Caos na fábrica de tijolos – uma parábola sobre a ciência

Há muito tempo atrás, dentre as atividades e ocupações dos homens, estava a atividade chamada de pesquisa cientifica. Na realidade, entretanto, esses homens eram construtores que construíam edifícios chamados “explicações” ou “leis”, através do agrupamento de tijolos, chamados “fatos”. Quando tijolos eram sólidos e agrupados adequadamente, o edifício era útil, durável e trazia prazer, e as vezes recompensas, para o construtor. Se os tijolos eram falhos ou se eles haviam sido agrupados de maneira inadequada, o edifício viria a ruir e e esse tipo de desastre seria bem perigoso para os inocentes usuários do edifício, assim como para o construtor, que muitas vezes era destruído pelo colapso. Visto que a qualidade dos tijolos é tão importante para o sucesso do edifício, e visto que tijolos são tão escassos, nessa época os construtores faziam seus próprios tijolos. A manufatura de tijolos era uma empreitada difícil e custosa e construtores sábios apenas faziam tijolos da forma e tamanho necessários para a empreitada a frente. O construtor era guiado em sua manufatura pela planta do edifício, chamado “teoria” ou “hipótese”.

Com o tempo, os construtores perceberam que eles eram dolorosamente impedidos em seus esforços pelo atraso na obtenção dos tijolos. Assim, veio a existir uma nova ocupação de artesão de tijolos, chamado de  “cientista júnior” para dar ao artesão o orgulho necessário para o seu trabalho. Esse novo arranjo foi deveras eficiente, e a produção de edifícios progrediu com grande vigor. Algumas vezes, artesãos de tijolos se tornavam inspirados e progrediam para o status de construtores. A despeito da separação de tarefas, tijolos ainda eram feitos com cuidado, e usualmente eram produzidos por encomenda. Agora e então um artesão de tijolos empreendedor era capaz de prever a demanda e preparar um estoque de tijolos antes do tempo, mas, em geral, manufatura de tijolos era feita de forma personalizada porque ainda era um processo difícil e custoso.

E então aconteceu de uma equivocação se alastrar pelos artesãos (há alguns que dizem que esse equivoco se desenvolveu como resultado de um treinamento descuidado de uma nova geração de artesãos). Os artesãos se tornaram obcecados pela manufatura de tijolos. Quando lembrados que o objetivo último eram os edifícios, não tijolos, eles respondiam que, se tijolos o suficiente estivessem disponíveis, os construtores seriam capazes de selecionar o que era necessário e ainda assim construir edifícios. A falha nesse argumento não estava prontamente aparente e então, com a ajuda de cidadãos que estavam esperando para usar os edifícios que viriam a ser construídos, coisas fantásticas aconteceram. O custo da manufatura de tijolos se tornou um fator menor porque grandes somas de dinheiro se fizeram disponíveis; o tempo e o esforço envolvidos na manufatura de tijolos foi reduzida por engenhosas maquinas automáticas; a classe de artesãos foi inchada pela intensificação de programas de trenamento e recrutamento. Foi até sugerido que a produção de um numero equivalente de tijolos adequados era equivalente à construção de um edifício e, por isso, deveria permitir um artesão produtivo a assumir o título de construtor e, com o título, a autoridade.

E então aconteceu que a terra foi inundada de tijolos. Se tornou necessário organizar mais e mais armazéns, chamados de “Publicações”, e mais e mais sistemas elaborados de registro e inventario. E no meio disto tudo os artesãos mantiveram seu orgulho e sua perícia e os tijolos eram da melhor qualidade possível. Mas a produção eram muito aquém da demanda e tijolos não eram mais feitos sob encomenda. O tamanho e forma de tijolos era agora ditado por tendências na moda. De forma que, para competir com outros artesãos, a produção enfatizava aqueles tipos de tijolos que eram mais fáceis de serem feitos e apenas raramente um artesão aventureiro tentava uma projeto difícil ou pouco usual. A influência da tradição no método de produção e nos tipos de produto se tornou o fator dominante.

Infelizmente, construtores foram quase totalmente destruídos. Se tornou difícil de achar tijolos adequados para a tarefa porque necessitava a inspeção de tantos outros. Se tornou difícil de achar uma localidade adequada para a construção de um edifício porque o chão estava coberto de tijolos avulsos. Se tornou difícil completar um edifício útil porque, assim que as fundações estavam discerníeis, elas erram enterradas por uma avalanche de tijolos aleatórios. E o mais triste de tudo, algumas vezes nenhum esforço era feito para manter a distinção entre pilha de tijolos e um verdadeiro edifício.

Bernard K. Forscher

Publicado em 1963, na revista Science.

Acho que não preciso dizer mais nada.

Três ótimos (e respeitosos) debates entre Ateus e Teístas.

Eu sempre adorei discussões. Quando entrei na graduação, o ponto alto da minha semana era o Grupo de Discussão de Evolução, um grupo organizado por três veteranos que talvez tenham achado naquele fórum uma válvula de escape para o que eu iria sentir mais tarde na pele: a total ausência de embate entre pontos de vistas conflituosos na academia.

Foi só quando me meti em discussões sobre ateísmo, que descobri a existência de debates acadêmicos, onde os debatedores expõem seus lados em um formato previamente estabelecido. Eu achei isso fantástico: esses debates não apenas permitem uma grande troca e exposição de informação, como também entretêm. Prefiro mil vezes assistir um debate de duas horas do que o novo filme da série “Velozes e Furiosos”.

Agora, um problema de debates entre teístas e ateus é que eles facilmente se tornam acalorados e muitas vezes desrespeitosos, que é algo tira o foco do assunto e entram no caminho da discussão. Um bom debate é aquele que o debatedor interpreta a posição do oponente sob a melhor luz possível e tenta responder à altura. Sem respeito, os debatedores comumente correm o risco de interpretar errado o que seu oponente tem a dizer e responder àa pontos que não foram feitos. E ninguém ganha com isso.

Abaixo linkei três debates entre teístas e ateus que acho particularmente bons nesses aspectos. São ótimas fontes de informação sobre ambos os lados, mostrando que é possível haver confronto sem ofensas. Ao menos não muitas. Infelizmente estão apenas em inglês, e requerem um ouvido acostumado.

Peter Singer vs John Hare – Mamíferos Morais, e porque nós importamos

Debate entre o famoso filósofo Peter Singer (ateu) e o filho do seu mentor, também filósofo, John Hare (teísta). O objetivo desse debate é expor as bases e justificativas para o comportamento ético sob as perspectivas ateia e teísta, respectivamente. O resumo é simples: na visão teísta, Deus justifica tudo e é a base da moralidade. Na visão ateia, não (obviamente), mas é bom notar que muitas das questões éticas respondidas por “Deus” não estão resolvidas numa visão secular. O motivo disso, imagino, é que “Deus” não é resposta para essas perguntas em primeiro lugar.

(Meta)Fisica: Hans Halvorson e Sean Carroll em Caltech

Hans Halvorson, filosofo teísta de Princeton, e Sean Carroll, físico da Caltech, blogueiro e divulgador científico expõem suas visões metafísicas em uma conversa amistosa. A parte que mais me interessa é a discussão que começa em aproximadamente 20min, no qual Carroll responde ao argumento do Ajuste Fino das Contantes do Universo para a existência de Deus. Esse argumento (junto com o Principio Antrópico) sempre me incomodaram muito, pois sugerem que nós sabemos como a vida surgiu. Mas, se soubéssemos isso, criar vida em laboratório de matéria inanimada seria rotina, mas infelizmente ainda estamos anos luz disso. E a resposta de Carroll sugere isso: não sabemos o que é necessário para ter vida e não sabemos o quão provável ela é nesse ou em qualquer outro universo. Halvorson concorda,  admitindo que, apesar de achar que o universo é finamente ajustado, ele acredita que os argumentos para isso são péssimos, sugerindo ainda que usar ciência para sustentar a visão teísta é teologia ruim. E eu concordo 100% com ambos.

Bônus: ambos respondem qual é o maior desafio para sua visão de mundo e são bastante honestos sobre isso.

(In)Acreditável?: Um filosofo ateu e um teísta compartilham suas visões de mundo- Universidade de Cambridge

Esse é um debate bastante interessante, entre o filosofo ateu Arif Ahmed e o Reverendo e professor aposentado Keith Ward. Ward é um idealista, que acredita que a realidade da mente precede a realidade da matéria, e Ahmed defende uma posição empiricista ampla, onde qualquer crença deve ser considerada verdadeira apenas se tivermos evidencias para ela. Apesar desses pontos não serem necessariamente opostos, grande parte do debate se foca na operacionalidade dessa visão de Ahmed, com Ward obviamente discordando. 

Gosto bastante de ambos debatedores. Ward é bastante honesto e aberto sobre suas crenças e sobre como encara a filosofia como uma forma de racionalizar sua visão de mundo (nada diferente de o que um ateu deve fazer, na minha opinião). Ahmed é um pouco confuso, mas bastante lúcido em suas posições, conseguindo dissecar e apontar problemas na visão teísta com precisão, nenhum dos quais negados diretamente por Ward. Vale a pena adicionar que Ahmed também é conhecido como o cara que destruiu Willian Lane Craig em um debate que, infelizmente, não entra nessa lista por motivos óbvios.

Afinal, por que #somostodosmacacos?

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A não ser que você estivesse morando em uma caverna nos últimos dias, você ficou sabendo da controvérsia sobre a campanha #somostodosmacacos, que está bombando nas redes sociais. Afinal, se eu sei e faço doutorado (o mais próximo de uma caverna uma caverna que podemos ter nos dias de hoje), então você sabe.

Mas aqui vai a recapitulação: Daniel Alves, jogador do Barcelona, há temos vem sendo hostilizado pela torcida espanhola, que o chama de “macaco”, uma alusão ao seu tom de pele. No último jogo de seu time, uma banana foi atirada contra Alves, que a pegou e comeu:

Não muito depois disso, o jogador Neymar, seu colega de time, foi ao twitter e ao instagram protestar

Isso acabou resultando em uma campanha maior que motivou muitos outros famosos a postarem fotos deles mesmos comendo bananas sob o hashtag #somostodosmacacos, em protesto ao racismo e em suporte ao Daniel Alves.

Eu confesso que vejo essa campanha como positiva, apesar de alguns protestos. Ela me parece ter uma motivação nobre (independente da sua eficácia) e parece estar tendo grande adesão, apesar de se basear em uma concepção rejeitada por 33% da sociedade brasileira, a teoria evolutiva, o que talvez nos dê possibilidades de elucidar e esclarecer um pouco essas ideias.

Mas mesmo ignorando a massa criacionista e seus “pensadores” que estão fechados, a priori, à argumentação e a evidencias, ainda existem muitas pessoas que não entendem o motivo pelo qual seriamos macacos ou talvez até discordem, argumentando que mesmo que tenhamos descendentes comuns, nós somos diferentes demais para sermos considerados macacos.

Essa, na verdade, é uma resposta frequente dentre evolucionistas contra a afirmações de criacionistas de que eles não descendem de macacos. “Nós não descendemos de macacos. Nós e os macacos temos um ancestral comum”, costumam dizer. Mas essa afirmação é um erro, pois só pode ser proferida tendo em vista uma concepção errada da relação de parentesco entre humanos e outros animais, ou uma concepção errada de como classificamos espécies em biologia.

Mas então, porque somos macacos?

Primeiro temos que entender como classificamos espécies em biologia. O Rodrigo Véras, do Evolucionismo.org já fez um ótimo trabalho em explicar esses conceitos nesse mesmo contexto. Vá até lá para ter uma visão aprofundada de como classificamos organismo em biologia. Mas para entender os conceitos gerais, podemos simplificar da seguinte forma:

  1. Classificamos organismos segundo suas características compartilhadas.
  2. Em um contexto evolutivo, características compartilhadas são explicadas por descendência comum. Organismos com as mesmas caracteristicas as possuem por terem-nas herdado de seus ancestrais.*
  3. Um organismo nunca abandona sua descendência. Uma vez que um organismo é membro de um grupo, todos os seus descendentes também vão ser membros daquele exato grupo.

*Nota aos puristas: sim, isso é uma simplificação.

Esse ultimo ponto pode parecer estranho. Afinal criacionistas vivem dizendo que “evolução é quando um cachorro dá a luz a um gato” ou algo assim, mas isso é uma concepção equivocada. Um cachorro sempre dará luz a um outro cachorro, e nunca a uma outra linhagem existente. E mesmo que esse animal se modifique muito, mesmo assim ele continuará membro daquela linhagem.

De novo, cachorros são ótimos exemplos disso. Abaixo vocês podem ver uma representação gráfica de variação da forma do crânio de cachorros domésticos, em comparação com a variação da forma do crânio de diversos grupos naturais de Carnivoros (a ordem na qual os cachorros estão inseridos).

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Representação esquemática da variação da forma do crânio em Carnivora e em cachorros domésticos. Os esquemas na direita explicam como se dá a variação: eixo x dá a variação de crânios com focinho achatado para o lado negativo e compridos para o lado positivo; o eixo y dá a diferença entre crânios achatados dorso-ventralmente para o lado negativo e altos para o lado positivo. Em verde temos a variação dentro de cachorro e em azul vemos a variação em toda a Ordem Carnivora, exceto cachorros.

Nota-se que sua variação é vastamente superior à vista entre espécies de grupos naturais. Mas em nenhum momento um cachorro, por mais diferente que ele seja, deixou de ser cachorro. Ele sempre é e será cachorro, apesar de agora se inserir em outras categorias hierárquicas, como chihuahua, ou bulldog, etc.

Esses conceitos podem ser vistos na forma de gráficos que representam a história das linhagens, chamadas “árvores filogenéticas”. Essas árvores apresentam o seguinte padrão:

Na figura acima, A e B são ditas espécies “irmãs”, ou seja, que descendem do mesmo ancestral hipotético, representado por “x“. O grupo composto por A e B engloba não apenas essas duas espécies, mas também seu ancestral “x“, que necessariamente irá possuir as mesmas características compartilhadas por A e B. Similarmente, quando olhamos as espécies C, D e E, vemos que elas apresentam um ancestral comum “y” que necessariamente apresenta todas as características compartilhadas por C, D e E. Então se C e D são membros de um grupo, então E também é, pois terá recebido todas as características necessárias para pertencer àquele grupo por descendência de “y“.

Parabéns, Jeff! Agora faça isso para 10 milhões de organismos para 10 milhões anos. Diga para sua familia que você só volta no natal.

Hoje em dia comumente avaliamos essas relações de parentescos baseadas em caracteres compartilhados através de biologia molecular. O principio é o mesmo que o usado em testes de paternidade: se você compartilha metade de seus genes (ou marcadores genéticos) com uma pessoa, você muito provavelmente tem relação de parentesco com ela. O que se faz em biologia evolutiva é a mesma coisa. Só que para populações inteiras. Ao longo de milhões de anos. É…

O resultado de uma dessas análises mais recentes pode ser visto abaixo, em forma de árvore de parentesco:

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Modificado de Perelman e colaboradores (2011).

A seta vermelha indica a posição de nosso gênero Homo, que se insere no grupo Hominidae (incluindo chimpanzés, gorilas e orangotangos), associado ao grupo dos gibões, ou Hylobatidae. Em conjunto, esses grupos são chamados de “apes” ou grandes primatas (ver aqui uma discussão ótima do Eli Vieira, que também tangencia esse mesmo assunto).

Nas caixas vermelhas vemos outros dois grupos: os Platyrrhini, chamados também de “Macacos do Novo-Mundo”, sendo o “Novo-Mundo” as Américas; e os Cercopitecidae, ou  “Macacos do Velho-Mundo”, ou seja da Ásia e da Africa. Agora, se o agrupamento que chamaremos de “macacos” é para ter qualquer sentido biológico, então ele deve englobar tanto os macacos do novo quanto do velho mundo.

Porém isso traz um problema: ao agrupar ambos os grupos de macacos, notamos que o seu ancestral hipotético, que contém todas as características que definem os macacos (sendo ele mesmo um macaco), também é ancestral comum dos grandes-primatas, grupo no qual os humanos estão inseridos. E visto que uma linhagem não pode evoluir “para fora” de sua ancestralidade, então os grandes-primatas, assim como os humanos, descendem do ancestral comum de todos os macacos. Assim, por descender de um ancestral macaco, eles compartilham todas as caracteristicas que colocam outras espécies no grupo  “macacos”. E se quisermos ser sistemáticos e não-arbitrarios, devemos inserir esses animais: gorilas, chimpanzés e, sim, nós humanos, nesse grupo chamado “macacos”.

Isso não significa que somos idênticos a outras espécies do grupo. Nenhuma espécie é igual a outra. Somos obviamente distintos: temos postura ereta, ausência de pelos e somos mais inteligentes que outros macacos, o que nos possibilita realizar feitos fantásticos, como construir espaço-naves, escrever poesia e descobrir o mundo natural a nossa volta. Talvez um dia, a soma de todas essas realizações nos permita eliminar de uma vez por toda o tribalismo e sectarismo que alimentam nossa xenofobia, nossa homofobia e nosso racismo.

Quem sabe.

What does the [red panda] says?

Com a viralização da musica da dupla Ylvis “What does the fox say?”, o debate acadêmico de alto nível sobre qual é o barulho que certos animais fazem era inevitável.

Como foi apontado no hypercubic, a raposa regougara, um verbo inesperadamente específico, mas e outros animais? Leões e ursos rugem e grunhem, lobos e coiotes uivam… e o panda-vermelho?

Confesso que eu nem sabia que esse bicho fazia qualquer barulho, mas quando escutei, fiquei realmente impressionado:

Até achei que o arquivo estava errado, mas existem filmagens feitas e realmente pandas parecem… piar. Na verdade, o termo correto em inglês é “twittering” (sim, como em “twitter”) que pode ser traduzido para “chilrear” ou “gorjear”, ambos termos relacionados com pássaros.

Quando escutei isso lembrei de quando estudava no Museu de Zoologia da USP, no Ipiranga. Atrás do museu tem um pequeno parque que abriga (ou abrigava) um pequeno grupo de saguis, que eventualmente visitava minha janela nos fins de tarde. O curioso é que saguis (e outros macacos) fazem sons indistinguíveis dos sons de pássaros, o que me faz perguntar: visto que pandas-vermelhos, saguis e pássaros estão sob a influencia de ambientes similares (as copas de árvores; lembrando que pandas-vermelhos passam muito tempo em árvores), não seria a aparente similaridade consequência de algum tipo de adaptação para superar um obstáculo presente neste ambiente, como por exemplo, a dificuldade de visualizar outros membros da sua espécie?

Uma busca rápida no google.scholar mostra que o assunto já foi abordado, principalmente na questão de convergência entre aves e primatas, mas nada evidente sobre pandas-vermelhos.

Será que alguém anima e explorar a idéia? Pode ficar. Eu não cobro royalties.

Darwin, Vespas parasitóides e o problema do sofrimento natural

As religiões monoteístas são, discutivelmente, diversas em seus dogmas e crenças. Contudo, existam alguns aspéctos comuns a essa religiões, principalmente quando nos referimos ao ramo das religiões Abrâamicas, classicamente discriminadas entre judaísmo, cristianismo e islamismo, especificamente no que se refere à figura do deus único. Tal deus, via de regra, é descrito como um deus criador omnipresente, omnipotente e omnibenevolente, com interesse pessoal na vida dos indivíduos pertencentes à espécie humana. Porém, essa descrição tem levantado algumas sobrancelhas ao longo da história.

O paradoxo de Epícuro

Um problema óbvio com essa caracterização é que a existência de um deus que sabe de tudo e que pode tudo e que é o ser mais benevolente da existência parece em clara contradição com o a presença de sofrimento no mundo. Epícuro foi o primeiro a deixar essa objeção registrada no registro histórico da seguinte forma:

– [Deus], enquanto onisciente e onipotente, tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então não é onibenevolente.

– Enquanto omnipotente e onibenevolente, então tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então ele não é omnisciente.

– Enquanto omnisciente e omnibenevolente, então sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é omnipotente.

E essa é uma bela refutação para concepções mais ingênuas de deus, principalmente deuses monoteístas, que não tem outros deuses igualmente potentes com o quais competir. Essa idéia pode ser resumida de forma bem simples:

P1) Deus é definido como um ser omnipontente, omnipresente e omnibenevolente

P2) Existe sofrimento no universo

C) Deus não existe.

QED…?

 

Teodicidades e a Queda

The Fall of Adam and Eve, Hugo van der Goes 1470

“Tá tudo bem mor… aquela serpente com pernas disse que não vamos morrer se comer essa fruta, diferente do que o nosso Deus omnipotente, omnisciente e omnipresente disse….”

Para refutar esse argumento bem simples, a igreja católica (principalmente) desenvolveu uma área teológica especifica para lidar com o problema da existência do mal no mundo, e esses contra-argumentos são chamados teodicidades. A mais simples dessas teodicidades clama o livre-arbítrio como o salvador da benevolência divina, colocando que deus nos deu livre-arbítrio e com isso nós humanos escolhemos fazer coisas que trazem dor e sofrimento.

Ok, nessa altura você pode estar pensando “E terremotos, secas, vulcões? Nada disso é causado por humanos, então livre-arbítrio não explica esse tipo de sofrimento”. Fico feliz que você tenha convenientemente levantado esse ponto, interlocutor fictício, mas a gente tem que lembrar que o teísmo abraâmico prega (classicamente, ao menos) que nós humanos descendemos de um casal de adolescentes criados especialmente em um jardim que, ao comerem da arvore do conhecimento, condenaram toda a humanidade a um tipo de maldição hereditária que, de alguma forma, também amaldiçoou o resto do mundo, AKA “A Queda”.

Certo, ainda comigo?

Ok, então essa Queda resolveria tudo, pois todo o sofrimento viria após a Queda, resultado da aplicação do livre-arbítrio humano. Resolvido! Próximo argumento!

…bom, não tão rápido.

 

Como evolução arruina tudo

Hoje em dia sabemos que nada da narrativa do Genesis pode ser tomado como literal ou histórico, em grande parte devido aos achados da biologia evolutiva e áreas associadas. O registro fóssil mostra que humanos são recém chegados na história da vida da terra, que já foi rica em animais dos mais diversos tamanhos e formas, inclusive seres muito aparentados a nós, com cérebros de igualmente impressionantes. Além disso, biologia molecular nos mostra que os seres humanos nunca descenderam exclusivamente de dois indivíduos, o que impossibilita que qualquer maldição fosse geneticamente transferida a todos os membros atuais da nossa espécie.

Ou seja, durante grande parte da história da vida na terra tivemos animais sendo predados, sendo infectados, morrendo de fome e sede, muitas vezes em escalas mundiais em eventos possivelmente pontuais, que varreram grande parte de continentes ou mesmo do planeta inteiro, como o impacto que erradicou a maioria das linhagens de dinossauros.

Ou seja, o que quer que livre-arbítrio humano explique, ele explica uma quantidade muito pequena do que precisa ser explicado antes que aceitemos racionalmente o monoteísmo clássico. Mas o quanto é preciso explicar, exatamente?

Darwin e Vespas Parasitóides

Há alguma controvérsia sobre sobre se Darwin era de fato ateu ou não, mas não há dúvidas que, ao longo de sua vida adulta, ele abandonou o teísmo clássico criacionista tanto por motivos pessoais (a perda de sua filha) e por algumas considerações vagas sobre o sofrimento natural no mundo. Uma dessas considerações mais famosas diz respeito as vespas parasitóides.

“Eu não posso me convencer que um Deus benevolente e onipotente poderia ter criado um Ichneumonidae com a única intenção de suas larvas se alimentarem dos corpos de lagartas vivas, ou criado gatos para brincar com ratos”

Ichneumonidae são uma família de vespas parasitóides, que são animais que implantam ovos no interior de outras espécies que, ao eclodirem, levam a morte do hospedeiro, algo muito similar a o que acontece nos filmes do universo dos Aliens.

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-Viva! Sou biologicamente verossímil!

Porém, diferente do que ocorre em Aliens, nem todos hospedeiros tem a sorte de morrer imediatamente. Muitas larvas parasitoides consomem lentamente seus hospedeiros que são mantidos vivos e imobilizados durante todo o processo. O exemplo mais extremo é o caso da vespa-esmeralda Ampulex compressa. Essa vespa é tão especializada que usa seu veneno não apenas para matar ou imobilizar sua presa (uma barata), mas sim para modificar seu comportamento, transformando-a em uma espécie de “zumbi” complacente que é primeiro conduzido à toca da vespa e depois consumido, ao longo de semanas, pelas larvas recém nascidas.

Para piorar tudo, não estamos falando de uma, duas, ou um punhado de espécies que fazem isso. São aproximadamente dois milhões de diferentes espécies de parasitóides que, apenas em insetos, podem compor até 10% da diversidade conhecida para o grupo, incluindo não apenas vespas (hymenoptera), como também moscas (diptera) e também algumas espécies de besouros (coleoptera)!

Se focarmos apenas em vespas, estimativas recentes mostram que as famílias desse grupo se diversificaram inicialmente durante o Permiano:

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Clique aqui para a definição formal de “bagarai”

Ou seja, a no mínimo 250 milhões de anos presas de vespas sofrem desnecessariamente para que as espécies parasitóides consigam colocar uma nova geração no mundo. E afirmo que seu sofrimento é desnecessário não apenas porque um deus bondoso poderia magicamente fazer vespas que não necessitassem dos corpos alheios para a sobrevivencia de sua prole, mas porque essas possibilidades são reais e acontecem na maioria das espécies de vespas. Ou seja, não é biologicamente impossível fazer espécies de vespas não-parasitóides: elas existem. Mas por algum motivo um deus bondoso achou que seu plano perfeito só estaria completo com animais que parecem ter sido concebidos num pesadelo lovecrafteano.

Ou, sei lá… talvez Epícuro tivesse certo.

Uma boa definição de ciência

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Card do Massimo, da coleção Skeptic Trumps

Acabo de ler um artigo pelo cientista-tornado-filosofo Massimo Pigliucci sobre o movimento Neo-Ateista. Pigliucci, que é um crítico do movimento, argumenta que a principal diferença entre os ateus clássicos e os neo-ateus, é o que ele chama de “uma virada ao cientismo”. Ele define cientismo como:

“A atitude de considerar ciência como o ultimo critério e arbitro de todas as questões interessantes; ou alternativamente que busca expandir a definição e escopo da ciência para abranger todos os aspectos do conhecimento humano”

Para sustentar essa idéia, Pigliucci leva em consideração os livros publicados pelos autores considerados ícones do neo-ateísmo, especificamente Richard Dawkins, Victor Staiger, Daniel Dannet, Christopher Hitchens e Sam Harris (com quem ele parece ter um problema em particular).

Suas avaliações são justas na sua maioria (pelo menos nos livros que eu li), mas em quase todo parágrafo fiquei estarrecido com algumas afirmações de Pigliucci, principalmente nas suas avaliações dos livros de Sam Harris. Ele chega a afirmar, por exemplo, que não chegamos ao consenso sobre princípios da geometria euclidiana através de nenhuma evidência empírica (no caso ele usa o exemplo de que a soma dos ângulos de um triângulo é sempre 180o), o que me parece em clara contradição de como professores de fato demonstram esses princípios aos alunos em sala de aula*. Outra afirmação intrigante foi a de que o dilema de Eutifron demonstra com sucesso que Deuses e moralidade não tem nada a ver um com a outro, coisa que até onde sei é no mínimo… discutível (mas vou poupar vocês o trabalho de ver um ateu defendendo um argumento para a validade da moralidade divina).

No entanto, a questão que me deixou mais intrigado foi o foco central do artigo, que é a acusação de cientismo por parte dos neo-ateus. Não porque eu discorde dela (em partes), mas porque, ao justificar isso, Pigliucci constrói uma definição de ciência que não parece contribuir para sua tese:

Ciência é melhor concebida como uma família, no sentido Wittgensteiniano, de atividades que tem uma variedade de pontos em comum, incluindo (mas não se limitando a) a realização sistemática de observações e/ou experimentos, o teste de hipóteses, a construção de teorias gerais sobre o funcionamento do mundo, a operação de um sistema de revisão-por-pares pré e pós-publicação, e a existência de uma variedade de fontes de financiamento públicos e privados para projetos que são considerados válidos”

Eu gostei bastante dessa definição, mas como isso exclui necessariamente questões morais, metafísicas ou espirituais me é um mistério. Pigliucci não argumenta com sucesso sobre isso, sendo que o máximo que ele faz é indicar o leitor ao seu novo livro sobre critérios de demarcação em ciência, pseudociência e filosofia. Posso ser só eu, mas não me soa de bom tom deferir um dos principais pontos do seu artigo para um livro, sem maiores explicações.

De forma geral, esse ensaio me decepcionou muito. Durante o artigo todo, e apesar dos protestos do Pigliucci, não pude deixar de ter a sensação que grande parte das suas críticas são motivadas por briguinhas entre áreas acadêmicas, na qual filósofos parecem estar especialmente ofendidos pelo fato de que ciência tem um reconhecimento social maior do que filosofia, que ainda soa como abobrinha para as orelhas do público.

Talvez precisemos de um Big Bang Theory para a filosofia… algo como “The Hume’s club”. Será que a Sony compra?

De qualquer forma, veja o ótimo blog do Massimo, o Rationally Speaking. Vale a pena conferir.

* Pigliucci aqui parece estar adotando uma postura puramente racionalista, onde “verdades matemáticas” são exercícios meramente racionais e não empíricos. Até onde sei, essa posição não é inequivoca dentro da filosófica da matemática. Consigo pensar em pelo menos duas outras linhas que discordariam dessa interpretação.

O que os Pagãos nos deixaram?

“Os pagãos nos deram democracia, cidadania, direitos humanos- na verdade todo o conceito em si de direitos incluindo liberdade de expressão- ciência, medicina, filosofia, lógica formal e matemática. Eles também nos deram uma defesa filosófica de valores morais como filantropia, generosidade, misericórdia e honestidade.

Isso faz acreditar no paganismo racional?”

Richard Carrier, aqui, por volta de 1:30:00.

A resposta é (eu espero) óbvia.

Momento “cuteness” + conservação

Recentemente o Zoológico de Toronto liberou imagens dos primeiros passos de um filhote de urso polar que nasceu em 9 de Novembro do ano passado:

Segundo um dos leitores do Why Evolution is True, o filhote “é o único sobrevivente de uma ninhada de três. Ele foi tirado de sua mãe Aurora, visto que ela tem um histórico de rejeição de seus filhotes”.

Essa história de me lembrou do Knut, um filhote de urso polar rejeitado pela mãe no zoológico de Berlin. Knut alcançou o status de fenômeno, após ser abandonado pela mãe, em 2006, se tornando o primeiro filhote da espécie a atingir a fase adulta no zoológico em 30 anos.

Knut e seu tratador

Sua carreira chegou a um fim trágico, entretanto, quando em 2011 Knut sofreu um colapso em decorrência de uma encefalite e acabou morrendo afogado em seu recinto.

A vida de Knut não foi livre de controvérsias. Em 2007, o ativista de direitos animais Frank Albrecht disse que criar Knut violava os direitos animais, pois a criação por humanos levaria a distúrbios compartimentais e sofrimento ao animal. Eu honestamente nunca vi evidencias de que animais criados em cativeiro, se bem criados, sofrem, muito menos que sofrer o suficiente para justificar… bem, não cria-los (o que supostamente deixaria só uma outra alternativa). Mas é verdade que a criação por humanos pode impactar negativamente comportamentos essenciais para a espécie, o que pode dificultar, e até inviabilizar, a re-introdução do animal na natureza ou a sua criação em cativeiro.

Então… criar animais em cativeiro é necessariamente ruim? Eu acho que não.

Recentemente eu vi um lindo exemplo no Aquário de Monterey, na Califórnia. Lá eles mantinham diversos animais em cativeiro, inclusive uma albatroz fêmea chamada Makana que, após várias tentativas de recuperação, se mostrou incapaz de ser re-introduzida no meio ambiente (ela possui uma asa fraturada) e hoje é usada para educar os visitantes sobre os perigos da poluição para esses animais.

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Makana se exibindo. Veja ela em ação aqui

Agora o que mais me impressionou foram as lontras-marinhas. Não é apenas pelo fato delas serem incrivelmente fofas:

Nhonhonhonhonho.
Clique aqui para ver uma camera ao vivo.

O mais impressionante, para mim, foi aprender que os animais em exposição eram usadas como babás para lontras orfãs que eram resgatadas pelo aquário. A idéia é simples: lontras órfãs, se criadas por humanos, não poderiam ser re-introduzidas no meio ambiente. Esse era na verdade o caso das lontras expostas. Porém, se um filhote é criado por uma babá, mesmo uma criada por humanos, existe uma chance maior dele ser re-introduzido no ambiente com sucesso. E, de fato, muitas dessas lontras ajudaram a criar diversos animais que foram mais tarde re-introduzidos na natureza. Ou seja, a criação de alguns poucos animais em cativeiro ajudou as populações naturais desses animais. Fantástico!

Claro, isso não significa que todos os zoológicos e aquários são paraísos de conservação ex-situ. Aliás, acho que muitos zoológicos tem uma relação atávica com seu passado, como um local de coleções e curiosidades do mundo animal. Mas talvez, com um pouco de esforço, podemos chegar lá.

Curiosidade: lontras-marinhas adoram mastigar camarões congelados e, depois de uma bela refeição, tirar uma soneca boiando em alto-mar.

2013-11-13 16.01.15

 

É… eu sei. Insuportável não?

“Rolezinho” e os Zumbis de Romero

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Zumbis no shopping.

Zumbis sempre me intrigaram. Ao mesmo tempo que aparentam ser humanos, nada em seu comportamento evidencia isso: são maquinas de matar e comer incessantes, com preferencia especial pela carne humana. São monstros, pura e simplesmente, sem nenhum tipo de sentimento, exceto fome.

Dentro da escala de “coisas que podemos matar sem nenhum tipo de paradoxo moral”, zumbis provavelmente encabeçam a lista. Os jogos de videogame e filmes notaram isso rapidamente. Zumbis nutrem nossa necessidade por violência justificada: você pode explodir a cabeça de um zumbi sem remorsos, mas um vilão, mesmo o pior de todos, pode receber um pouco de compaixão. Afinal, como diria o Batman: “Escória, mas até escória tem família“.

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Batman não mata, nunca.

Mas o que isso tem a ver com os “rolezinhos”? Bom, hoje cedo fui ler o editorial na Folha da Elaine Cantanhede, no qual ela aponta diversos paralelos entre os “rolezinhos” e os protestos do ano passado contra as tarifas de ônibus. Ela aponta, entre outras coisas, que antes falávamos de um movimento de classe média politizada (de certa forma) e que, após ser reprimido, explodiu nacionalmente. Segundo Cantanhede, os “rolezinhos” são um movimento análogo, motivados pela alienação dos jovens de classe baixa do mundo consumista e ostentador, exemplificado na figura dos shoppings centers. O ponto central, eu acho, é que a não-compreensão das vontades dos indivíduos em ambos os casos levou a uma atitude do governo que só piorou as coisas, e isso falou diretamente para mim. Apesar de estar envolvido nos protestos contra o aumento das tarifas, e “entender” o movimento, eu não entendo o “rolezinho”. Eu estou de fora. E isso me lembrou de Romero.

George A. Romero é um dos meus maiores ídolos. Foi ele que concebeu essa idéia de zumbi que temos hoje em dia: sem mente, faminto, meio morto e em decomposição, que se arrasta lentamente atrás de suas vitimas. Esse conceito foi lançado inicialmente em seu filme “A Noite dos Mortos-Vivos”, um filme que chocou uma geração ao subverter a narrativa padrão de filmes de terror: “monstros aparecem, matam todo mundo, menos o herói, que mata os monstros e foge com a mocinha”. Não… nada termina bem. Sabe aquele tema comum em histórias de Zumbis, no qual os zumbis são ruins, mas são os humanos que te ferram no fim? Então, Romero começou isso, nesse filme.

Romero ainda explorou outros aspectos da idéia dos zumbis: sendo essas máquinas inumanas de matar, é impossível entender suas vontades (se é que eles tem alguma). Você só precisa se defender, matando de preferência, sempre lembrando que eles não são “gente como a gente”. Em “A Noite dos Mortos-Vivos”, os sobreviventes se escondem em uma casa de subúrbio americano (aqueles bairros onde a classe média vai para fugir da “violência da cidade”), mas na sequência, “A Madrugada dos Mortos-Vivos”, eles se escondem em um Shopping Center. E foi nesse filme que finalmente entendi a mensagem: enquanto a minoria privilegiada se esbanjava dentro do Shopping, a multidão faminta apenas olhavam pelas grandes vitrines. Mas Romero adverte: o equilíbrio é instável. Uma hora a pressão é grande, as portas quebram e os mortos invadem.

E eles invadiram.

Rápidos* pensamentos sobre a contingência do Universo

Acabo de ler o primeiro capítulo de John Loftus no livro The Christian Delusion (que já comentei brevemente aqui). Loftus é o editor e organizador do livro e tem três capítulos na obra. No primeiro deles, Loftus formaliza o que ele chama de o “Teste de Fé do Forasteiro“ (The Outsider Test of Faith, nome do capítulo), que basicamente consiste na idéia que a sua própria crença deve ser avaliada com o mesmo nível de ceticismo e critérios de evidência com os quais avaliamos as crenças dos outros. Ou seja, porque aceitar um milagre vago como confirmação de sua fé pessoal, enquanto os mesmos milagres associados à fés diferentes não são vistos como a confirmação da fé dos outros?

Por essas e outras, Loftus tem ficado famoso por sua retórica e entusiasmo em atacar o cristianismo, especificamente as vertentes evangélicas norte-americanas. Curiosamente Loftus, que é ex-pastor e teólogo, foi um dos estudantes do apologeta William Lane Craig, e é uma das únicas pessoas com a qual ele não quer debater. Loftus parece o exato oposto de Craig: sem nenhuma pompa, com jeito de caipira, bastante inteligente e articulado, porém um desastre em oratória e em debates. Ele é tão ruim, que chega a falhar em responder argumentos que ele ferozmente ataca em seu livro. Porque Craig tem medo dele me é um mistério completo.

De qualquer forma, segue abaixo a parte 1 da palestra, onde Loftus expõem os mesmos argumentos para o Teste.

O que me chamou atenção, no entanto é que, após a palestra, na parte 7, Loftus é confrontado por alguns alunos (presumidamente cristãos) que perguntam como ele, sendo ateu, explica a existência de um universo contingente. Contingência, pra quem não sabe, é a idéia de que “uma coisa depende de outra”. Por exemplo, se falo que meu mal humor é contingente à quantidade de cafeína que tomo de manhã, quero dizer que meu mal humor depende da quantidade de café que tomei.

De forma geral, tudo que conhecemos no universo é contingente: maçãs dependem da existências de árvores, que dependem de sementes, que dependem de outras maçãs, e assim vai. Essa idéia trás alguns problemas: primeiro, se tudo que conhecemos é contingente então, se fomos seguindo na cadeia de eventos para o passado, nunca chegaremos em um começo, o que implicaria que o passado é infinito, e que o universo sempre existiu. Isso é um problema enorme para qualquer denominação religiosa que postula uma origem miraculosa para o universo. Com um universo eterno, nada de criação e sem criação, nada de criador.

Principio da Razão Suficiente

Para burlar** esse tipo de conclusão inconveniente, filósofos se valem do o que é chamado do Princípio da Razão Suficiente (PRS), um princípio intuitivamente obvio, proposto por diversos filósofos (incluindo Baruch Spinoza), mas popularizado por Leibniz. O princípio afirma que:

Para todo fato F,  deve existir uma explicação de o porque F é o caso

ou

Para toda entidade X, existe uma explicação de o porque X existe

Ou seja, em um universo contingente, tudo que existe pode ser explicado por suas causas. Você pode perguntar: “Porque a Terra existe?”, “Porque a segunda guerra aconteceu?”, “Porque eu gosto de salada?” e todas essas perguntas podem ser respondidas, fazendo referência às causas e situações que permitem que X venha a ser. Tudo perfeitamente compatível com a forma que entendemos o mundo. Nada muito extremo não é?

Mas agora a coisa fica complicada. Algumas proposições não podem ser explicadas fazendo referências às suas causas. Por exemplo: “Círculos são redondos” é uma preposição que não pode ser verificada na realidade, muito menos provada falsa. Ela é verdadeira por si própria (assim como todas as tautologias, por exemplo), ou seja, elas são “necessárias”, verdadeiras independente do universo (algumas vezes chamadas de “incontingentes” ou “absolutas”). A necessidade dessas preposições é vista como a explicação de o porque elas são verdadeiras. Elas não precisam de causas materiais para serem explicadas, dentro do contexto do PRS.

Ok, e onde Deus entra nessa história?

Bom, segundo alguns filósofos, existem entidades que seriam necessárias, ou seja, seriam explicadas pela própria necessidade da sua existência. Como exemplo desse tipo de entidade teríamos números, outros objetos conceituais e, obviamente, deuses (não vou nem entrar no mérito de o porque desse argumento). Deuses, como seres não-contingentes, seriam explicados pela força da própria necessidade de existir: não existiria um mundo possível onde um deus não exista, pois sua não-existência seria ilógica.

Certo… e como isso resolve o problema da contingência para o teísmo? É bem simples: se tivermos um conjunto de todas as causas contingentes do universo (ou seja, o universo que conhecemos como um todo), a adição de uma nova causa contingente não vai ajudar a explicar o conjunto como um todo, pois vai ser apenas mais uma causa contingente para ser explicada por alguma outra causa contingente, e assim ad infinitum. A solução é ter-se uma causa não-contingente, ou absoluta, que possa explicar o conjunto de causas contingentes:

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Desenho ruim e pouco explicativo para dar um “quê” de autoridade

A grande sacada desse argumento é que, visto que ele é válido, ele serve para um universo finito ou infinito: um universo infinito seria uma cadeia de causas infinitas, mas deve ser explicada, como um todo, por algo não contingente e, de preferencia, atemporal.

Então, basicamente, o PRS permite que, tanto em um universos finito quanto infinito, possamos defender, logicamente, a existência dessa causa não-contingente, que muitos podem querer chamar de “Deus”.

A resposta de Loftus

Pra qualquer um com um mínimo de senso crítico, esse argumento levanta várias bandeiras (e eu garanto, existem muito mais bandeiras a serem levantadas). Mas Loftus aparentemente opta por dar duas resposta ao desafio dos alunos.

Primeiro ele pergunta “Assumindo que o argumento [que o universo precisa de algo necessário para explicar sua existência] é válido, o que isso te dá?“, que é um ponto completamente válido. Afinal, o máximo que você tem é a existência de um “algo” necessário que causaria todo o resto. E de fato, físicos como Victor Steinger e Lawrence Krauss argumentam que esse “algo” pode muito bem ser um algo físico, como flutuações quânticas ou o vácuo quântico, coisas consideravelmente mais simples do que uma super-mente super-poderosa e imaterial. Ou seja, isso não prova teísmo, e é bem provável que não disprove o ateísmo também, ao contrário do que o aluno parece pensar.

A segunda resposta de Loftus é “eu não sei“, e aqui ele se complica na resposta. Ele parece focar na idéia de que, ao dizer que Deus fez o mundo, cristãos parariam de recorrer a ciência para saber como isso ocorreu, coisa que o aluno rapidamente o corrige (claro, ele faz uma distinção entre saber que deus fez e saber como ocorreu, o que para mim é falsa, mas isso é outra discussão). Mas acho que aqui Loftus perdeu uma oportunidade de explorar uma das fraquezas do PRS.

Pense assim: imagine o estado da arte do conhecimento à 6 mil anos atrás, quando a cosmologia da época ditava que o universo era constituído da Terra e o Céu, mas que também tivéssemos teólogos tão espertos como os de hoje, propondo coisas como o PRS para “explicar” o universo. Esse pequeno “universo” seria contigente e explicado por Deus AKA “Deus criou aquele universo”. Agora adicione um modelo heliocêntrico, com o sistema solar sendo “o universo”… como fica o argumento? E se você adicionar a via-láctea inteira? E se colocar um cluster de galáxias? E todo o universo visível? Como fica?

Bem, igual, é assim que fica. O PRS é aplicável a todos os universos já concebidos pela humanidade. Visto que o que é o “universo” é um conceito humano em constante expansão, determinado por nossa capacidade de investigar a natureza, o PRS indica que Deus é uma explicação até para os universos errados. E se tem uma coisa que aprendemos em filosofia da ciência é que, se algo explica tudo, ele muito provavelmente não explica nada.

Agora, o que realmente me intriga é: porque diabos William Lane Craig tem medo de debater com o Loftus, um sujeito que se embanana para responder uma pergunta tão simples de um aluno, sendo que ele mesmo já fez um ótimo trabalho em refutar esse mesmo argumento? Pra mim, esse é o verdadeiro mistério.

* Sim, isso foi ironia.

** Eu não sei se o PRS foi proposto “para esse fim”, mas visto que apologetas rotineiramente falam bobagens do tipo “o multiverso foi proposto por cientistas ateus para escapar da criação divina”, eu não fico com um peso grande na consciência.

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