Porque existem tão poucos evolucionistas negros?

Recentemente me deparei com o canal do youtube “Evolution: This View of Life” (A.K.A. EvolutionTVOL) comandado pelo David Sloan Wilson (que também tem um blog no ScienceBlogs). Aparentemente o canal consiste de entrevistas com pesquisadores da área de biologia evolutiva e exibe um formato muito interessante. A entrevista que mais chamou atenção foi a intitulada “O mito da Raça, diferenças raciais em saúde e porque temos tão poucos evolucionistas negros“, com o biólogo evolutivo Joseph L. Graves.

Greves trabalha em uma área da biologia evolutiva muito interessante, tentando responder porque organismos envelhecem. Fora isso, ele também apresenta um interesse muito grande na interface de questões raciais e biologia evolutiva. Durante a entrevista Graves esclarece o porque ele acredita que raças humanas são um mito (basicamente porque temos pouquíssima divergência genética entre grupos) e explica brevemente sobre as causas evolutivas de problemas de saúde ligadas a adaptações alimentares de nossos antepassados (basicamente que quanto mais próxima é sua alimentação da dos seus antepassados, melhor para você).

Joseph L. Graves, primeiro PhD em biologia evolutiva
Negro dos Estados Unidos

Mas o que me chamou muita atenção foi a última questão, brevemente respondida no fim da entrevista, que é: Porque existem tão poucos biólogos evolutivos negros? De fato, em toda minha vida acadêmica só me recordo de ter conhecido um biólogo evolutivo negro (um pesquisador de Harvard, que não me recordo o nome). Graves, que foi o primeiro norte-americano negro a receber o PhD na área, estima que não existam mais do que 10 biólogos evolutivos negros nos EUA, e que biologia evolutiva é, de fato, a área acadêmica na qual os negros são menos representados.

Mas então, qual é a resposta para a questão? Bem, religião. Segundo Graves (que é religioso, por sinal), a comunidade negra norte-americana adotou o cristianismo de uma forma muito mais intensa e fervorosa do que os brancos. Especificamente, que eles adotaram uma perspectiva literalista e fundamentalista da bíblia, o que claramente contradiz os achados da biologia evolutiva.

Graves não deixa muito claro se essa é sua opinião ou se ele tem algum tipo de evidencia para corroborar esse cenário. Ele cita sua experiência pessoal lecionando para alunos negros, e o reconhecimento que eles rejeitam diversos achados da ciência por estes confrontarem com sua fé. Isso é de fato consistente com algumas evidencias sobre a influencia da religião no conhecimento científico (aqui e aqui), então me parece um cenário razoável. Graves ainda coloca que enquanto não reconhecermos essa fonte de conflito não poderemos resolver essa e outras questões relacionadas de forma satisfatória.

Eu confesso que essa talvez seja a minha maior bronca com os que afirmam que ciência e religião são compatíveis: na sua vontade de provar o seu ponto, eles convenientemente ignoram os casos onde o conflito é evidente. Ao argumentar sobre o que é possível, eles deixam de lado o que de fato é realidade. Afinal, sabemos que teológos são muito bons em inventar cenários que tornam a Biblia compatíveis com qualquer coisa, até com física quantica! Mas para cada tese teológica maluca existem centenas de milhares de crentes que acreditam na literalidade do Gênesis.

Então, onde deveríamos estar focalizando nossa atenção?

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Discussão - 4 comentários

  1. Toquinha Bio disse:

    Mesmo sem evidências ou uma clara opinião do Graves, podemos ver que a religião de uma certa forma atrapalha e atrasa muito o desenvolvimento intelectual.

  2. Acho que é meio temerário comentar alguma coisa a esse respeito sem ter visto o vídeo, ou mesmo sem me informar mais sobre o assunto… mas o farei assim mesmo, mais como um modo de jogar idéias no ar.Imagino que Graves esteja falando de uma realidade estadunidense, onde a questão racial está muito ligada à questão social. Nesse cenário, justifica-se dizer que as comunidades negras são muito influenciadas pela religião. Tal ligação foi importante, inclusive, na luta pela igualdade de direitos dos negros nos EUA na década de 1960 e ainda deixa marcas nos movimentos negros.A ligação sócio-histórica entre raça e condição social, que também é verificada no Brasil, também deve ser (minha expeculação) um ponto importante na acessibilidade dos negros aos ensinos superiores e à pesquisa científica. Como efeito, se poucas pessoas negras conseguem furar a barreira social da entrada nos ambientes universitários, poucos serão os evolucionistas negros.Para finalizar, não podemos descartar o peso dos Estados Unidos em todas as áreas de pesquisa. Ele que nos faz pensar que a ciência no mundo é espelho da ciência norte-americana, inclusive no que se refere às matizes das peles dos seus pesquisadores. Imaginemos alguém que queira se especializar em Biologia Evolutiva no Haiti, em Cuba ou em Uganda. Qual seria a cor da pele dessa pessoa?Abraços, (e me desculpe pelo tamanho do comentário)Carimbo

    • Fabio disse:

      E ai Carimbão.Acho que o ponto do Graves é que, mesmo depois de contabilizar essa barreira social, mesmo assim ainda temos menos phds em evolução.E sim, a colocação dele vale apenas para os USA, se é que vale! Minha impressão é que existem outros fatores bastante importantes, como algum viés dos estudantes negros para áreas de humanidades (como parece acontecer aqui em sampa, se não me engano). Muitos pesquisadores negros se destacam exatamente em áreas relacionadas com cultura e história negra (nos EUA), chuto, por alguma identidade racial mais bem estabelecida?Enfim, acho que só podemos especular no momento.

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