>

Hoje o mundo acabou. Mais uma vez. Não foi a primeira e provavelmente não será a última — ainda falta 21 de dezembro de 2012. Por enquanto, pois ao longo dos séculos diversas foram as previsões. Evidentemente, todas falharam. A razão por trás disso é que a humanidade teima em projetar no planeta seu próprio ciclo de vida e de morte — até mesmo cientificamente, conforme a Hipótese Gaia. Somos tão antropocêntricos que não admitimos ser extintos sem levar o planeta inteiro junto (isso também explica o atual cenário ambiental). Mesmo que toda a vida desapareça de uma vez, a Terra vai continuar firme e forte. Mas como nada é eterno ela vai acabar sendo engolida por um Sol vermelho, inchado e moribundo dentro de sete bilhões de anos. Ou não.

[10-D] 634 AEC
Apesar de existirem dias-do-juízo-final para judeus e muçulmanos, as previsões apocalípticas são uma característica tipicamente cristã. Mas antes mesmo de Cristo nascer, o mundo já estava condenado. Segundo uma antiga lenda romana, 12 águias teriam dito ao fundador de Roma, Rômulo, que sua grande civilização existiria por apenas 120 anos. 634 anos antes da Era Comum, o 120º. aniversário de Roma chegou e os romanos foram tomados pelo pânico. Nada aconteceu e hoje, ironicamente, Roma é conhecida como Cidade Eterna.
[9-D] 79

Esse é o primeiro apocalipse baseado em um escrito antigo. Ou melhor, nem tão antigo assim. Quando Pompéia foi destruída pelo Vesúvio no ano 79, alguns romanos consideraram o desastre como o começo do fim dos tempos. Isso por que o filósofo Sêneca, que havia morrido uns 15 anos antes, havia predito que a Terra acabaria em fumaça: “Tudo o que vemos e admiramos hoje será queimado em um fogo universal que abrirá um mundo nove, feliz e justo.” Qualquer semelhança com o lago de fogo do Apocalipse de S. João — escrito vinte anos depois de Pompéia — não é mera coincidência.

[8-D] 1000
Ah, os números redondos. Não importa qual a crença, eles parecem ser mágicos para todo mundo. Enquanto o mundo árabe alcançava seu auge no findar do século IX, a Europa se encolhia de medo e rezava fervorosamente. Cercados por fome, pragas e exércitos infiéis, parecia mesmo o fim para os europeus, que se ainda se assustavam com eclipses e cometas. 
[7-D] 1284
Como 666 e 1000 passaram sem qualquer perigo — exceto talvez por alguns bárbaros ou infiéis —, os cristãos precisaram procurar uma outra maneira de usar o número da besta em suas profecias. Considerando os infiéis muçulmanos seguidores do demônio, o Papa Inocêncio III profetizou que o mundo acabaria em 1284, 666 anos depois da ascenção do Islã. Felizmente para o Vaticano, Inocêncio III morreu em 1216 e nunca teve que se explicar quando seu deadline apocalíptico falhou.
[6-D] 1º. de fevereiro de 1524
Depois do FAILipse do ano 1000, os cristãos europeus deixaram o fim-do-mundo de lado. Mas em 1523, diversos astrólogos de Londres alertaram que a capital da Inglaterra seria afogada em um dilúvio (mais um) marcado para 1º. de fevereiro do ano seguinte. Em meio à crescente divisão da Igreja na Europa, a previsão não parecia tão absurda (embora fosse extremamente limitada). Assim, mais de 20.000 londrinos acreditaram na profecia e correram para armazenar suprimentos e fugir da cidade. Mas o dia do dilúvio londrino passou apenas em brancas nuvens: nenhuma gota caiu do céu.
[5-D] 1666
Obviamente, depois que a água não veio, os londrinos passaram a acreditar em um fim infernal. Juntando 1000 anos do reino messiânico e demoníaco 666, muitos cristãos temiam 1666. Na Inglaterra então, a ameaça parecia ainda mais real: o país sofreu uma grande guerra civil entre 1649 e 1661, que foi interpretada por alguns como o “período de tribulação” que antecederia o dia final. Os temores pareceram se concretizar quando uma praga matou muitos londrinos em 1665 e o Grande Incêndio quase riscou a cidade do mapa no ano seguinte. Foi o fim para muita gente — inclusive, talvez, por infarto —, mas o mundo continuou girando. E maçãs continuaram caindo.
[4-D] 1697, 1716, 1717, 1736
Talvez nada seja mais desagradável para um líder religioso do que admitir que sua palavra não é infalível. Cotton Mather — um influente ministro puritano que teve um papel decisivo no julgamento das bruxas de Salém — proclamou em 1691 que o mundo acabaria dentro de seis anos, em 1697. Como muitos depois dele, o pastor Mather baseou sua data no cumprimento de profecias bíblicas. Após um fim-do-mundo relativamente tranquilo, ele mudou sua previsão. Dessa vez com base na doutrina do “viva cada dia como se fosse o último, um dia você acerta”, Mather atirou pra todo lado: primeiro seria em 1736, depois adiantado para 1716 e após alguns ajustes, 1717. Ele morreu em 1728, sem arriscar qualquer nova previsão, mas ainda acreditando e pregando que o fim estava muito próximo. 

[3-D] 21 de dezembro de 1954

No começo dos anos 1950, Dorothy Martin, uma rica dona de casa da Califórnia com uma queda por fenômenos psíquicos, fundou um culto conhecido como Seekers após receber uma psicografia de Chico Xavier extraterrestres do planeta Clarion. Na mensagem, os ETs alertavam que uma enchente cataclísmica destruiria o mundo a partir de 21 de dezembro de 1954. Naquele dia, os Seekers se reuniram na porta da casa de sua líder, de onde seriam resgatados por um disco voador antes do dilúvio final. Como nem nuvens de chuva torrenciais e nem discos voadores apareceram na porta de sua casa, Miss Martin logo assegurou seus seguidores de que a fé dos Seekers foi tamanha que os extraterrestres conseguiram convencer o “Deus da Terra” a salvar o mundo. A desculpa não colou e o culto acabou se dissolvendo. Mas sem saber, Miss Martin deu uma grande contribuição à psicologia. Alguns psicólogos conseguiram se infiltrar no grupo para conduzir um estudo sobre crenças apocalípticas. O resultado foi o livro When Prophecy Fails [Quando a Profecia Falha].

[2-D] 2000
“Se ano 1000 passou, agora vai!” Muitos cristãos — e ainda mais místicos — acreditaram que o mundo acabaria junto com o segundo milênio. Além do intenso debate sobre se o século e o milênio começariam em 2000 ou 2001, a mídia foi tomada por pseudoprofetas num fin-de-siècle típico do século XX. Como não houvesse nenhuma grande guerra ou pandemia para sinalizar o apocalipse, foi mais fácil (e cientificamente correto) usar o chamado bug do milênio, que faria todos os computadores enlouquecer. Como os sistemas usavam apenas dois dígitos para identificar os anos, temia-se que 1º. de janeiro de 2000 seria interpretado como 1º. de janeiro de 1900. Os sistemas tiveram que passar por uma correção bem simples. Quem ficou louco da vida foram milhões que se desiludiram.

[Primeiro Plano] 1914, 1915, 1918, 1920, 1925, 1941, 1975 e 1994

Uau! Parece que alguém não aprendeu a lição do pastor Mather. Mesmo assim, esses caras insistem em te acordar todo domingo de manhã para lhe distribuir revistinhas cristãs e tentar te convencer de que mesmo sendo todo-poderoso, deus precisa de testemunhas. Sim, senhores, os recordistas de profecias apocalípticas são as Testemunhas de Jeová. Em 1879, Charles Taze Russell começou a pregar dizendo que Jesus já havia retornado silenciosamente em 1874 e reuniria seus 144.000 santos até 1914. Por coincidência, 1914 parecia ser o começo de uma grande tribulação na Europa que ameaçava se espalhar pelo mundo. Apesar disso, ninguém subiu aos céus naquele ano (exceto os primeiros pilotos de caça). Assim, a data de fundação do Reino Milenar de Cristo na Terra foi sendo religiosamente postergada: 1915, 1918, 1920, 1925, 1941, 1975 e 1994. Taze Russell não acertou nem a data do seu próprio fim: ele morreu em 1916.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...