Rápidos* pensamentos sobre a contingência do Universo

Acabo de ler o primeiro capítulo de John Loftus no livro The Christian Delusion (que já comentei brevemente aqui). Loftus é o editor e organizador do livro e tem três capítulos na obra. No primeiro deles, Loftus formaliza o que ele chama de o “Teste de Fé do Forasteiro“ (The Outsider Test of Faith, nome do capítulo), que basicamente consiste na idéia que a sua própria crença deve ser avaliada com o mesmo nível de ceticismo e critérios de evidência com os quais avaliamos as crenças dos outros. Ou seja, porque aceitar um milagre vago como confirmação de sua fé pessoal, enquanto os mesmos milagres associados à fés diferentes não são vistos como a confirmação da fé dos outros?

Por essas e outras, Loftus tem ficado famoso por sua retórica e entusiasmo em atacar o cristianismo, especificamente as vertentes evangélicas norte-americanas. Curiosamente Loftus, que é ex-pastor e teólogo, foi um dos estudantes do apologeta William Lane Craig, e é uma das únicas pessoas com a qual ele não quer debater. Loftus parece o exato oposto de Craig: sem nenhuma pompa, com jeito de caipira, bastante inteligente e articulado, porém um desastre em oratória e em debates. Ele é tão ruim, que chega a falhar em responder argumentos que ele ferozmente ataca em seu livro. Porque Craig tem medo dele me é um mistério completo.

De qualquer forma, segue abaixo a parte 1 da palestra, onde Loftus expõem os mesmos argumentos para o Teste.

O que me chamou atenção, no entanto é que, após a palestra, na parte 7, Loftus é confrontado por alguns alunos (presumidamente cristãos) que perguntam como ele, sendo ateu, explica a existência de um universo contingente. Contingência, pra quem não sabe, é a idéia de que “uma coisa depende de outra”. Por exemplo, se falo que meu mal humor é contingente à quantidade de cafeína que tomo de manhã, quero dizer que meu mal humor depende da quantidade de café que tomei.

De forma geral, tudo que conhecemos no universo é contingente: maçãs dependem da existências de árvores, que dependem de sementes, que dependem de outras maçãs, e assim vai. Essa idéia trás alguns problemas: primeiro, se tudo que conhecemos é contingente então, se fomos seguindo na cadeia de eventos para o passado, nunca chegaremos em um começo, o que implicaria que o passado é infinito, e que o universo sempre existiu. Isso é um problema enorme para qualquer denominação religiosa que postula uma origem miraculosa para o universo. Com um universo eterno, nada de criação e sem criação, nada de criador.

Principio da Razão Suficiente

Para burlar** esse tipo de conclusão inconveniente, filósofos se valem do o que é chamado do Princípio da Razão Suficiente (PRS), um princípio intuitivamente obvio, proposto por diversos filósofos (incluindo Baruch Spinoza), mas popularizado por Leibniz. O princípio afirma que:

Para todo fato F,  deve existir uma explicação de o porque F é o caso

ou

Para toda entidade X, existe uma explicação de o porque X existe

Ou seja, em um universo contingente, tudo que existe pode ser explicado por suas causas. Você pode perguntar: “Porque a Terra existe?”, “Porque a segunda guerra aconteceu?”, “Porque eu gosto de salada?” e todas essas perguntas podem ser respondidas, fazendo referência às causas e situações que permitem que X venha a ser. Tudo perfeitamente compatível com a forma que entendemos o mundo. Nada muito extremo não é?

Mas agora a coisa fica complicada. Algumas proposições não podem ser explicadas fazendo referências às suas causas. Por exemplo: “Círculos são redondos” é uma preposição que não pode ser verificada na realidade, muito menos provada falsa. Ela é verdadeira por si própria (assim como todas as tautologias, por exemplo), ou seja, elas são “necessárias”, verdadeiras independente do universo (algumas vezes chamadas de “incontingentes” ou “absolutas”). A necessidade dessas preposições é vista como a explicação de o porque elas são verdadeiras. Elas não precisam de causas materiais para serem explicadas, dentro do contexto do PRS.

Ok, e onde Deus entra nessa história?

Bom, segundo alguns filósofos, existem entidades que seriam necessárias, ou seja, seriam explicadas pela própria necessidade da sua existência. Como exemplo desse tipo de entidade teríamos números, outros objetos conceituais e, obviamente, deuses (não vou nem entrar no mérito de o porque desse argumento). Deuses, como seres não-contingentes, seriam explicados pela força da própria necessidade de existir: não existiria um mundo possível onde um deus não exista, pois sua não-existência seria ilógica.

Certo… e como isso resolve o problema da contingência para o teísmo? É bem simples: se tivermos um conjunto de todas as causas contingentes do universo (ou seja, o universo que conhecemos como um todo), a adição de uma nova causa contingente não vai ajudar a explicar o conjunto como um todo, pois vai ser apenas mais uma causa contingente para ser explicada por alguma outra causa contingente, e assim ad infinitum. A solução é ter-se uma causa não-contingente, ou absoluta, que possa explicar o conjunto de causas contingentes:

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Desenho ruim e pouco explicativo para dar um “quê” de autoridade

A grande sacada desse argumento é que, visto que ele é válido, ele serve para um universo finito ou infinito: um universo infinito seria uma cadeia de causas infinitas, mas deve ser explicada, como um todo, por algo não contingente e, de preferencia, atemporal.

Então, basicamente, o PRS permite que, tanto em um universos finito quanto infinito, possamos defender, logicamente, a existência dessa causa não-contingente, que muitos podem querer chamar de “Deus”.

A resposta de Loftus

Pra qualquer um com um mínimo de senso crítico, esse argumento levanta várias bandeiras (e eu garanto, existem muito mais bandeiras a serem levantadas). Mas Loftus aparentemente opta por dar duas resposta ao desafio dos alunos.

Primeiro ele pergunta “Assumindo que o argumento [que o universo precisa de algo necessário para explicar sua existência] é válido, o que isso te dá?“, que é um ponto completamente válido. Afinal, o máximo que você tem é a existência de um “algo” necessário que causaria todo o resto. E de fato, físicos como Victor Steinger e Lawrence Krauss argumentam que esse “algo” pode muito bem ser um algo físico, como flutuações quânticas ou o vácuo quântico, coisas consideravelmente mais simples do que uma super-mente super-poderosa e imaterial. Ou seja, isso não prova teísmo, e é bem provável que não disprove o ateísmo também, ao contrário do que o aluno parece pensar.

A segunda resposta de Loftus é “eu não sei“, e aqui ele se complica na resposta. Ele parece focar na idéia de que, ao dizer que Deus fez o mundo, cristãos parariam de recorrer a ciência para saber como isso ocorreu, coisa que o aluno rapidamente o corrige (claro, ele faz uma distinção entre saber que deus fez e saber como ocorreu, o que para mim é falsa, mas isso é outra discussão). Mas acho que aqui Loftus perdeu uma oportunidade de explorar uma das fraquezas do PRS.

Pense assim: imagine o estado da arte do conhecimento à 6 mil anos atrás, quando a cosmologia da época ditava que o universo era constituído da Terra e o Céu, mas que também tivéssemos teólogos tão espertos como os de hoje, propondo coisas como o PRS para “explicar” o universo. Esse pequeno “universo” seria contigente e explicado por Deus AKA “Deus criou aquele universo”. Agora adicione um modelo heliocêntrico, com o sistema solar sendo “o universo”… como fica o argumento? E se você adicionar a via-láctea inteira? E se colocar um cluster de galáxias? E todo o universo visível? Como fica?

Bem, igual, é assim que fica. O PRS é aplicável a todos os universos já concebidos pela humanidade. Visto que o que é o “universo” é um conceito humano em constante expansão, determinado por nossa capacidade de investigar a natureza, o PRS indica que Deus é uma explicação até para os universos errados. E se tem uma coisa que aprendemos em filosofia da ciência é que, se algo explica tudo, ele muito provavelmente não explica nada.

Agora, o que realmente me intriga é: porque diabos William Lane Craig tem medo de debater com o Loftus, um sujeito que se embanana para responder uma pergunta tão simples de um aluno, sendo que ele mesmo já fez um ótimo trabalho em refutar esse mesmo argumento? Pra mim, esse é o verdadeiro mistério.

* Sim, isso foi ironia.

** Eu não sei se o PRS foi proposto “para esse fim”, mas visto que apologetas rotineiramente falam bobagens do tipo “o multiverso foi proposto por cientistas ateus para escapar da criação divina”, eu não fico com um peso grande na consciência.

Castrar um hipopótamo não é tão fácil quanto parece (e não parece nem um pouco fácil)

O problema é simples: temos um dos animais mais agressivos e mortais da terra e queremos mantê-los em zoológicos, sem risco para a vida de tratadores. Solução? Oras, castração! Afinal, se funciona com animais domésticos, deve funcionar com outros animais.

Porém as coisas não são tão fáceis. Como se castrar um animal de mais de 3 toneladas não fosse um problema, os testículos dos hipopótamos são móveis, e tem-se mostrado um grande desafio para os cientistas da castração animal (aparentemente ¬¬).

Isso levou a um desenvolvimento de um procedimento original por um time de cientistas liderados por Christian Walzer, da universidade de Vienna. Esse novo procedimento, adaptado do utilizado em cavalos, permite a localização e remoção dos testículos dos animais. Yei, Science!

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O pior dia da vida de um jovem hipopótamo

Viu, fácil. Agora você só precisa de um guindaste, quantidades obscenas de tranquilizante e uma tesoura.

É, eu sei. De nada.

O porque dos testículos desses animais se movem, como que fugissem de dedos gelados de um urologista, é um mistério. Mas o Walzer tem uma teoria:

Hipopótamos machos realmente brigam- não é apenas uma bravata quando eles bocejam e abrem suas bocas- eles podem atacar o testículo dos rivais com seus dentes.

Agora, nunca vi evidência de que hipopótamos atacam os testículos uns dos outros, mas tanto faz, parece uma ótima ideia! Próximo passo: identificar genes envolvidos para aplicação “biomédica” em humanos.

Já!

Os Jesuitas eram os Novos-Ateus do Cristianismo?

A Primeira Missa no Brasil, por Victor Meirelles

A Primeira Missa no Brasil, por Victor Meirelles

Ontem comecei a ler o livro The Christian Delusion: Why Faith Fails (“O Delírio Cristão: porque a fé falha”, tradução minha) um livro que, segundo um dos autores, foi inspirado pelas críticas feitas ao livro análogo do Richard Dawkins, Deus, um delírio. Visto que Dawkins foi amplamente criticado por sua superficialidade teológica, filosófica e antropológica, os organizadores desse volume resolveram reunir experts nessas áreas para atacar o cristianismo desses pontos de vista. Agora, eu não gostei do livro do Dawkins, e acho que muitas das críticas sobre sua superficialidade são válidas, mas visto que esse livro reúne diversos autores que admiro, achei que valia a pena dar uma verificada.

O tema central do primeiro capítulo é antropologia social, por David Eller, e parece ter como foco central uma avaliação antropológica dos cristianismos: o autor defende que não existe “um” cristianismo, mas vários cristianismos locais, adaptados à culturas regionais. Ele ainda explica que religião, como qualquer aspecto cultural, não é algo que pode ser rejeitado através de debate ou argumento racional: culturas (e visões de mundo) são normalmente herdadas e assumidas como verdades absolutas.

Esses fatos, aparentemente, estavam muito claro para os missionários cristãos, que tinham como objetivo difundir o cristianismo e o evangelho. A estratégia de tentar convencer estrangeiros da veracidade de sua religião só pode ser eficiente se você entende como uma pessoa pode adotar um novo aspecto cultural e aparentemente argumentos lógicos e racionais não são o caminho para faze-lo.

Como exemplo de um grupo que compreendia a dinâmica da assimilação cultural da crença, Eller cita um artigo por Michael Welton (link para o pdf) sobre a estratégia pedagógica dos jesuítas nas Américas:

A pedagogia de ataque dos Jesuitas tinha como principal objetivo fragilizar as fundações do modo de vida dos Indios. Essas fundações são as bases para significado e ações sociais, e várias praticas espirituais-religiosas presentes no dia-a-dia dos nativos[…]. Os Jesuítas buscaram deslocar [o shaman] de seu lugar na supremacia no mundo através do ridiculo, zombaria e competição […] e se inserir no lugar dele. Essa era uma estratégia pedagogica brilhante e inescrupulosa […]. Eles usaram seu conhecimento científico dos eclipses solares e lunares, marés, e o poder mágico da imprensa para deslegitimar o shaman. Eles marcharam suas próprias fundações de mundo (agora cada vez mais enriquecidas com formas científicas de conhecimento) para minar os fundamentos culturais dos ameríndios, e criar espaço para a coroa e Deus no Império do Demônio (povos nativos, no caso).

Usar zombaria e ridículo, recheado de conhecimentos científicos para deslegitimar autoridades religiosas… soa familiar? Pois até onde consigo avaliar, essas são exatamente as mesmas estratégias normalmente atribuídas aos chamados “neo-ateus”. E visto que a diferença entre um “ateu convencional” (seja lá o que isso for) e um “neo-ateu” normalmente se resume à forma que eles expressam suas crenças, e não o que eles acreditam, poderíamos dizer que os jesuítas eram os “neo-ateus” do cristianismo.

Brincadeiras aparte, eu não sei dizer se isso é bom ou ruim. Por um lado, esses ateus estão usando as mesmas estratégias imorais que os jesuítas usaram contra os Ameríndios, o que pode ser um indicativo de que esse não é o caminho correto a ser seguido. Por outro lado, o que os jesuítas fizeram parece ter funcionado, então… qual o caminho mais apropriado? Me parece ser uma questão de objetivos finais e estratégia: queremos apagar uma cultura e outorgar outra, ou permitir que as culturas se adaptem a um novo paradigma?

Fé não é um processo epistemológico válido

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Peter Boghossian

Esses dias relendo o texto “Investigações estatísticas na eficiência da prece”, do Francis Galton, e me deparei com a seguinte passagem:

Existe um motivo para esperar que um homem devoto e supersticioso seja irracional; pois uma pessoa que acredita que seus pensamentos são inspirados, necessariamente certifica seus preconceitos com autoridade divina. Ele é, assim, pouco vulnerável à argumentação, e é intolerante em relação àqueles que apresentam uma opinião distinta da sua, especialmente em princípios fundamentais. Consequentemente ele é um mal parceiro em questões de negócios. É uma opinião corriqueira no mundo de que pessoas que rezam não são práticas.

Parece duro, mas eu acredito que a crítica continua bastante válida. Não porque eu de fato acredite que religiosos são maus parceiros, ou que algo na sua religiosidade os impede de serem bons profissionais, longe disso. Acredito que o fato de a maioria esmagadora da sociedade, inclusive em países desenvolvidos serem religiosos, argumenta contra essa ideia. Entretanto, ainda acho que esse ponto, de certa forma, procede.

Recentemente, o filósofo Peter Boghossian resolveu fazer disso o foco central de seu livro “Um Manual Para Produzir Ateus”. Segundo Boghossian, o ataque às religiões é contra-producente, e a ideia que precisa ser passada é que existem processos para a geração de conhecimento (ou, processos epistemológicos) que não são confiáveis, isso é, eles diminuem a probabilidade de se ter crenças que são verdadeiras. Ele ainda identifica duas comunalidades entres processos epistemológicos pouco confiáveis. Via de regra, tais processos 1) não se baseiam em evidências e/ou 2) se baseiam em coisas que são consideradas evidências, quando na verdade não são. E fé, afirma Boghossian, apresenta ambas as características.

A ideia de Boghossian é que, ao ensinar pensamento crítico e baseado em evidência, as pessoas irão aprimorar sua capacidade de adquirir crenças verdadeiras, levando à exclusão da fé como um processo epistemológico, o que eventualmente levaria a rejeição de religião.

É válido notar que nem sempre religiosos aplicam fé como base epistemológica universal. Quando em âmbito profissional, muitos religiosos recorrem a pensamento crítico baseado em evidências para direcionar suas ações: um empresário religioso não vai esperar inspiração divina para fechar um negócio, mas sim recorrer à analise de custo/benefício e do ambiente do mercado para tomar suas decisões. Sendo assim, a crítica de Galton nos dias de hoje pode ser mais encarado como um reductio ad absurdum do o que aconteceria se as pessoas aplicassem fé como um jeito especial de entender a realidade em todas as esferas da sua vida, algo que é comumente apontado por críticos de religião.

Claro, muitos podem apontar a ironia na citação de Galton, visto que esse era um fervoroso crítico das teorias de Mendel, que era um monge e, em qualquer avaliação, um “homem devoto”. Mas de qualquer forma, nós sabemos que Mendel está correto, e não Galton, por causa das evidências da genética e hereditariedade, e não por inspiração supernatural.

O cristianismo ajudou a fundar a ciência moderna?

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Um tipo de afirmação que vejo constantemente sendo jogada por ai é a de que, sem o cristianismo, a ciência moderna não teria existido. Isso comumente faz parte de uma linha apologética chamada “pressuposicionalismo” que consiste basicamente em dizer que sem os pressupostos do cristianismo, a ciência moderna (ou moralidade, ou qualquer outra coisa) não são logicamente coerentes. Ou seja, sem um Deus propondo leis regulares na natureza, não faz sentido pensar numa ciência que funciona.

É uma estratégia interessante mas altamente discutível. Afinal, classicamente, a uniformidade da natureza foi vista como um potencial impedimento para a teologia cristã, visto que impedia a ocorrência de quebras da ordem natural das coisas através de milagres. Sem milagre, sem ressurreição, sem cristianismo.

Outra linha de argumentação sobre a influencia do cristianismo na origem da ciência é a ideia de que a ciência moderna surgiu no mundo cristão, e não na Índia, ou na China, por exemplo. Isso é, evidentemente verdade: é no Renascimento que encontramos as bases da ciência moderna, um movimento que se deu essencialmente na Europa cristã. Entretanto, o Renascimento foi uma revitalização dos princípios clássicos  gregos e romanos, e uma quebra com a teologia dos séculos anteriores. Richard Carrier – historiador da ciência, que tem mais títulos do que eu posso colocar em um aposto- coloca isso de forma precisa:

Entretanto, em tudo isso a afirmação que não se sustenta é que o cristianismo encorajou a ciência. Se esse tivesse sido o caso, então não teríamos quase mil anos (de aproximadamente 300 a 1250 AD) com absolutamente zero avanços significativos na ciência (exceto alguns poucos e as contribuições minoritárias de hindus e muçulmanos), em contraste com os mil anos anteriores (de aproximadamente 400 AC a 300 AD), que testemunharam incríveis avanços nas ciências em continuada sucessão a cada século, culminando em teóricos cujas ideias se aproximaram tentadoramente da revolução cientifica no 2o século AD (especificamente, mas não exclusivamente, Galeno e Ptolomeu). Você não pode propor uma causa que falhou em produzir um efeito, a despeito de estar constantemente presente por mil anos, especificamente quando, na sua ausência, a ciência fez muito mais progresso. A ciência retomou em 1200 precisamente onde os antigos [gregos e romanos] deixaram ela, redescobrindo seus achados, métodos e valores epistêmicos, e continuando o processo que eles haviam iniciado.

(Grifo meu)

Claro, mesmo se fosse verdade que a ciência moderna tem sua origem no cristianismo, nada disso advoga em favor de qualquer doutrina religiosa. Pode ser muito bem verdade que a química moderna tem origem na alquimia. Mesmo assim, alquimia continua errada.

Sugiro a leitura do post de Carrier sobre o assunto: Science and Medieval Christianity

Justificando a Pesquisa Básica

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CIÊNCIA pode te dizer como clonar um Tyranossaurus Re
HUMANIDADES pode te dizer o porque disso ser uma má idéia.

Em resposta ao meu último post, algumas pessoas afirmaram que a aquisição de conhecimento básico não precisa ser justificado além da própria aquisição de conhecimento. Apesar de eu concordar que a justificativa deva se afastar do utilitarismo raso que normalmente é exemplificado na forma de acumulo de tecnologias ou financeiro, não acho que a questão se resolva tão facilmente assim.

Afinal, mesmo que as pessoas não sejam (salvo raras excessões) contra a aquisição de conhecimento, existem prioridades “estratégicas” que podem levar órgãos de fomento a excluir áreas que não tem sua utilidade pública claramente justificadas. E se acham a possibilidade muito abstrata, se pergunte: porque será que as Ciências Humanas foram excluídas do Ciências sem Fronteiras, um programa que “busca promover a consolidação, expansão e internacionalização da ciência e tecnologia, da inovação e da competitividade brasileira”? Talvez não tenha ficado claro para o governo/sociedade qual é o valor das áreas humanas para o avanço científico, e porque isso conta. E garanto: qualquer lógica empregada para a exclusão de ciências humanas pode ser igualmente aplicada em diversas áreas da pesquisa básica, por mais hard que seja a ciência.

Então, como poderíamos justificar a pesquisa básica? Creio que a melhor resposta para isso foi dada no contexto da construção do primeiro acelerador de partículas do Fermilab. O Fermilab é um laboratório de investigação física experimental e na época o seu primeiro diretor, R. R. Wilson, foi convocado para uma audiência frente ao comitê de Energia Atômica para conseguir autorização governamental para o projeto:

SENADOR PASTORE. Existe qualquer coisa conectada a este acelerador que envolva a segurança nacional desse país?

DR. WILSON. Não, senhor. Não creio que exista.

SENADOR PASTORE. Nada mesmo?

DR. WILSON. Não, nada.

SENADOR PASTORE. Ele não tem nenhum valor nesse aspecto?

DR. WILSON. Ele apenas diz respeito a o que consideramos uns pelos outros, pela dignidade dos homens, nosso amor pela cultura. Tem a ver com essas coisas.

Não tem nada a ver com o exercito. Sinto muito.

SENADOR PASTORE. Não sinta.

DR. WILSON. Eu não sinto, mas eu não posso honestamente dizer que ele tem esse tipo de aplicação.

SENADOR PASTORE. Tem algo nesse projeto que nos projeta em uma posição de competitividade com Russos, no que diz respeito a essa corrida?

DR. WILSON. Apenas da perspectiva de longo prazo, de um desenvolvimento tecnológico. Fora isso, tem a ver com: Somos bons pintores, bons escultores, grandes poetas?  Eu quero dizer todas as coisas que nós realmente veneramos e honramos em nosso país (…).

Nesse sentido, esse novo conhecimento tem tudo a ver com honra e nação mas não está diretamente ligado à defesa de nosso país, exceto pelo fato de o fazer digno de ser defendido.

E eu creio que seja por ai. Tais pesquisas se justificam no contexto de nossos valores como sociedade. Se você acredita que somos nós que conferimos significado para nossa existência, então deve ser evidente que a busca pelo conhecimento, seja em ciência ou literatura, nos oferece uma fonte de significado e sentido muito maior do que qualquer outra coisa que podemos encontrar por ai. Uma sociedade que valoriza a busca pelo conhecimento como forma de se reconstruir, é uma sociedade que valoriza a ciência. Tecnologia e desenvolvimento econômico deveriam ser casos particulares dessa busca, e não o objetivo da busca em si.

Eu ainda adicionaria que uma base ética secular e humanista implica, necessariamente, na valorização da busca pelo conhecimento, mas isso é uma outra história.

Aranhas, Beagles e as Mentiras que os Cientistas contam.

Meu primeiro estágio em pesquisa científica foi no Instituto Butantan, pesquisando o comportamento de caça de um gênero muito curioso de aranhas, as Scytodes. Esse gênero é diferente de todas as outras aranhas por uma modificação anatômica muito curiosa: diferente das outras aranhas que apresentam glândulas de veneno, os animais desse gênero apresentam enormes glândulas cefálicas que produzem uma substância pegajosa, que a aranha é capaz de ejetar sobre sua preza, capturando-a a distância:

*A ejeção de cola é rápida demais para ser vista em vídeos normais. Clique aqui e aqui  para ver algumas imagens em close das queliceras.

Esse tipo de habilidade não vem sem um custo: as quelíceras, provavelmente por serem muito modificadas para “cuspir”, não são muito poderosas. Isso faz com que esses animais tenham que caçar animais de exoesqueleto frágil, principalmente aranhas. O fato das Scytodes poderem capturar animais à distância faz com que elas se deem bem contra outros predadores perigosissímos, como a aranha marrom, e até mesmo as espertas e Salticidae.

 

“Glup… ela já foi embola?”

Para desenvolver essa pesquisa eu pedi uma bolsa de iniciação científica para a FAPESP. Para quem nunca teve a experiência, uma das requisições dessa agência para a concessão da bolsa é que precisa estar devidamente justificado o mérito do projeto. Na época isso não ficou muito claro para mim… que tipo de mérito eles queriam? Porque valia a pena pesquisar essas aranhas? “Oras, porque elas são fascinantes!” não me parecia uma resposta muito profissional. Na época o meu orientador me instruiu a descrever os potenciais benefícios para nós, seres humanos, desse estudo.

Meu raciocínio foi simples: aranhas marrons podem ser um problema, eu ia estudar um bicho que come aranhas marrons e SHAZAM… por motivos não explicitados isso soava como uma ótima aplicação prática desse tipo de estudo. “Potenciais aplicações práticas para controle de aranhas marrons” ou coisa que o valha.

Bem, na época eu ganhei a bolsa, realizei o projeto e, eventualmente publiquei um artigo sobre o assunto. “Codificando caracteres comportamentais para analises cladisticas: usando homologia dinâmica sem parcimônia.” Se você acha que soa hermético e totalmente alienado de qualquer aplicação prática, então você pegou a ideia certa.

Na época um colega me perguntou “como você justifica o uso de dinheiro público para estudar comportamento de aranhas?”.

“Eu não sei. Só espero que nunca descubram”.

Eu não acho que essa minha inépcia nesse ponto seja particularmente fora do padrão. A grande maioria dos pesquisadores que conheço sequer pensa sobre como justificar sua pesquisa frente a sociedade. Talvez a maior evidência disso seja o Projeto Genoma Humano, que gastou 3 bilhões de dólares com a desculpa que ajudaria a curar doenças genéticas, cancer ou alguma porcaria assim, quando na verdade poucos avanços terapêuticos reais vieram dai. Não me entendam mal… o projeto genôma humano foi um grande avanço para a ciência. Assim como o projeto do genôma do Ornitorrinco, mas ninguém nem tentou justificar esse com base nos benefícios terapêuticos para o bichinho.

O ponto é: acadêmicos e cientistas de maneira geral não estão treinados para responder esse tipo de questionamento. Me recordo quando, em uma mesa redonda sobre Direitos Animais, o neurocientista Sidarta Ribeiro ficou simplesmente sem ação quando veganos na plateia lhe perguntaram se ele era a favor do uso de animais em pesquisa. “Sim”, ele disse, e isso foi o suficiente para levar a plateia aos gritos.

O que me trás aos beagles… A não ser que você tenha estado debaixo de uma pedra nos últimos dias, você sabe que houve uma invasão ao Instituto Royal, e cerca de 150 beagles que estavam sendo usados para testes farmacêuticos foram libertados. Rapidamente, muitos cientistas vieram repudiar a ação, algo que foi bem exemplificado pelo pronunciamento da ABC e da SBPC sobre o assunto. Muitos de meus colegas no meio acadêmico ficaram boquiabertos. Afinal, uso de animais em pesquisas científicas é algo justificadamente importante, e seria inconcebível imaginar como alguém racional e instruído poderia ser contra o uso (consciente e dentro das normas, que fique bem claro) de animais em laboratórios, certo? Certo???

Bem, eu não acho que seja bem por ai. Acho sim que a questão de uso de animais em pesquisas e testes é algo que sim deve ser colocada em discussão, e que está longe de ser evidente. Mas não quero argumentar contra ou a favor da ação dos ativistas, nem defender ou atacar o uso de animais em pesquisas, muito menos mais testes laboratoriais. Quero apenas fazer uma pergunta para meus amigos da academia: podemos dizer com cara limpa que nós fizemos direito o trabalho de expor e justificar nossa pesquisa frente a sociedade ao ponto que toda a opinião contrária ao uso de animais em experimentação científica seja associado ou a fundamentalismo fanático ou ignorância?

Será?

Haeckeliano no ScienceBlogs!

Sim, aconteceu: o pessoal do ScienceBlogs resolveu diminuir seus critérios de admissão. Fico muito feliz de estar aqui, na companhia de muitos que sigo a anos e que muito admiro. Como esse é um post introdutório, acho que é de bom tom uma breve introdução sobre mim e sobre o blog.

Meu nome é Fábio e atualmente sou doutorando da Universidade de São Paulo. Por ser uspiano, muitos de vocês podem pensar que isso me torna prepotente e convencido. E, segundo o que escuto regularmente, muitos de vocês estarão corretos.

Minha história com blogs sempre foi ambivalente. No inicio da faculdade eu era um blogueiro compulsivo, escrevendo sobre coisas que adolescentes escrevem. Acabei largando a prática por ter entrado em conflitos com minha namorada da época, em decorrência de algo inconsequente, inócuo, ou ambos, que eu tenha escrito. Desde então, me mantive longe de blogs e redes sociais. Nessa época ainda, meu colega de faculdade Átila (autor do Rainha Vermelha) começou a desenvolver uma plataforma de blogs de divulgação científica (que mais tarde se tornaria o ScienceBlogsBrasil) e, desde o inicio, nunca perdi uma única oportunidade de tirar sarro da cara dele por conta disso. Porém, como muitos vão aprender, hipocrisia é uma das minhas maiores qualidades (ex: já passei de critico de vegetarianos à vegetariano, e agora a onívoro apoiador do vegetarianismo), e quando quebrei minha perna no inicio do doutorado acabei iniciando um blog intitulado Haeckeliano, e me afundei nas mídias sociais.

Uma pergunta que muitos me fizeram foi “Porque Haeckeliano?”*. Pois bem, meu fictício Eu-Lírico, a resposta para isso, assim como para muitas coisas na minha vida é “eu não faço a menor idéia”. Mas isso não significa que eu tenha algumas explicações. A primeira é que “Haeckeliano” é uma referencia óbvia a Ernest Haeckel, um dos grandes popularizadores da biologia evolutiva durante o fim do sec XIX e inicio do séc. XX na Alemanha. Haeckel era um daqueles caras que te faz ter vergonha de ter preguiça de acordar cedo para ir na academia: ele era um naturalista, divulgador, artista talentoso, comunicador, criador do monismo alemão (um movimento cientifico-filosofico de cunho materialista). Foi Haeckel que criou muitos dos termos que usamos na biologia moderna, como filogenia e ontogenia (o que torna a piada abaixo muito mais engraçada):

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– Eu tenho a coisa mais emocionante para te dizer: “Ontogenia recapitula a filogenia”. Deixe-me saber o que você acha disso. Obrigado.Sinceramente, Ernst Haeckel.

– ?… Você acabou de inventar essas palavras, não? -Darwin

– Sim. De fato eu inventei!

Fonte: http://sci-ence.org/haeckel/

Claro, Haeckel nunca foi perfeito, muito pelo contrário. Ele tinha idéias muito estranhas sobre evolução. A mais famosa delas é sua teoria de recapitulação, onde (como no cartoon acima) a “ontogenia recapitula a filogenia”, ou seja, durante o seu desenvolvimento embriológico, um organismo passaria por todos os estágios prévios evolutivos, retomando a história evolutiva de sua espécie. Isso se daria porque, segundo Haeckel, a evolução ocorreria por um processo de “adição terminal” de etapas de desenvolvimento: um organismo se modificaria de seu ancestral pela adição de um processo no fim de seu desenvolvimento que iria modificar a forma final do seu organismo. Haeckel tomou, por exemplo, a existência de fendas branquiais nos embriões de mamíferos, répteis e aves como evidencia de sua teoria, pois esses organismos passariam por “fases de peixe”, antes de atingir a fase adulta. Com base nesse tipo de idéia, Haeckel resolveu propor um organismo hipotético, que seria ancestral de todos os animais. Tudo isso é a mais completa bobagem, e nós sabemos hoje que por mais que algumas coisas possam ser compreendidas nessas linhas, nada torna esses processos uma necessidade ou uma lei natural. Haeckel estava errado sobre isso, assim como estava sobre muitas outras coisas.

Então, a homenagem pode ter vários significados: uma pretensa identificação com sua criatividade ou com suas motivações ideológicas, ou o reconhecimento da falibilidade das suas idéias, ou até mesmo um interesse por seu assunto de preferência (desenvolvimento biológico)…? Eu honestamente não sei, e até prefiro que seja assim.

Então, para os recém chegados: Bem vindos! Aproveitem para dar uma olhada nos posts passados. Para os leitores de longa data: é ótimo recebe-los aqui! Sim, eu sei que devo muita coisa para vocês (como continuar aquela série sobre como Evolução não é um Fato). Mas prometo tentar ser um bom menino.

Vamos às atividades do dia!

* Na verdade ninguém nunca me perguntou isso. Talvez isso seja de fato a parte mais estranha.

O melhor argumento para o "Evolucionismo Teísta"

No post anterior eu argumentei que a evolução convergente de peixes cegos de caverna é um tanto esquisita, se avaliada a luz da evolução teísta, visto que seria necessário postular um deus caprichoso ou enganador para se conformar com as observações. A solução seria, então, propor um designer interventor que produzisse um efeito no mundo natural puramente indistinguível de processos materiais. Como isso pode ser feito?

Ao meu ver, a melhor proposta para como solucionar isso é a defendida por Elliott Sober:

A idéia pode ser resumida da seguinte forma: Deus interfere na evolução manipulando algumas mutações genéticas. Quantas, você pergunta? Bem, o suficiente para serem imperceptíveis.

Uma analogia pode ajudar a entender. Suponha que você tem um número muito grande de eventos aleatórios como, digamos, lançamentos de uma moeda não-viciada. De todos os lançamentos, aproximadamente 50% deram cara e 50% deram coroa. O evolucionismo teísta seria o equivalente a chegar na 457o lançamento, que deu por acaso coroa e dizer “Deus fez com que esse lançamento desse coroa”. Ou seja, uma mutação ou outra é causada por Deus, como por exemplo a que causou o surgimento dos tetrápodes, ou que me de um esmalte dentário praticamente imune a caries.

A parte boa da ideia, é que é completamente infalseável, como qualquer boa ideia religiosa deve ser para não cair nas garras da “ciência materialista” (sic). A parte ruim é que a intervenção divina é totalmente irrelevante para entender qualquer padrão geral e, de quebra, torna Deus impotente frente as forças materialistas que geram todo o resto das mutações. Deus pode ter sido responsável por criar uma mutação benefica que foi varrida de uma população por deriva, ou mesmo que uma mutação puramente natural foi melhor do que mutação causada divinamente. Lembrando que Deus não poderia fixar uma mutação desvantajosa (isso seria contra a seleção natural e distinta da evolução materialista) ou causar uma pletora de mutações improváveis para criar uma estrutura complexa (isso seria Design Inteligente e fácil de diagnosticar).

A única “contribuição” dessa ideia é permitir aos seus defensores dizer que, em algum momento da história da vida na terra, Deus pode ter interferido através de uma mutação. Talvez. Ninguém pode saber ao certo.

Agora, Sober não é nenhum tonto: ele é um dos mais importantes filósofos contemporâneos da evolução, mas eu acho que ele está numa empreitada quixotesca nesse ponto, e pelos motivos errados. E os motivos não são nem sequer religião, visto que Sober é ateu. O problema dele é com os “novos ateus” e sua retórica. Especificamente, com o fato deles afirmarem (ou darem a entender) que religião e evolução são incompatíveis ou, mais especificamente, que uma concepção neo-darwinista da evolução implica na inexistência de um designer capaz de guiar as mutações.

O argumento que Sober tenta rebater é o seguinte:

P1) Até onde os cientistas puderam observar mutações são aleatórias.
P2) Mutações aleatórias não podem ser mutações guiadas.
P3) Temos modelos deterministicos de todos os outros fatores envolvidos na evolução das espécies
C) Não é possível ter mutações guiadas, ou não é possível que Deus esteja intervindo na evolução através de mutações.

Sober argumenta que tal linha de raciocínio é falaciosa, se baseando na equivocação da palavra “aleatória”. Quando um biólogo fala de mutação como sendo aleatória, ele não quer dizer que as mutações são não-causadas, mas sim que a probabilidade de uma mutação ocorrer é independente de se ela é benéfica ou deletéria. Então quando um teólogo diz que deus guiou a evolução por mutações aleatórias, os termos “guiada” e “aleatórias” não estão em contradição pelo simples fato de que elas não são ideias opostas nesse contexto.

E ele está absolutamente correto nesse ponto: a teoria evolutiva moderna não implica a inexistência de forças guiadoras conscientes, apenas limita seu escopo à quase irrelevância (quaisquer que sejam elas). O teísta ainda pode tentar enfiar seu deus em alguma dessas mutações aleatórias (mas não em todas) se ele quiser.

Nada disso, claro, é um argumento realmente a favor do evolucionismo teísta: afirmar que deus fez X ou Y durante a evolução ainda continua sendo um argumento de ignorância similar aos proponentes do Design Inteligente (e para esse ponto, volto a indicar o post do Giuliano). O que Sober está fazendo é apenas apontar como Evolução e intervencionismo divino são compatíveis. As evidências para isso ainda são zero.

Peixes cegos, Elliott Sober e "A Farsa da Evolução Teísta"

Quem me conhece sabe que considero a noção de “Evolução Teísta” uma grandessissima bobagem.

A alcunha “evolução teísta” foi popularizado pela Eugene Scott (uma agnóstica até onde sei) da NCSE, uma instituição voltada para a defesa de ciência, especificamente evolução e aquecimento global, por serem ideias as científicas mais politicamente atacadas por motivos ideológicos e religiosos. Em seu artigo, Eugene coloca que evolução teísta seria:

“(…) a posição teológica na qual Deus cria através das leis da natureza”

o que estaria em claro contraste com a evolução ateia (sic) ou puramente materialista, que não contaria com nenhuma intervenção divina. Agora, como essa noção de compatibilização entre evolução e teísmo é possível não foi abordado por Scott. Seu único objetivo é fazer com que o máximo de pessoas aceitem em entendam evolução, mesmo que isso se dê através de aceitação de alguma noção idiossincrática. E eu não tenho nenhum problema com isso: é um motivo nobre, defendido também por instituições religiosas como o Biologos do Dr. Francis Collins. O meu problema começa quando eu vejo os argumentos que defendem essa compatibilidade, e noto que eles são completas bobagens. Por exemplo, o teólogo e bioquímico Alister McGrath, ao discutir a posição de Santo Agostinho sobre o Gênesis, afirma que

“Para Agostinho, Deus trouxe tudo à existência, em um único momento de criação. No entanto, a ordem criada não é estática. Deus dotou-a com a capacidade de se desenvolver. Agostinho usa a imagem de uma semente adormecida para ajudar seus leitores compreender este ponto. Deus cria sementes, que irão crescer e se desenvolver no tempo certo. Usando uma linguagem mais técnica, Agostinho pede a seus leitores para pensar na ordem criada como contendo causalidades divinamente embutidas que surgem ou evoluem em um estágio posterior.”

Como isso é uma posição sobre “evolução” (fala sobre origem do universo) e teísmo (tá mais para deísmo), me foge completamente! Agora, meu desprezo mais profundo por essa concepção vem da premissa implícita de que existe alguma distinção entre a teoria evolutiva moderna, como aceita por um materialista, e a teoria evolutiva como aceita por um teísta. Porque se existe, um dos dois está errado. E adivinha qual é a teoria aceita pela comunidade científica e quantas vezes ela se vale de um deus teísta?

Giuliano Thomazini Casagrande

Talvez motivado por um similar desprezo, Giuliano Thomazini Casagrande, do blog “Materialismo-Filosofia”, publicou um fantástico post intitulado “A Farsa da Evolução Teísta”, no qual ele ataca de forma voraz a idéia. Sugiro a leitura. O Giuliano tem uma erudição impressionante e uma língua ferina que não poupa ninguém:

O exemplo da produção de variedades domésticas é bastante esclarecedor. As mutações aleatórias fornecem aos criadores de plantas e de animais a matéria bruta para a elaboração de uma imensa variedade de novas linhagens. O método utilizado – de forma consciente ou inconsciente – pelos criadores é a seleção cumulativa, durante sucessivas gerações, de ligeiros desvios anatômicos ou comportamentais de natureza hereditária. Ora, as mutações que surgem aleatoriamente nada têm de milagrosas: um focinho um pouco mais curto, uma pelagem mais densa, um temperamento mais dócil, flores mais vistosas etc. A prática dos cruzamentos seletivos, ao longo de séculos ou de milênios, permitiu aos criadores, por exemplo, a transformação do lobo (Canis lupus) em centenas de raças caninas tão diferentes quanto o chihuahua, o são-bernardo e o buldogue. Quanto à maioria das plantas domesticadas, um leigo não faz ideia das diferenças que as separam de suas ancestrais selvagens. Em poucos séculos, os horticultores obtiveram, por exemplo, variedades como o repolho doméstico, o brócolis, a couve-flor e a couve-de-bruxelas a partir de um único ancestral, o repolho selvagem (Brassica oleracea); e somente um idiota diria que essas variedades foram produzidas por Deus.

Darwin observou que, em estado natural, as pressões ambientais desempenham o papel dos criadores humanos. No notório caso das Ilhas Galápagos, prosperaram as mutações aleatórias que conferiam aos tentilhões (migrados do continente sul-americano) um incremento adaptativo a condições de vida distintas: bicos de diversos tamanhos e formatos, úteis para as dietas mais variadas.

De modo análogo, peixes não relacionados de diferentes regiões do globo são isolados em cavernas e apresentam as mesmas respostas adaptativas (evolução convergente): uma progressiva atrofia do aparato visual, por exemplo. O cenário proposto pelos acomodacionistas é ridículo. A cada vez que uma população de peixes fosse isolada num ambiente trevoso, um designer inteligente operaria uma sequência correspondente de mutações que resultaria na redução do aparato visual. Com a mesma razão um teólogo poderia afirmar que Deus está por trás de um fenômeno como a deriva continental. Na Antiguidade, relâmpagos e trovões eram atribuídos a Zeus, e terremotos, à fúria de Posídon. Isso faz pensar que o discurso “sofisticado” de um Plantinga não passa de superstição ancestral apresentada sob a cobertura de ouropel de um jargão acadêmico embolado.

ouch!

Mas, claro, nenhum evolucionista teísta de fato liga para espécies insulares, ou para raças de cachorro, repolhos ou peixes cegos. O que importa somos nós -seres bípedes, de telencefalo desenvolvido- e como nos encaixamos no plano divino, qualquer que seja ele. Mas para alcançar o status da evolução materialista, a evolução teísta tem que tratar também desses fenômenos. E quando fazemos isso, evidenciamos a futilidade da empreitada.

Agora, eu acho que o Giuliano deu pouca atenção para o que eu considero talvez o melhor argumento “evolucionista teísta” que, não coincidentemente, é o que parece estar menos presente na cabeça dos advogados dessa ideia. Queria também explorar um pouco mais o exemplo sobre peixes cegos, um assunto que considero fascinante.

Visto que isso ficaria longo demais para um único post eu dividi o assunto em 2 posts a serem colocados a seguir, um tratando sobre peixes de cavernas e outro sobre as visões de Elliott Sober sobre essa questão. Ambos podem ser tomados como posts independentes sobre esses assuntos.

1o Post: Devolvendo a visão aos cegos, Mendel-style!

2o Post: O melhor argumento para o “Evolucionismo Teista”

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