Aranhas, Beagles e as Mentiras que os Cientistas contam.

Meu primeiro estágio em pesquisa científica foi no Instituto Butantan, pesquisando o comportamento de caça de um gênero muito curioso de aranhas, as Scytodes. Esse gênero é diferente de todas as outras aranhas por uma modificação anatômica muito curiosa: diferente das outras aranhas que apresentam glândulas de veneno, os animais desse gênero apresentam enormes glândulas cefálicas que produzem uma substância pegajosa, que a aranha é capaz de ejetar sobre sua preza, capturando-a a distância:

*A ejeção de cola é rápida demais para ser vista em vídeos normais. Clique aqui e aqui  para ver algumas imagens em close das queliceras.

Esse tipo de habilidade não vem sem um custo: as quelíceras, provavelmente por serem muito modificadas para “cuspir”, não são muito poderosas. Isso faz com que esses animais tenham que caçar animais de exoesqueleto frágil, principalmente aranhas. O fato das Scytodes poderem capturar animais à distância faz com que elas se deem bem contra outros predadores perigosissímos, como a aranha marrom, e até mesmo as espertas e Salticidae.

 

“Glup… ela já foi embola?”

Para desenvolver essa pesquisa eu pedi uma bolsa de iniciação científica para a FAPESP. Para quem nunca teve a experiência, uma das requisições dessa agência para a concessão da bolsa é que precisa estar devidamente justificado o mérito do projeto. Na época isso não ficou muito claro para mim… que tipo de mérito eles queriam? Porque valia a pena pesquisar essas aranhas? “Oras, porque elas são fascinantes!” não me parecia uma resposta muito profissional. Na época o meu orientador me instruiu a descrever os potenciais benefícios para nós, seres humanos, desse estudo.

Meu raciocínio foi simples: aranhas marrons podem ser um problema, eu ia estudar um bicho que come aranhas marrons e SHAZAM… por motivos não explicitados isso soava como uma ótima aplicação prática desse tipo de estudo. “Potenciais aplicações práticas para controle de aranhas marrons” ou coisa que o valha.

Bem, na época eu ganhei a bolsa, realizei o projeto e, eventualmente publiquei um artigo sobre o assunto. “Codificando caracteres comportamentais para analises cladisticas: usando homologia dinâmica sem parcimônia.” Se você acha que soa hermético e totalmente alienado de qualquer aplicação prática, então você pegou a ideia certa.

Na época um colega me perguntou “como você justifica o uso de dinheiro público para estudar comportamento de aranhas?”.

“Eu não sei. Só espero que nunca descubram”.

Eu não acho que essa minha inépcia nesse ponto seja particularmente fora do padrão. A grande maioria dos pesquisadores que conheço sequer pensa sobre como justificar sua pesquisa frente a sociedade. Talvez a maior evidência disso seja o Projeto Genoma Humano, que gastou 3 bilhões de dólares com a desculpa que ajudaria a curar doenças genéticas, cancer ou alguma porcaria assim, quando na verdade poucos avanços terapêuticos reais vieram dai. Não me entendam mal… o projeto genôma humano foi um grande avanço para a ciência. Assim como o projeto do genôma do Ornitorrinco, mas ninguém nem tentou justificar esse com base nos benefícios terapêuticos para o bichinho.

O ponto é: acadêmicos e cientistas de maneira geral não estão treinados para responder esse tipo de questionamento. Me recordo quando, em uma mesa redonda sobre Direitos Animais, o neurocientista Sidarta Ribeiro ficou simplesmente sem ação quando veganos na plateia lhe perguntaram se ele era a favor do uso de animais em pesquisa. “Sim”, ele disse, e isso foi o suficiente para levar a plateia aos gritos.

O que me trás aos beagles… A não ser que você tenha estado debaixo de uma pedra nos últimos dias, você sabe que houve uma invasão ao Instituto Royal, e cerca de 150 beagles que estavam sendo usados para testes farmacêuticos foram libertados. Rapidamente, muitos cientistas vieram repudiar a ação, algo que foi bem exemplificado pelo pronunciamento da ABC e da SBPC sobre o assunto. Muitos de meus colegas no meio acadêmico ficaram boquiabertos. Afinal, uso de animais em pesquisas científicas é algo justificadamente importante, e seria inconcebível imaginar como alguém racional e instruído poderia ser contra o uso (consciente e dentro das normas, que fique bem claro) de animais em laboratórios, certo? Certo???

Bem, eu não acho que seja bem por ai. Acho sim que a questão de uso de animais em pesquisas e testes é algo que sim deve ser colocada em discussão, e que está longe de ser evidente. Mas não quero argumentar contra ou a favor da ação dos ativistas, nem defender ou atacar o uso de animais em pesquisas, muito menos mais testes laboratoriais. Quero apenas fazer uma pergunta para meus amigos da academia: podemos dizer com cara limpa que nós fizemos direito o trabalho de expor e justificar nossa pesquisa frente a sociedade ao ponto que toda a opinião contrária ao uso de animais em experimentação científica seja associado ou a fundamentalismo fanático ou ignorância?

Será?

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Discussão - 9 comentários

  1. Minha visão.
    1) Não, obviamente a classe acadêmica *não* está fazendo um bom trabalho de explicação para a população em geral sobre o uso de animais em pesquisa;
    2) Sim, dá para dizer que as opiniões contrárias são frutos da ignorância: basta conversarmos dois minutos – listam propostas de alternativas inadequadas (como usar bonecos de PVC pra desenvolvimento de medicamentos), são incapazes de dizer quais os dispositivos legais que existem atualmente;
    3) Não, não basta esclarecer a população; o posicionamento, sobretudo da fração ativista, é *ideológica* (todo mundo tem direito à ideologia, apenas que a forma de enfrentar isso será diferente do simples esclarecimento – é um plano estratégico de comunicação que precisa ser posto em movimento).

    []s,

    Roberto Takata

    • Fabio disse:

      Concordo Takata. Meu ponto é: podemos dizer isso sem sombras de dúvidas? Ou, em outras palavras, fizemos o trabalho tão bem que é só isso que resta? Eu acho que não.

  2. olá Fábio!

    Certamente não estamos explicando. O porquê? Talvez porque não queremos, talvez por medo, ou talvez por não sabermos como fazer. E digo, falta essa “ponte”. O elo de ligação entre os cientistas e a população. Ou, nós mesmos sejamos a ponte, o que na minha opinião está muito longe para, ou, com essa mídia ignorante, manipuladora e maquiavélica atual, a ciência está com os dias contados.

    Exemplo claro são os transgênicos. Digite transgênico no google e a avalanche de besteira e conceitos errados que são mostrados.
    Há anos acompanho esse tipo de ativismo, do qual eu repúdio. Anos e anos de pesquisa na biotecnologia vegetal, e em 2 minutos são destruídos por esse ativismo.
    Pode parecer um pouco absurdo, mas se continuar assim, em alguns anos estaremos fazendo pesquisas em porões secretos.
    abraço

  3. Marcos Paulo disse:

    Acredito que vc se posicionou de maneira precipitada em um momento tão delicado para a ciência de uma maneira geral, o seu texto como um todo induz ao pensamento de que as pesquisas com os animais são contestaveis, no entanto , atualmente, elas não sao ! Quando se pensam em alternativas, elas simplesmente não existem e as técnicas in vitro e computacionais são mecanismos complementares, até porque o comportamento in vivo é diferente do in vitro.
    Concordo que pesquisadores falham na exposição de seus projetos para a sociedade, embora seja algo complexo e difícil de se explicar gerando, por vezes, inúmeras perguntas que resultam em complexas respostas, onde a maioria das pessoas não iria compreender,talvez por isso os pesquisadores se mantém em silêncio.
    É verdade também que muitos projetos sem utilidade alguma são realizados e financiados pelo governo, mas vc colocar todos no mesmo bolo, os úteis e os inúteis, e a partir daí questionar o uso de animais na pesquisa científica é duvidar da inteligência e senso crítico do leitor. Os avanços são enormes, e não é porque existem projetos inúteis que esses irão invalidar os úteis. Nesta ultima semana anunciaram “a possível cura da calvice” os testes foram feitos aonde ? Em camundongos! É muito cedo para se dizer em cura para a calvice, embora não possamos negar que isso é um norte, assim como o coquetel antiretroviral, que fornece décadas de anos a pacientes HIV +, inicialmente esse coquetel foi testado em animais. Então está mais que suficientemente sedimentado a importância destes no uso da pesquisa científica. Lembrando que até agora nada foi provado contra o Royal, não passou de uma ideologia “vamos salvar cachorrinhos de todo e qualquer perigo”

    • Fabio disse:

      Minha motivação principal foi a resposta equivocada e precipitada de muitos membros da academia. Minha lógica é que dois errados não fazem um certo. Se minha posição, ao fazer isso, automaticamente me coloca do lado de quem acha que existem alternativas viáveis e que não usamos porque somos “do mal”, então eu diria que essa impressão é muito mais fruto do contexto social no qual a discussão se inseriu.

      Tipo de coisa “Nós contra eles”.

      De qualquer forma, não acho que a “ciência está fragilizada” por isso. A grande maioria dos cientistas sequer notou o ocorrido e quando o hipe passar, tudo voltará ao normal, aparentemente. Meu medo é que esse evento coloca em evidencia questões muito mais estruturais da nossa academia, como o isolacionismo, a falta de interação com a sociedade, o analfabetismo científico da população e etc. E esses, eu acho, são problemas muito mais sérios.

      Você pode checar os outros posts da galera, agrupados aqui pelo Takata. Vai ver que a maioria das opiniões se alinha mais com o repúdio das ações. Não que eu esteja defendendo isso, claro.

  4. Alison Chaves disse:

    O Takata respondeu coerentemente às perguntas do texto. Quanto à razão pela qual não justificamos corretamente nossa pesquisa, me parece bem óbvio. O Fabio mostrou bem isso no começo da carreira fazendo tentando justificar o projeto de IC. No final das contas não são cientistas que decidem se você receberá um financiamento ou não, são políticos. Ou políticos cientistas. Na área biomédica, se seu projeto não promete uma patente ou tem potencial de gerar novos tratamentos dificilmente consegue financiamento de órgãos como a FAPESP. Essa pressão acaba fazendo com que todos tentem justificar projetos de pesquisa básica por um suposto pragmatismo. O projeto genoma humano é prova disso. A propaganda prometia tratamento e cura de quase tudo, o que todo pesquisador com bom senso sabia, antes de iniciar o projeto, que não era verdade. O problema é que ninguém aceita financiar a curiosidade! Pesquisadores são proibidos de falar a verdade sobre sua necessidade de conhecer a natureza, saber como ela funciona, porque as pessoas só se sentem bem se souberem que o dinheiro público (de seus impostos) está sendo aplicado na “cura do câncer.” Se trata de um problema bem maior que o da justificação responsável. É um problema político que envolve decidir entre financiar a pesquisa básica ou a aplicada.

  5. Luiz Bento disse:

    Tb tenho uma posição mais intermediária. Acho que o ativismo é muito importante, mas o evento específico da invasão foi precipitado. E os próprios ativistas que começaram o movimento em frente ao Instituto disseram isso. Falei um pouco sobre o assunto no meu post: http://scienceblogs.com.br/discutindoecologia/2013/10/beagles/

  6. […] resposta ao meu último post, algumas pessoas afirmaram que a aquisição de conhecimento básico não precisa ser justificado […]

  7. Nuno disse:

    Partilho aqui o link para um post sobre este caso, num blog em português (do outro lado do Atlântico) de autores com uma ligação profissional ao mundo animal.

    Animalogos

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