Olavo de Carvalho fala que procurar Bóson de Higgs é “coisa de QI 12”

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A primeira vez que cruzei com o sr. Olavo de Carvalho foi na era pré-google da internet, antes de entrar na faculdade, quando frequentava sites de mídia alternativa e de movimentos sociais. Na época, comentários no site do Centro de Mídia Independente deram a entender que contribuidores de outro site, o Mídia Sem Mascara, um site de noticias e teorias conspiratórias de direita comandado pelo Sr. Olavo, estavam tentando plantar um comentário no CMI ameaçando o sr. Olavo de morte. A motivação seria ferir a credibilidade do CMI, por algum motivo político que me foge.

Essa foi a primeira vez que vi esse tipo de embate na internet, com facções bem definidas, que se odiavam e usavam de todas as táticas para minar seus oponentes. Obviamente nessa época eu não sabia da existência de criacionistas. Bons tempos…

De qualquer forma, de lá para cá o sr. Olavo parece ter capitalizado em cima da sua influencia intelectual, gerando uma espécie de culto a personalidade que o tem em alta estima. Talvez o ápice da sua popularidade foi ter atraído a atenção de artistas conservadores como Danílo Gentili e Lobão, que parecem o usar como fonte para suas…. err… “teorias” sociológicas. O sr. Olavo se vangloria de grandes feitos, como ter refutado cientistas como Einstein, Darwin e Newton. O Sr. Carvalho também defende que o Sol gira em torno da Terra, que a Pepsi usa fetos para adoçar suas bebidas, que existem evidencias científicas para experiência extra-corpóreas e que existe uma conspiração global comunista. Ouro puro.

Em um vídeo postado recentemente no youtube, Olavo ataca de novo a física moderna, comentando especificamente sobre o Bóson de Higgs.

No vídeo, um de seus alunos faz uma colocação de que a busca pela Partícula de Deus (o Bóson de Higgs) seria um “delírio cientificista”. O que ele quer dizer exatamente com isso, só deus sabe, o que não parece impedir o sr. Carvalho de opinar a respeito. Segundo ele:

Veja…. Se você tentar encontrar a razão da existência da matéria numa partícula da matéria… é coisa de QI 12.

O que me parece que o sr. Olavo está querendo apontar é que existe uma contradição em tentar explicar toda a existência através de uma partícula da matéria, visto que a partícula seria também material, o que implicaria que toda a matéria não teve sua origem explicada.

Apesar de parecer que o sr. Olavo tem um ponto aqui, existem duas questões que precisam ser elucidadas: 1) o Bóson de Higgs não está procurando explicar a existência da matéria e 2) mesmo se estivesse, a detecção do Bóson seria apenas a corroboração de uma teoria, e essa sim é que apresenta poder explicativo.

O primeiro ponto é o mais simples. O Bóson de Higgs procura explicar o porque as partículas elementares apresentam massa diferente de zero. O Bóson é parte do Modelo Padrão de física de partículas, que descreve a composição da matéria e como seus diferentes constituintes interagem.

Talvez a confusão do sr. Olavo e seu aluno venha do fato de que o Bóson foi chamado de “a Partícula de Deus” em um livro de autoria do físico Dr. Leon M. Lederman. Talvez por suas predisposições religiosas (o sr. Olavo é um cristão convicto) somadas a uma certa quantidade de ignorância sobre o assunto, ambos parecem assumir que se algo tem o nome de “Deus”, então ele deve explicar tudo. O problema desse raciocínio é óbvio, mas para piorar ainda mais, o nome de “Partícula de Deus” foi uma decisão editorial. Segundo o Dr. Lederman:

Porque a Partícula de Deus? Bom, duas razões. Primeiro, o editor não nos deixou chamar de “A Partícula Maldita”, apesar desse ser um título mais adequado dada a sua natureza traiçoeira e o trabalho que ela tem causado. A segunda é que ele [o nome] tem uma conexão com outro livro, um muito mais antigo…

E aqui Lederman está se referindo ao Genesis Bíblico. Então, apesar da confusão ser compreensível, é válido notar que o que importa para a validade de uma empreitada científica é a validade das suas premissas teóricas, e não o maldito nome que associaram a ela.

Agora ao segundo ponto. Vamos assumir que existe uma hipótese que explica a existência de toda a realidade e de todas as propriedades de todas as coisas que nela residem. Agora ainda assumir que essa hipótese prediz que, se ela é verdade e se todos os processos que ela descreve aconteceram, então poderíamos ver um sinal disso na natureza, como na presença de uma partícula elementar qualquer. Podemos colocar isso em um formato silogístico simples:

  • P1- A hipótese X contem modelos e processos.
  • P2- Um desses modelos prevê a existência de uma partícula na natureza

Agora, vamos assumir ainda que

  • P3- Tal partícula existe na natureza

Isso significa que a hipótese X está correta? Bem, não. Essa questão remete ao problema da indução em ciência, na qual não existe um numero finito de observações que possa corroborar qualquer generalização.

Porém, observar a presença de tal partícula definitivamente significa que não podemos dizer que ela é falsa. Isso, em ciência, é o suficiente para constituir uma “hipótese de trabalho”, uma hipótese provisória que será subsequentemente testada e, se todas as tentativas de demonstra-la como sendo falsa falharem (ou se todos as observações forem consistentes com a hipótese), então essa ideia pode se consolidar na ciência com um alto grau de certeza.

O ponto central disso tudo é que, se observamos a partícula, o que contem poder explicativo é a hipótese, e não o fato. Fatos não explicam nada, e apesar de o Olavo colocar esse ponto (de certa forma), ele parece confundir deliberadamente o que é fato e o que é hipótese para fazer uma afirmação verdadeira (“fatos não apresentam poder explicativo”), porém irrelevante fora da representação fantasiosa de o que cientistas realmente fazem. É um festival de bobagem.

Ou, quem sabe, o Olavo acabou de refutar a priori o modelo padrão da física de partículas. Mais uma refutação colossal para a lista dele, eu suponho…

A tese do ateísmo universitário

Calouros...

Calouros… ¬¬

Nunca fui grande fã do termo “neo-ateísmo”. Inicialmente usado para se referir aos ateus que resolviam emitir suas opiniões sobre religiões e dogmas, em distinção aos “antigos” ateus, calmos, pacatos e respeitosos (um mito, na minha opinião), esse termo sempre me pareceu carecer de conteúdo informativo sobre o que aqueles que eram assim classificados de fato acreditam. Sempre me pareceu ser muito mais uma designação sobre forma do que sobre conteúdo, visto que o que contava para ser classificado como “neo-ateu” era simplesmente o quão vocal, estridente ou agressivo alguém era ao colocar suas opiniões. Não ajudava em nada o fato de muitos críticos dos “neo-ateus” ora usarem o termo de forma pejorativa contra aqueles que feriam sentimentos religiosos, ora criticarem a total ausência de diferença em relação a todos os outros ateus ao longo da história da humanidade, como quem diz que os ateus atuais se julgam inovadores, enquanto na verdade não são. Por esses e outros motivos, eu sempre fico de olho quando alguém parece dar algum tipo de definição sobre os “neo-ateus”. O filosofo David V. Johnson resolveu propor uma tese que ele considerou ser o conceito unificador por trás das ideias de escritores tidos como os lideres do movimento “neo-ateísta”, especificamente Christopher Hitchens, Sam Harris e Richard Dawkins. A tese é deveras simples e pode ser resumida sucintamente da seguinte forma:

“O mundo seria melhor sem religião”

O que me parece uma descrição realmente precisa. Todos os autores acima citados, assim como muitos ateus que conheço, de fato parecem subscrever à ideia de que a crença teísta não apenas é falsa, mas também danosa. Não é de admirar que o estopim de tal movimento foram os atentados de 11 de setembro de 2001, uma das expressões mais diretas dos potenciais riscos do fundamentalismo religioso. Desde então, o movimento neo-ateu parece ter se focado não apenas na falsidade das idéias e dogmas religiosos, mas também na avaliação moral e ética de crenças religiosas. Por exemplo: Dawkins diz que associar ideologias religiosas a crianças é abuso, Harris critica religiosos moderados por acobertar fundamentalistas e Hitchens critica a moralidade do deus do antigo testamento. Um mundo sem tudo isso seria melhor. Johnson, porém, não vê essa tese como sendo válida. Ele apelida ela, jocosamente, de “A tese do ateísmo universitário” (the undergraduate atheist thesis). Segundo ele, para comprovar essa tese, seria necessário

“que nós somemos todas as boas e más consequências de os seres humanos serem religiosos do começo ao fim da história da humanidade e todas as boas e más consequências de humanos não serem religiosos.”

Ou seja, para que a tese seja em princípio corroborada, seria necessária a computação de todos os eventuais males e benefícios de ambas visões de mundo (com e sem religião) e escolher a que soma o maior bem e/ou o menor mal e voilàO ponto de Johnson com esse exercício é mostrar que tal computação seria extremamente complicada de ser realizada e que, então, a empreitada como um todo é uma farsa. Se o mundo seria melhor ou não sem religião seria, segundo a proposta de Johnson, um mistério.

Eu tenho um problema com essa argumentação. Parece que Johnson acredita que a “tese do ateísmo universitário”, como ele chama, é um exercício metafísico, em que criamos mentalmente mundos e avaliamos cenários hipotéticos, erradicando religião não apenas do presente, mas também do passado. Essa é uma idéia absurda. É como argumentar que se alguém não gosta do sabor de rabanetes, ele tem que avaliar se toda a sua vida teria sido melhor sem a fábula da Rapunzel para concluir que tirar rabanetes de sua vida é realmente algo desejável. Similarmente, Johnson parece acreditar que o objetivo dos neo-ateus é construir uma máquina do tempo, voltar ao passado e, sei lá, matar Jesus… ou impedir que ele fosse morto… algo assim.

Se essa forma de pensamento fosse válida, dificilmente teríamos abandonado escravidão ou mesmo tentaríamos abandonar formas de abuso social e econômico, como evidenciado nesse clip do comediante do Luis CK:

Afinal, se a lógica é válida, então a existências das pirâmides do Egito, ou até mesmo do Judaísmo (e por consequência, o Cristianismo e Islãm) deveriam ser levados em conta quando você avalia se escravidão é bom ou não. Ou seja, se você acha que cristianismo faz mais bem do que mal, você nunca poderia ser contra escravidão.

Isso é um exagero, obviamente, para mostrar o absurdo da tese (reductio ad absurdum). No fim, Johnson está errado. A tese neo-ateísta não é que o mundo seria melhor se religião nunca tivesse existido. Talvez ela seja melhor expressada pela ideia de que o mundo está pronto para abandonar as amarras desnecessárias que tornam a religião necessária. E se alguém disser que não há nada de “neo” nesse ateísmo, estará correto:

A religião é a teoria geral deste mundo, o seu resumo enciclopédico, a sua lógica em forma popular, o seu point d’honneur espiritualista, o seu entusiasmo, a sua sanção moral, o seu complemento solene, a sua base geral de consolação e de justificação. É a realização fantástica da essência humana, porque a essência humana não possui verdadeira realidade. Por conseguinte, a luta contra a religião é, indiretamente, a luta contra aquele mundo cujo aroma espiritual é a religião.

A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo.

A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que precisa de ilusões. A crítica da religião é, pois, o germe da crítica do vale de lágrimas, do qual a religião é a auréola.

A crítica arrancou as flores imaginárias dos grilhões, não para que o homem os suporte sem fantasias ou consolo, mas para que lance fora os grilhões e a flor viva brote.

 Karl Marx, 1844

E se você me perguntar, taí uma tese e tanto.

Uma boa definição de ciência

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Card do Massimo, da coleção Skeptic Trumps

Acabo de ler um artigo pelo cientista-tornado-filosofo Massimo Pigliucci sobre o movimento Neo-Ateista. Pigliucci, que é um crítico do movimento, argumenta que a principal diferença entre os ateus clássicos e os neo-ateus, é o que ele chama de “uma virada ao cientismo”. Ele define cientismo como:

“A atitude de considerar ciência como o ultimo critério e arbitro de todas as questões interessantes; ou alternativamente que busca expandir a definição e escopo da ciência para abranger todos os aspectos do conhecimento humano”

Para sustentar essa idéia, Pigliucci leva em consideração os livros publicados pelos autores considerados ícones do neo-ateísmo, especificamente Richard Dawkins, Victor Staiger, Daniel Dannet, Christopher Hitchens e Sam Harris (com quem ele parece ter um problema em particular).

Suas avaliações são justas na sua maioria (pelo menos nos livros que eu li), mas em quase todo parágrafo fiquei estarrecido com algumas afirmações de Pigliucci, principalmente nas suas avaliações dos livros de Sam Harris. Ele chega a afirmar, por exemplo, que não chegamos ao consenso sobre princípios da geometria euclidiana através de nenhuma evidência empírica (no caso ele usa o exemplo de que a soma dos ângulos de um triângulo é sempre 180o), o que me parece em clara contradição de como professores de fato demonstram esses princípios aos alunos em sala de aula*. Outra afirmação intrigante foi a de que o dilema de Eutifron demonstra com sucesso que Deuses e moralidade não tem nada a ver um com a outro, coisa que até onde sei é no mínimo… discutível (mas vou poupar vocês o trabalho de ver um ateu defendendo um argumento para a validade da moralidade divina).

No entanto, a questão que me deixou mais intrigado foi o foco central do artigo, que é a acusação de cientismo por parte dos neo-ateus. Não porque eu discorde dela (em partes), mas porque, ao justificar isso, Pigliucci constrói uma definição de ciência que não parece contribuir para sua tese:

Ciência é melhor concebida como uma família, no sentido Wittgensteiniano, de atividades que tem uma variedade de pontos em comum, incluindo (mas não se limitando a) a realização sistemática de observações e/ou experimentos, o teste de hipóteses, a construção de teorias gerais sobre o funcionamento do mundo, a operação de um sistema de revisão-por-pares pré e pós-publicação, e a existência de uma variedade de fontes de financiamento públicos e privados para projetos que são considerados válidos”

Eu gostei bastante dessa definição, mas como isso exclui necessariamente questões morais, metafísicas ou espirituais me é um mistério. Pigliucci não argumenta com sucesso sobre isso, sendo que o máximo que ele faz é indicar o leitor ao seu novo livro sobre critérios de demarcação em ciência, pseudociência e filosofia. Posso ser só eu, mas não me soa de bom tom deferir um dos principais pontos do seu artigo para um livro, sem maiores explicações.

De forma geral, esse ensaio me decepcionou muito. Durante o artigo todo, e apesar dos protestos do Pigliucci, não pude deixar de ter a sensação que grande parte das suas críticas são motivadas por briguinhas entre áreas acadêmicas, na qual filósofos parecem estar especialmente ofendidos pelo fato de que ciência tem um reconhecimento social maior do que filosofia, que ainda soa como abobrinha para as orelhas do público.

Talvez precisemos de um Big Bang Theory para a filosofia… algo como “The Hume’s club”. Será que a Sony compra?

De qualquer forma, veja o ótimo blog do Massimo, o Rationally Speaking. Vale a pena conferir.

* Pigliucci aqui parece estar adotando uma postura puramente racionalista, onde “verdades matemáticas” são exercícios meramente racionais e não empíricos. Até onde sei, essa posição não é inequivoca dentro da filosófica da matemática. Consigo pensar em pelo menos duas outras linhas que discordariam dessa interpretação.

Fé não é um processo epistemológico válido

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Peter Boghossian

Esses dias relendo o texto “Investigações estatísticas na eficiência da prece”, do Francis Galton, e me deparei com a seguinte passagem:

Existe um motivo para esperar que um homem devoto e supersticioso seja irracional; pois uma pessoa que acredita que seus pensamentos são inspirados, necessariamente certifica seus preconceitos com autoridade divina. Ele é, assim, pouco vulnerável à argumentação, e é intolerante em relação àqueles que apresentam uma opinião distinta da sua, especialmente em princípios fundamentais. Consequentemente ele é um mal parceiro em questões de negócios. É uma opinião corriqueira no mundo de que pessoas que rezam não são práticas.

Parece duro, mas eu acredito que a crítica continua bastante válida. Não porque eu de fato acredite que religiosos são maus parceiros, ou que algo na sua religiosidade os impede de serem bons profissionais, longe disso. Acredito que o fato de a maioria esmagadora da sociedade, inclusive em países desenvolvidos serem religiosos, argumenta contra essa ideia. Entretanto, ainda acho que esse ponto, de certa forma, procede.

Recentemente, o filósofo Peter Boghossian resolveu fazer disso o foco central de seu livro “Um Manual Para Produzir Ateus”. Segundo Boghossian, o ataque às religiões é contra-producente, e a ideia que precisa ser passada é que existem processos para a geração de conhecimento (ou, processos epistemológicos) que não são confiáveis, isso é, eles diminuem a probabilidade de se ter crenças que são verdadeiras. Ele ainda identifica duas comunalidades entres processos epistemológicos pouco confiáveis. Via de regra, tais processos 1) não se baseiam em evidências e/ou 2) se baseiam em coisas que são consideradas evidências, quando na verdade não são. E fé, afirma Boghossian, apresenta ambas as características.

A ideia de Boghossian é que, ao ensinar pensamento crítico e baseado em evidência, as pessoas irão aprimorar sua capacidade de adquirir crenças verdadeiras, levando à exclusão da fé como um processo epistemológico, o que eventualmente levaria a rejeição de religião.

É válido notar que nem sempre religiosos aplicam fé como base epistemológica universal. Quando em âmbito profissional, muitos religiosos recorrem a pensamento crítico baseado em evidências para direcionar suas ações: um empresário religioso não vai esperar inspiração divina para fechar um negócio, mas sim recorrer à analise de custo/benefício e do ambiente do mercado para tomar suas decisões. Sendo assim, a crítica de Galton nos dias de hoje pode ser mais encarado como um reductio ad absurdum do o que aconteceria se as pessoas aplicassem fé como um jeito especial de entender a realidade em todas as esferas da sua vida, algo que é comumente apontado por críticos de religião.

Claro, muitos podem apontar a ironia na citação de Galton, visto que esse era um fervoroso crítico das teorias de Mendel, que era um monge e, em qualquer avaliação, um “homem devoto”. Mas de qualquer forma, nós sabemos que Mendel está correto, e não Galton, por causa das evidências da genética e hereditariedade, e não por inspiração supernatural.

O melhor argumento para o "Evolucionismo Teísta"

No post anterior eu argumentei que a evolução convergente de peixes cegos de caverna é um tanto esquisita, se avaliada a luz da evolução teísta, visto que seria necessário postular um deus caprichoso ou enganador para se conformar com as observações. A solução seria, então, propor um designer interventor que produzisse um efeito no mundo natural puramente indistinguível de processos materiais. Como isso pode ser feito?

Ao meu ver, a melhor proposta para como solucionar isso é a defendida por Elliott Sober:

A idéia pode ser resumida da seguinte forma: Deus interfere na evolução manipulando algumas mutações genéticas. Quantas, você pergunta? Bem, o suficiente para serem imperceptíveis.

Uma analogia pode ajudar a entender. Suponha que você tem um número muito grande de eventos aleatórios como, digamos, lançamentos de uma moeda não-viciada. De todos os lançamentos, aproximadamente 50% deram cara e 50% deram coroa. O evolucionismo teísta seria o equivalente a chegar na 457o lançamento, que deu por acaso coroa e dizer “Deus fez com que esse lançamento desse coroa”. Ou seja, uma mutação ou outra é causada por Deus, como por exemplo a que causou o surgimento dos tetrápodes, ou que me de um esmalte dentário praticamente imune a caries.

A parte boa da ideia, é que é completamente infalseável, como qualquer boa ideia religiosa deve ser para não cair nas garras da “ciência materialista” (sic). A parte ruim é que a intervenção divina é totalmente irrelevante para entender qualquer padrão geral e, de quebra, torna Deus impotente frente as forças materialistas que geram todo o resto das mutações. Deus pode ter sido responsável por criar uma mutação benefica que foi varrida de uma população por deriva, ou mesmo que uma mutação puramente natural foi melhor do que mutação causada divinamente. Lembrando que Deus não poderia fixar uma mutação desvantajosa (isso seria contra a seleção natural e distinta da evolução materialista) ou causar uma pletora de mutações improváveis para criar uma estrutura complexa (isso seria Design Inteligente e fácil de diagnosticar).

A única “contribuição” dessa ideia é permitir aos seus defensores dizer que, em algum momento da história da vida na terra, Deus pode ter interferido através de uma mutação. Talvez. Ninguém pode saber ao certo.

Agora, Sober não é nenhum tonto: ele é um dos mais importantes filósofos contemporâneos da evolução, mas eu acho que ele está numa empreitada quixotesca nesse ponto, e pelos motivos errados. E os motivos não são nem sequer religião, visto que Sober é ateu. O problema dele é com os “novos ateus” e sua retórica. Especificamente, com o fato deles afirmarem (ou darem a entender) que religião e evolução são incompatíveis ou, mais especificamente, que uma concepção neo-darwinista da evolução implica na inexistência de um designer capaz de guiar as mutações.

O argumento que Sober tenta rebater é o seguinte:

P1) Até onde os cientistas puderam observar mutações são aleatórias.
P2) Mutações aleatórias não podem ser mutações guiadas.
P3) Temos modelos deterministicos de todos os outros fatores envolvidos na evolução das espécies
C) Não é possível ter mutações guiadas, ou não é possível que Deus esteja intervindo na evolução através de mutações.

Sober argumenta que tal linha de raciocínio é falaciosa, se baseando na equivocação da palavra “aleatória”. Quando um biólogo fala de mutação como sendo aleatória, ele não quer dizer que as mutações são não-causadas, mas sim que a probabilidade de uma mutação ocorrer é independente de se ela é benéfica ou deletéria. Então quando um teólogo diz que deus guiou a evolução por mutações aleatórias, os termos “guiada” e “aleatórias” não estão em contradição pelo simples fato de que elas não são ideias opostas nesse contexto.

E ele está absolutamente correto nesse ponto: a teoria evolutiva moderna não implica a inexistência de forças guiadoras conscientes, apenas limita seu escopo à quase irrelevância (quaisquer que sejam elas). O teísta ainda pode tentar enfiar seu deus em alguma dessas mutações aleatórias (mas não em todas) se ele quiser.

Nada disso, claro, é um argumento realmente a favor do evolucionismo teísta: afirmar que deus fez X ou Y durante a evolução ainda continua sendo um argumento de ignorância similar aos proponentes do Design Inteligente (e para esse ponto, volto a indicar o post do Giuliano). O que Sober está fazendo é apenas apontar como Evolução e intervencionismo divino são compatíveis. As evidências para isso ainda são zero.

Peixes cegos, Elliott Sober e "A Farsa da Evolução Teísta"

Quem me conhece sabe que considero a noção de “Evolução Teísta” uma grandessissima bobagem.

A alcunha “evolução teísta” foi popularizado pela Eugene Scott (uma agnóstica até onde sei) da NCSE, uma instituição voltada para a defesa de ciência, especificamente evolução e aquecimento global, por serem ideias as científicas mais politicamente atacadas por motivos ideológicos e religiosos. Em seu artigo, Eugene coloca que evolução teísta seria:

“(…) a posição teológica na qual Deus cria através das leis da natureza”

o que estaria em claro contraste com a evolução ateia (sic) ou puramente materialista, que não contaria com nenhuma intervenção divina. Agora, como essa noção de compatibilização entre evolução e teísmo é possível não foi abordado por Scott. Seu único objetivo é fazer com que o máximo de pessoas aceitem em entendam evolução, mesmo que isso se dê através de aceitação de alguma noção idiossincrática. E eu não tenho nenhum problema com isso: é um motivo nobre, defendido também por instituições religiosas como o Biologos do Dr. Francis Collins. O meu problema começa quando eu vejo os argumentos que defendem essa compatibilidade, e noto que eles são completas bobagens. Por exemplo, o teólogo e bioquímico Alister McGrath, ao discutir a posição de Santo Agostinho sobre o Gênesis, afirma que

“Para Agostinho, Deus trouxe tudo à existência, em um único momento de criação. No entanto, a ordem criada não é estática. Deus dotou-a com a capacidade de se desenvolver. Agostinho usa a imagem de uma semente adormecida para ajudar seus leitores compreender este ponto. Deus cria sementes, que irão crescer e se desenvolver no tempo certo. Usando uma linguagem mais técnica, Agostinho pede a seus leitores para pensar na ordem criada como contendo causalidades divinamente embutidas que surgem ou evoluem em um estágio posterior.”

Como isso é uma posição sobre “evolução” (fala sobre origem do universo) e teísmo (tá mais para deísmo), me foge completamente! Agora, meu desprezo mais profundo por essa concepção vem da premissa implícita de que existe alguma distinção entre a teoria evolutiva moderna, como aceita por um materialista, e a teoria evolutiva como aceita por um teísta. Porque se existe, um dos dois está errado. E adivinha qual é a teoria aceita pela comunidade científica e quantas vezes ela se vale de um deus teísta?

Giuliano Thomazini Casagrande

Talvez motivado por um similar desprezo, Giuliano Thomazini Casagrande, do blog “Materialismo-Filosofia”, publicou um fantástico post intitulado “A Farsa da Evolução Teísta”, no qual ele ataca de forma voraz a idéia. Sugiro a leitura. O Giuliano tem uma erudição impressionante e uma língua ferina que não poupa ninguém:

O exemplo da produção de variedades domésticas é bastante esclarecedor. As mutações aleatórias fornecem aos criadores de plantas e de animais a matéria bruta para a elaboração de uma imensa variedade de novas linhagens. O método utilizado – de forma consciente ou inconsciente – pelos criadores é a seleção cumulativa, durante sucessivas gerações, de ligeiros desvios anatômicos ou comportamentais de natureza hereditária. Ora, as mutações que surgem aleatoriamente nada têm de milagrosas: um focinho um pouco mais curto, uma pelagem mais densa, um temperamento mais dócil, flores mais vistosas etc. A prática dos cruzamentos seletivos, ao longo de séculos ou de milênios, permitiu aos criadores, por exemplo, a transformação do lobo (Canis lupus) em centenas de raças caninas tão diferentes quanto o chihuahua, o são-bernardo e o buldogue. Quanto à maioria das plantas domesticadas, um leigo não faz ideia das diferenças que as separam de suas ancestrais selvagens. Em poucos séculos, os horticultores obtiveram, por exemplo, variedades como o repolho doméstico, o brócolis, a couve-flor e a couve-de-bruxelas a partir de um único ancestral, o repolho selvagem (Brassica oleracea); e somente um idiota diria que essas variedades foram produzidas por Deus.

Darwin observou que, em estado natural, as pressões ambientais desempenham o papel dos criadores humanos. No notório caso das Ilhas Galápagos, prosperaram as mutações aleatórias que conferiam aos tentilhões (migrados do continente sul-americano) um incremento adaptativo a condições de vida distintas: bicos de diversos tamanhos e formatos, úteis para as dietas mais variadas.

De modo análogo, peixes não relacionados de diferentes regiões do globo são isolados em cavernas e apresentam as mesmas respostas adaptativas (evolução convergente): uma progressiva atrofia do aparato visual, por exemplo. O cenário proposto pelos acomodacionistas é ridículo. A cada vez que uma população de peixes fosse isolada num ambiente trevoso, um designer inteligente operaria uma sequência correspondente de mutações que resultaria na redução do aparato visual. Com a mesma razão um teólogo poderia afirmar que Deus está por trás de um fenômeno como a deriva continental. Na Antiguidade, relâmpagos e trovões eram atribuídos a Zeus, e terremotos, à fúria de Posídon. Isso faz pensar que o discurso “sofisticado” de um Plantinga não passa de superstição ancestral apresentada sob a cobertura de ouropel de um jargão acadêmico embolado.

ouch!

Mas, claro, nenhum evolucionista teísta de fato liga para espécies insulares, ou para raças de cachorro, repolhos ou peixes cegos. O que importa somos nós -seres bípedes, de telencefalo desenvolvido- e como nos encaixamos no plano divino, qualquer que seja ele. Mas para alcançar o status da evolução materialista, a evolução teísta tem que tratar também desses fenômenos. E quando fazemos isso, evidenciamos a futilidade da empreitada.

Agora, eu acho que o Giuliano deu pouca atenção para o que eu considero talvez o melhor argumento “evolucionista teísta” que, não coincidentemente, é o que parece estar menos presente na cabeça dos advogados dessa ideia. Queria também explorar um pouco mais o exemplo sobre peixes cegos, um assunto que considero fascinante.

Visto que isso ficaria longo demais para um único post eu dividi o assunto em 2 posts a serem colocados a seguir, um tratando sobre peixes de cavernas e outro sobre as visões de Elliott Sober sobre essa questão. Ambos podem ser tomados como posts independentes sobre esses assuntos.

1o Post: Devolvendo a visão aos cegos, Mendel-style!

2o Post: O melhor argumento para o “Evolucionismo Teista”

Seleção natural não é uma tautologia

Ann Coulter, o sonho molhado de todo conservador Norte-Americano.
É a da direita, eu suponho…

Um dos argumentos que considero mais irritante utilizado por detratores da síntese evolutiva moderna é que a a seleção natural seria uma tautologia. Tal argumento foi colocado pela “pensadora” conservadora norte-americana Ann Coulter em seu livro “Godless: The Church of Liberalism” da seguinte forma:

A segunda parte da “teoria” de Darwin é geralmente nada mais do que um argumento circular: Através do processo de seleção natural, o mais “apto” sobrevive. Quem é o mais “apto”? O que sobrevive! Oras, veja – acontece toda vez! A “sobrevivência do mais apto” seria uma piada, se não fosse parte de um sistema de crença de um culto fanático infestando a Comunidade Científica. A beleza de ter uma teoria cientifica que é uma tautologia, é que ela não pode ser testada.

É interessante notar que quem se vale desse argumento, não nega a existência da seleção natural, pelo contrário: afirma a sua existência como uma verdade inescapável. Quanto falamos de uma tautologia, estamos falando de uma proposição, a qual assume a seguinte forma:

A apresenta as propriedades de A

Por trás da circularidade e obviedade da preposição, está o fato de que uma tautologia é uma verdade necessária. Afirmar que “A não apresenta as propriedades de A” significaria dizer que existe alguma propriedade de A que não é propriedade de A, ou que A não apresenta todas as propriedades de A, sendo que ambas são absurdos lógicos. Em nenhum caso tal afirmação (ou qualquer outra tautologia) pode ser falsa sem simplesmente fazer uma contradição que fere as leis da lógica (o que as tornam logicamente necessárias). Então, nesse ponto, Coulter está correta: uma tautologia não pode ser falseada, pois ela é uma necessidade lógica. Mas seria a teoria da seleção natural uma tautologia de fato?

“Sobrevivência do mais apto”

Uma das primeiras coisas que devemos notar é que “sobrevivência do mais apto” não é exatamente uma das descrições mais adequadas da Seleção Natural. Mas em primeiro lugar, temos que deixar bem claro um conceito que é comumente confundido, que é o de “aptidão”, “aptidão darwiniana” ou “fitness” em inglês.

A aptidão, em biologia evolutiva, é definida como a contribuição média de um genótipo para o pool gênico da geração seguinte. Por exemplo, se tenho uma bactéria (haplóide) com um dado genótipo que apresenta fitness=1.47, então a presença do genótipo na geração seguinte será 47% maior do que na geração anterior. Se o fitness=0.91, então aquele gene terá uma presença 9% menor na geração seguinte e por ai vai.

Note que em nenhum momento precisamos falar de sobrevivência. Afinal, o que seria “sobrevivência” no caso de bactérias que simplesmente se dividem? Faz algum sentido falar que a bactéria da esquerda é a que “sobreviveu”, e não a da direita?

Uma historia de amor melhor que Titanic

O ponto é que um organismo não precisa morrer para ter um fitness baixo. Um organismo pode muito bem ter uma baixa fecundidade, sem nunca precisar “deixar de sobreviver” ou, como no caso das bactérias, sobrevivência é irrelevante visto que todos organismos originais deixam de existir após a reprodução. Outro exemplo são algumas espécies de salmão e polvos, que morrem após o acasalamento, louva-deuses e aranhas que consomem os seus machos, ou ainda algumas espécies de ácaros que explodem ao dar luz aos filhotes. Aptidão não tem a ver com sobrevivência.

– Tira esse hectocótilo daí, João!
Esse papo de sexo vai acabar nos matando…

Então, fica bem claro que “sobrevivência do mais apto” não é uma tautologia, pelo simples fato de que “sobrevivência” não é estritamente igual (apesar de poder influenciar) “aptidão”.

Isso tudo é apenas para demonstrar que o argumento original utilizado está errado. Porém os mais rápidos vão notar que isso não refuta a proposição de que “seleção natural é uma tautologia”: apesar do argumento dos detratores/criacionistas estar equivocado, ainda poderíamos transformar a proposição original em algo próximo a o que seleção natural realmente significa, produzindo assim uma tautologia. Mas como seria isso?
Aptidão como taxa
Se “sobrevivência do mais apto” está equivocado, então como poderíamos frasear a ideia original da melhor maneira possível?

Sobrevivência do melhor sobrevivênte“?

É claramente uma tautologia, uma verdade trivial, mas não parece ser exatamente o que temos em mente quando pensamos em “seleção natural”. Poderíamos pensar em algo na linha de

Capacidade superior de contribuir para o pool gênico da geração seguinte do genótipo (ou fenótipo) mais apto

Bom, essa parece mais próxima da ideia original, mas ela dificilmente é uma tautologia. O motivo é muito simples: ela é falsa. Isso pode ser ilustrado facilmente com uma analogia: a adaptação é uma taxa de variação da frequência de alelos, assim como aceleração é a taxa de variação da velocidade. Se fossemos formular uma proposição análoga para aceleração, teríamos algo similar à

A maior velocidade do que mais acelera

Isso é falso pelo simples motivo de que o que mais acelera pode ser o mais devagar, enquanto o mais rápido pode acelerar menos, mas manter uma velocidade superior pelo simples fato de inicialmente já apresentar uma velocidade superior.
O gráfico abaixo ilustra isso para uma população de organismos haplóides que apresentam dois genótipos, sendo que A2 apresenta uma aptidão duas vezes maior do que A1. q’ é a frequência genotípica após a seleção e q1 é a frequência genotípica de A1 antes da seleção (sendo que a frequência de A2 fica definida como 1-q1).
Assim, fica fácil verificar que, mesmo A2 tendo uma aptidão duas vezes maior, ele não consegue ser o maior contribuidor para o pool gênico na geração seguinte quando sua frequência inicial é muito baixa (ou quando a frequência de A1 é muito alta, no canto direito do gráfico). Moral da historia: aptidão sozinha não determina sucesso evolutivo na geração seguinte.

Um detrator mais perseverante pode argumentar que, se dermos tempo o suficiente (em outras palavras, um numero muito grande de eventos de seleção ou gerações), o genótipo mais apto irá se fixar, não importando sua frequência original, e ele estaria certo ao dizer isso. Mas note que a premissa “dado muito tempo” precisa ser introduzida para que torne a afirmação verdadeira. Essa premissa pode tanto ser ou não verdadeira (da mesma forma que carros e trens não aceleram indefinidamente), o que torna a proposição condicional, não uma verdade necessária e, logo, a proposição não é uma tautologia.

Mas isso tudo gera um impasse. Todas as proposições – tanto as originais, tanto as que tentam se aproximar do significado verdadeiro dos termos no contexto da síntese evolutiva – se mostraram falsas. Seria possível elaborar uma proposição que seja precisa (represente a ideia da seleção natural) e que seja colocada de forma lógica?

Seleção natural como silogismo

Em primeiro lugar, devemos entender como seleção natural ocorre. Não, não estou falando apenas daquele velho e batido exemplo do passarinho comendo os besouros que são mais chamativos, mudando assim a composição da população:

-Na verdade eu enxergo todos os besouros, mas meu médico disse que uma refeição colorida é uma refeição divertida

Esse é um ótimo exemplo para mostrar como seleção natural pode levar à evolução de um fenotipo de forma direcional (existem mais besouros marrons no final do que no começo), mas existem sistemas mais complexos de seleção que não levam a uma mudança nesse sentido. O exemplo mais claro é o da interação da anemia falciforme e malaria, no qual são mantidos indivíduos com genótipo não-letal da anemia na população. Não há mudança, mas há seleção.
Então, como poderíamos definir seleção natural? Na introdução do Origem das Espécies, Darwin resume brevemente como seria o mecanismo:

Como nascem muitos mais indivíduos de cada espécie, que não podem subsistir; como, por conseqüência, a luta pela existência se renova a cada instante, segue-se que todo o ser que varia, ainda que pouco, de maneira a tornarse-lhe aproveitável tal variação, tem maior probabilidade de sobreviver, este ser é também objeto de uma seleção natural. Em virtude do princípio tão poderoso da hereditariedade, toda a variedade objeto da seleção tenderá a propagar a sua nova forma modificada.

Nesse resumo, ele coloca os 3 principais componentes necessários para que ocorra seleção natural (que eu gentilmente sublinhei, para seu conforto): variação em uma caracteristica, diferenças de aptidão (ele fala de sobrevivencia, mas sabemos que isso não é a única variável) ligadas a variação nessa característica, e hereditariedade dessa característica.

Note que, se uma população apresenta variação em uma característica, mas essa não apresenta nenhuma ligação com aptidão, então a “seleção” de organismos é completamente aleatória em relação a aquele caractere (não sendo seleção natural). Agora, se o caractere é ligado com aptidão, mas não é herdado, então mesmo que organismos com uma dada característica seja selecionada, ele não vai passar tal característica para a geração seguinte. Esses componentes são necessários (todos precisam estar presentes) e suficientes (nenhum outro componente precisa estar presente) para que ocorra seleção natural, apesar de outros fatores influenciarem a dinâmica de seleção.

Sendo assim, podemos definir seleção da seguinte forma:

[P1.] Existe variação entre indivíduos para uma dada característica;
[P2.] Tal variação está ligada entre progenitores e prole através de uma relação de herança, e que seja parcialmente independente dos efeitos ambientais;
[P3.] Existe uma correlação dessa característica com a habilidade reprodutiva, fertilidade, fecundidade e/ou sobrevivência (ou seja, diferenças em aptidão);

Se tais condições são satisfeitas para uma dada população natural, então:

[C1.] Diferenças na frequência das características ligadas à aptidão na geração subsequente vai ser serão diferente daquela vista nas populações parentais.

(Modificado de Lewontin, 1970, 1982; e Endler, 1986)

Se as premissas são corretas, então a conclusão segue logicamente. Isso torna a seleção natural, expressa dessa forma, um silogismo, ou uma conclusão dependente das premissas estabelecidas, e não uma tautologia.

Note que para testar cientificamente (no caso, falsear) a hipótese de que uma população está sob seleção natural, um pesquisador pode testar qualquer uma dessas proposições. Afinal, se C1 é falso, então obviamente a população não está sob seleção, mas isso não implica necessariamente que a população está sendo selecionada: uma mudança ambiental pode estar influenciando aspectos dessas características diretamente nos indivíduos, como pele morena em quem toma muito sol. Se os filhos tomam mais sol, eles terão a pele mais escura, sem que isso seja seleção natural. Por esse motivo, é necessário averiguar o quão herdável é uma característica (P2) e se a variação (P1) está ligada a aptidão (P3). De forma geral, é isso que os estudantes de seleção natural fazem, e é a síntese evolutiva moderna que proporciona o arcabouço matemático que nos permite gerar previsões teóricas de como um caractere deve se comportar sob o efeito de seleção (dado que ele apresenta algum tipo de herança mendeliana).

Então… da próxima vez que alguém dizer que evolução é uma tautologia, você pode dizer: “Não, não é. É um silogismo Quod erat demonstrandum, bitches!”.

Referencias

Lewontin, R. (1970). The Units of Selection Annual Review of Ecology and Systematics, 1 (1), 1-18 DOI: 10.1146/annurev.es.01.110170.000245

Evolução não é um fato. Parte 1: Parentescos

Então, tanto Dawkins quanto Gould parecem acreditar que evolução, além de ser uma teoria, é um fato, e que um bom exemplo desse fato são nossas relações de parentesco e ancestralidade com outros primatas.

Ok, então evolução é um fato. Mas, o que é um fato?

Fatos podem ser entendidos como aquilo que torna uma afirmação verdadeira, e se relaciona de alguma alguma forma a algum aspecto da realidade. Por exemplo, quando afirmo que “Elefantes possuem trombas”, tal afirmação apenas é verdadeira, se elefantes apresentam um nariz modificado em um apêndice longo, o qual chamamos de “tromba”.

Então fica a pergunta: qual é exatamente o fato “evolução”, e a qual afirmação que ela se refere? Muitas vezes não está exatamente claro o que o fato “evolução” exatamente é. No caso da passagem do Gould e do Dawkins, o que é chamado de “fato” são as relações de parentesco entre humanos e chimpanzés, enquanto a Teoria Evolutiva seria o que explica como tais grupos se diferenciaram e quais forças evolutivas atuaram para diferencia-los (ex: seleção natural, deriva genética, etc). A principio parece tudo OK do ponto de vista científico, pois temos um fato que é tentativamente explicado por um modelo teórico (uma teoria). Porém, quando tentamos elaborar uma afirmação verdadeira que faz referência ao fato da ancestralidade comum entre chimpanzés e humanos, encontramos um problema: qual é o fato que torna “chimpanzés e humanos são parentes” uma afirmação verdadeira?

O primeiro a abordar essa questão de maneira sistemática foi Carl Linnaeus, o cara que inaugurou o esforço moderno de classificação da biodiversidade. Avaliando as características de humanos e outros animais, Linnaeus chegou a conclusão de que humanos pertencem à mesma classe de animais que os grandes primatas sem rabo. Desde então, os avanços da biologia molecular tem reforçado a idéia de que humanos são intimamente relacionados com os grandes primatas, especificamente, os chimpanzés.

Porém a questão aqui se complica. A área acadêmica que estuda as relações de parentesco entre espécies   (a sistemática filogenética) não é um mero exercício de diagnose de fatos*: existem diversas linhas concorrentes que disputam qual seria a melhor maneira (se é que ela existe) de se reconstruir as relações de parentesco entre as espécies, sendo que algumas delas (ou todas elas) partem de premissas biológicas explicitamente evolutivas. Em outras palavras, se a relação de parentesco entre humanos e chimpanzés é um “fato”, tal “fato” é fortemente dependente de premissas teóricas.

E não apenas isso: as relações observadas estão longe de ser inequívocas.

Recentemente Grehan & Schwartz (2009) publicaram uma análise que, ao contrário da maioria dos trabalhos atuais, colocava humanos como parentes mais próximos de Orangotangos, e não de Chimpanzés. A conclusão é claramente um absurdo pois viola quase tudo o que sabemos sobre a genética dessas espécies. Porém os autores foram cuidadosos o suficiente para fazer um arranjo metodológico tão fechado, que a conclusão das analises era inequívoca, e a publicação do trabalho não poderia ser recusada, mesmo que violasse o que toda a comunidade científica acreditava sobre o assunto.

Isso mostra duas coisas. Primeiro – e isso é uma digressão – que o mimimi de criacionistas e proponentes de Design Inteligente (um famoso exemplinho aqui) de que são incapazes de publicar em periódicos científicos por causa do lobby materialista é pura bobagem. Trabalhos bem feitos, honestos e rigorosos podem sim ser publicados, independente das ideologias ou opiniões de revisores. Criacionistas não conseguem publicar simplesmente por serem incompetentes, ou porque não sabem/querem fazer ciência. Fim da digressão.

O segundo ponto, voltando ao assunto, é que tal reconhecimento de “fatos” (e.g. o “fato” do parentesco entre chimpanzés, humanos e lesmas) está longe de ser a prova de falhas e inequívoco, precisamente porque tal parentesco não é fato, mas uma hipótese. E se alguem continuar insistindo que as relações de parentesco são fatos, pergunte: quais são os fatos que tornam essa afirmação verdadeira. Aposto que rapidamente serão mencionadas montanhas de dados, desde evidência morfológica, registro fóssil e dados moleculares (aqui para uma lista simplificada). Mas nenhum desses fatos (e aqui são fatos mesmo) é o grau de parentesco (ou “evolução”, como usado por Gould e Dawkins), mas sim eles sustentam uma dada hipótese de parentesco.

Nada disso é controverso. Pesquisadores da área não se referem às relações de parentescos como fatos, mas sim como hipóteses, mais especificamente, hipóteses filogenéticas. Tais hipóteses são constantemente modificadas e refinadas, muitas vezes sendo radicalmente reformuladas pela descoberta de uma nova fonte de dados moleculares ou fósseis, por exemplo. E o ponto é: isso acontece exatamente porque relações de parentescos entre espécies não são fatos, mas sim conclusões dependente de teorias e de fatos. O acumulo de evidências que contrarie um certo cenário evolutivo pode derrubar tal cenário em favor de outro, como acontece com qualquer hipótese científica.

Resumindo: dizer que parentesco entre espécies é um fato é cometer uma falácia de equivocação, chamando uma hipótese (filogenética) de fato.

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* Existem sim pesquisadores que acreditam que sistemática filogenética é apenas isso, mas isso é outra discussão.

Referência Grehan, J., & Schwartz, J. (2009). Evolution of the second orangutan: phylogeny and biogeography of hominid origins Journal of Biogeography, 36 (10), 1823-1844 DOI: 10.1111/j.1365-2699.2009.02141.x

Evolução não é um fato. Preâmbulo

Certo dia eu me deparei com o seguinte tweet do Dawkins:

Nós não vamos explicar “teoria” a eles, então vamos parar de tentar. Evolução é um FATO. É um FATO que somos primos de lesmas e chimpanzés.

Após ler isso, me lembrei imediatamente de um post no Bule Voador, no qual o autor citava* Gould:

“[…] a evolução é uma teoria. Mas também é um fato. E fatos e teorias são coisas diferentes, e não estágios de hierarquia de certeza crescente. Fatos são dados do mundo. E teorias são as estruturas de ideias que explicam e interpretam os fatos. Os fatos não desaparecem enquanto os cientistas debatem teorias rivais que tentam explicá-los. A teoria gravitacional de Einstein substituiu a de Newton, mas as maçãs não ficaram pairando no ar, à espera da definição. E os seres humanos evoluíram a partir de ancestrais parecidos com símios, quer através do mecanismo proposto por Darwin, quer através de qualquer outro ainda por descobrir”

Então, tanto Gould quanto Dawkins acreditam que evolução, além de ser uma teoria, é um fato. Obviamente Gould e Dawkins não estão sozinhos em afirmar isso. Como fui lembrado por um post do I Fucking Love Science no Facebook, Donald Johnson, o descobridor do australopitecínio mais famoso da história, Lucy, afirmou que:

“Eu não ‘acredito’ em evolução tanto quanto não ‘acredito’ em gravidade. É um fato”

Tal visão não é única apenas no discurso popular de pesquisadores. Barnosky e Kraatz (2007) igualmente afirmam que

“Apesar de toda a discussão a respeito de semantica, evolução é um fato”.

Isso me deixa em uma situação complicada pois, diferente de grandes biólogos como Dawkins e Gould, eu não acredito que evolução seja um fato. Não apenas isso, acredito que dizer que ela é um fato é, ou retórica vazia, ou denota um desentendimento de como estudamos evolução. Por esses motivos, nos próximos posts dessa série eu tentarei abordar brevemente as principais colocações sobre o assunto, colocando o porque de eu acreditar que elas estão erradas.

Os links ficarão disponíveis a medida que os posts estiverem prontos.

1a Parte: Relações de Parentesco
2a Parte: Registro Fóssil
3a Parte: Dinâmicas Populacionais
4a Parte: Seleção Natural

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* Apesar dessa passagem ser uma citação Ipsis Litteris de um artigo do Gould, ela não está destacada como tal no texto do Bule. Na verdade, esse mesmo post está recheado de passagens similares, que foram citadas na integra, porém não foram referenciadas como tal. Tentei deixar um comentário no post apontando isso, mas ele me parece bloqueado para comentários no momento. Achei que era relevante apontar isso em algum momento.

Cotas e Discriminação Estatística

Como havia comentado anteriormente, aqui vai um dos minhas muitas opiniões sobre o assunto de cotas raciais e sociais. Minha opinião sobre o assunto já havia mencionada brevemente no guest post do Rony, mas ela não tem muito a ver sobre o assunto que vou expor abaixo.

No post a seguir, meu objetivo é delimitar a metodologia ética baseada em discriminação estatística de Maitzen (1991) e analizar se cotas raciais ou sociais são ou não são éticas. Para frustração de alguns, não entrarei no mérito de se o princípio por trás das cotas é válido (eu acredito que sim, e posso retornar nesse assunto no futuro se achar necessário).

Discriminação estatística

Discriminação estatística refere-se à prática de se valer de características observáveis para extrapolar características não-observáveis que são de interesse para uma dada tomada de decisões.

Por exemplo, quando vamos à feira e apertamos as frutas, não estamos realmente interessados na consistência da fruta (pelo menos não na maioria dos casos). O que estamos normalmente fazendo é nos valendo de uma informação que está disponível (a consistência da fruta), para estimar alguma variável oculta, no caso, se a fruta está madura, verde ou podre. Nesse exemplo, estamos baseando nossa tomada de decisão (comprar ou não a fruta) em uma correlação imperfeita (nem toda fruta dura está verde, assim como frutas podres podem ter uma consistência “boa”), porém que temos como boa o suficiente para a maior parte dos casos. A prática é chamada de “discriminação” pois está relacionado ao ato de diferenciar coisas, e é “estatística” por ser baseada em inferências estatísticas (correlações) sobre tais variáveis de interesse.

Em economia, discriminação estatística normalmente se refere a teorias sobre desigualdade entre gêneros ou etnias decorrente de incompetência dos empregadores em estimar corretamente a capacidade dos empregados, normalmente se valendo de algum tipo de estereótipo. Se todos acreditam que índios são de fato mais preguiçosos, é bem provável que seus empregadores paguem menos a eles. Igualmente, se “mulheres não são boas com números”, elas vão ser consideradas menos capazes e, consequentemente, serão pior remuneradas para realizar trabalhos que envolvem contabilidade, ou engenharia.

Nem todo caso de discriminação estatística é necessariamente danosa: o Estatuto da Criança e do Adolescente assume implicitamente que crianças são indivíduos em formação mental, física e moral, e institucionalizam normas que asseguram que tal desenvolvimento não será prejudicado. Obviamente, isso não é verdade para muitas crianças e adolescentes, mas de modo geral não vemos a aplicação universal do estatuto como injusto.

É importante reconhecer que existem dois aspectos essenciais durante qualquer discriminação estatística. A primeira é o benefício (ou utilidade) que vai se obter com a identificação correta do que é o melhor naquele caso, seja “o melhor” comprar uma fruta madura ou recompensar justamente um profissional (para o manter na empresa, por exemplo). O segundo aspecto é referente ao custo da obtenção de informação a respeito do que de fato queremos medir. Se o empregador é capaz de avaliar quantas vendas foram feitas por cada empregado, e quanto lucro cada um gerou, o seu sexo ou cor de pele é irrelevante para a tomada de decisão (assumindo que o empregador é racional). Porém, se a medida de competência é difícil de se obter, ela pode gerar um custo, o que força o tomador de decisões a pagar esse custo para obter a melhor informação possível para sua decisão, ou se basear em informações (e correlações) imperfeitas, correndo o risco de falsamente recompensar um empregado incompetente ou não reconhecer um empregado valioso.

De forma geral parece sempre pouco razoável assumirmos que temos, no presente momento, informação perfeita sobre qualquer situação que precisamos tomar uma decisão. Sendo assim, quase todas nossas decisões se baseiam em informações (e correlações) imperfeitas. Isso, porém, não significa que seria impossível elevar esse nível de informação mediante a um custo: poderíamos, por exemplo, realizar uma inspeção psicológica e médica em toda criança para investigar qual é o seu grau de desenvolvimento físico, mental e moral, para avaliar se elas ainda podem ser protegidas sob o Estatuto da Criança e do Adolescente. A questão então é: vale a pena pagar o custo pelos benefícios que serão recebidos?

Essa relação entre custo e benefício pode ser entendida como uma função simples:


Figura 1a de Maitzen (1991) modificada.



Onde x é o custo do aumento da informação, e y é o ganho (ou utilidade) que tal informação extra irá nos dar, e r é o valor máximo de ganho que podemos obter, que teoricamente pode nunca ser alcançado (em outras palavras, r é o valor assintótico da função). Visto que sempre é possível aumentar x, precisamos avaliar qual é o valor que nos dá o melhor ganho relativo, e a partir de qual ponto teremos prejuízo se continuarmos investindo (aumentando x). Tal valor é dado pelo ponto E, que é quando a vantagem ganha pelo aumento de informação é igual ao custo pelo aumento de informação (ou seja, onde a tangente da reta é igual a 1). A partir daquele ponto, estaremos investindo muito mais e ganhando proporcionalmente pouco. Analogamente, antes desse ponto, qualquer investimento resulta em ganhos maiores do que o investimento, ou seja, lucro. Assim, apenas vale a pena se valer de discriminação estatística se o aumento do custo do refinamento da informação causa lucro, e não prejuizo.

Tais custos e benefícios não precisam ser entendidos apenas como financeiros (apesar de ser mais prático pensar assim), mas também como sociais. Assim, teríamos que existem custos sociais (financeiros incluso) de se aumentar a informação e benefícios sociais que seriam ganhos em decorrência dessa informações. De um ponto de vista utilitatista, essa seria uma base ética para julgar a validade de políticas públicas baseadas em discriminação estatística. Uma política publica baseada em correlações imperfeitas só seria justa se ela não causa déficit social ou se fosse possível ter um grande ganho social com um pequeno investimento social em obtenção de informações. 

E o que isso tudo tem a ver com cotas universitárias, afinal?

Cotas são ferramentas que suprem diversas expectativas e necessidades ao mesmo tempo. Por exemplo, se cotas são implementadas apenas para aumentar a proporção de certas etnias ou grupos sociais dentro da universidade, então não há discriminação estatística, pois não há uma premissa oculta de que tal etnia é (em média) mais ou menos capacitada. Tais considerações são irrelevantes, se a única preocupação é elevar a diversidade dentro da universidade, ou a participação social de segmentos excluídos. Cotas, como meio de engenharia social, não são foco de críticas ou análises no sentido de discriminação estatística. Porém, quando falamos de equiparação histórica ou de oferecer oportunidades mais justas (que são os argumentos que escuto mais comumente), estamos necessariamente falando de discriminação estatística.


O presente projeto de lei PLC180 estipula que 50% das vagas das universidades estatuais serão destinadas à vestibulandos provenientes de escolas públicas, sendo que metade dessas vagas serão ofertadas para os que tiverem renda inferior à 1,5 salários mínimos, e todas elas serão distribuídas de forma equitativa no quesito racial, obedecendo a proporção racial observada em uma dada unidade federativa (nota: a PLC180 não é perfeita, inclusive no quesito equitatividade racial, mas deixo isso para um possível futuro post). Tanto o critério racial, quanto o de renda podem ambos ser encarados como casos de estimulo à inclusão social: no caso da questão racial é mais obvio, pois o texto especifica explicitamente que o número deve obedecer a proporção na população. Já na questão de renda, apesar de não explicitado, aproximadamente metade da população pode ser enquadrada nessa categoria, o que significa que esse critério também procuraria equitatividade social.

Quanto a tais características serem bons indicativos de capacidade reduzida de performance acadêmica, acredito que o quesito de baixa renda não seja foco de duvidas. Mas seria a questão racial um bom critério? Ao meu ver sim. Recentes dados do IBGE revelam que existe uma desigualdade social na distribuição de renda em diferentes etnias ou grupos raciais.


Exemplo da distribuição de renda per capta (em salários mínimos) por diferentes etnias no Sudeste do Brasil.


Muito tem-se argumentado sobre a imperfeição da auto-identificação para a definição de raça, e estudos genéticos sobre a hereditariedade de diversas pessoas são levantadas como sendo evidência de correlação imperfeita entre raça auto-proclamada e a história genealógica do indivíduo. Porém, do ponto de vista que coloquei acima, tal investigação não é justificada, pois aceitamos a informação imperfeita por consideramos que os custos para a elevação da informação não compensa o ganho social que será obtido. Um motivo para isso é que não é a composição genética do indivíduo que se correlaciona com o fenômenos que queremos observar (defasagem acadêmica), mas a percepção social de grupos étnicos, algo que auto-percepção parece ser muito mais eficiente em avaliar (ou talvez seja a única forma de se avaliar isso).

Um argumento comum contra a auto-identificação é que pessoas podem mentir durante a realização de vestibulares e outros concursos, o que é verdade. Por esse motivo, qualquer implementação de cota racial que parta deste princípio deve ter agregado um custo da vigilância para possíveis mentirosos, e possivelmente a aprovação de leis que punam os transgressores. Mentirosos e usurpadores devem ser postos em xeque, e o eventual custo social da vigilância e o da punição devem ser adicionados em nossa avaliação dos benefícios sociais que serão derivados desse tipo de política. Analogamente, se o critério não é auto-identificação, mas caracterização por terceiros, devem existir leis que permitam recorrer a decisões mal-feitas, algo que também deve ser contabilizado.

Mas e o critério relacionado a escola de origem? Em um primeiro momento ela pode ser justificada por ser considerada um bom correlato estatístico com baixa renda ou mesmo raça. Porém nenhum desses argumentos se sustenta, moralmente, pois o custo x para a obtenção da informação necessária é baixíssimo. De fato, ele é tão baixo que ele já é incluído no sistema de cotas, de forma que ele apenas funciona como mecanismo de exclusão, principalmente no caso de indivíduos de baixa renda que não vieram de escolas públicas (bolsistas de escolas particulares, ou mesmo indivíduos sem ensino formal) ou membros de etnias discriminadas que estudaram em escolas particulares (e não me parece haver motivo algum para acreditar que eles não sofreram discriminação e não tiveram seu desenvolvimento acadêmico comprometido em decorrência disso). Nesse ponto, ou acreditamos que a escola pública é um indicativo forte de baixo desempenho acadêmico por si só, à exclusão dos outros dois critérios étnicos e financeiros, ou somos forçados a admitir que tal critério é imoral. Se cursar escola pública leva a um baixo desempenho acadêmico (e provavelmente leva), então o estabelecimento desse tipo de cota está apenas endossando uma falha do próprio estado, não muito diferente da lógica do Progressão Continuada, algo que é dificilmente uma solução para qualquer coisa.

Em suma,

  • Não vejo uma boa justificativa moral para a implementação de cotas “sociais” no sentido de conferir cotas a alunos advindos de escolas públicas, sendo que é possível elevar o nível de informação com um custo social proporcionalmente inferior ao ganho social: este esquema de cotas estaria abaixo do ponto E

  •  cotas raciais e as baseadas em renda me parecem plenamente justificadas, desde que explicitamente destinadas a promover a equitatividade, pois agregam a informação necessária para combater o problema social percebido, estando ambas próximas ao ponto E. Isso não significa que tais cotas são perfeitas, mas que, dada nossa percepção do problema, elas parecem ser uma solução adequada, logo ética.

Fonte:
Maitzen, S (1991). The ethics of statistical discrimination. Social Theory and Practice, 17, 23-45 : 10.5840/soctheorpract199117114

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