Deus é o ovo

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Cientificismo, segundo o filosofo Tom Sorell, é a “demasiada valorização da capacidades da ciência natural em comparação com outros ramos do aprendizado ou cultura”. Em outra palavras, é o uso inapropriado da ciência e das teorias científicas para explicar fenômenos que normalmente não são da alçada de uma área de conhecimento específica.

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“Hey, bob. Que tal a gente elaborar um construto social elaborado, com relações complexas com mitos de nossa cultura para que a gente possa, eventualmente, comer um bifão?”

Stephen Jay Gould deu um exemplo disso em seu artigo sobre o “adaptacionismo” nas ciências biológicas, que é a tentativa de explicar todo e qualquer fenômeno nos organismos vivos como sendo produto de seleção natural. Em seu artigo co-autorado por Richard Lewontin entitulado “The Spandrels of San Marco and the Panglossian Paradigm: A Critique of the Adaptationist Programme” de 1979, Gould exemplifica a questão quando critica a sugestão de E. O. Wilson, pai da sociobiologia, de que o consumo de carne humana (canibalismo) em culturas astecas poderia ser um reflexo de uma falta crônica de proteína animal, ignorando toda uma literatura antropológica avaliando o significado e as possíveis causas culturais de tal fenômeno.

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O que acontece com um paleontólogo ao escutar que dinossauros são uma construção social.

 

Usualmente a acusação de “cientifismo” é aplicado ao uso de ciencias naturais (química, física, biologia, geologia, etc) em outras áreas, usualmente humanas. Mas não há nenhum motivo para que o emprego do termo seja assimétrico: muito do chamado “pós-modernimo” é o emprego de técnicas e conceitos provenientes das humanidades, principalmente crítica literária, em outras ciências. Nesses casos a validade de uma teoria científica deixa de ser avaliada de acordo com sua adequação às evidências empíricas (marca fundamental das ciências) e passa a ser avaliado quanto a sua adequação à ideologias e processos sociais. A validade da evolução deixa de ser seu escopo explicativo, mas um julgamento da cultura que permitiu o surgimento dessa teoria (européia, renascentista, branca e machista), e o significado dessa ideia para a sociedade.

Acusações de cientificismo também são comumente usadas por alguns religiosos e teólogos ao acusar cientistas de tentar “opinar” em assuntos religiosos do ponto de vista científico. Por exemplo, Victor Stenger, no seu livro “The Fallacy of Fine-tunning” afirma que

“(…) as observações da ciência e dos nossos sentidos não apenas mostram a ausência de evidencias para [a existência] de Deus mas também dão evidencias para além da qualquer dúvida razoável de que um Deus que tem um papel tão importante e cotidiano no universo como o Deus Judaico-Cristão-Islamico não existe”

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“Meus super-sentidos não detectam a presença de nenhuma entidade omnipontente, omniciente e omnibenevolente no universo. Parece que sou a única divindade solar por aqui mesmo…”

Segundo alguns religiosos, usar a ciência para analisar afirmações sobre o supernatural e o divino são exemplos de cientificismo, visto que é a utilização da ciência (natural, normalmente) em uma área na qual ela não se adequa, que seria a teologia.

Visto que a acusação de cientificismo é tão rotineiramente utilizada por intelectuais religiosos para defender sua fé de intelectuais ateus, me soa particularmente irônica a utilização de achados científicos como base para afirmações de fé. Um exemplo claro disso é no chamado “Argumento Cosmológico para a Existência de Deus”. O argumento tem a seguinte forma:

  • [P1]- Tudo que que começa a existir tem uma causa
  • [P2]- O universo começou a existir
  • [C]- o universo tem uma causa (que é Deus, por sinal)

A validade da conclusão depende da validade das premissas, e o que é usualmente utilizado para corroborar a segunda premissa, é a teoria do Big-Bang, que afirma que o universo visível atual teve uma origem em um ponto específico de nosso passado, aproximadamente a 15 bilhões de anos atrás.

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Bom, acho que isso explica o período inicial de inflação cósmica…

 

Obviamente eu não estou sugerindo que teólogos não deveriam se basear em ciência e fatos conhecidos para tirar suas conclusões sobre o universo. Porém essa empreitada é fútil quando todos os argumentos baseados em ciência são necessariamente provisórios e tentativos, o que está em claro desacordo com a necessidade do teólogo de se comprometer com uma conclusão específica.

Robert M. Price brilhantemente exemplificou essa questão durante durante um debate com o filosofo e apologeta cristão William Lane Craig sobre a existência da figura histórica de Jesus Cristo:

Historiadores críticos não estão engajando em epistemologia metafísica como se eles pudessem saltar em uma máquina do tempo e pontificar “‘A’ não aconteceu, ‘B’ sim!”. De novo, Craig e seus irmãos estão apenas projetando. São eles, e não os historiadores críticos que querem poder apontar para resultados absolutos. Imagine um credo “Se tu confessar da tua própria boca ao Senhor Jesus e acreditar em seu coração que Deus provavelmente ressuscitou-o dos mortos, tu provavelmente serás salvo”. Na cara de quem está a piada aqui?

No caso do Big Bang e do argumento cosmológico, a piada é mais óbvia ainda. Quando em 1951 o papa Pio XVII quis alardear que o Big Bang era comprovação de que o catolicismo era verdade (justamente pelo Argumento Cosmológico), Georges Lemaître, o primeiro proponente desse modelo cosmologico e padre o impediu, afirmando que sua teoria era neutra a respeito da existência de Deus. E ele obviamente deveria ter que fazer isso. Caso o contrário, se Deus fosse uma conclusão com base em um modelo científico, se tal modelo cai, Deus cai também. E visto que Lemaître (assim como qualquer outro católico e cristão no mundo) provavelmente não estava preparado para abandonar a crença em um Deus apenas pela refutação de uma teoria científica, ele argumentou contra a associação de ambos. Defensores do Design Inteligente e criacionistas não tem essa clareza: uma vez que suas hipóteses foram refutadas (e todas elas foram), tudo o que lhes resta é negar a ciência. É o cientificismo levando ao anti-intelectualismo.

Mas caso nada disso tenha ficado claro, aqui vai um exemplo mais simples: sabe aquela história de que em uma semana os médicos e pesquisadores afirmam que ovo faz mal, e em outra eles afirmam que ele faz bem, nunca chegando a um consenso, se contradizendo e refutando um ao outro recorrentemente?

Imagina que Deus é o ovo.

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Discussão - 7 comentários

  1. Eu diria que não é exatamente deus que é o ovo, mas a *concepção* de deus que é o *status sanitário* do ovo.

    Escrevi em um “e-book”:
    “É a hipótese da existência de leis naturais que torna possível todo o processo posterior de estudo do mundo sob o ponto de vista cientifico. (Existem outras visões complementares, como a de que o mundo é inteligível, que ele não é autocontraditório, etc.)

    Mas quando uma previsão falha, isto é, uma teoria falha no teste de hipótese, não dizemos: ‘isso prova que a lei não existe’. E sim: ‘isso faz com que tenhamos que reformular a lei’. E tocamos o barco. (E não imaginaremos que a lei mudou entre um teste e outro, e sim que a formulação anterior deveria estar errada: a lei era a mesma desde sempre, apenas não a compreendíamos bem antes.) Já houve casos em que dados consistentes não poderiam ser explicados por nenhum processo natural conhecido. O que fizeram? Criaram uma nova lei. As forças que mantêm os núcleons unidos no interior do átomo não poderiam ser explicadas em termos das então conhecidas forças gravitacional e eletromagnética – inventaram a força nuclear forte. (A invenção em si não traz nenhum problema, é uma solução perfeitamente aceitável, apenas é preciso que se possa testar essa hipótese.)

    Por outro lado, uma das alternativas é assumir que o mundo se ordena a partir de uma entidade metafísica que, na falta de um nome melhor, podemos chamar de deus. E essa a ideia da existência de uma divindade? Ela poderia ser a substituta da ideia da existência de leis naturais? No meu entender, sim. O custo seria que não teremos como sustentar uma visão eterna de um deus – teríamos que estar dispostos a reformular constantemente a ideia que fazemos a respeito dela – do mesmo modo como fazemos com as leis naturais. Provavelmente um religioso do tipo mais comum teria certa dificuldade em operar desse modo, mas é uma alternativa, tanto quanto podemos perceber, viável de se encarar o mundo.”
    https://docs.google.com/file/d/0B53350WTR-znZDM3Mjk1ZWItNzA3Yy00MDRlLTllZTYtZWIyMTcwMWQ3MzA4
    —————-

    []s,

    Roberto Takata

    • Fabio Machado disse:

      Eu acho que uma resposta teológica padrão sobre isso seria recorrer a ideia de que o reconhecimento de leis é diferente da existência das leis, e seriam essas ultimas que seriam a expressão das características divinas.

      Mesmo que nosso entendimento mude, as características divinas não mudam: seria como dizer que a terra mudou de forma a partir do momento que desenvolvemos a ideia de que ela é redonda, ou ovoide, ou um geoide, etc. É a diferança entre a ontologia dessas leis naturais e a epistemologia delas.

      Acho essa discussão até interessante, porém não é exatamente do que eu estou falando. Se estamos falando de teístas não-negacionistas, ótimo, a discussão é outra e mais profunda.. Agora o ponto é o mais fácil e simples: são proponentes de teorias refutaveis e refutadas.

  2. Nyororson Cruz disse:

    Segundo o Dr. Frank J.Tipler em seu livro, FÍSICA DO CRISTIANISMO (A), ele explica e “prova”muito bem quem é Deus, suas demonstrações são feitas usando as leis da física e da matematica, ou seja, tem que ter noção de matemática básica. Frank afirma que o Deus Judaico-Cristão é a singularidade cosmológica que rege o universo.

    • Fabio Machado disse:

      Ele pode muito bem dizer isso, mas isso coloca ele em campo pantanoso do ponto de vista científico, assim como teológico.

      Do ponto de vista científico é trivial: Deus se torna falseavel e, visto que existem modelos que refutam o modelo cosmológico atual, ele pode muito bem a ser falseado.

      Do ponto de vista teológico é pior ainda: é possivel conceber um universo sem uma singularidade inicial e inclusive muitos modelos cosmológicos o fazem. Então, se é possivel conceber universos possíveis sem singularidade (ou seja, se um universo sem uma singularidade não é ilógico), isso demonstra que Deus (singularidade) não é necessário. Se ele não é necessário, ele é contingente, logo não pode ser Deus.

  3. Nyororson Cruz disse:

    Segundo Dostoiévski , não existe uma sociedade moral sem as concepções morais dos Deus Judaico-Cristão, no que tangencia essa pespectiva Dostoiévski ralata:

    “[…] é permitido a todo indivíduo que tenha consciência da verdade regularizar sua vida como bem entender, de acordo com os novos princípios. Neste sentido, tudo é permitido […] Como Deus e a imortalidade não existem, é permitido ao homem novo tornar-se um homem-deus, seja ele o único no mundo a viver assim.” – F. Dostoiévski – O diálogo com o demônio (in Irmãos Karamazov, 1879)

    Isto é, sem Deus o homem vive com quizer, sem leis morais que o conduza.

    Contudo, Ivan Fiodorovitch Karamazov declarou em tom solene que em toda a face da terra não existe absolutamente nada que obrigue os homens a amarem seus semelhantes, que essa lei da natureza, que reza que o homem ame a humanidade, não existe em absoluto e que, se até hoje existiu o amor na Terra, este não se deveu a lei natural mas tão-só ao fato de que os homens acreditavam na própria imortalidade. Ivan Fiodorovitch acrescentou, entre parenteses, que é nisso que consiste toda a lei natural, de sorte que, destruindo-se nos homens a fé em sua imortalidade, neles se exaure de imediato não só o amor como também toda e qualquer força para que continue a vida no mundo. E mais: então não haverá mais nada amoral, tudo será permitido, até a antropofagia. Mas isso ainda é pouco, ele concluiu afirmando que, para cada indivíduo particular, por exemplo, como nós aqui, que não acredita em Deus nem na própria imortalidade, a lei moral da natureza deve ser imediatamente convertida no oposto total da lei religiosa anterior, e que o EGOÌSMO, chegando até ao crime, não só deve ser permitido ao homem mas até mesmo reconhecido como a saída indispensável, a mais racional e quase a mais nobre para a situação.

    • Fabio Machado disse:

      Acho que Dostoiévski não pode ser culpado por não ter os conhecimentos atuais sobre comportamento animal, sem contar que ele estava produzindo literatura, e não um tratado sobre moralidade humana (coisas que não são mutuamente exclusivas, obviamente).

      O ponto é que animais não-humanos apresentam muitas das caracteristicas que consideramos como sendo “moralidade” e “ética”, e são explicadas por evolução por seleção natural. Isso não quer dizer que saibamos tudo sobre moralidade é ética atravez do estudo da natureza, mas sabemos o suficiente para saber que não é necessário ter nenhum deus orquestrando a moralidade humana.

      Acho que o melhor argumento que pode ser feito é que a crença num deus pode ser necessária para o comportamento ético e moral.

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