What does the [red panda] says?

Com a viralização da musica da dupla Ylvis “What does the fox say?”, o debate acadêmico de alto nível sobre qual é o barulho que certos animais fazem era inevitável.

Como foi apontado no hypercubic, a raposa regougara, um verbo inesperadamente específico, mas e outros animais? Leões e ursos rugem e grunhem, lobos e coiotes uivam… e o panda-vermelho?

Confesso que eu nem sabia que esse bicho fazia qualquer barulho, mas quando escutei, fiquei realmente impressionado:

Até achei que o arquivo estava errado, mas existem filmagens feitas e realmente pandas parecem… piar. Na verdade, o termo correto em inglês é “twittering” (sim, como em “twitter”) que pode ser traduzido para “chilrear” ou “gorjear”, ambos termos relacionados com pássaros.

Quando escutei isso lembrei de quando estudava no Museu de Zoologia da USP, no Ipiranga. Atrás do museu tem um pequeno parque que abriga (ou abrigava) um pequeno grupo de saguis, que eventualmente visitava minha janela nos fins de tarde. O curioso é que saguis (e outros macacos) fazem sons indistinguíveis dos sons de pássaros, o que me faz perguntar: visto que pandas-vermelhos, saguis e pássaros estão sob a influencia de ambientes similares (as copas de árvores; lembrando que pandas-vermelhos passam muito tempo em árvores), não seria a aparente similaridade consequência de algum tipo de adaptação para superar um obstáculo presente neste ambiente, como por exemplo, a dificuldade de visualizar outros membros da sua espécie?

Uma busca rápida no google.scholar mostra que o assunto já foi abordado, principalmente na questão de convergência entre aves e primatas, mas nada evidente sobre pandas-vermelhos.

Será que alguém anima e explorar a idéia? Pode ficar. Eu não cobro royalties.

Darwin, Vespas parasitóides e o problema do sofrimento natural

As religiões monoteístas são, discutivelmente, diversas em seus dogmas e crenças. Contudo, existam alguns aspéctos comuns a essa religiões, principalmente quando nos referimos ao ramo das religiões Abrâamicas, classicamente discriminadas entre judaísmo, cristianismo e islamismo, especificamente no que se refere à figura do deus único. Tal deus, via de regra, é descrito como um deus criador omnipresente, omnipotente e omnibenevolente, com interesse pessoal na vida dos indivíduos pertencentes à espécie humana. Porém, essa descrição tem levantado algumas sobrancelhas ao longo da história.

O paradoxo de Epícuro

Um problema óbvio com essa caracterização é que a existência de um deus que sabe de tudo e que pode tudo e que é o ser mais benevolente da existência parece em clara contradição com o a presença de sofrimento no mundo. Epícuro foi o primeiro a deixar essa objeção registrada no registro histórico da seguinte forma:

– [Deus], enquanto onisciente e onipotente, tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então não é onibenevolente.

– Enquanto omnipotente e onibenevolente, então tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então ele não é omnisciente.

– Enquanto omnisciente e omnibenevolente, então sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é omnipotente.

E essa é uma bela refutação para concepções mais ingênuas de deus, principalmente deuses monoteístas, que não tem outros deuses igualmente potentes com o quais competir. Essa idéia pode ser resumida de forma bem simples:

P1) Deus é definido como um ser omnipontente, omnipresente e omnibenevolente

P2) Existe sofrimento no universo

C) Deus não existe.

QED…?

 

Teodicidades e a Queda

The Fall of Adam and Eve, Hugo van der Goes 1470

“Tá tudo bem mor… aquela serpente com pernas disse que não vamos morrer se comer essa fruta, diferente do que o nosso Deus omnipotente, omnisciente e omnipresente disse….”

Para refutar esse argumento bem simples, a igreja católica (principalmente) desenvolveu uma área teológica especifica para lidar com o problema da existência do mal no mundo, e esses contra-argumentos são chamados teodicidades. A mais simples dessas teodicidades clama o livre-arbítrio como o salvador da benevolência divina, colocando que deus nos deu livre-arbítrio e com isso nós humanos escolhemos fazer coisas que trazem dor e sofrimento.

Ok, nessa altura você pode estar pensando “E terremotos, secas, vulcões? Nada disso é causado por humanos, então livre-arbítrio não explica esse tipo de sofrimento”. Fico feliz que você tenha convenientemente levantado esse ponto, interlocutor fictício, mas a gente tem que lembrar que o teísmo abraâmico prega (classicamente, ao menos) que nós humanos descendemos de um casal de adolescentes criados especialmente em um jardim que, ao comerem da arvore do conhecimento, condenaram toda a humanidade a um tipo de maldição hereditária que, de alguma forma, também amaldiçoou o resto do mundo, AKA “A Queda”.

Certo, ainda comigo?

Ok, então essa Queda resolveria tudo, pois todo o sofrimento viria após a Queda, resultado da aplicação do livre-arbítrio humano. Resolvido! Próximo argumento!

…bom, não tão rápido.

 

Como evolução arruina tudo

Hoje em dia sabemos que nada da narrativa do Genesis pode ser tomado como literal ou histórico, em grande parte devido aos achados da biologia evolutiva e áreas associadas. O registro fóssil mostra que humanos são recém chegados na história da vida da terra, que já foi rica em animais dos mais diversos tamanhos e formas, inclusive seres muito aparentados a nós, com cérebros de igualmente impressionantes. Além disso, biologia molecular nos mostra que os seres humanos nunca descenderam exclusivamente de dois indivíduos, o que impossibilita que qualquer maldição fosse geneticamente transferida a todos os membros atuais da nossa espécie.

Ou seja, durante grande parte da história da vida na terra tivemos animais sendo predados, sendo infectados, morrendo de fome e sede, muitas vezes em escalas mundiais em eventos possivelmente pontuais, que varreram grande parte de continentes ou mesmo do planeta inteiro, como o impacto que erradicou a maioria das linhagens de dinossauros.

Ou seja, o que quer que livre-arbítrio humano explique, ele explica uma quantidade muito pequena do que precisa ser explicado antes que aceitemos racionalmente o monoteísmo clássico. Mas o quanto é preciso explicar, exatamente?

Darwin e Vespas Parasitóides

Há alguma controvérsia sobre sobre se Darwin era de fato ateu ou não, mas não há dúvidas que, ao longo de sua vida adulta, ele abandonou o teísmo clássico criacionista tanto por motivos pessoais (a perda de sua filha) e por algumas considerações vagas sobre o sofrimento natural no mundo. Uma dessas considerações mais famosas diz respeito as vespas parasitóides.

“Eu não posso me convencer que um Deus benevolente e onipotente poderia ter criado um Ichneumonidae com a única intenção de suas larvas se alimentarem dos corpos de lagartas vivas, ou criado gatos para brincar com ratos”

Ichneumonidae são uma família de vespas parasitóides, que são animais que implantam ovos no interior de outras espécies que, ao eclodirem, levam a morte do hospedeiro, algo muito similar a o que acontece nos filmes do universo dos Aliens.

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-Viva! Sou biologicamente verossímil!

Porém, diferente do que ocorre em Aliens, nem todos hospedeiros tem a sorte de morrer imediatamente. Muitas larvas parasitoides consomem lentamente seus hospedeiros que são mantidos vivos e imobilizados durante todo o processo. O exemplo mais extremo é o caso da vespa-esmeralda Ampulex compressa. Essa vespa é tão especializada que usa seu veneno não apenas para matar ou imobilizar sua presa (uma barata), mas sim para modificar seu comportamento, transformando-a em uma espécie de “zumbi” complacente que é primeiro conduzido à toca da vespa e depois consumido, ao longo de semanas, pelas larvas recém nascidas.

Para piorar tudo, não estamos falando de uma, duas, ou um punhado de espécies que fazem isso. São aproximadamente dois milhões de diferentes espécies de parasitóides que, apenas em insetos, podem compor até 10% da diversidade conhecida para o grupo, incluindo não apenas vespas (hymenoptera), como também moscas (diptera) e também algumas espécies de besouros (coleoptera)!

Se focarmos apenas em vespas, estimativas recentes mostram que as famílias desse grupo se diversificaram inicialmente durante o Permiano:

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Clique aqui para a definição formal de “bagarai”

Ou seja, a no mínimo 250 milhões de anos presas de vespas sofrem desnecessariamente para que as espécies parasitóides consigam colocar uma nova geração no mundo. E afirmo que seu sofrimento é desnecessário não apenas porque um deus bondoso poderia magicamente fazer vespas que não necessitassem dos corpos alheios para a sobrevivencia de sua prole, mas porque essas possibilidades são reais e acontecem na maioria das espécies de vespas. Ou seja, não é biologicamente impossível fazer espécies de vespas não-parasitóides: elas existem. Mas por algum motivo um deus bondoso achou que seu plano perfeito só estaria completo com animais que parecem ter sido concebidos num pesadelo lovecrafteano.

Ou, sei lá… talvez Epícuro tivesse certo.

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