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Após receber seu Ph.D. em linguística, Suzette Haden Elgin inventou a língua Láadan para um romance de ficção científica. Em termos literários, isso já não é novidade: das línguas élficas de O Senhor dos Anéis ao Klingon de Star Trek, dezenas de idiomas foram inventados na ficção moderna. Mas o que torna a Láadan única é que ela é uma linguagem feminina, por assim dizer. Foi criada especialmente para expressar as percepções das mulheres. Eis alguns vocábulos de Láadan, que, aliás, é autodefinida como a “linguagem da percepção”:

  • ab: amor por alguém que você ama, mas não respeita
  • bala: raiva com razão, com alguém para culpar, que não é fútil
  • bina: raiva sem razão, sem ter a quem culpar, que não é fútil
  • dóthadelh: permitir que alguém persista em um comportamento auto-destrutivo através de desculpas ou até mesmo ajudando tal pessoa a evitar as consequências de tal comportamento.
  • háawithéthe: o nível de limpeza (ou organização) em que um filho considera seu quarto “limpo”.
  • nehena: contentamento apesar de circunstâncias negativas; como diria Camões, um “contentamento-descontente”.
  • radiídin: um não-feriado, um feriado com mais trabalho que descanso; um dia que é oficialmente um feriado, mas que acaba se tornando um transtorno por causa de todo o trabalho em preparar festas para a ocasião, especialmente quando há muitos convidados e nenhum deles ajuda.
  • ramimelh: refrear-se ao fazer uma perguntas; especialmente quando está claro que a outra pessoa não deseja responder.
  • rathom: um “não-travesseiro”: alguém que engana, fazendo-se paracer confiável mas sem nenhuma boa intenção; uma pessoa do tipo “apoie-se em mim que eu te latrgo só pra te ver cair”. 
  • rathóo: um não-covidado, em sentido similar a radiídin; seria melhor defini-lo como um anti-convidado, alguém que aparece para uma visita mesmo sabendo perfeitamente que não será bem-vindo e só vai causar problemas; é um bicão ou um intruso, mas pior. (já deu pra perceber que ra- é um prefixo de negação)
  • rilerashum: silêncio imposto internamente, à força, quando se percebe que todas as palavras são erradas e o silêncio é a única defesa.
  • widazhad: estar nos meses finais da gravidez e não ver a hora de dar à luz e se livrar do barrigão.
  • wonewith: ser socialmente disléxico; não compreender os sinais sociais dos outros.
Uma palavra mais difícil de definir e que não parece ter equivalente exato nem em inglês nem em português é doroledim, que em síntese é a “sublimação com comida acompanhada pela culpa por tal sublimação”. Não se trata de uma simples gordice seguida de um arrependimento anoréxico, conforme a própria Miss Elgin explica:

Vamos supor que temos uma mulher comum. Ele não tem controle sobre sua vida. Ela tem pouco ou nada em termos de recursos para seu próprio bem-estar, mesmo quando precisa. Ela tem família e animais e amigos e agregados que dependem dela para todos os tipos de sustento. Ela raramente tem um sono ou descanso adequado; não tem tempo para si mesma, nem espaço para ela própria. Ela tem pouco ou nenhum dinheiro para comprar coisas para si mesma e nenhuma oportunidade para ponderar sobre suas próprias necessidades emocionais. Ela está sempre atendendo e ajudando aos outros, porque ela tem essas responsabilidades e obrigações não optou por (ou não pode) abandoná-las. Para tal mulher, a única coisa sobre a qual ela tem o mínimo de controle para sua auto-indulgência é a COMIDA. Quando tal mulher come demais, o verbo para isso é “doroledim” (E depois, ela se sente culpada, pois há mulheres cujas crianças estão famintas e que não têm nem mesmo AQUELA opção para a auto-indulgência…)

Pra quem se interessar, há um dicionário completo, inclusive com prefixos e sufixos bem aqui (mas é apenas Láadan-Inglês). O site também oferece lições básicas de Láadan.
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