Deus é o ovo

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Cientificismo, segundo o filosofo Tom Sorell, é a “demasiada valorização da capacidades da ciência natural em comparação com outros ramos do aprendizado ou cultura”. Em outra palavras, é o uso inapropriado da ciência e das teorias científicas para explicar fenômenos que normalmente não são da alçada de uma área de conhecimento específica.

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“Hey, bob. Que tal a gente elaborar um construto social elaborado, com relações complexas com mitos de nossa cultura para que a gente possa, eventualmente, comer um bifão?”

Stephen Jay Gould deu um exemplo disso em seu artigo sobre o “adaptacionismo” nas ciências biológicas, que é a tentativa de explicar todo e qualquer fenômeno nos organismos vivos como sendo produto de seleção natural. Em seu artigo co-autorado por Richard Lewontin entitulado “The Spandrels of San Marco and the Panglossian Paradigm: A Critique of the Adaptationist Programme” de 1979, Gould exemplifica a questão quando critica a sugestão de E. O. Wilson, pai da sociobiologia, de que o consumo de carne humana (canibalismo) em culturas astecas poderia ser um reflexo de uma falta crônica de proteína animal, ignorando toda uma literatura antropológica avaliando o significado e as possíveis causas culturais de tal fenômeno.

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O que acontece com um paleontólogo ao escutar que dinossauros são uma construção social.

 

Usualmente a acusação de “cientifismo” é aplicado ao uso de ciencias naturais (química, física, biologia, geologia, etc) em outras áreas, usualmente humanas. Mas não há nenhum motivo para que o emprego do termo seja assimétrico: muito do chamado “pós-modernimo” é o emprego de técnicas e conceitos provenientes das humanidades, principalmente crítica literária, em outras ciências. Nesses casos a validade de uma teoria científica deixa de ser avaliada de acordo com sua adequação às evidências empíricas (marca fundamental das ciências) e passa a ser avaliado quanto a sua adequação à ideologias e processos sociais. A validade da evolução deixa de ser seu escopo explicativo, mas um julgamento da cultura que permitiu o surgimento dessa teoria (européia, renascentista, branca e machista), e o significado dessa ideia para a sociedade.

Acusações de cientificismo também são comumente usadas por alguns religiosos e teólogos ao acusar cientistas de tentar “opinar” em assuntos religiosos do ponto de vista científico. Por exemplo, Victor Stenger, no seu livro “The Fallacy of Fine-tunning” afirma que

“(…) as observações da ciência e dos nossos sentidos não apenas mostram a ausência de evidencias para [a existência] de Deus mas também dão evidencias para além da qualquer dúvida razoável de que um Deus que tem um papel tão importante e cotidiano no universo como o Deus Judaico-Cristão-Islamico não existe”

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“Meus super-sentidos não detectam a presença de nenhuma entidade omnipontente, omniciente e omnibenevolente no universo. Parece que sou a única divindade solar por aqui mesmo…”

Segundo alguns religiosos, usar a ciência para analisar afirmações sobre o supernatural e o divino são exemplos de cientificismo, visto que é a utilização da ciência (natural, normalmente) em uma área na qual ela não se adequa, que seria a teologia.

Visto que a acusação de cientificismo é tão rotineiramente utilizada por intelectuais religiosos para defender sua fé de intelectuais ateus, me soa particularmente irônica a utilização de achados científicos como base para afirmações de fé. Um exemplo claro disso é no chamado “Argumento Cosmológico para a Existência de Deus”. O argumento tem a seguinte forma:

  • [P1]- Tudo que que começa a existir tem uma causa
  • [P2]- O universo começou a existir
  • [C]- o universo tem uma causa (que é Deus, por sinal)

A validade da conclusão depende da validade das premissas, e o que é usualmente utilizado para corroborar a segunda premissa, é a teoria do Big-Bang, que afirma que o universo visível atual teve uma origem em um ponto específico de nosso passado, aproximadamente a 15 bilhões de anos atrás.

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Bom, acho que isso explica o período inicial de inflação cósmica…

 

Obviamente eu não estou sugerindo que teólogos não deveriam se basear em ciência e fatos conhecidos para tirar suas conclusões sobre o universo. Porém essa empreitada é fútil quando todos os argumentos baseados em ciência são necessariamente provisórios e tentativos, o que está em claro desacordo com a necessidade do teólogo de se comprometer com uma conclusão específica.

Robert M. Price brilhantemente exemplificou essa questão durante durante um debate com o filosofo e apologeta cristão William Lane Craig sobre a existência da figura histórica de Jesus Cristo:

Historiadores críticos não estão engajando em epistemologia metafísica como se eles pudessem saltar em uma máquina do tempo e pontificar “‘A’ não aconteceu, ‘B’ sim!”. De novo, Craig e seus irmãos estão apenas projetando. São eles, e não os historiadores críticos que querem poder apontar para resultados absolutos. Imagine um credo “Se tu confessar da tua própria boca ao Senhor Jesus e acreditar em seu coração que Deus provavelmente ressuscitou-o dos mortos, tu provavelmente serás salvo”. Na cara de quem está a piada aqui?

No caso do Big Bang e do argumento cosmológico, a piada é mais óbvia ainda. Quando em 1951 o papa Pio XVII quis alardear que o Big Bang era comprovação de que o catolicismo era verdade (justamente pelo Argumento Cosmológico), Georges Lemaître, o primeiro proponente desse modelo cosmologico e padre o impediu, afirmando que sua teoria era neutra a respeito da existência de Deus. E ele obviamente deveria ter que fazer isso. Caso o contrário, se Deus fosse uma conclusão com base em um modelo científico, se tal modelo cai, Deus cai também. E visto que Lemaître (assim como qualquer outro católico e cristão no mundo) provavelmente não estava preparado para abandonar a crença em um Deus apenas pela refutação de uma teoria científica, ele argumentou contra a associação de ambos. Defensores do Design Inteligente e criacionistas não tem essa clareza: uma vez que suas hipóteses foram refutadas (e todas elas foram), tudo o que lhes resta é negar a ciência. É o cientificismo levando ao anti-intelectualismo.

Mas caso nada disso tenha ficado claro, aqui vai um exemplo mais simples: sabe aquela história de que em uma semana os médicos e pesquisadores afirmam que ovo faz mal, e em outra eles afirmam que ele faz bem, nunca chegando a um consenso, se contradizendo e refutando um ao outro recorrentemente?

Imagina que Deus é o ovo.

Darwin, Vespas parasitóides e o problema do sofrimento natural

As religiões monoteístas são, discutivelmente, diversas em seus dogmas e crenças. Contudo, existam alguns aspéctos comuns a essa religiões, principalmente quando nos referimos ao ramo das religiões Abrâamicas, classicamente discriminadas entre judaísmo, cristianismo e islamismo, especificamente no que se refere à figura do deus único. Tal deus, via de regra, é descrito como um deus criador omnipresente, omnipotente e omnibenevolente, com interesse pessoal na vida dos indivíduos pertencentes à espécie humana. Porém, essa descrição tem levantado algumas sobrancelhas ao longo da história.

O paradoxo de Epícuro

Um problema óbvio com essa caracterização é que a existência de um deus que sabe de tudo e que pode tudo e que é o ser mais benevolente da existência parece em clara contradição com o a presença de sofrimento no mundo. Epícuro foi o primeiro a deixar essa objeção registrada no registro histórico da seguinte forma:

– [Deus], enquanto onisciente e onipotente, tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então não é onibenevolente.

– Enquanto omnipotente e onibenevolente, então tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então ele não é omnisciente.

– Enquanto omnisciente e omnibenevolente, então sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é omnipotente.

E essa é uma bela refutação para concepções mais ingênuas de deus, principalmente deuses monoteístas, que não tem outros deuses igualmente potentes com o quais competir. Essa idéia pode ser resumida de forma bem simples:

P1) Deus é definido como um ser omnipontente, omnipresente e omnibenevolente

P2) Existe sofrimento no universo

C) Deus não existe.

QED…?

 

Teodicidades e a Queda

The Fall of Adam and Eve, Hugo van der Goes 1470

“Tá tudo bem mor… aquela serpente com pernas disse que não vamos morrer se comer essa fruta, diferente do que o nosso Deus omnipotente, omnisciente e omnipresente disse….”

Para refutar esse argumento bem simples, a igreja católica (principalmente) desenvolveu uma área teológica especifica para lidar com o problema da existência do mal no mundo, e esses contra-argumentos são chamados teodicidades. A mais simples dessas teodicidades clama o livre-arbítrio como o salvador da benevolência divina, colocando que deus nos deu livre-arbítrio e com isso nós humanos escolhemos fazer coisas que trazem dor e sofrimento.

Ok, nessa altura você pode estar pensando “E terremotos, secas, vulcões? Nada disso é causado por humanos, então livre-arbítrio não explica esse tipo de sofrimento”. Fico feliz que você tenha convenientemente levantado esse ponto, interlocutor fictício, mas a gente tem que lembrar que o teísmo abraâmico prega (classicamente, ao menos) que nós humanos descendemos de um casal de adolescentes criados especialmente em um jardim que, ao comerem da arvore do conhecimento, condenaram toda a humanidade a um tipo de maldição hereditária que, de alguma forma, também amaldiçoou o resto do mundo, AKA “A Queda”.

Certo, ainda comigo?

Ok, então essa Queda resolveria tudo, pois todo o sofrimento viria após a Queda, resultado da aplicação do livre-arbítrio humano. Resolvido! Próximo argumento!

…bom, não tão rápido.

 

Como evolução arruina tudo

Hoje em dia sabemos que nada da narrativa do Genesis pode ser tomado como literal ou histórico, em grande parte devido aos achados da biologia evolutiva e áreas associadas. O registro fóssil mostra que humanos são recém chegados na história da vida da terra, que já foi rica em animais dos mais diversos tamanhos e formas, inclusive seres muito aparentados a nós, com cérebros de igualmente impressionantes. Além disso, biologia molecular nos mostra que os seres humanos nunca descenderam exclusivamente de dois indivíduos, o que impossibilita que qualquer maldição fosse geneticamente transferida a todos os membros atuais da nossa espécie.

Ou seja, durante grande parte da história da vida na terra tivemos animais sendo predados, sendo infectados, morrendo de fome e sede, muitas vezes em escalas mundiais em eventos possivelmente pontuais, que varreram grande parte de continentes ou mesmo do planeta inteiro, como o impacto que erradicou a maioria das linhagens de dinossauros.

Ou seja, o que quer que livre-arbítrio humano explique, ele explica uma quantidade muito pequena do que precisa ser explicado antes que aceitemos racionalmente o monoteísmo clássico. Mas o quanto é preciso explicar, exatamente?

Darwin e Vespas Parasitóides

Há alguma controvérsia sobre sobre se Darwin era de fato ateu ou não, mas não há dúvidas que, ao longo de sua vida adulta, ele abandonou o teísmo clássico criacionista tanto por motivos pessoais (a perda de sua filha) e por algumas considerações vagas sobre o sofrimento natural no mundo. Uma dessas considerações mais famosas diz respeito as vespas parasitóides.

“Eu não posso me convencer que um Deus benevolente e onipotente poderia ter criado um Ichneumonidae com a única intenção de suas larvas se alimentarem dos corpos de lagartas vivas, ou criado gatos para brincar com ratos”

Ichneumonidae são uma família de vespas parasitóides, que são animais que implantam ovos no interior de outras espécies que, ao eclodirem, levam a morte do hospedeiro, algo muito similar a o que acontece nos filmes do universo dos Aliens.

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-Viva! Sou biologicamente verossímil!

Porém, diferente do que ocorre em Aliens, nem todos hospedeiros tem a sorte de morrer imediatamente. Muitas larvas parasitoides consomem lentamente seus hospedeiros que são mantidos vivos e imobilizados durante todo o processo. O exemplo mais extremo é o caso da vespa-esmeralda Ampulex compressa. Essa vespa é tão especializada que usa seu veneno não apenas para matar ou imobilizar sua presa (uma barata), mas sim para modificar seu comportamento, transformando-a em uma espécie de “zumbi” complacente que é primeiro conduzido à toca da vespa e depois consumido, ao longo de semanas, pelas larvas recém nascidas.

Para piorar tudo, não estamos falando de uma, duas, ou um punhado de espécies que fazem isso. São aproximadamente dois milhões de diferentes espécies de parasitóides que, apenas em insetos, podem compor até 10% da diversidade conhecida para o grupo, incluindo não apenas vespas (hymenoptera), como também moscas (diptera) e também algumas espécies de besouros (coleoptera)!

Se focarmos apenas em vespas, estimativas recentes mostram que as famílias desse grupo se diversificaram inicialmente durante o Permiano:

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Clique aqui para a definição formal de “bagarai”

Ou seja, a no mínimo 250 milhões de anos presas de vespas sofrem desnecessariamente para que as espécies parasitóides consigam colocar uma nova geração no mundo. E afirmo que seu sofrimento é desnecessário não apenas porque um deus bondoso poderia magicamente fazer vespas que não necessitassem dos corpos alheios para a sobrevivencia de sua prole, mas porque essas possibilidades são reais e acontecem na maioria das espécies de vespas. Ou seja, não é biologicamente impossível fazer espécies de vespas não-parasitóides: elas existem. Mas por algum motivo um deus bondoso achou que seu plano perfeito só estaria completo com animais que parecem ter sido concebidos num pesadelo lovecrafteano.

Ou, sei lá… talvez Epícuro tivesse certo.

Rápidos* pensamentos sobre a contingência do Universo

Acabo de ler o primeiro capítulo de John Loftus no livro The Christian Delusion (que já comentei brevemente aqui). Loftus é o editor e organizador do livro e tem três capítulos na obra. No primeiro deles, Loftus formaliza o que ele chama de o “Teste de Fé do Forasteiro“ (The Outsider Test of Faith, nome do capítulo), que basicamente consiste na idéia que a sua própria crença deve ser avaliada com o mesmo nível de ceticismo e critérios de evidência com os quais avaliamos as crenças dos outros. Ou seja, porque aceitar um milagre vago como confirmação de sua fé pessoal, enquanto os mesmos milagres associados à fés diferentes não são vistos como a confirmação da fé dos outros?

Por essas e outras, Loftus tem ficado famoso por sua retórica e entusiasmo em atacar o cristianismo, especificamente as vertentes evangélicas norte-americanas. Curiosamente Loftus, que é ex-pastor e teólogo, foi um dos estudantes do apologeta William Lane Craig, e é uma das únicas pessoas com a qual ele não quer debater. Loftus parece o exato oposto de Craig: sem nenhuma pompa, com jeito de caipira, bastante inteligente e articulado, porém um desastre em oratória e em debates. Ele é tão ruim, que chega a falhar em responder argumentos que ele ferozmente ataca em seu livro. Porque Craig tem medo dele me é um mistério completo.

De qualquer forma, segue abaixo a parte 1 da palestra, onde Loftus expõem os mesmos argumentos para o Teste.

O que me chamou atenção, no entanto é que, após a palestra, na parte 7, Loftus é confrontado por alguns alunos (presumidamente cristãos) que perguntam como ele, sendo ateu, explica a existência de um universo contingente. Contingência, pra quem não sabe, é a idéia de que “uma coisa depende de outra”. Por exemplo, se falo que meu mal humor é contingente à quantidade de cafeína que tomo de manhã, quero dizer que meu mal humor depende da quantidade de café que tomei.

De forma geral, tudo que conhecemos no universo é contingente: maçãs dependem da existências de árvores, que dependem de sementes, que dependem de outras maçãs, e assim vai. Essa idéia trás alguns problemas: primeiro, se tudo que conhecemos é contingente então, se fomos seguindo na cadeia de eventos para o passado, nunca chegaremos em um começo, o que implicaria que o passado é infinito, e que o universo sempre existiu. Isso é um problema enorme para qualquer denominação religiosa que postula uma origem miraculosa para o universo. Com um universo eterno, nada de criação e sem criação, nada de criador.

Principio da Razão Suficiente

Para burlar** esse tipo de conclusão inconveniente, filósofos se valem do o que é chamado do Princípio da Razão Suficiente (PRS), um princípio intuitivamente obvio, proposto por diversos filósofos (incluindo Baruch Spinoza), mas popularizado por Leibniz. O princípio afirma que:

Para todo fato F,  deve existir uma explicação de o porque F é o caso

ou

Para toda entidade X, existe uma explicação de o porque X existe

Ou seja, em um universo contingente, tudo que existe pode ser explicado por suas causas. Você pode perguntar: “Porque a Terra existe?”, “Porque a segunda guerra aconteceu?”, “Porque eu gosto de salada?” e todas essas perguntas podem ser respondidas, fazendo referência às causas e situações que permitem que X venha a ser. Tudo perfeitamente compatível com a forma que entendemos o mundo. Nada muito extremo não é?

Mas agora a coisa fica complicada. Algumas proposições não podem ser explicadas fazendo referências às suas causas. Por exemplo: “Círculos são redondos” é uma preposição que não pode ser verificada na realidade, muito menos provada falsa. Ela é verdadeira por si própria (assim como todas as tautologias, por exemplo), ou seja, elas são “necessárias”, verdadeiras independente do universo (algumas vezes chamadas de “incontingentes” ou “absolutas”). A necessidade dessas preposições é vista como a explicação de o porque elas são verdadeiras. Elas não precisam de causas materiais para serem explicadas, dentro do contexto do PRS.

Ok, e onde Deus entra nessa história?

Bom, segundo alguns filósofos, existem entidades que seriam necessárias, ou seja, seriam explicadas pela própria necessidade da sua existência. Como exemplo desse tipo de entidade teríamos números, outros objetos conceituais e, obviamente, deuses (não vou nem entrar no mérito de o porque desse argumento). Deuses, como seres não-contingentes, seriam explicados pela força da própria necessidade de existir: não existiria um mundo possível onde um deus não exista, pois sua não-existência seria ilógica.

Certo… e como isso resolve o problema da contingência para o teísmo? É bem simples: se tivermos um conjunto de todas as causas contingentes do universo (ou seja, o universo que conhecemos como um todo), a adição de uma nova causa contingente não vai ajudar a explicar o conjunto como um todo, pois vai ser apenas mais uma causa contingente para ser explicada por alguma outra causa contingente, e assim ad infinitum. A solução é ter-se uma causa não-contingente, ou absoluta, que possa explicar o conjunto de causas contingentes:

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Desenho ruim e pouco explicativo para dar um “quê” de autoridade

A grande sacada desse argumento é que, visto que ele é válido, ele serve para um universo finito ou infinito: um universo infinito seria uma cadeia de causas infinitas, mas deve ser explicada, como um todo, por algo não contingente e, de preferencia, atemporal.

Então, basicamente, o PRS permite que, tanto em um universos finito quanto infinito, possamos defender, logicamente, a existência dessa causa não-contingente, que muitos podem querer chamar de “Deus”.

A resposta de Loftus

Pra qualquer um com um mínimo de senso crítico, esse argumento levanta várias bandeiras (e eu garanto, existem muito mais bandeiras a serem levantadas). Mas Loftus aparentemente opta por dar duas resposta ao desafio dos alunos.

Primeiro ele pergunta “Assumindo que o argumento [que o universo precisa de algo necessário para explicar sua existência] é válido, o que isso te dá?“, que é um ponto completamente válido. Afinal, o máximo que você tem é a existência de um “algo” necessário que causaria todo o resto. E de fato, físicos como Victor Steinger e Lawrence Krauss argumentam que esse “algo” pode muito bem ser um algo físico, como flutuações quânticas ou o vácuo quântico, coisas consideravelmente mais simples do que uma super-mente super-poderosa e imaterial. Ou seja, isso não prova teísmo, e é bem provável que não disprove o ateísmo também, ao contrário do que o aluno parece pensar.

A segunda resposta de Loftus é “eu não sei“, e aqui ele se complica na resposta. Ele parece focar na idéia de que, ao dizer que Deus fez o mundo, cristãos parariam de recorrer a ciência para saber como isso ocorreu, coisa que o aluno rapidamente o corrige (claro, ele faz uma distinção entre saber que deus fez e saber como ocorreu, o que para mim é falsa, mas isso é outra discussão). Mas acho que aqui Loftus perdeu uma oportunidade de explorar uma das fraquezas do PRS.

Pense assim: imagine o estado da arte do conhecimento à 6 mil anos atrás, quando a cosmologia da época ditava que o universo era constituído da Terra e o Céu, mas que também tivéssemos teólogos tão espertos como os de hoje, propondo coisas como o PRS para “explicar” o universo. Esse pequeno “universo” seria contigente e explicado por Deus AKA “Deus criou aquele universo”. Agora adicione um modelo heliocêntrico, com o sistema solar sendo “o universo”… como fica o argumento? E se você adicionar a via-láctea inteira? E se colocar um cluster de galáxias? E todo o universo visível? Como fica?

Bem, igual, é assim que fica. O PRS é aplicável a todos os universos já concebidos pela humanidade. Visto que o que é o “universo” é um conceito humano em constante expansão, determinado por nossa capacidade de investigar a natureza, o PRS indica que Deus é uma explicação até para os universos errados. E se tem uma coisa que aprendemos em filosofia da ciência é que, se algo explica tudo, ele muito provavelmente não explica nada.

Agora, o que realmente me intriga é: porque diabos William Lane Craig tem medo de debater com o Loftus, um sujeito que se embanana para responder uma pergunta tão simples de um aluno, sendo que ele mesmo já fez um ótimo trabalho em refutar esse mesmo argumento? Pra mim, esse é o verdadeiro mistério.

* Sim, isso foi ironia.

** Eu não sei se o PRS foi proposto “para esse fim”, mas visto que apologetas rotineiramente falam bobagens do tipo “o multiverso foi proposto por cientistas ateus para escapar da criação divina”, eu não fico com um peso grande na consciência.

Fé não é um processo epistemológico válido

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Peter Boghossian

Esses dias relendo o texto “Investigações estatísticas na eficiência da prece”, do Francis Galton, e me deparei com a seguinte passagem:

Existe um motivo para esperar que um homem devoto e supersticioso seja irracional; pois uma pessoa que acredita que seus pensamentos são inspirados, necessariamente certifica seus preconceitos com autoridade divina. Ele é, assim, pouco vulnerável à argumentação, e é intolerante em relação àqueles que apresentam uma opinião distinta da sua, especialmente em princípios fundamentais. Consequentemente ele é um mal parceiro em questões de negócios. É uma opinião corriqueira no mundo de que pessoas que rezam não são práticas.

Parece duro, mas eu acredito que a crítica continua bastante válida. Não porque eu de fato acredite que religiosos são maus parceiros, ou que algo na sua religiosidade os impede de serem bons profissionais, longe disso. Acredito que o fato de a maioria esmagadora da sociedade, inclusive em países desenvolvidos serem religiosos, argumenta contra essa ideia. Entretanto, ainda acho que esse ponto, de certa forma, procede.

Recentemente, o filósofo Peter Boghossian resolveu fazer disso o foco central de seu livro “Um Manual Para Produzir Ateus”. Segundo Boghossian, o ataque às religiões é contra-producente, e a ideia que precisa ser passada é que existem processos para a geração de conhecimento (ou, processos epistemológicos) que não são confiáveis, isso é, eles diminuem a probabilidade de se ter crenças que são verdadeiras. Ele ainda identifica duas comunalidades entres processos epistemológicos pouco confiáveis. Via de regra, tais processos 1) não se baseiam em evidências e/ou 2) se baseiam em coisas que são consideradas evidências, quando na verdade não são. E fé, afirma Boghossian, apresenta ambas as características.

A ideia de Boghossian é que, ao ensinar pensamento crítico e baseado em evidência, as pessoas irão aprimorar sua capacidade de adquirir crenças verdadeiras, levando à exclusão da fé como um processo epistemológico, o que eventualmente levaria a rejeição de religião.

É válido notar que nem sempre religiosos aplicam fé como base epistemológica universal. Quando em âmbito profissional, muitos religiosos recorrem a pensamento crítico baseado em evidências para direcionar suas ações: um empresário religioso não vai esperar inspiração divina para fechar um negócio, mas sim recorrer à analise de custo/benefício e do ambiente do mercado para tomar suas decisões. Sendo assim, a crítica de Galton nos dias de hoje pode ser mais encarado como um reductio ad absurdum do o que aconteceria se as pessoas aplicassem fé como um jeito especial de entender a realidade em todas as esferas da sua vida, algo que é comumente apontado por críticos de religião.

Claro, muitos podem apontar a ironia na citação de Galton, visto que esse era um fervoroso crítico das teorias de Mendel, que era um monge e, em qualquer avaliação, um “homem devoto”. Mas de qualquer forma, nós sabemos que Mendel está correto, e não Galton, por causa das evidências da genética e hereditariedade, e não por inspiração supernatural.

O cristianismo ajudou a fundar a ciência moderna?

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Um tipo de afirmação que vejo constantemente sendo jogada por ai é a de que, sem o cristianismo, a ciência moderna não teria existido. Isso comumente faz parte de uma linha apologética chamada “pressuposicionalismo” que consiste basicamente em dizer que sem os pressupostos do cristianismo, a ciência moderna (ou moralidade, ou qualquer outra coisa) não são logicamente coerentes. Ou seja, sem um Deus propondo leis regulares na natureza, não faz sentido pensar numa ciência que funciona.

É uma estratégia interessante mas altamente discutível. Afinal, classicamente, a uniformidade da natureza foi vista como um potencial impedimento para a teologia cristã, visto que impedia a ocorrência de quebras da ordem natural das coisas através de milagres. Sem milagre, sem ressurreição, sem cristianismo.

Outra linha de argumentação sobre a influencia do cristianismo na origem da ciência é a ideia de que a ciência moderna surgiu no mundo cristão, e não na Índia, ou na China, por exemplo. Isso é, evidentemente verdade: é no Renascimento que encontramos as bases da ciência moderna, um movimento que se deu essencialmente na Europa cristã. Entretanto, o Renascimento foi uma revitalização dos princípios clássicos  gregos e romanos, e uma quebra com a teologia dos séculos anteriores. Richard Carrier – historiador da ciência, que tem mais títulos do que eu posso colocar em um aposto- coloca isso de forma precisa:

Entretanto, em tudo isso a afirmação que não se sustenta é que o cristianismo encorajou a ciência. Se esse tivesse sido o caso, então não teríamos quase mil anos (de aproximadamente 300 a 1250 AD) com absolutamente zero avanços significativos na ciência (exceto alguns poucos e as contribuições minoritárias de hindus e muçulmanos), em contraste com os mil anos anteriores (de aproximadamente 400 AC a 300 AD), que testemunharam incríveis avanços nas ciências em continuada sucessão a cada século, culminando em teóricos cujas ideias se aproximaram tentadoramente da revolução cientifica no 2o século AD (especificamente, mas não exclusivamente, Galeno e Ptolomeu). Você não pode propor uma causa que falhou em produzir um efeito, a despeito de estar constantemente presente por mil anos, especificamente quando, na sua ausência, a ciência fez muito mais progresso. A ciência retomou em 1200 precisamente onde os antigos [gregos e romanos] deixaram ela, redescobrindo seus achados, métodos e valores epistêmicos, e continuando o processo que eles haviam iniciado.

(Grifo meu)

Claro, mesmo se fosse verdade que a ciência moderna tem sua origem no cristianismo, nada disso advoga em favor de qualquer doutrina religiosa. Pode ser muito bem verdade que a química moderna tem origem na alquimia. Mesmo assim, alquimia continua errada.

Sugiro a leitura do post de Carrier sobre o assunto: Science and Medieval Christianity

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