Novas sobre uma velha Nova

Heveliusnovaof1670

A Nova de Hevelius: destacada em vermelho, essa estrela foi a primeira nova da astronomia moderna

Naquela noite de 25 de julho de 1670, um dos mais importantes astrônomos da Europa estava bastante ocupado. Uma nova estrela aparecera nos céus e era preciso registrar o acontecimento. Na Polônia, Johannes Hevelius (1611-1689) notou uma intrusa na constelação do Cisne. Mais de três séculos depois, o fenômeno está finalmente explicado. Continue lendo…

Em uma palavra [220]

divaricação (di.va.ri.ca.ção)
s.f. 1.
separação em dois (dois galhos, dois caminhos, etc.); bifurcação, entroncamento: “trem descarrila na divaricação”. 2. divergência extrema de opiniões; cisma, racha: “trinta anos após a redemocratização, acentua-se a divaricação na política brasileira”. [do lat. divaricatio = divisão de caminho; cp. com prevaricatio = prevaricação, desvio do caminho]

Luz do sol, que a lesma traga e traduz

E.crispata

Elysia crispata, a.k.a. Tridachia crispata, mas pode chamar de lesma-alface

Tragar cloroplastos e sair por aí traduzindo luz em vida, seria uma boa ideia, não? Por mais alfaces que você devore, não vai conseguir. Para conseguir roubar o mecanismo da fotossíntese, é necessário roubá-lo de maneira mais sutil. É preciso ser um cleptoplasta.

A cleptoplastia é um tipo de simbiose no qual os plastídeos — especialmente os cloroplastos — de algas são sequestrados pelos seus predadores. Os organismos cleptoplastas comem as algas numa boa, como qualquer herbívoro, mas poupam os cloroplastos durante a digestão. Assim preservados, os plastídeos continuam funcionais e são “mantidos em cativeiro” pelo predador.

Esse fenômeno é relativamente comum em alguns seres unicelulares, como foraminíferos, dinoflagelados e ciliados. Mas nem sempre é preciso um microscópio para ver um cleptoplasta em ação. Os poucos animais que se apropriam indebitamente de cloroplastos são as pequenas lesmas marinhas do taxon Sacoglossa.

Depois de jantar umas algas, os bichinhos (que têm entre 7mm e 8cm) guardam os cloroplastos em seu epitélio digestivo ou mesmo em outros tecidos. Há muito essa característica chama a atenção dos cientistas interessados na evolução da endossimbiose.

Segundo um paper publicado em 2009 por Katharina Händeler et. al., a atividade fotossintética varia amplamente entre as espécies sacoglossas. Nas lesmas estudadas, foram observados três tipos de cleptoplastia: não-funcional (i.e., os cloroplastos são preservados mas não usados); de curto prazo (cloroplastos funcionam por apenas uma semana) e de longo prazo (cloroplastos funcionais por mais de um mês).

Uma das espécies com retenção de longo prazo é a Elysia crispata, que, ao longo da vida, pode ser tanto hetero- quanto autotrófica. Nos indivíduos mais jovens, de acordo com Thompson e Jarman (1989), as algas são consumidas e digeridas rapidamente e quase não há retenção de cloroplastos (que se acumulam nos parapódios). À medida que envelhecem, as lesminhas tornam-se mais dependentes da fotossíntese roubada.

Referências

rb2_large_gray25HÄNDELER, K. et. al. Functional chloroplasts in metazoan cells - a unique evolutionary strategy in animal life. Frontiers in Zoology 2009, 6:28  doi:10.1186/1742-9994-6-28
THOMPSON, T. E. & JARMAN, M. G. Nutrition of Tridachia crispata (Mörch) (Sacoglossa). Journal of Molluscan Studies, v. 55, n. 2 (10 de maio de 1989), pp. 239-244. doi: 10.1093/mollus/55.2.239

Em uma palavra [219]

sartorial (sar.to.ri.al)
adj. relativo à arte do corte e costura de tecidos: “roupas fabricadas praticamente mataram a tradição sartorial”; por ext., relativo à moda em geral: “a cada estação renovam-se as coleções sartoriais”. sartório, s.m. costureiro, alfaiate. [do lat. sartorium]

Em uma palavra [218]

escaque (es.ca.que)
s.m. 1.
cada uma das divisões quadradas de um tabuleiro de xadrez; casa. 2. Heráld. cada uma das divisões quadradas de um escudo ou brasão. [do italiano scacco; cp. com caco = fragmento, pedaço]

Postrô, o metrô postal de Londres

Mail-Rail-Staff-©Royal-Mail-Group-Ltd.-courtesy-BPMASubir arquivo, enviar arquivo e baixar arquivo. Essa é a ordem usual para enviar e receber documentos rapidamente nos dias de hoje. Mas na Londres de meados do século passado, o correto seria baixar, enviar e subir pacotes de informação. Pacotes mesmo, além de cartas, cartões postais e outros tipos de encomendas. Mais precisamente, esse era o procedimento em oito estações postais interligadas por um metrô em miniatura. Continue lendo…

Em uma palavra [217]

simpatria (sim.pa.tri.a)
s.f. Bio.
ocorrência simultânea de duas ou mais populações de seres vivos em uma mesma área geográfica ou hábitat; co-habitação. [do grego syn = junto + patria = pátria]

Em uma palavra [216]

matacão (ma.ta.cão)
s.m. 1. Geol. grande pedra solta, arredondada, resultante da decomposição de uma rocha: “a estrada foi bloqueada pelo rolamento de um matacão”. 2. pedaço ou fatia bem grande; naco: “trouxe da festa de casamento um matacão de bolo”. 3. estilo de barba que cobre completamente a face, com exceção do queixo: vide o matacão de D. Pedro I.

Patentes Patéticas (nº. 155)

desodorizador Google

Só porque você trabalha numa multinacional das telecomunicações, não quer dizer que seja impedido de ter umas ideias patéticas de vez em quando. Na verdade, isso parece até ser incentivado, já que as empresas costumam ser valorizadas pelo número de patentes que têm. Pouco importa a utilidade ou a seriedade do invento patenteado. Esse é o caso de quatro funcionários da Motorola e uma patética patente para um Dispositivo Removedor de Odor:

Um dispositivo que inclui um sensor de atividade, uma área de comunicação e uma área de sugestão de rota. O sensor de atividade pode detectar a atividade física do usuário do dispositivo. A área de comunicação pode ter acesso a uma ou mais redes sociais via rede de telecomunicação, permitindo que o dispositivo possa se comunicar com os contatos de uma rede social. A área de sugestão de rota pode apresentar uma rota alternativa de viagem de modo que o odor previsto possa não ofender terceiros que estejam socialmente conectados ao usuário e passam pela mesma rota do usuário.

É basicamente um detector de CC com GPS e acesso à internet. Os gênios da Motorola por trás dessa maravilha tecnológica são Stephen H. Shaw, Rachid M. Alameh, William P. Albert e Jerome Vogedes. Pedida em 31 de agosto de 2012 e aprovada em 6 de março de 2014, a patente nº. US20140060150 A1 levava uma vida tranquila até essa semana, quando foi descoberta pelos meios de comunicação e amplamente divulgada como o “desodorante do Google”.

Como se sabe, o Google comprou a Motorola Mobilty em 2012 por US$ 12,5 bilhões, mais interessado em patentes do que na divisão de celulares da empresa. Tanto que dois anos depois revendeu a Motorola por 1/3 do valor. Foram-se os celulares, ficaram as patentes (ironicamente, a patente do Google é bem visível no Google Patents).

Além de ser mais um papel nos arquivos da Motorola/Google, o Dispositivo Removedor de Odor também seria um emissor de fragrâncias. Embora haja dezenas de patentes para equipamentos do tipo, isso (ou talvez uma bolada em dinheiro) não impediu que o USPTO soltasse mais uma patente que não fede nem cheira. Veja que bela argumentação:

Em alguns dispositivos de emissão automática de fragrâncias convencionais, as fragrâncias são emitidas de maneira lenta e controlada (i.e., por emissão contínua do perfume ao longo do dia para que a fragrância não se perca). Em outros dispositivos emissores de fragrância automáticos, uma fragrância pode ser emitida automaticamente em resposta a características físicas como a temperatura corporal. Embora dispositivos para emissão de fragrância convencionais possam ser efetivos na emissão de fragrâncias, eles não incluem opções adicionais para o usuário customizar e controlar o dispositivo de emissão de fragrância.

A tal fragrância não seria necessariamente um perfume, podendo ser “um neutralizador de odor, que serviria para neutralizar ou eliminar o odor corporal gerado pelo usuário”. Não bastasse isso, o equipamento — uma estrambótica ventoinha anexa à roupa do usuário — ainda tem acesso à internet com o flagrante objetivo de denunciar o suadouro pra todo mundo, talvez acompanhado das hashtags #nopain #nogain. Cheirando bem ou não, é quase uma selfie odorífica. Como há gosto pra tudo, talvez isso sirva pra formar uma rede social (mais uma) de pessoas fedidas.

Cheirar mal já não é uma experiência agradável, mas qual a necessidade de expor o próprio fedor publicamente? A patente diz que é pra evitar que o mau cheiro alcance as narinas dos amigos. Não me parece uma justificativa válida, pois isso pode ser feito de modo mais discreto e bem menos tecnológico.

Não é só a ideia de um detector de CC com GPS que soa (ou sua) mal, é a própria necessidade de que uma coisa dessas tenha que ser patenteada e conte como inovação, valorizando uma empresa que não inventou nada de novo ou útil.

O missal das erratas

Em 1561 foi impresso um livro intitulado Anatomie de la Messe [Anatomia da Missa]. É um octavo pequeno, de 172 páginas, acompanhado por uma Errata de 15 páginas! O editor, um  monge muito devoto, nos informa que uma razão muito séria o levou a esse expediente: antecipar-se aos artifícios de Satã. Segundo o autor o demônio, para arruinar o fruto de sua obra, empregou duas fraudes bastante maliciosas: a primeira, antes da impressão, foi lançar o manuscrito numa sarjeta, reduzindo-o a um estado deveras deplorável, tornando largos trechos ilegíveis; a segunda, fazendo os impressores cometer numerosos equívocos em obra tão curta. Para combater essa dupla maquinação satânica, ele foi obrigado a reexaminar minuciosamente o seu trabalho para fazer essa singular lista de erros cometidos pelos impressores sob influência do Diabo. Tudo isso é explicado numa Advertência à Errata. — D’ISRAELI, Isaac. Curiosities of Literature [Curiosidades da Literatura], Vol. I. Paris: Baudry’s European Library, 1835. p. 64

D’Israeli não nos informa a autoria ou o local de impressão da tal Anatomia da Missa. Há vários livros com o mesmo título, sendo o mais antigo um Annatomia de la Messa, de autoria de Antonio di Adamo (ou Agostino Mainardo) e publicado em 1552. O homônimo mais notável é Anatomie de la Messe, de Pierre du Moulin (1568-1658), publicado em Leiden em 1638.

Segundo o Manuel du libraire et de l’amateur de livres, vol. 6 [Manual do bibliotecário e do bibilófilo], há mesmo um in-8vo. intitulado Missae ac missalis anatomia, obra anônima publicada em Genebra em 1561. Mas não está claro se essa é uma tradução do livro de 1552. O Manuel du libraire… classifica todos esses títulos como “escritos satíricos dos protestantes contra a Igreja romana, suas cerimônias e particularmente contra o sacrifício da missa” [1]. É provável, portanto, que esse livrinho obscuro esteja intencionalmente cheio de errata, como forma de satirizar a credulidade católica.

Referência

[1] BRUNET, Jacques-Charles. Manuel du libraire et de l'amateur de livres. Tome Sixième. Paris: Firmin Didot Frères, Fils et. Cie., 1865. p. 91.

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