sua bunda. Em outras ocasiões, ele tinha que ficar de barriga para cima, com as pernas abertas, enquanto seu irmão emulava penetrações. Como se não bastasse isso, Bryan desenvolveu esquizofrenia e foi encontrado morto dois anos antes do suicídio de David, em decorrência de uma overdose de antidepressivos. Alguem em sã consciência pode acreditar que isso é um bom exemplo de uma “tese de que meninos e meninas devem ser criados de forma igual“?
David Reimer – atormentado por seu psicologo durante a vida e depois
da morte por idiotas preconceituosos.

A matéria é um festival de lugares-comuns e bobagens heteronormativas. Confundem sexualidade com papel de sexo, sugerem que respeitar a identidade de gênero de crianças é “forçar” algo sobre elas e dão um péssimo exemplo de jornalismo. É uma matéria construída quase que exclusivamente para vender homofobia travestida de preocupação parental. E você pode convencer um pai de qualquer coisa, se ele acredita que o futuro do seu filho está em perigo.

A jornalista que escreveu essa matéria deveria se envergonhar.

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Discussão - 3 comentários

  1. Toquinha Bio disse:

    E nojento o pensamento dessas pessoas. Pelo que eu entendi a psicóloga quer quebrar essa ideia de machismo, é errado mesmo essa ideia de que mulher tem que cozinhar e o homem cuidar da casa. Mas o jeito que ela disse de inverter os papeis, e ela mesmo escreveu exigem práticas arriscadas, e estranho. Imagina uma pessoa sem conhecimento lendo e interpretando esse texto, vai vestir a filha de homem e vai colocar o filho de quatro.A gente pode ver esse comportamento na filha do casal Pitt, é totalmente errado, na minha opinião menina tem que ser tradada como menina, e menino tem que ser tratado como menino. Imagina a confusão na cabeça dessa menina, não que ela ”vire” homossexual, a pessoa nasce assim, o que eu quero dizer é que as crianças dessa idade são maldosas e gostam de tirar sarro das outras crianças, e por causa disso essa menina pode crescer perturbada. A mãe quer vesti-la como menino e a vó briga e quer vesti-la como menina.Agora o caso David Reimer é lamentável, morreu por viver rodeado de ignorantes. Não adianta mudar o comportamento das crianças ou tentar implantar estilos de vida, quando compete ao sexo, se a criança nasceu com tal comportamento sexual cabem aos pais aceitar.

    • Fabio disse:

      Não acredite no cenário que a Veja está pintando: a Angelina Jollie não está forçando a menina a nada, mas está aceitando a vontade da menina, como no caso abaixo:http://tribunadepetropolis.imprensa.ws/2012/index.php?option=com_content&view=article&id=43354&catid=74Podemos discutir essa questão do bullying, obviamente. Bullying é um problema social grave e pode impactar profundamente as crianças. Podemos ter uma discussão séria sobre o assunto. Não é o que a Veja tentou vender, no caso.

    • Toquinha Bio disse:

      Eu retiro o que eu disse, a Angelina Jollie esta apenas fazendo a vontade da garotinha, é a avó que não esta aceitando a vontade da neta. Sobre o garotinho é legal que a mãe apoie o filho, apesar de o preconceito começar pelos parentes deles, talvez na escola ele não encontre problemas, mas infelizmente ele tem que estar preparado, e a mãe tem que deixar avisado pro filho.Tem que haver mesmo debates e discussões sobre o Bullyng, as pessoas tem que ser felizes do jeito que são.

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