A irrelevância terminológica do Homossexualismo



A alguns dias atrás, a primeira página da Folha de São Paulo me chamou muita atenção, por conter a chamada para um editorial de Helio Schwartsman, no qual ele defende os homossexuais e ataca o Pastor Silas Malafaia. Schartsman coloca que o Pr. Malafaia tem a liberdade de colocar a opinião que quiser como pastor, mas quando emite seu parecer como psicologo, tem o dever moral de se ater às evidencias (o que sugere, ao meu ver, que suas opiniões como pastor não seguem nenhuma dessas linhas):

A coisa muda um pouco de figura quando o indivíduo fala na condição de psicólogo ou membro de outra categoria profissional que se apoie, ainda que imperfeitamente, numa ciência. Do mesmo modo que um médico não pode sair por aí dizendo que cura doenças incuráveis, um psicólogo não pode proclamar que possui terapias efetivas contra o que seu ramo de saber nem sequer considera moléstia. Não se pode bater de frente e em público contra os consensos da disciplina. Diversas disposições do Conselho Federal de Psicologia proíbem seus profissionais de “patologizar” o homossexualismo.


Porém, como é vidente, Schartsman usa o termo “homossexualismo” e não “homossexualidade”, o que costuma causar desconforto nos membros do movimento gay. E tanto foi que ele emitiu um novo editorial onde ele defende o uso do termo e rebate as críticas:


Ao contrário do que dizem alguns militantes, simplesmente não é verdade que “-ismo” seja um sufixo que denota patologia. Quem estudou um pouquinho de grego sabe que o elemento “-ismós” (que deu origem ao nosso “-ismo”) pode ser usado para compor palavras abstratas de qualquer categoria: magnetismo, batismo, ciclismo, realismo, dadaísmo, otimismo, relativismo, galicismo, teísmo, cristianismo, anarquismo, aforismo e jornalismo. Pensando bem, esta última talvez encerre algo de mórbido, mas não recomendo que, para purificar a atividade, se adote “jornalidade”.



De fato, a crítica ao uso do termo “homossexualismo”, por esse denotar doença é um tanto descabida, ainda mais que o termo foi usado explicitamente para rebater essa associação absurda.

Isso não significa que outros motivos melhores para negar o termo não tenham sido feitos. Um exemplo é argumentar que homossexualismo não possui o análogo para heterossexualidade, que seria “heterossexualismo”. É um ótimo ponto, mas irrelevante para mim. Meu interesse é debater ideias e conceitos, e não terminologia. Utilizar um termo de maneira incorreta, para mim, significa usar um termo que não reflete o conceito que quero transmitir, e essa não parece ser a briga entre -ismoX-dade.

Por motivo similar, não encho o saco da Sociedade Racionalista porque não sigo o racionalismo, ou da Liga Humanista Secular porque o humanismo é antropocentrista. Sei o que esses grupos querem dizer por “Racionalismo” e “Humanismo” e isso me basta para uma comunicação eficiente de significados.

Em momento algum, antes de ser chamado a atenção sobre esse ponto, usei o termo “homossexualismo” para denotar uma “doença” ou condição que requer cura. A troca do termo para mim foi apenas uma transferencia de significado: nada novo foi aprendido ou revelado, exceto o fato de que pessoas podem se ofender pelo uso do termo que eu originalmente usava, o que me bastou.

Essa ideia de que palavras carregam em si conceitos inalienaveis é “politicamente correta” (no sentido que já utilizei antes) demais para o meu gosto. Mas de forma análoga, não acho que a defesa do uso do termo “homossexualismo” como sendo válida faz sentido. Nessa categoria encaixamos indivíduos como o Pr. Silas Malafaia, que me parece usar o termo para denotar exatamente uma doença (o que é mais do que evidente a partir do seu discurso); e provavelmente para irritar pessoas, como estratégia retórica. O que pode ser chamado, tecnicamente, de “dar uma de cretino”.

Isso tudo não significa que não existem motivos para rejeitar o uso do termo “homossexualismo”. Em uma sociedade plenamente racional, imagino, pessoas reconhecem as limitações linguísticas deles mesmos e dos outros, e batalham para quebrar “barreiras semânticas” para engajar conceitos de forma eficiente.

Porém a falha desse raciocínio é obvia: não vivemos em uma sociedade plenamente racional. Pessoas confundem termos por conceitos, e normalmente recaem no que é chamado de “falácia da equivocação”: usar um termo que pode apresentar dois ou mais significados, intercambiando-os de forma inapropriada. O exemplo mais clássico e desprezível (também usado pelo Pr. Malafaia) é se referir a Teoria da Evolução como “apenas uma teoria” (ver aqui o porque isso está errado). Assim sendo, usar o termo “homossexualidade” ao invés do termo “homossexualismo” pode evitar equívocos de comunicação, como os críticos de Schartsman que, aparentemente incapazes de ler, o criticaram por defender uma posição que ele explicitamente rejeitou.

Então, pelo bem da comunicação, use “homossexualidade”. Não seja preguiçoso.

A Veja falou de papeis de gênero, confundiu com orientação sexual e (quase) ninguém notou

Já deve fazer mais de um mês que tivemos aquele lindo editorial “Parada Gay, cabra e espinafre” do José Roberto Guzzo na Veja sobre homossexualidade que causou tanta revolta e discussão. O editorial foi desconstruído de quase todas as formas possíveis, sendo que a melhor, de longe, foi a produzida pelo deputado Jean Wyllys.
O que poucos notaram, entretanto, é que na semana seguinte desse fiasco a mesma revista produziu uma matéria intitulada “Educados no sexo neutro”. A matéria é tão repulsiva que sugiro um bom anti-ácido antes da sua leitura (ela pode ser lida na integra aqui). Estranhamente, apesar do assunto e enfoque serem afins do da matéria do Guzzo, quase ninguém notou sua existência na época, com exceção talvez da Jaqueline Jesus, uma psicologa que escreveu um post bastante explicativo (e referenciado) sobre o assunto.
A tese central da matéria está explicada na sua chamada:

“Uma corrente pedagógica defende a tese de que meninos e meninas devem ser criados de forma igual. O perigo é confundi-los acerca de sua sexualidade” 

A matéria segue explicando que:

“Segundo esse ponto de vista, não se deve influenciar a criança a adotar comportamentos que sempre foram vistos como típicos de seu sexo. A educação de gênero neutro abriga um objetivo nobre que, para ser alcançado, exige práticas arriscadas. A ideia dos que advogam essa corrente pedagógica é eliminar de uma vez por todas os velhos padrões que põem a mulher como dona de casa e o homem como o macho provedor, a mulher como o ser delicado que atende às vontades masculinas e cuida da prole. A liberdade de escolha para inverter os papéis tradicionais, para quem segue essa corrente, é um exemplo positivo na educação dos filhos.”

Mas como isso pode influenciar negativamente a sexualidade das crianças não é explicado. A matéria, entretanto, dá dois exemplos. O primeiro é referente a filha do casal Angelina Jolie e Brad Pitt:

Shiloh Jolie Pitt- Uma criança que aparentemente não é
mais linda e sexualmente confusa ¬¬
“Eles dizem criar sua filha Shiloh, hoje com 6 anos, dentro das normas da educação de gênero neutro. Angelina já foi vista comprando roupas de menino para Shiloh. Permite que a menina use gravata, sapatos masculinos e cortes de cabelo idem. A atriz costuma se desentender com a sogra, que insiste em presentear a neta com roupas femininas e fantasias de princesa. O resultado é que o lindo bebê que aparecia no colo de Angelina em seu primeiro ano de vida hoje surge nas fotos com a aparência masculinizada.”
Tirando a total repulsa que qualquer ser humano decente deveria sentir depois de ler essa frase, fica a pergunta: como esse exemplo corrobora a afirmação de que educar crianças nessa linha pedagógica “confunde sua sexualidade”? A menina tem 6 anos! Que tipo de sexualidade uma criança dessa idade deveria ter? É isso que os jornalistas da Veja estão advogando agora? Sexualidade em crianças pré-púberes?
O segundo exemplo é mais repulsivo ainda:

“Até hoje a ciência não descobriu se a homossexualidade é inata ou adquirida no meio social, mas já se tem certeza de que toda criança nasce com predisposição a desenvolver características psicológicas do sexo a que pertence. A literatura médica está repleta de casos em que os pais tentaram dar outra orientação sexual aos filhos, com resultados lamentáveis. O caso recente mais conhecido é o do canadense David Reimer. Em 1966, antes de completar 1 ano, Reimer teve o pênis extirpado numa cirurgia de circuncisão desastrada. Seus pais cruzaram os Estados Unidos para consultar o psicólogo Jolin Money, na época considerado uma autoridade em diferenças entre os gêneros. Money aconselhou uma cirurgia de mudança de sexo, com a construção de uma vagina artificial seguida de um bombardeio de hormônios femininos. Na ocasião, Money tentava comprovar a teoria de que não eram as características físicas que determinavam o sexo, e sim a educação dada pela família. Os pais concordaram com a cirurgia e Reimer, rebatizado de Brenda, foi criado como uma menina. Logo se constatou o fracasso da empreitada. Aos 2 anos, Reimer rasgava seus vestidos com raiva. Recusava-se a brincar com bonecas. Mais tarde, na escola, sofria bullying por causa de seus trejeitos masculinos. Seus pais só lhe contaram sobre a cirurgia de mudança de sexo aos 14 anos. Em 2004, aos 38 anos, Reimer se matou.”

Agora, o caso do David Reimer é bastante conhecido e a matéria deixa de fora detalhes bastante convenientes sobre a história. Primeiramente, David tinha um irmão gêmeo Bryan, que não sofreu o mesmo infortúnio que ele. Apesar disso, o Dr. Money forçava os gêmeos a encenarem relações sexuais quando crianças. David afirmou lembrar ter que ficar “de quatro”, com seu irmão por trás dele, forçando sua genitália contra sua bunda. Em outras ocasiões, ele tinha que ficar de barriga para cima, com as pernas abertas, enquanto seu irmão emulava penetrações. Como se não bastasse isso, Bryan desenvolveu esquizofrenia e foi encontrado morto dois anos antes do suicídio de David, em decorrência de uma overdose de antidepressivos. Alguem em sã consciência pode acreditar que isso é um bom exemplo de uma “tese de que meninos e meninas devem ser criados de forma igual“?
David Reimer – atormentado por seu psicologo durante a vida e depois
da morte por idiotas preconceituosos.

A matéria é um festival de lugares-comuns e bobagens heteronormativas. Confundem sexualidade com papel de sexo, sugerem que respeitar a identidade de gênero de crianças é “forçar” algo sobre elas e dão um péssimo exemplo de jornalismo. É uma matéria construída quase que exclusivamente para vender homofobia travestida de preocupação parental. E você pode convencer um pai de qualquer coisa, se ele acredita que o futuro do seu filho está em perigo.

A jornalista que escreveu essa matéria deveria se envergonhar.

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