Lugar de tigre é no zoológico

Recentemente tivemos uma fatalidade. Um garoto, aparentemente estimulado por seu pai, ultrapassou a grade de segurança de um zoológico no município de Cascavel, no Paraná, e foi atacado por um tigre. A lesão resultou na amputação do braço direito do menino e, atualmente, o pai pode responder por lesão grave. Isso foi documentado por videos e fotos. Se você tiver estômago, acredito que consiga achar as imagens e vídeos por si só.

Como de costume, esse evento foi o suficiente para despertar os trolls da internet, que formaram dois grupos de opiniões: os primeiros eram favoráveis à eutanásia do animal, que obviamente seria perigoso para o contato humano; o segundo grupo clamava pela cabeça do pai, ao mesmo tempo que condenava o zoológico por manter um animal selvagem em cativeiro.

Não vou criticar longamente a primeira posição. Afinal, essas pessoas parecem acreditar que, assim como cachorros, um tigre seria um animal domesticado que deveria estar capacitado à andar entre pessoas, sendo assim a eutanásia justificada. A estupidez dessa posição me é evidente. Vamos a segunda posição.

Tigre: uma espécie ameaçada

Há cerca de um século, tínhamos aproximadamente 100.000 tigres selvagens no mundo. Hoje esse numero não passa de 3.200 espécimes, uma redução de mais de 97% da sua população nativa. As principais pressões em populações naturais são caça por pele, perda de habitat e  morte por vingança: devido a redução de seu habitat natural, tigres enfrentam escassez de alimentos, o que muitas vezes os força a atacar gado e outros animais domésticos. Isso, por sua vez força moradores locais a matar o predador para preservar seu rebanho, algo muito similar ao que ocorre com onças no brasil.

Parece horrível, e é. Mas o ponto é que tudo isso ocorre na natureza. Uma das grandes iluminações que qualquer movimento conservacionista deve ter é que tais pressões em populações naturais ocorrem, principalmente, por um motivo simples são também fortemente influenciadas por dois motivos simples: crescente população humana e desigualdade de renda. Não são apenas populações ricas que vivem em enclaves de matas, cortando ilegalmente madeira para plantar beterrabas e criar carneiros. Pois é… o Capitão Planeta estava errado.*

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– Vamos, crianças, vamos descer o cacete naqueles pobres. Pela natureza!

 

O meu ponto é: enquanto tivermos uma população crescente e desigualdade de renda brutal, teremos problemas ambientais, especificamente os do tipo que causam o declínio de populações de mamíferos de grande porte, como o tigre.

Agora, vamos ser honestos: quais as chances disso acontecer em um tempo viável para salvar populações naturais que às vezes tem menos de 200 animais na natureza? Pois é… foi o que eu pensei.

Conservação ex situ

Conservação ex situ é, resumidamente, a conservação de espécies biológicas fora de seu habitat natural (ex: fora, situ: sitio, local). Isso normalmente significa a conservação de animais em zoológicos, aquários e santuários e de plantas em jardins botânicos. Muitas vezes essas instituições tem programas específicos de manutenção de variação genética, por cruzamentos preferenciais, de forma a manter a viabilidade das espécies, mesmo em cativeiro. Isso é feito através da manutenção de registros minuciosos das relações de parentesco de animais em cativeiros ao nível global, que permite a realização de trocas e cruzamentos em cativeiro de maneira informada. Isso é necessário, pois na eventualidade de extinções locais, tais populações podem ser reestabelecidas a partir de estoques em cativeiro. Não é a melhor opção, não é a mais usada, mas é uma possibilidade.

Uma avaliação desses registros também demonstra um detalhe: a grande maioria dos animais em cativeiros nessas instituições não advém da natureza, mas sim de programas de cruzamentos que já estão em vigor ha décadas. Ou seja, com exceção de animais que estão inviabilizados de serem reintroduzidos por diversos motivos como doenças, injúrias ou pelo simples fato de não sabermos de onde eles vieram, de modelo geral, animais em cativeiro não poderia ser liberados sem um programa muito especifico e custoso de reintrodução. Eles não podem e nem devem ser liberados na natureza: além de despreparados para cuidar da própria subsistência, por estarem mais habituados à presença de humanos, eles podem se tornar um perigo real para populações locais, como já acontece nos Estados Unidos com ursos. Esses animais precisam ser abatidos, e tigres liberados na natureza de forma displicente também teriam que ser.

Defensores dos animais X prudência

Uma das coisas que mais me incomoda em alguns dos autoproclamados “defensores dos animais” é sua ausência completa de pragmatismo: testes em animais é errado, mas nenhuma alternativa racional é proposta (com ênfase no “racional”); zoológicos são antros de exploração animal e deveriam ser fechados, mesmo que os ambientes naturais estejam degradados, e que populações naturais quase com certeza estejam fadadas à extinção. Acho que o melhor exemplo disso foi o recente post de nossa “defensora dos animais” favorita, Luisa Mell:

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Eu não duvido por um momento que pessoas como a Luisa Mell agem por causa de sua empatia para com animais não-humanos, algo que considero louvável. Agora o que não é louvável é a utilização de desinformação para manipular os sentimentos das pessoas para fortalecer o seu próprio ponto de vista, no caso, anti-capitalista. De boas intenções, o inferno está cheio. E o que sobra em qualquer movimento social, incluindo no movimento de defesa dos animais, são boas intenções.

Não, Luisa, esses animais não foram retirado de seu meio-ambiente. Eles nasceram em cativeiro e sua presença em zoológicos e outros centros de conservação ex situ se torna cada vez mais necessário em um mundo de crescente degradação ambiental e desigualdade social. Zoológicos precisam de mais recursos para tratar bem de seus animais e a cobrança de ingressos é um jeito de faze-lo. Abusos e maus-tratos devem ser denunciados, mas isso não advoga contra zoológicos, mas em favor de uma administração correta e bem fiscalizada.

O mundo não é perfeito para humanos, para ursos polares ou para tigres. Lide com isso.

* Devido a criticas, modifiquei essa passagem, apesar de achar que não muda a mensagem central do texto. Para maiores informações e referencias, checar o comentário do Luiz Pires no facebook sobre o assunto.

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Discussão - 28 comentários

  1. Guilherme Atencio disse:

    Esse texto foi um tapa na minha cara.
    Eu sou biólogo e pensei “nem devia ter zoológico” quando fiquei sabendo do ocorrido com o menino e o tigre. Obrigado por me mostrar que eu devia rever minhas posições sobre algumas coisas.

    • Jorge Oliveira disse:

      Não se deixem convencer ! ZOOLÓGICO É PRISÃO de seres selvagens que, mesmo “domesticados” (familiarizados com o desconforto), certamente sofrem como vc sofreria, se confinado numa casa. O ponto de vista puramente científico, de preservação às custas de qqr dor, é cruel e desumano. Preservação em todos os sentidos – inclusive a sensação de liberdade – em amplas reservas, certamente é o melhor método.

  2. Olá Fábio Machado! O seu texto é bem interessante porque pelo menos argumenta logicamente sobre a importância dos zoos. Apesar disso, eu não concordo com ele em partes. Eu também sou bióloga e sempre estive a par do argumento de uso conservacionista em zoos e se esta fosse realmente a intenção primordial da maioria dos zoos, não haveria problema, pois você tem razão sobre os problemas ambientais e risco de extinção. Quando a Luíza Mel fala de santuários, ao invés de zoos, ela está mais se referindo às diferenças de política e gestão que os zoológicos têm, em relação aos santuários. Acho, aliás, que a ideia seria transformar os zoológicos em santuários mudando o ideário do local e não o espaço físico propriamente dito. O problema atual é que os zoológicos ainda apresentam uma visão de animais como vitrine e objetos (o exemplo argentino é clássico). Quer cobrar ingresso? Cobre entrada para participar de um dia de educação ambiental monitorada e não por um dia olhando animais em jaulas. Este é o ponto! Se as crianças são o futuro do planeta e as pessoas argumentam que zoos servem para conservar, então que eles eduquem as crianças a conservar e entender os ciclos naturais e não reiterar a ideia de animais como objeto. Bem, sobre o pragmatismo, acho que sempre existirão ideias mais custosas e talvez reformar o ideário de um zoo o seja, mas até aí sempre será muito mais barato (a curto prazo) manter o status quo do que reformá-lo, mas nós precisamos reformar o mundo, afinal pelo seu texto, você deve saber que a destruição ambiental está ficando feia..
    Por fim, outro ponto não colocado em questão: você disse que criar zoos é mais barato do que criar áreas de conservação, mas um zoo pode ser aparentemente efetivo no caso de grandes mamíferos, mas eu não acho que é possível colocar artrópodes, anelídeos e mesmo anfíbios e outros em zoos (não todas as espécies). Ou seja, uma hora ou outra, a população vai ter que pressionar por áreas de conservação, pois os zoos não são de fato efetivos. Aliás, um animal não está dissociado de seu meio. Não adianta conservar um tigre de Sumatra e depredar toda a floresta em que ele vive. Para quê conservar então? Para transformar a espécie em um objeto de museu?
    Sobre o desmatamento, as populações pobres têm sim uma responsabilidade, mas o maior fator de desmatamento atual na Amazônia, por exemplo, é a soja, produzida principalmente com fins de alimentação animal. O tigre, no caso, está sendo extinto porque as florestas do Sudoeste Asiático estão sendo depredadas, mas não porque a população está aumentando, mas porque as florestas estão dando lugar a monoculturas de óleo de palma. Ou seja, mais do que desigualdade, temos um problema de consumismo das populações que vivem principalmente em cidades e que possuem recursos.
    Só um adendo (último, prometo), o mundo não é perfeito para humanos e nem animais (e outros reinos, por que não), mas não acho que devemos lidar com isso, mas tentar mudar isso. Eu achei que você tentou depreciar o movimento de direitos dos animais alegando a ingenuidade destas pessoas. Não nego que muitas sejam assim, mas não são todoxs! Existem muitos estudiosos neste ramo e mesmo sobre a questão da vivissecção, existem sim técnicas que substituem alguns testes (não todos), ma o ponto central desta discussão é filosófico e não técnico (isto foge do seu texto, então fico por aqui).
    Bem, até mais e valeu pela discussão.

    • Fabio Machado disse:

      Oi Camila,

      Concordo que existem caminhos para melhorar e transformar zoológicos em algo muito mais útil e adequado para conservação e bem estar animal, mas permita-me corrigir um detalhe: eu não disse que zoológicos são mais baratos que fazer áreas de conservação. Eles provavelmente são, mas o ponto não é esse. O ponto é que em um tempo muito pequeno, provavelmente não teremos mais populações nativas de animais de grande porte e que talvez tenhamos que pensar em re-introdução.

      Sobre a questão de desmatamento, leia um dos links que coloquei. Não quis dizer que a culpa são exclusivamente de pobres. O fato é que, se tomarmos mundialmente, lavoura de subsistência são o maior motivo de desmatamento. Grandes empresas tem seu impacto, obviamente

    • Jorge Oliveira disse:

      Concordo plenamente com Camila. Acho que o que o autor, que é biólogo, precisa reconhecer mais os direitos dos animais e trabalhar para que o respeito à qualidade de VIDA dos mesmos seja mais difundido.

    • Aline disse:

      Camila, gostei muito do seu comentário, você se esforçou em articular bem seus pontos, ao contrário de muita gente que apenas manda xingamentos sem base etc…

      Bom, em resposta ao seu primeiro ponto, eu acredito que zoológicos tem um papel importante na sociedade não apenas por seus programas de conservação e pesquisa, mas por causa de seus programas educacionais. Sim, eu acho que a concepção atual de zoológicos precisa mudar (e está mudando! já existem vários “zoológicos” bem diferentes hoje em dia), mas ainda acho que eles tem um papel fundamental! Como você mesma falou, precisamos educar as crianças para a conservação.
      Seu segundo ponto: O Fabio já respondeu embaixo, mas só para acrescentar, zoológicos não substituem de maneira nenhuma áreas de conservação! Mas são uma ferramenta A MAIS para ser usada nesse sentido.
      Sobre o desmatamento, não acho que a “culpa” do desmatamento é de populações pobres. A culpa é da desigualdade de renda e do número assustador de pessoas sobre a terra, simplesmente…
      E sobre seu último ponto: sim, temos que tentar mudar a mentalidade das pessoas, principalmente informando-as. E, pela minha experiência, boa parte dos movimentos que se dizem pelo direito dos animais, sofre muito com falta de informação. Sou a favor do bem estar animal, obviamente, mas infelizmente muitos desses movimentos (não digo todos, claro, até porque não conheço todos) precisam ser repensados em alguns aspectos.

  3. Luiz Bento disse:

    Ótimo texto Fábio. Indicarei a todos os colegas biólogos que acham que zoológico não tem que existir.

  4. Mary disse:

    Pequeno acréscimo: o zoológico onde aconteceu o incidente nem cobra entrada.

  5. Claudia disse:

    Não sei se essa minha dúvida faz sentido, mas existe justificativa biologica para termos exemplares de animais extintos em cativeiro? Não pergunto só por tigres, mas pandas e outros animais q praticamente só existem para compensarmos nossa culpa por termos dado aquela mãozinha para a extinção. É importante termos esses animais “preservados” ou é só culpa mesmo?

    • Erika disse:

      Claudia, solidarizo-me com seus questionamentos. É exatamente isso que senti quando li este texto, cujo título “Lugar de tigre é no zoológico” completamente descabido.

    • Fabio Machado disse:

      Acho que é importante pois em muitos casos a reintrodução pode ajudar a reestruturar comunidades que sem, por exemplo, um predador de topo teriam grandes impactos na diversidade local.

      Claro que as comunidades iriam se reestruturar de outra forma, mas isso vai mais no sentido da lógica geral da conservação: vale a pena preservar, ou apostar na capacidade autoregulatória da vida na terra?

      Afinal, vai lá saber se o novo estado de equilíbrio inclui humanos ou não…

  6. Sibele disse:

    Fábio, mas há necessidade de conservação ex situ em zoos em tudo quanto é cidade? Qual a necessidade de “preservar” animais externos à fauna brasileira (um tigre é brasileiro?) em zoológicos de cidades do interior como Cascavel, no PR? Acho que nesses casos a existência de um zôo está muito pouco ligada à preocupação com a preservação do animal.

    E quanto aos cuidados de manutenção de variação genética, “por cruzamentos preferenciais, de forma a manter a viabilidade das espécies, mesmo em cativeiro”, às vezes tanta racionalidade produz absurdos como o sacrifício da girafa Marius por um zoo da Dinamarca (http://www.theguardian.com/world/2014/mar/25/danish-copenhagen-zoo-kills-four-lions-marius-giraffe) – depois esse mesmo zôo ainda sacrifica 4 (QUATRO!) leões saudáveis. E aí?

    • Fabio Machado disse:

      É uma boa dúvida, Sibele. Minha opinião é que talvez zoológicos fossem melhores se voltados para a fauna nativa, e baseio isso quase completamente na minha angustia de ter passado por mais de 10 zoológicos nos últimos anos e não ter visto um urso-polar que parecia saudável.

      Mas, se pensarmos em tigres, por exemplo, é possível que zoológicos tenham aproximadamente 15% de toda a população desses animais, sendo que 50% está na mão de particulares e o resto é selvagem. Limitar o numero de zoológicos com esses animais quase significa limitar o numero de animais, pois é dificil para um zoo manejar mais de um espécime adulto. Será que podemos fazer isso? Talvez sim, talvez não.

      Quanto a girafa, não me lembro ao certo, mas recordo que ela foi morta e dada aos leões. Ou seja, não muito diferente do que aconteceria com ela na natureza. Visto que ela não tinha nenhum valor intrínseco para conservação, qual a diferença disso para matar uma vaca (ou mais) para dar de comer aos leões?

      • Jorge Oliveira disse:

        A diferença é que somos “inteligentes” e matar ou levar a morte um indivíduo selvagem não deveria ser de nossa natureza. É preciso resistir à insensibilidade e ser responsável por preservar a saúde física e mental, além da qualidade das vidas que ameaçamos.

      • Sibele disse:

        Considerando todas as suas justificativas para a existência de zôos, creio que o ideal seria mesmo que fossem voltados à fauna nativa, até pela questão de adaptação ao clima, por exemplo (veja o caso do urso polar citado por vc). Manter em zôos animais completamente estranhos à nossa fauna parece ter um mote meramente exibicionista, distante da preocupação com sua conservação.

        Ademais, insisto na questão de toda cidade querer ter seu zoológico. É mesmo necessário? Vejamos o caso do tigre. Vc indicou que haja hoje cerca de 3.200 espécimes no mundo todo, numa redução de mais de 97% de sua população nativa. Se, conforme sua estimativa, 50% disso está na mão de particulares (e nossa! É isso mesmo? Fiquei surpresa pois achei muito!), 15% nos zôos e o resto na natureza, então só as cidades de médio a grande porte do Brasil (mais de 100.000 habitantes – cerca de 225 municípios, segundo o IBGE 2013) já abrigariam metade desses 15%, se cada uma delas tivesse um zôo. Isso só no Brasil, desconsiderando outros locais do mundo que talvez fossem mais próximos (em clima e outras condições) ao habitat nativo desses bichos.

        E voltando ao Marius, a girafa. De fato, ela foi morta e dada aos leões, e não seria mesmo muito diferente do que aconteceria com ela se estivesse na natureza. A questão é o animal não ter “nenhum valor intrínseco para conservação”. Então isso justifica sacrificá-lo? Não seria mais ético removê-lo para um outro zôo, fora do círculo de zôos europeus onde já está garantida sua variabilidade genética? Não entendo e não me conformo com essa lógica – lembra algo como a odiosa eugenia.

        Enfim, Fábio. É mesmo uma questão polêmica. 🙂

  7. Meyer disse:

    Seu texto é interessante e esclaresce muitos aspectos sobre a importância da conservação ex situ. Pena que em sua conclusão vc deixa no ar (talvez sem intenção) uma generalização de que zoológicos são, por si só, centros de conservação. Isso definitavamente não é verdade, nem aqui e nem na maioria do mundo. Raros são os zoos que investem em educação ambiental, desenvolvem programas de conservação e, consequentemente, jusitficam sua existência. No geral, o que se vê são locais sem a menor estrutura de confinamento aos animais, ausência de estratégias de enriquecimento ambiental, falta de programas de educação e muito, muito sofrimento aos animais. Concordo que o mundo não é perfeito para nós nem para eles, mas para mim, “lidar com isso” implica em tentar reverter a situação de alguma forma, e não simplesmente aceitá-la como inevitável.

    • Fabio Machado disse:

      Concordo. O ponto é que há uma possibilidade de melhorar e reformar os diversos zoológicos para que se adeguem a um modelo conservacionista.

      Essa vontade de mandar fechar tudo e jogar animais na natureza, que muitos acreditam ser a solução, é irreal. E lidar com nossas populações em cativeiro implica em um esforço muito especifico nessa linha.

  8. Victor Caparica disse:

    Ótimo texto, muito esclarecedor, mas preciso divergir em apenas dois pontos dele:

    1. Cobrar ingressos para que as pessoas possam ir lá olhar para os bichos como se fossem obras em exposição é de fato uma maneira de sustentar o trabalho dos zoológicos, trabalho este que você me convenceu que é importante. Mas é a única maneira? Ou a melhor maneira? Porque posso estar sendo sensível demais à questão, mas não acho que seja uma solução agradável para os bichos, mas para as pessoas.

    2. Sim, é necessário então intervir, preservar essas espécies, mas também creio ser importante não deixar que o modo como isso é feito esteja submetido primeiro ao interesse humano e no que for possível ao bem-estar desses animais não-humanos. Porque o que eu pessoalmente sou contra não é a palavra zoológico mas sim a forma como ela é materializada nas instituições que a usam. Em outras palavras, a forma como grande parte (e não vou usar “maior parte” porque não tenho dados à mão para citar) dos zoológicos de hoje existe precisa mudar, e se os zoológicos que os defensores dessa instituição como ponto turístico gostam de citar como exemplo de excelência se tornarem de fato um padrão e não uma dúzia de exemplos para provar um ponto, aí eu mudarei minha opinião sobre a preservação dos zoológicos.

    Resumindo os dois pontos: Não é ser contra zoológicos, é ser contra os nossos zoológicos. E usar os exemplares como defesa da prática não ajuda muito a vida dos bichos que não estão lá.

    Mas ótimo texto, realmente esclareceu muito sobre essa função que eu também não conhecia. Parabéns pelo blog.

    • Fabio Machado disse:

      Existem maneiras diferentes, mas nem todas irão agradar a todos. Por exemplo, propriedades privadas de caça legal tem populações saudáveis de animais que interagem ecologicamente. Seria melhor então cobrar de pessoas pelo direito de matar esses animais? Do ponto de vista ecológico, talvez sim.

      Eu não acho que os animais em *todos* os zoológicos sofrem. Já vi muito animal em recinto adequado, espaçoso, bem entretido, motivado e estimulado. Nesse caso, porque não cobrar entradas, se isso for ajudar a financiar exatamente essa condição? Claro, abusos podem existir, mas se basearmos nossas decisões nos abusos, não teríamos governos, carros ou cerveja.

      Concordo que muitos zoológicos são desestruturados, mas já fui em zoológicos o suficiente para ver que o modelo não apenas pode dar certo, mas como ele pode dar certo.

      Penso que o caminho é mais para o progresso e não para o niilismo.

  9. Carolina Taqueda disse:

    Pô, maninho… “O fato é que, se tomarmos mundialmente, lavoura de subsistência são o maior motivo de desmatamento.” ?

    Acho uma afirmação muito forte, até porque (pelo menos onde parei minha leitura a respeito) isso está longe de ser um consenso.
    Artigos e autores variados defendem uma e outra visão, e alguns, aqueles nos quais eu mais tendo a crer, ponderam que as desmatamento (principalmente de matas tropicais) são variadas, imbricadas e complexas demais para serem completamente compreendidas….
    De cara, diria que não concordo com essa visão….

    • Fabio Machado disse:

      Modifiquei o texto para abrandar esse ponto. Mesmo que não seja *o principal* motivo, me parece ser claro que é um motivo relevante, e é tudo que preciso para fazer o ponto.

      • Carolina Taqueda disse:

        É um motivo relevante sim. Mas temos que levar em conta dois pontos principais:
        1) Esse tipo de agricultura (subsistência) é, pelo menos nos últimos 60 anos, praticada principalmente em regiões que, num passado antigo e recente, não eram/são de interesse do economia e da política local ou regional, ou até no nível global (pensando em países tropicais pobres). Ou seja, eram/são áreas marginalizadas/esquecidas e que, não por acaso (ou, só por isso), guardam os maiores remanescentes de florestas preservadas. Nelas, talvez seja a agricultura de subsistência (principalmente a de corte e queima) que altere mais a paisagem local. Mas aí há um tendenciamento importante na análise: foca-se apenas nessas áreas e esquece-se de todas as outras onde já estão estabelecidas grandes plantações, grandes centros urbanos, etc etc há séculos e séculos. Muitos dos artigos que defendem essa visão justamente levam em consideração o que permaneceu. O que veio antes é esquecido. E de novo, entramos na querela dos ecologicamente coxinhas: ocupar manancial é um absurdo! Mas desmatar para fazer o Alphaville: ok.
        2) A agricultura de subsistência, principalmente a de corte e queima (itinerante) tem uma dinâmica de derrubada, queima e pousio que, tradicionalmente, nem de longe causa o impacto de uma plantação agroindustrial. Existem teses sólidas que defendem, inclusive, que todas as nossas matas tropicais (brasileiras) foram derrubadas, queimadas e deixadas em descanso pelos índios que habitaram pindorama (combinando-se com cultivares remanescentes das lavouras de subsistência – o que aumentou/aumentaria a diversidade de plantas ao longo da recuperação desse trecho de mata em pousio). A biodiversidade que temos deveu-se, portanto, também a essa dinâmica. Agora, obviamente não vivemos mais na época dos índios, e a agricultura itinerante, nas mais diversas regiões do mundo, está perdendo suas características originais. Seja por pressão populacional, seja por desigualdade social, por pressões diversas da modernidade, por mudanças nas politicas econômicas locais e regionais, enfim. Você tocou nesse ponto em seu texto, e com isso eu concordo.

        A desigualdade social é sim fonte importante de impacto negativo no ambiente em diversos âmbitos, mas acho que essa relação tem de ser feita de forma cuidadosa.

        Mas, tirando esse porém, seus textos sempre vão além das certezas estúpidas, fazem pensar, e, quando não concordo 100%, não baixa mais que 90! Da hora o texto Lugar, valeu a leitura.

  10. Carolina Taqueda disse:

    errata *ponderam que as causas do

  11. Claudia disse:

    mas ó, eu nao achei q a minha pergunta foi respondida. preservar animais extintos em cativeiro pode ser interessante para reintroduzi-los ao seu habitat natural, mas sempre tem habitat natural seguro, para humanos e animais, suficiente para reintroduzi-los? Tenho na minha mente q tigres nem tem mais lugar para ser reintroduzido já que a área q ele necessita para viver deve ser enorme e nem existem mais essas área enormes preservadas para garantirmos que um tigre seja reintroduzido e não irá dentro de alguns anos sair atacando cidades. Estou errada?
    Minha questão é se zoologicos existem para a inserção dos animais ao seu habitar natural eu acho ok, mas no caso do zoologico em cascavel isso nunca aconteceria, certo? qual a real utilidade desse servico? Aproximar as pessoas desses animais para sensibiliza-las sobre como a humanidade falhou ao deixar essa especie ser extinta?

    • Fabio Machado disse:

      Agora acho que entendi sua pergunta.

      Digamos que, hipoteticamente tenhamos um animal que tem sua reintrodução totalmente inviabilizada. Nesse caso vale a pena preservar ex situ? Minha resposta é sim, por um motivo bem simples: essa é a única forma de preserva-los.

      Eu antecipo duas objeções à essa perspectivas: a primeira se baseia numa falácia naturalista (“mas isso não é o jeito das coisas serem”), e a outra se baseia na ideia que animais em cativeiro vivem vidas menores e menos realizadas e, principalmente, mais sofridas, de forma a não tornar sua sobrevivência justificada. Eu acredito que essa ultima não é uma necessidade, apesar de poder ser uma realidade em alguns casos.

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