A Terra é Bela. Ainda mais em 4K

Onde estava o leitor entre os dias 15 e 19 de maio de 2011? Não preciso adivinhar: estava no Planeta Terra, muito provavelmente na metade sul do hemisfério ocidental. Quem esteve do outro lado do mundo entre aqueles dias está no vídeo a seguir. São quase quatro minutos de imagens de alta resolução da bacia do Oceano Índico, começando pelo hemisfério norte, depois o hemisfério sul e encerrando com o globo terrestre em toda a sua glória. Recomendamos rodar o vídeo em tela cheia. Continue lendo…

Dress Code Medieval

Eduardo I (à dir.) reconhecido como suserano da Escócia. Coroa-boina era tendência.

Os cavalheiros e visitantes estrangeiros que vinham a Windsor no reinado [1272-1307] de Eduardo I [a.k.a. Dudu Pernas Longas, 1239-1307] traziam consigo uma sucessão de modas variáveis, o que fazia virar as cabeças — nos jovens, de deleite; nos velhos, de desgosto. Douglas, o monge de Glastonbury, era especialmente denunciativo e satírico nesse ponto. Dizia ele da horrível variedade de costumes e estilos – “ora longos, ora largos, ora soltos, ora justos” —que aquilo era um “desvio e descaminho de todos os bons e velhos usos.” Era tudo “distorcido e amassado por todos os lados e tão amarfanhado e abotoado que eu em verdade diria que eles, em suas vestimentas e também em seus arranjos e decoros, se parecem mais atormentadores e demônios que homens.” O velho monge tinha bons fundamentos para suas reclamações. A Câmara dos Comuns também tinha — o que não tem agora — o decoro de não se tornar tão extravagante quanto seus superiores em termos de vestuário. Assim, aquela augusta assembléia respondeu à reclamação ao restringir o uso de peles e cachecóis à família real e aos nobres de renda superior a mil [marcos] per annum. Aos cavalheiros e damas de mais de quatrocentos marcos anuais, permitia-se a apresentação em tecidos com ouro e prata e certas jóias. Cavalheiros pobres, squires e donzelas eram proibidos de aparecer no costume daqueles de grau superior. Quanto aos próprios Comuns, eles não poderiam vestir nada melhor que uma roupa de lã sem adornos. E se um aprendiz ou moendeiro fosse ousado a ponto de usar um anel no dedo, estaria a risco de perdê-lo — o anel, não o dedo – com o confisco do bem proibido.

A consequência foi que, estando sob proibição de se refinar, os Comuns se viram tomados por um intenso desejo de imitar refinação. Todas as classes, então, se contentaram e passaram fazer o que muitas classes ainda fazem alegremente em nossos dias: vestir-se acima de seus meios.

— KING, Edmund Fillingham. Ten Thousand Wonderful Things: comprising the marvellous and rare, odd, curious, quaint eccentric and extraordinary in all ages and nations, in art and science. Second series. [Dez Mil Maravilhas: compreendendo o maravilhoso, o raro, o ímpar, o curioso, o extravagante, o excêntrico e o extraordinário em todas as nações e eras, na arte e na ciência. Segunda Série.] Londres: Ward & Lock, 1860. p. 298. [Ilustração: pintura de James William Edmund Doyle (1822–1892), reproduzida em seu livro A Chronicle of England: B.C. 55 – A.D. 1485, Londres: Longman, Green, Longman, Roberts & Green, 1864. p. 262.]

Neurô, o metrô neural

neurô

Flagrante microscópico de um neurônio tomando um neurô, isto é, lançando um axônio através de um microtubo. [Imagem: Xiuling Li/University of Illinois]

Linhas de metrô e redes de neurônios têm muitas coisas em comum. Ambos os sistemas são complexos, caros, exigem conexões delicadas e crescem de modo lento e subterrâneo. Sim, neurônios também crescem em túneis e pesquisadores da Universidade de Illinois e da Universidade de Winsconsin estão usando microtubos para replicar esse ambiente sob o microscópio. Recém-descoberta, a técnica permite não só a observação direta do crescimento neuronal, mas vai facilitar o estudo das redes neurais e pode até acelerar e guiar o crescimento de neurônios para reparação de danos.

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Em uma palavra [202]

incoativo (in.co.a.ti.vo)
adj.
1. que começa ou acabou de começar: “veraneio incoativo”; 2. inicial, inceptivo: “pontapé incoativo”. 3. Em Gramática, Incoativo é o verbo ou locução verbal que indica o começo ou o estágio inicial de uma ação ou fenômeno. Ex: “vai amanhecendo” [do lat. tardio inchoativus, a partir de inchoo = começar, empreender]

Função prática da Máquina de Babbage

babbage machine

Uma máquina calculadora é um alvo fácil para uma piada. Em maio de 1839, quando um empréstimo adicional foi pedido à Câmara dos Comuns para completar a Máquina de Mr. Babbage, Mr. Wakley inquiriu qual seria a possibilidade de aquilo ter qualquer utilidade pública. Em aparte feliz, Sir Robert Peel replicou: “a máquina pode ser posta para calcular o tempo em que será de qualquer utilidade.” A máquina calculadora certamente ainda não tem qualquer outro propósito mais prático. —  Anedoctes of Invention and Discovery: curious facts and characteristics sketches [Anedotas de Invenção e Descoberta: fatos curiosos e cenas características]. Brooklyn, Nova York: Willam W. Swayne; Edinburgh: Murray and Gibb, c. 1860.

Morte e Vida Ediacarana

rangeomorfo

[crédito: Jennifer Hoyal Cuthill/Universidade de Cambridge]

Os primeiros organismos a viver na Terra eram seres unicelulares bastante parecidos com as atuais bactérias. Algumas, eventualmente, reuniram-se e formaram seres ainda microscópicos, mas multicelulares. Da evolução desses organismos surgiu o que os cientistas chamam de proto-animal, uma criatura de tamanho visível. Foi no período Ediacarano (de 635 a 541 milhões de anos) que apareceram esses proto-animais, conhecidos como rangeomorfos.

Por um bom tempo, rangeomorfos foram os senhores da Terra, mas até recentemente tão pouco se conhecia sobre sua aparência e como eles viviam que eles pareciam mais um fracasso que sucumbiu durante a Explosão Cambriana. Quem está lançando uma nova luz sobre a morte e vida ediacarana dos rangeomorfos são dois pesquisadores da Universidade de Cambridge: Jennifer Hoyal Cuthill e Simon Conway Morris.

Num estudo publicado na edição de 9 de setembro da revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), Cuthill e Morris apresentam a reconstrução que fizeram da vida dos rangeomorfos a partir de evidências fósseis. Pequenos fósseis: os rangeomorfos eram criaturinhas de 10cm a 2m, com extensões fractais, parecidos com samambaias. Por isso mesmo, durante muito tempo foram confundidos com plantas.

Apesar da delicadeza de seus corpos, os rangeomorfos deixaram suas marcas fossilizadas nas rochas. E foram essas marcas que a dupla de cientistas usou para desenvolver modelos em 3D para esclarecer como os rangeomorfos se alimentavam e se reproduziam.

“Nós sabemos que rangeomorfos viveram muito fundo no oceano para obter energia por fotossíntese, como fazem as plantas.” — explicou Cuthill num comunicado à imprensa — “É mais provável que eles absorvessem nutrientes diretamente da água do mar através da superfície de seus corpos. No mundo moderno, seria difícil que animais tão grandes sobrevivessem apenas de nutrientes dissolvidos”.

Mas as coisas eram bem diferentes no período Ediacarano, quando os rangeomorfos não tinham competidores. Eles estavam bem-adaptados ao ambiente que encontraram: seus corpos cheios de ramificações aumentavam a superfície corporal exposta à água, permitindo maior absorção de nutrientes, carbono e oxigênio. Por mais de 100.000 anos, os rangeomorfos floresceram livremente e foram o ápice da vida na Terra.

Aí veio a Explosão Cambriana… A partir de 542 milhões de anos, e ao longo de 30 milhões de anos, uma série de mutações no ambiente e nos próprios organismos causou uma diversificação explosiva de formas de vida. Com cada vez mais espécies lutando pela sobrevivência, a corrida armamentista foi extrema. Foi durante a Explosão Cambriana que novos organismos desenvolveram novas formas de nutrição — incluindo a possibilidade de se alimentar de outros organismos.

Enquanto aqueles organismos começavam a virar bichos que se comiam, os rangeomorfos foram ficando à míngua e acabaram extintos por falta de defesas e de nutrientes, cada vez menos disponíveis para absorção. Acabaram virando comida. Ainda assim, um reinado de 94 milhões de anos não é coisa que se despreze…

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Referência

rb2_large_gray25CUTHILL, Jennifer F. Hoyal. MORRIS, Simon Conway. Fractal branching organizations of Ediacaran rangeomorph fronds reveal a lost Proterozoic body plan. PNAS September 9, 2014 vol. 111 no. 36 13122-13126. Published online before print August 11, 2014, doi: 10.1073/pnas.1408542111

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[via I Fucking Love Science]

Memória Fotográfica: Cuthbert Bede

Photographic Pleasures 1

A primeira coisa que aparece após uma nova tecnologia são os early adopters, os entusiastas, gente que muitas vezes não sabe muito bem o que fazer mas faz — por vezes com uma ingenuidade cômica. A segunda coisa que aparece depois de uma inovação é gente que tira sarro dos entusiastas. O reverendo Edward Bradley (1827-1889) foi as duas coisas em termos de fotografia: um pioneiro tanto na prática da nova arte quanto em sua crítica humorística. Além de clérigo, Bradley era romancista e caricaturista, assinando seus trabalhos com o irreverente pseudônimo Cuthbert Bede (referência aos dois mais veneráveis doutores da Igreja inglesa, S. Cuthbert e S. Beda). Continue lendo…

Em uma palavra [201]

fornilho (for.ni.lho)
s.m. 1. pequeno forno ou fogareiro: “o fornilho caiu”. 2. parte do cachimbo onde arde o fumo: “o fornilho caiu…”. 3. barril de pólvora estrategicamente enterrado para explodir seu entorno; bomba, mina terrestre artesanal: “SEGURA ESSE FORNILHO!!!”. [do espanhol hornillo = forninho]

Fortunas livrescas perdidas

Petronius_Arbiter_by_Bodart_1707

Indubitavelmente, muitas obras pereceram no estado de manuscrito. Por uma petição do Dr. [John] Dee [1527-1609?] à Rainha Mary, existente na Biblioteca de Cotton, parece que o tratado de Cícero — de Republica — foi um dia bastante comum neste país. [O Rev. Thomas] Huet [?-1591] observa que Petrônio [27-66] provavelmente ainda estava na íntegra nos tempos de João de Salisbúria [c. 1115-1180], que cita trechos que não se encontram entre os restos do bardo Romano. Raimond Soranzo, advogado da corte papal, possuía dois volumes de Cícero sobre a Glória, os quais foram dados como presente a Petrarca, que os emprestou a um velho homem de letras que fora seu preceptor. Pressionado por uma pobreza extrema, o velho homem os empenhou e, ao voltar pra casa, faleceu antes de revelar onde os havia deixado. Eles nunca foram recuperados. Petrarca fala deles com êxtase, e nos conta que poderia estudá-los perpetuamente. Dois séculos mais tarde, esse tratado de Cícero sobre a Glória foi mencionado num catálogo de livros doados a um monastério de freiras, mas ao ser buscado, viu-se que estava perdido. Supõe-se que Petrus Alcyonus, médico daquela instituição, furtou-o e, após transcrever o máximo que pode em um de seus próprios manuscritos, destruiu o original. Os críticos observam que Alcyonus, em seu livro De Exilio, apresenta muitas passagens esplêndidas, que se isolam de sua obra e estão muito além de seu gênio. O mendigo, neste caso um ladrão, foi reconhecido por emendar seus farrapos com retalhos de ouro e púrpura. — D’ISRAELI, Isaac. Curiosities of Literature [Curiosidades da Literatura], Vol. I. Paris: Baudry’s European Library, 1835.

Veja também: Pequenas fortunas livrescas.

Macro, escura e massiva

Uma galáxia-anã em formação, há cerca de 7 bilhões de anos. Estrelas em amarelado, gás em ciano e matéria escura em tons avermelhados. [imagem: Bourke e Duffy/International Centre for Radio Astronomy Research, via scienceillustrated.com.au]

Ela está por toda parte, permeando o universo. Mas não a enxergamos, não podemos tocá-la e assim não sabemos do que é feita. Dos efeitos sabemos: ela compõe aproximadamente 27% do Cosmos (a matéria ordinária só ocupa 5%), mantém as galáxias coesas e não interage com a luz. Por isso, e na falta de nome melhor, a chamamos de Matéria Escura.

Há três décadas, os melhores físicos do mundo tem quebrado a cabeça para entendê-la. Construímos aceleradores de partículas cada vez maiores para buscar partículas cada vez menores. Será que esse foi o caminho certo? Quem levanta a pergunta são dois jovens físicos teóricos e professores de Física de uma universidade da África do Sul. Continue lendo…

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