Em uma palavra [192]

plaquê (pla.quê)
s.m. 1.
lâmina de metal mais ou menos delgada e geralmente de aparência dourada, com a qual se revestem certos objetos ou ornamentos de metal ordinário; metal ordinário usado na fabricação de objetos de adorno, imitando objetos de ouro; ouropel, ouro falso, bijuteria. 2. gír. no Brasil, o mesmo que papel-moeda; em especial a nota de cem reais. [do francês plaque = placa, folha de metal; cp. com a gíria inglesa de origem jamaicana bling ou bling-bling = acessórios ou joias ostentativas]

Ciência com o próprio fígado

Não faltam experimentos de um único voluntário na História da Ciência. Nem experimentos em que a linha entre pesquisador e pesquisado é bem tênue. Também não são poucos os créditos mal-atribuídos pela participação em uma pesquisa. Um caso com todas essas características aconteceu em 1954, na Universidade de Londres.

cooper malaria watercolorsAo estudar o protozoário Plasmodium ovale — causador da malária terçã — o parasitologista William Cooper (1900-1964) foi quem se voluntariou para receber as picadas de cerca de mil mosquitos Anopheles. Nove dias depois, ele passou por uma laparotomia, uma operação para extrair uma amostra de seu fígado. Após receber alta, Cooper voltou ao laboratório e foi ele mesmo que fez secções na amostra, localizando os diversos estágios do parasita da malária em seu próprio tecido. Na falta de fotografias coloridas de alta resolução, Cooper também teve que pintar as aquarelas que ilustraram o paper (e este post).

Embora tenha literalmente dado o sangue (e um pedaço do fígado) por uma pesquisa, William Cooper não recebeu os devidos créditos. Ele não foi listado com autor principal do paper, publicado pela revista Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene em março de 1955. A honra da autoria principal coube, na verdade, a um dos co-autores, o protozoologista Percy Cyril Claude Garnham (1901-1994), também da Universidade de Londres. O critério da ordenação dos nomes dos autores — um assunto sempre complicado — parece ter sido a fama mesmo, pois P.C.C. Garnham já era bastante conhecido na época. Além de Cooper e Garnham, outros quatro pesquisadores colaboraram: R.S. Bray, Ralph Lainson (que mais tarde viria pro Brasil), F.I. Awad e J. Williamson.

Sobre o caso, Garnham escreveu que Cooper “alcançou fama eterna por este episódio” de sacrifício pela Ciência. Pode até ser, mas até hoje Garnham ainda é um dos autores mais lembrados por sua pesquisa sobre a malária. O pobre Cooper não tem sequer um artigo na Wikipédia.

Referência
rb2_large_gray25P.C.C. Garnham et al., “The Pre-Erythrocytic Stage of Plasmodium Ovale,” Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene 49:2 [March 1955], 158-167. DOI: http://dx.doi.org/10.1016/0035-9203(55)90042-0

[via Futility Closet]

Patentes Patéticas (nº. 142)

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Ah, uma massagem… O ideal seria ter um par de mãos apertando delicadamente o seu cangote durante aquela interminável viagem de carro, caminhão ou ônibus. Uns beijinhos na nuca também não seriam má ideia e… Bom, nem todo motorista ou passageiro pode contar com esse luxo, mas uma solução mecânica já foi patenteada há duas décadas. O Vibrating Neck Rest for the Passenger Seat of a Motor Vehicle [Apoio Vibratório de Pescoço para o Assento do Passageiro de um Veículo Automotor] pode ter um nome horrível, mas parece ser algo relaxante: Continue lendo…

Muito agradecido

Em 1935, e.e. cummings não era levado a sério pelos editores enquanto tentava publicar seus 70 Poems. Assim, o poeta das letras minúsculas teve que pedir um empréstimo de 300 dólares à própria mãe para conseguir publicar sua coletânea de poemas.

Porém, no último momento, cummings encontrou a vingança perfeita — mudou o nome do livro para No Thanks e dedicou-o às 14 editoras que o rejeitaram. Como se não fosse sarcasmo o bastante, e.e. ainda fez um arranjo tipográfico em forma de urna funerária com os nomes das casas editoras que não lhe abriram as portas:

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Em uma palavra [191]

inzoneiro (in.zo.nei.ro)
adj. gír. 1. que inzona, engana, logra. 2. ardiloso, astuto, malandro. inzona ou inzonice, s.f. ato de lograr ou enganar alguém; logro, embuste, armação, malandragem. inzonar, v.t.d. e v.int. intrigar, mexericar, fuxicar, lograr; praticar inzona.

Patentes Patéticas (nº. 141)

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Aprender a nadar é algo que exige tempo e paciência. Primeiro o aluno precisa aprender a boiar, depois a fazer os movimentos adequados dos braços e pernas de maneira sincronizada. De fundamental importância é aprender a respirar – digo isso por experiência própria: depois de passar dez anos longe das piscinas eu voltei a nadar recentemente e me lembrava bem dos movimentos, mas não conseguia respirar direito e perdia o fôlego depois de poucos metros.

Ensinar a nadar é algo que exige tempo, paciência e algum grau de contato físico. Esse contato físico não costuma ser problema, a não ser que você viva de maneira puritana em plena Era Vitoriana. Nesse caso, o contato físico numa aula de natação é um problema tão sério que merece ser resolvido com uma invenção mecânica, o Device for Teaching Swimming [Dispositivo para Ensino de Natação]:

Esta invenção está relacionada ao aperfeiçoamento de máquinas para instruir pessoas na arte da natação, e consiste num suporte ou numa estrutura adequada para ser colocada num tanque de natação ou piscina ou mar aberto, sendo nela [a estrutura] montados suportes para o corpo e suportes para os braços e pernas, suportes os quais são restritos em movimentos de trajetória praticamente correspondente àqueles realizados por um nadador, tendo os ditos suportes de braços e pernas mecanismos para transmitir aos mesmos os seus movimentos.

Há pessoas que têm medo da água e não aprendem a nadar. Há pessoas que têm medo do “mesmo” e buscam sinônimos melhores. E há (ou havia) pessoas como James Emerson, que temem(iam) contato físico e preferem(iam) substitui-lo por uma manivela. Nativo de Williamansett, Massachussetts, Mr. Emerson deve ter sido um misto de pastor e professor de educação física.

Em sua patente, Emerson descreve minuciosamente a combinação de eixos, manivelas, suportes e engrenagens que ensinariam o aluno a nadar, nem que fosse de modo bem mecânico. Não há nenhuma palavra sobre os motivos que o levaram a invenção, mas dado o contexto puritano de sua época e de seu lugar (a Nova Inglaterra do século XIX), é bem provável que o problema que ele tentava resolver tenha sido mais de ordem teológica do que técnica ou pedagógica. Isso fica mais explícito nas figuras do que no texto da patente. As Figuras 1 e 2 da patente nº. 563.578 [pdf], emitida em 7 de julho de 1896, deixam bem claro o puritanismo de Mr. Emerson: em ambas as ilustrações a figura humana é uma mulher.

Embora essa “máquina de evitar contato físico” esteja correta para os padrões puritanos da época, não seria muito útil dos pontos de vista mecânico, ergonômico e pedagógico.

Em primeiro lugar, o mecanismo todo é composto de peças metálicas. Numa época em que não havia aço inoxidável (que só surgiria duas décadas depois), a geringonça se tornaria rapidamente inútil. Por mais bem pintado que fosse, o mecanismo de ferro não tardaria a enferrujar. O próprio peso das peças de ferro tornaria o suporte de Emerson pouco portátil — colocá-lo e tirá-lo da água não seria moleza nem para um professor mais “bombado”.

A ergonomia para a(o) aluna(o) também não seria das melhores. Embora a prancha B, que serve de suporte ao corpo (ou ao quadril, pra ser mais exato), seja longitudinalmente regulável, seu tamanho parece ser padronizado. O suporte C, para as axilas, também não seria confortável: era fixo e, aparentemente, não tinha nenhum estofamento – era pouco mais que um a muleta metálica.

Por fim, a coisa toda se torna uma muleta metálica, que literalmente prende o aluno para forçá-lo a aprender em vez de prender sua atenção para fazê-lo se esforçar. Forçar os movimentos num mecanismo com sérios riscos de ferimentos não é o melhor tipo de pedagogia aquática. Ainda que seja um método de ensino engenhoso, o sistema Emerson seria desconfortavelmente desestimulante para o aprendiz, talvez mesmo para o mais medroso diante da água.

A Cifra de Jefferson

http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jefferson%27s_disk_cipher.jpg

Nestes tempos de agências de espionagem paranoicamente oniscientes e até onilegentes é difícil encontrar um sistema de encriptação robusto e barato. Um dos melhores e mais simples foi criado por um advogado, revolucionário, diplomata, enólogo, arqueólogo e mais tarde presidente dos Estados Unidos. Além de inventar um país, Thomas Jefferson (1743-1826) ainda teve tempo para se dedicar à criptografia.

Inventada por volta de 1795, quando ele trabalhava no Departamento de Estado, a cifra de Jefferson é simples: um conjunto de 36 discos e um eixo. Cada um desses discos tem as 26 letras do alfabeto estampadas aleatoriamente na sua borda. O emissor empilha os discos no eixo e emparelha as letras de modo que uma linha da mensagem possa ser lida em uma das 26 filas de letras. Isso permite que cada linha da mensagem seja instantaneamente codificada pelas outras 25 fileiras de letras — basta escolher uma dessas fileiras de letras aleatórias, copiá-la e mandar a mensagem.

Quem recebe a mensagem faz a decodificação com o mesmo conjunto de discos. Basta alinhar as letras aleatórias enviadas e procurar por uma linha que faça sentido. Evidentemente, os discos do emissor e do receptor devem estar empilhados na mesma ordem.

É aí que está a chave da criptografia de Jefferson. Mas mesmo se os discos da cifra caírem em mãos erradas a mensagem vai ficar segura. É inútil ter os discos sem saber exatamente qual a ordem em que eles foram empilhados pelo emissor. Deveras inútil: os 36 discos podem ser empilhados de 371.993.326.789.901.217.467.999.448.150.835.200.000.000 maneiras distintas.

Isso é tão robusto que algumas mensagens codificadas por esse sistema jamais foram decifradas. Uma delas é a cifra a seguir, criada pelo criptólogo Joseph Mauborgne (1881-1971), do Exército dos Estados Unidos, em 1915. Mauborgne criou uma versão melhorada do sistema de Jefferson.

mauborgne cipher

Um século mais tarde, a mensagem de Mauborgne ainda não foi compreendida. Nem a temível NSA parece ter tido sucesso em quebrar seu código. “Os sistemas conhecidos deste ano [i.e., 1915] (ou anteriores) não deveriam ser tão difíceis de quebrar com ataques e tecnologia modernos”, observa Craig P. Bauer, criptologista da NSA, em seu Secret History: The Story of Cryptology.

Ou talvez nem tanto. Jefferson não patenteou o sistema (que parece remontar a projetos do polímata italiano Leon Battista Alberti, do século XV) e a cifragem por discos foi redescoberta de forma independente algumas vezes. Etienne Bazeries, um oficial do Exército francês, teve basicamente a mesma ideia de Thomas Jefferson em 1874. A versão francesa, porém, tinha uma falha simples: a ordem das letras em seus discos era padronizada e não aleatória. Isso — junto com o menor número de discos por cilindro — facilitou muito a quebra do sistema Bazeries em 1893.

Ainda assim foi o sistema Bazeries que chamou a atenção de Mauborgne. O criptólogo norte-americano aperfeiçoou o sistema francês, criando o M-94 mecanismo de 25 discos que esteve em uso nas Forças Armadas dos EUA até 1945.

Em uma palavra [190]

alvenel (al.ve.nel)
s.m.
aquele que trabalha com alvenaria; construtor, pedreiro [também se grafa alvanéu, alvenéu, alvener, alvaner, alveneiro; plurais: alvenéis, alvanéis, alveneres, alveneiros]

Patentes Patéticas (nº. 140)

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Barquinho bate-bate.

“Os carros são como as lanchas, as motos são como os jet-skis e os pedestres são como banhistas”. Ao que poderíamos acrescentar que os navios são como os caminhões (quando de carga; quando de passageiros são como os ônibus) e os recifes (ou icebergs) são como os buracos da estrada. Muito antes do viral da Marinha do Brasil — e quase dez anos antes do Titanic —, Charles Dornfeld percebeu que “no mar também ocorrem acientes”. Na tentativa de evitá-los, Dornfeld entrou com um pedido de patente para uma espécie de amortecedor submarino: Continue lendo…

Um por todos e todos por um

http://scienceblogs.com.br/hypercubic/files/2014/02/antsbuildraf.jpg

Formigas ao mar! Larvas e operárias primeiro! [Imagem: Profª. Jessica Purcell]

Quando há uma ameaça séria à sobrevivência dos indivíduos, os animais sociais reagem com cooperação para defender o grupo. Formigas, por exemplo, são capazes de se juntar para formar barquinhos com os próprios corpos e, assim, salvar o máximo de indivíduos possível durante uma inundação. Embora esse comportamento já fosse conhecido dos entomologistas, um novo estudo descobriu como esse tipo de cooperação funciona.

Publicado na edição de hoje da PLoS ONE, o artigo de Jessica Purcell e colegas busca esclarecer a funcionalidade, a composição e a estrutura (inclusive social) desses botes salva-vidas formigueiros. Para isso, Purcell e seus colegas da Universidade de Lausanne coletaram formigas de uma planície inundável na Suíça. As amostras continham populações de formigas com diferentes proporções de operárias, ninhadas (larvas e pupas) e rainhas.

No laboratório, essas pequenas comunidades foram submetidas a condições de inundação controlada. Durante a cheia, os cientistas observaram como cada tipo de formiga se ligava às demais para formar o bote salva-vidas. Também foram testados a flutuabilidade do barquinho improvisado e a recuperação das operárias e das ninhadas após a inundação.

Não houve surpresas quanto ao papel da rainha, que é protegida pelas demais formigas e fica no centro do bote. Mas a pesquisa revelou que as operárias e as ninhadas eram extremamente resistentes à submersão. “Nós esperávamos que indivíduos submersos na base do bote sofreriam os maiores prejuízos, então ficamos surpresos ao ver que as formigas botavam sistematicamente os membros mais jovens da colônia naquela posição”, disse a Dra. Purcell ao Phys.org.

Experimentos adicionais revelaram que a causa dessa forma de cooperação não é uma ordem da rainha ou mera reflexão das castas sociais das formigas. É física simples. As larvas e pupas são colocadas na base do bote porque boiam mais facilmente, o que dá mais estabilidade ao coletivo dentro d’água. Como são mais grudentas, essas formigas novinhas também servem como cola e ajudam a manter o barquinho unido durante a enchente. Parece óbvio, mas quanto mais flutuável e coeso for o barquinho, mais formigas sobrevivem.

REFERÊNCIA

rb2_large_gray25Purcell J, Avril A, Jaffuel G, Bates S, Chapuisat M (2014) Ant Brood Function as Life Preservers during Floods. PLOS ONE 9(2): e89211. DOI: 10.1371/journal.pone.0089211

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