Lugar de tigre é no zoológico

Recentemente tivemos uma fatalidade. Um garoto, aparentemente estimulado por seu pai, ultrapassou a grade de segurança de um zoológico no município de Cascavel, no Paraná, e foi atacado por um tigre. A lesão resultou na amputação do braço direito do menino e, atualmente, o pai pode responder por lesão grave. Isso foi documentado por videos e fotos. Se você tiver estômago, acredito que consiga achar as imagens e vídeos por si só.

Como de costume, esse evento foi o suficiente para despertar os trolls da internet, que formaram dois grupos de opiniões: os primeiros eram favoráveis à eutanásia do animal, que obviamente seria perigoso para o contato humano; o segundo grupo clamava pela cabeça do pai, ao mesmo tempo que condenava o zoológico por manter um animal selvagem em cativeiro.

Não vou criticar longamente a primeira posição. Afinal, essas pessoas parecem acreditar que, assim como cachorros, um tigre seria um animal domesticado que deveria estar capacitado à andar entre pessoas, sendo assim a eutanásia justificada. A estupidez dessa posição me é evidente. Vamos a segunda posição.

Tigre: uma espécie ameaçada

Há cerca de um século, tínhamos aproximadamente 100.000 tigres selvagens no mundo. Hoje esse numero não passa de 3.200 espécimes, uma redução de mais de 97% da sua população nativa. As principais pressões em populações naturais são caça por pele, perda de habitat e  morte por vingança: devido a redução de seu habitat natural, tigres enfrentam escassez de alimentos, o que muitas vezes os força a atacar gado e outros animais domésticos. Isso, por sua vez força moradores locais a matar o predador para preservar seu rebanho, algo muito similar ao que ocorre com onças no brasil.

Parece horrível, e é. Mas o ponto é que tudo isso ocorre na natureza. Uma das grandes iluminações que qualquer movimento conservacionista deve ter é que tais pressões em populações naturais ocorrem, principalmente, por um motivo simples são também fortemente influenciadas por dois motivos simples: crescente população humana e desigualdade de renda. Não são apenas populações ricas que vivem em enclaves de matas, cortando ilegalmente madeira para plantar beterrabas e criar carneiros. Pois é… o Capitão Planeta estava errado.*

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– Vamos, crianças, vamos descer o cacete naqueles pobres. Pela natureza!

 

O meu ponto é: enquanto tivermos uma população crescente e desigualdade de renda brutal, teremos problemas ambientais, especificamente os do tipo que causam o declínio de populações de mamíferos de grande porte, como o tigre.

Agora, vamos ser honestos: quais as chances disso acontecer em um tempo viável para salvar populações naturais que às vezes tem menos de 200 animais na natureza? Pois é… foi o que eu pensei.

Conservação ex situ

Conservação ex situ é, resumidamente, a conservação de espécies biológicas fora de seu habitat natural (ex: fora, situ: sitio, local). Isso normalmente significa a conservação de animais em zoológicos, aquários e santuários e de plantas em jardins botânicos. Muitas vezes essas instituições tem programas específicos de manutenção de variação genética, por cruzamentos preferenciais, de forma a manter a viabilidade das espécies, mesmo em cativeiro. Isso é feito através da manutenção de registros minuciosos das relações de parentesco de animais em cativeiros ao nível global, que permite a realização de trocas e cruzamentos em cativeiro de maneira informada. Isso é necessário, pois na eventualidade de extinções locais, tais populações podem ser reestabelecidas a partir de estoques em cativeiro. Não é a melhor opção, não é a mais usada, mas é uma possibilidade.

Uma avaliação desses registros também demonstra um detalhe: a grande maioria dos animais em cativeiros nessas instituições não advém da natureza, mas sim de programas de cruzamentos que já estão em vigor ha décadas. Ou seja, com exceção de animais que estão inviabilizados de serem reintroduzidos por diversos motivos como doenças, injúrias ou pelo simples fato de não sabermos de onde eles vieram, de modelo geral, animais em cativeiro não poderia ser liberados sem um programa muito especifico e custoso de reintrodução. Eles não podem e nem devem ser liberados na natureza: além de despreparados para cuidar da própria subsistência, por estarem mais habituados à presença de humanos, eles podem se tornar um perigo real para populações locais, como já acontece nos Estados Unidos com ursos. Esses animais precisam ser abatidos, e tigres liberados na natureza de forma displicente também teriam que ser.

Defensores dos animais X prudência

Uma das coisas que mais me incomoda em alguns dos autoproclamados “defensores dos animais” é sua ausência completa de pragmatismo: testes em animais é errado, mas nenhuma alternativa racional é proposta (com ênfase no “racional”); zoológicos são antros de exploração animal e deveriam ser fechados, mesmo que os ambientes naturais estejam degradados, e que populações naturais quase com certeza estejam fadadas à extinção. Acho que o melhor exemplo disso foi o recente post de nossa “defensora dos animais” favorita, Luisa Mell:

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Eu não duvido por um momento que pessoas como a Luisa Mell agem por causa de sua empatia para com animais não-humanos, algo que considero louvável. Agora o que não é louvável é a utilização de desinformação para manipular os sentimentos das pessoas para fortalecer o seu próprio ponto de vista, no caso, anti-capitalista. De boas intenções, o inferno está cheio. E o que sobra em qualquer movimento social, incluindo no movimento de defesa dos animais, são boas intenções.

Não, Luisa, esses animais não foram retirado de seu meio-ambiente. Eles nasceram em cativeiro e sua presença em zoológicos e outros centros de conservação ex situ se torna cada vez mais necessário em um mundo de crescente degradação ambiental e desigualdade social. Zoológicos precisam de mais recursos para tratar bem de seus animais e a cobrança de ingressos é um jeito de faze-lo. Abusos e maus-tratos devem ser denunciados, mas isso não advoga contra zoológicos, mas em favor de uma administração correta e bem fiscalizada.

O mundo não é perfeito para humanos, para ursos polares ou para tigres. Lide com isso.

* Devido a criticas, modifiquei essa passagem, apesar de achar que não muda a mensagem central do texto. Para maiores informações e referencias, checar o comentário do Luiz Pires no facebook sobre o assunto.

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