Breve História do Pó: o começo da carreira

Na longa carreira até os analgésicos baratos dos dias de hoje, os médicos toparam com a cocaína. Embora as folhas de coca (Erythroxylum coca) fossem há muito reconhecidas por suas propriedades medicinais, foi só a partir de meados do século XIX que passou a ser usada como matéria-prima para uma nova droga: um alcalóide em pó cujo processo de isolamento e purificação foi descrito em 1860 por Albert Niemann (1834-1861) em sua tese de doutorado¹. Foi Niemann quem batizou de cocaína o alcalóide incolor recém-descoberto. Quase imediatamente, a droga foi adotada por ser uma alternativa segura aos opiácios viciantes, como a morfina.

Só que não era bem assim. Continue lendo…

Mais um marciano à vista

InSight

Técnicos limpam o “chassi” antes do início da montagem da Insight. [Imagem: Lockheed Martin]

Enquanto jipe-robô-laboratório Curiosity continua subindo ladeiras e perfurando rochas do Planeta Vermelho e o veterano Opportunity se aproxima da maratônica marca de 41km rodados em Marte, o próximo marciano está nascendo na Terra.

Nesta semana, a Lockheed Martin começou a fase de montagem da sonda InSight Mars [algo como “Marte à Vista”], da NASA. Ao longo dos próximos seis meses, serão montados e instalados diversos sistemas, como os de aviônica, energia, telecomunicação, navegação e controle.

Também estão sendo construídos e testados os módulos de cruzeiro (que abriga a sonda durante a viagem) e o aero-escudo (cápsula protetora da entrada na atmosfera de Marte). Os instrumentos científicos serão finalizados pela NASA e seus colaboradores e mais adiante serão integrados à nova sonda.

Artist's Concept of InSight Lander on Mars

Vizinhança curiosa: nova sonda deve pousar um pouco ao norte da Curiosity, no equador marciano. [Imagem: JPL/NASA]

Quando a montagem terminar, em meados de 2015, deve começar a fase de testes. O lançamento está previsto para março de 2016 e a missão — que está sendo coordenada por Bruce Banerdt, do Jet Propulsion Laboratory da NASA — deve durar dois anos. A InSight (“Interior Exploration using Seismic Investigations, Geodesy and Heat Transport”) deve ser o sismólogo de Marte e vai investigar os processos de formação de planetas terrestres que começaram há 4 bilhões de anos.

Para isso, a InSight vai levar um sismógrafo (contribuição da Agência Espacial Francesa) e uma sonda (feita pelo Centro Aeroespacial Alemão). Essa sonda deve alcançar as camadas mais profundas do subsolo marciano perfurar de 3 a 5 metros subsolo adentro para medir o fluxo de calor interno do Planeta Vermelho. Pode parecer pouco, mas até agora os visitantes de Marte praticamente só reviraram pedras na superfície. A InSight vai ser a primeira a medir, in loco, os sinais vitais subterrâneos de Marte.

Em uma palavra [203]

nosofobia (no.so.fo.bia)
s.f.
medo mórbido de ficar doente e ser internado num hospital; tal medo pode levar a pessoa a negar tratamento ou prevenções médicas (como vacinas), buscando tratamentos ou regimes inadequados ou inefetivos (ditos alternativos); ou, ainda, levar à tentativa de curar uma doença que a pessoa não tem. nosofóbico, adj. nosófobo, s.m., adj. [deriv. do gr. nosokomion =  nosocômio, hospital + phobos = medo, fobia]

A Terra é Bela. Ainda mais em 4K

Onde estava o leitor entre os dias 15 e 19 de maio de 2011? Não preciso adivinhar: estava no Planeta Terra, muito provavelmente na metade sul do hemisfério ocidental. Quem esteve do outro lado do mundo entre aqueles dias está no vídeo a seguir. São quase quatro minutos de imagens de alta resolução da bacia do Oceano Índico, começando pelo hemisfério norte, depois o hemisfério sul e encerrando com o globo terrestre em toda a sua glória. Recomendamos rodar o vídeo em tela cheia. Continue lendo…

Dress Code Medieval

Eduardo I (à dir.) reconhecido como suserano da Escócia. Coroa-boina era tendência.

Os cavalheiros e visitantes estrangeiros que vinham a Windsor no reinado [1272-1307] de Eduardo I [a.k.a. Dudu Pernas Longas, 1239-1307] traziam consigo uma sucessão de modas variáveis, o que fazia virar as cabeças — nos jovens, de deleite; nos velhos, de desgosto. Douglas, o monge de Glastonbury, era especialmente denunciativo e satírico nesse ponto. Dizia ele da horrível variedade de costumes e estilos – “ora longos, ora largos, ora soltos, ora justos” —que aquilo era um “desvio e descaminho de todos os bons e velhos usos.” Era tudo “distorcido e amassado por todos os lados e tão amarfanhado e abotoado que eu em verdade diria que eles, em suas vestimentas e também em seus arranjos e decoros, se parecem mais atormentadores e demônios que homens.” O velho monge tinha bons fundamentos para suas reclamações. A Câmara dos Comuns também tinha — o que não tem agora — o decoro de não se tornar tão extravagante quanto seus superiores em termos de vestuário. Assim, aquela augusta assembléia respondeu à reclamação ao restringir o uso de peles e cachecóis à família real e aos nobres de renda superior a mil [marcos] per annum. Aos cavalheiros e damas de mais de quatrocentos marcos anuais, permitia-se a apresentação em tecidos com ouro e prata e certas jóias. Cavalheiros pobres, squires e donzelas eram proibidos de aparecer no costume daqueles de grau superior. Quanto aos próprios Comuns, eles não poderiam vestir nada melhor que uma roupa de lã sem adornos. E se um aprendiz ou moendeiro fosse ousado a ponto de usar um anel no dedo, estaria a risco de perdê-lo — o anel, não o dedo – com o confisco do bem proibido.

A consequência foi que, estando sob proibição de se refinar, os Comuns se viram tomados por um intenso desejo de imitar refinação. Todas as classes, então, se contentaram e passaram fazer o que muitas classes ainda fazem alegremente em nossos dias: vestir-se acima de seus meios.

— KING, Edmund Fillingham. Ten Thousand Wonderful Things: comprising the marvellous and rare, odd, curious, quaint eccentric and extraordinary in all ages and nations, in art and science. Second series. [Dez Mil Maravilhas: compreendendo o maravilhoso, o raro, o ímpar, o curioso, o extravagante, o excêntrico e o extraordinário em todas as nações e eras, na arte e na ciência. Segunda Série.] Londres: Ward & Lock, 1860. p. 298. [Ilustração: pintura de James William Edmund Doyle (1822–1892), reproduzida em seu livro A Chronicle of England: B.C. 55 – A.D. 1485, Londres: Longman, Green, Longman, Roberts & Green, 1864. p. 262.]

Neurô, o metrô neural

neurô

Flagrante microscópico de um neurônio tomando um neurô, isto é, lançando um axônio através de um microtubo. [Imagem: Xiuling Li/University of Illinois]

Linhas de metrô e redes de neurônios têm muitas coisas em comum. Ambos os sistemas são complexos, caros, exigem conexões delicadas e crescem de modo lento e subterrâneo. Sim, neurônios também crescem em túneis e pesquisadores da Universidade de Illinois e da Universidade de Winsconsin estão usando microtubos para replicar esse ambiente sob o microscópio. Recém-descoberta, a técnica permite não só a observação direta do crescimento neuronal, mas vai facilitar o estudo das redes neurais e pode até acelerar e guiar o crescimento de neurônios para reparação de danos.

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Em uma palavra [202]

incoativo (in.co.a.ti.vo)
adj.
1. que começa ou acabou de começar: “veraneio incoativo”; 2. inicial, inceptivo: “pontapé incoativo”. 3. Em Gramática, Incoativo é o verbo ou locução verbal que indica o começo ou o estágio inicial de uma ação ou fenômeno. Ex: “vai amanhecendo” [do lat. tardio inchoativus, a partir de inchoo = começar, empreender]

Função prática da Máquina de Babbage

babbage machine

Uma máquina calculadora é um alvo fácil para uma piada. Em maio de 1839, quando um empréstimo adicional foi pedido à Câmara dos Comuns para completar a Máquina de Mr. Babbage, Mr. Wakley inquiriu qual seria a possibilidade de aquilo ter qualquer utilidade pública. Em aparte feliz, Sir Robert Peel replicou: “a máquina pode ser posta para calcular o tempo em que será de qualquer utilidade.” A máquina calculadora certamente ainda não tem qualquer outro propósito mais prático. —  Anedoctes of Invention and Discovery: curious facts and characteristics sketches [Anedotas de Invenção e Descoberta: fatos curiosos e cenas características]. Brooklyn, Nova York: Willam W. Swayne; Edinburgh: Murray and Gibb, c. 1860.

Morte e Vida Ediacarana

rangeomorfo

[crédito: Jennifer Hoyal Cuthill/Universidade de Cambridge]

Os primeiros organismos a viver na Terra eram seres unicelulares bastante parecidos com as atuais bactérias. Algumas, eventualmente, reuniram-se e formaram seres ainda microscópicos, mas multicelulares. Da evolução desses organismos surgiu o que os cientistas chamam de proto-animal, uma criatura de tamanho visível. Foi no período Ediacarano (de 635 a 541 milhões de anos) que apareceram esses proto-animais, conhecidos como rangeomorfos.

Por um bom tempo, rangeomorfos foram os senhores da Terra, mas até recentemente tão pouco se conhecia sobre sua aparência e como eles viviam que eles pareciam mais um fracasso que sucumbiu durante a Explosão Cambriana. Quem está lançando uma nova luz sobre a morte e vida ediacarana dos rangeomorfos são dois pesquisadores da Universidade de Cambridge: Jennifer Hoyal Cuthill e Simon Conway Morris.

Num estudo publicado na edição de 9 de setembro da revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), Cuthill e Morris apresentam a reconstrução que fizeram da vida dos rangeomorfos a partir de evidências fósseis. Pequenos fósseis: os rangeomorfos eram criaturinhas de 10cm a 2m, com extensões fractais, parecidos com samambaias. Por isso mesmo, durante muito tempo foram confundidos com plantas.

Apesar da delicadeza de seus corpos, os rangeomorfos deixaram suas marcas fossilizadas nas rochas. E foram essas marcas que a dupla de cientistas usou para desenvolver modelos em 3D para esclarecer como os rangeomorfos se alimentavam e se reproduziam.

“Nós sabemos que rangeomorfos viveram muito fundo no oceano para obter energia por fotossíntese, como fazem as plantas.” — explicou Cuthill num comunicado à imprensa — “É mais provável que eles absorvessem nutrientes diretamente da água do mar através da superfície de seus corpos. No mundo moderno, seria difícil que animais tão grandes sobrevivessem apenas de nutrientes dissolvidos”.

Mas as coisas eram bem diferentes no período Ediacarano, quando os rangeomorfos não tinham competidores. Eles estavam bem-adaptados ao ambiente que encontraram: seus corpos cheios de ramificações aumentavam a superfície corporal exposta à água, permitindo maior absorção de nutrientes, carbono e oxigênio. Por mais de 100.000 anos, os rangeomorfos floresceram livremente e foram o ápice da vida na Terra.

Aí veio a Explosão Cambriana… A partir de 542 milhões de anos, e ao longo de 30 milhões de anos, uma série de mutações no ambiente e nos próprios organismos causou uma diversificação explosiva de formas de vida. Com cada vez mais espécies lutando pela sobrevivência, a corrida armamentista foi extrema. Foi durante a Explosão Cambriana que novos organismos desenvolveram novas formas de nutrição — incluindo a possibilidade de se alimentar de outros organismos.

Enquanto aqueles organismos começavam a virar bichos que se comiam, os rangeomorfos foram ficando à míngua e acabaram extintos por falta de defesas e de nutrientes, cada vez menos disponíveis para absorção. Acabaram virando comida. Ainda assim, um reinado de 94 milhões de anos não é coisa que se despreze…

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Referência

rb2_large_gray25CUTHILL, Jennifer F. Hoyal. MORRIS, Simon Conway. Fractal branching organizations of Ediacaran rangeomorph fronds reveal a lost Proterozoic body plan. PNAS September 9, 2014 vol. 111 no. 36 13122-13126. Published online before print August 11, 2014, doi: 10.1073/pnas.1408542111

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[via I Fucking Love Science]

Memória Fotográfica: Cuthbert Bede

Photographic Pleasures 1

A primeira coisa que aparece após uma nova tecnologia são os early adopters, os entusiastas, gente que muitas vezes não sabe muito bem o que fazer mas faz — por vezes com uma ingenuidade cômica. A segunda coisa que aparece depois de uma inovação é gente que tira sarro dos entusiastas. O reverendo Edward Bradley (1827-1889) foi as duas coisas em termos de fotografia: um pioneiro tanto na prática da nova arte quanto em sua crítica humorística. Além de clérigo, Bradley era romancista e caricaturista, assinando seus trabalhos com o irreverente pseudônimo Cuthbert Bede (referência aos dois mais veneráveis doutores da Igreja inglesa, S. Cuthbert e S. Beda). Continue lendo…

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