Em uma palavra [89]
haliêutica (ha.li.êu.ti.ca)
s. f. a arte ou a prática da pesca, especialmente da pesca marítima; estudo de tal prática. Há um poema de Ovídio intitulado “Haliêutica”. Haliêutico, adj. relativo à pescaria. [do grego halieutikos, relativo à pesca. Note o prefixo hali-, relativo a sal.]
A flora fatal de Alnwick
O que você faria com o jardim de um castelo inglês recém-herdado? Um jardim botânico, com estufas e plantas de todo o mundo seria um pouco clichê… Que tal soltar o lado negro da força e criar um jardim de venenos? Foi exatamente essa a ideia de Jane Percy.
Até 1995, Mrs. Percy era uma dona-de-casa relativamente comum e mãe de quatro filhos. Com a morte do irmão de seu marido, a família herdou seus títulos de nobreza. Como era a esposa do 12º. duque de Nothumberland, Mrs. Percy tornou-se duquesa da noite pro dia.
Ao inspecionar os jardins do recém-herdado Castelo de Alnwick, a nova duquesa encontrou uma área bastante abandonada, mas já fora um belo jardim ornamental, que remontava aos tempos do primeiro duque, por volta de 1750. Ela decidiu restaurar o jardim, mas queria fazer algo diferente.
Inicialmente, o jardim seria dedicado às plantas medicinais usadas por velhos apotecários. No entanto, a duquesa mudou de ideia ao estudar a história desses tipos de jardim. Inspirada pelos Medici, que criavam venenos em um jardim de Pádua, ela passou a se interessar por vegetais venenosos e perigosos. E o que seria uma plantação de ervas medicinais tornou-se uma plantação de ervas malignas.
Atrás de grandes portões negros a duquesa-herbolária mantém uma flora fatal: Atropa belladonna (beladona), Strychnos nux-vomica (noz vômica, noz vomitória ou fava-de-santo-inácio), Conium maculatum (cicuta) e mais uma centena de plantas que causam a morte e/ou doenças.
Além de venenos, também há dorgas, manolo! plantas que são consideradas perigosas por seus efeitos narcóticos, como tabaco, Papaver somniferum (ópio), Erythroxylum coca (folhas de coca, cocaína), Cannabis sativa (preciso explicar?), Arthemisia absinthium e cogumelos alucionógenos. As drogas ilegais são cultivadas com autorização especial.
Como há plantas que matam apenas por serem tocadas, os visitantes precisam ter muito cuidado. Como também há ervas que podem ser roubadas, a segurança precisa ser reforçada. É por isso que alguns exemplares são criados em jaulas e vigiados 24 horas por dia.
O jardim dos venenos foi inaugurado em 2005 e é apenas um dos diversos setores dos Alnwick Gardens. Outras atrações dos jardins incluem uma enorme casa-da-árvore e um labirinto vivo feito de bambu. Além de atrações mas banais como um museu de antiguidades, Alnwick é notável por ser o segundo maior castelo habitado da Inglaterra e por ter sido uma das locações usadas nas filmagens de Harry Potter.
Patentes Patéticas (nº. 42)
Você já deve ter ouvido falar de caixões biodegradáveis, mas caixões reutilizáveis não seriam melhores? Harry J. Fash, inventor dessa inovação funerária, acha que sim. Ao contrário do que pode parecer, tal ideia não é exatamente “verde”. Morador de Chalfont, Pensilvânia, Mr. Fash provavelmente deve ser um agente funerário visionário. Eis o resumo de uma patente que deveria ser banal, mas é minuciosa, e tem mais de trinta figuras (!!) e trinta páginas: Continue reading “Patentes Patéticas (nº. 42)” »
Rebelião contra as perucas
No ano de 1764, graças a mudanças na moda, as pessoas começaram a abandonar o uso daquele velho apêndice artificial — a peruca — e passaram usar seu próprio cabelo, quando houvesse algum. Consequentemente, os fabricantes de peruca, que haviam se tornado bastante numerosos em Londres, foram subitamente lançados para fora do mercado e reduzidos a um grande sofrimento. Por algum tempo, suas calamidades ressoaram pelo campo e pela cidade, junto com suas reclamações de que os homens estivessem usando seu próprio cabelo em lugar das perucas. Por fim, resolveram propor alguma resolução legislativa a fim de obrigar os gentlemen a usar as perucas, pelo bem de tão sofrido negócio. Assim, eles levantaram uma petição que, em 11 de fevereiro de 1765, eles levaram ao [palácio] de St. James para apresentar a Sua Majestade, George III. À medida que passavam processionalmente pela cidade, observou-se que esses peruqueiros, que queriam forçar outras pessoas a usá-las, não usavam eles mesmos peruca alguma. A multidão de Londres, reagindo ao que considerava monstruosamente injusto e inconsistente, capturou os peticionários e cortou o cabelo de todos eles par force. – William Keddie (edit.), Cyclopaedia of Literary and Scientific Anecdote [Enciclopédia de Anedotas Literárias e Científicas], 1854.
Eu só espero que dentro de um século a choradeira dos fundamentalistas dos direitos autorais seja tão ridícula quanto as lamúrias dos peruqueiros do século XVIII.
Retratos da fé
Quem já tentou discutir com um fundamentalista, especialmente um cristão, com certeza já ouviu uma dessas:
[do hiliariantemente herético LOLgod]
Em uma palavra [88]
lampadedromia (lam.pa.de.dro.mia)
s.f. corrida de revezamento de tochas praticada na antiguidade; precursor clássico das provas de revezamento do atletismo moderno. [do grego lampadedromía]
Botijões de gente
Você já pensou em morar em um botijão de gás? Não é preciso ter dimensões liliputianas para isso. Basta morar em um gasômetro.
Praticamente esquecidos nesse começo de século, os gasômetros eram bastante comuns na virada do século passado (ainda acho estranho referir-me ao meu século XX natal como “passado”), principalmente na Europa. A principal função desses imensos edifícios era similar à de uma caixa d’água comum. Só que, em vez de água, os gasômetros armazenavam gás de rua (em pressão atmosférica), que podia ser consumido tanto domestica quanto industrialmente. Gasômetros também funcionavam como reguladores da pressão do sistema de distribuição local de gás: se a pressão estivesse baixa, bastava liberar mais gás armazenado; se estivesse alta demais, bastava desviá-lo das tubulações para os reservatórios.
Entretanto, à medida que os sistemas de distribuição de gás avançavam, tais formas de controle foram sendo abandonadas — afinal, sempre existia o risco de gasômetros explodirem. Portanto, a maioria dos gasômetros foi sendo demolida ou abandonada. Mas, em Viena, há uma notável exceção. Quatro gasômetros da antiga companhia Gaswerk Simmeringforam foram construídos entre 1896 e 1899, inicialmente para fornecer gás para a iluminação pública. Cada um desses imensos botijões feitos de tijolos vermelhos poderia armazenar até 90.000 metros cúbicos de gás.
A excepcionalidade dos gasômetros vienenses já começou na sua vida útil. Eles só foram desativados em 1984, após quase um século de uso. Só não foram destruídos porque foram considerados belos demais para serem demolidos. Em vez disso, toda a área, outrora industrial, seria revitalizada e passaria a abrigar apartamentos residenciais e comerciais.
Porém, antes do início das reformas, os gasômetros tiveram um uso bastante modernoso: graças às suas peculiaridades acústicas, foram bastante usados como palcos de raves.
Das estruturas originais, apenas as fachadas externas de tijolos vermelhos e as cúpulas metálicas foram conservadas nas obras iniciadas em 1995. Cada uma dos quatro unidades foi revitalizada por um arquiteto diferente: Jean Nouvel retrabalhou o Gasômetro A; Coop Himmelblau foi o responsável pelo B; o C foi obra de Manfred Wehdorn e o D ficou aos cuidados de Wilhelm Holzbauer. As unidades foram inauguradas entre 1999 e 2001.
Apesar das diferenças, o layout básico dos quatro botijões de gente é o mesmo: lojas nos andares inferiores, salas comerciais no meio e apartamentos residenciais nos andares superiores. Além disso, ainda há uma sala de concertos, um cinema e cerca de 800 apartamentos — dos quais uns 70 são usados como dormitórios estudantis. Como não falta espaço, também há jardins internos e garagens no subsolo.
Planeta Vapor de Mercúrio
Não, ainda não descobriram um planeta com vapor de mercúrio na atmosfera. Mas o telescópio espacial Kepler pode ter acabado de localizar um Mercúrio que literalmente está a todo vapor. O exoplaneta, do tamanho do nosso vizinho mais próximo do Sol, normalmente não seria visível. Mas suas condições extraordinárias de temperatura e pressão o tornam bastante indiscreto.
Ele orbita a estrela KIC 12557548 (situada a uns 1.500 anos-luz do Sol), completando uma translação em pouco menos de 16 horas. Esse período orbital curtíssimo — menor do que um dia terrestre — indica que o planeta KIC 12557548b está a apenas 0,01 UA de sua estrela, isto é, a uma distância igual a 1% da que separa a Terra do Sol. Mas sendo tão pequeno e tão veloz, como esse planeta pode ser detectado? Normalmente, planetas extra-solares são encontrados através do método de trânsito: ao passarem diante de sua estrela, eles causam uma pequena diminuição de brilho, ou um microeclipse, que se repete de acordo com o período da órbita.
O problema é que o planeta encontrado junto de KIC 12557548 (e que, dado o clima pré-carnavalesco, vamos apelidar de “Frevo”) não parecia ter uma órbita muito regular. Para explicar as discrepâncias, os astrônomos liderados por Saul Rappaport (do MIT) procuraram primeiro por outros companheiros planetários, que causam perturbações orbitais. Nada. “E se o sistema planetário for binário?”, pensaram. Nada também. As observações também descartaram essa hipótese. Sobrou a única explicação possível: o planeta observado estava se evaporando. Surpreendentemente, era um planeta rochoso, que como já dissemos, tem dimensões similares a Mercúrio. Sua estrela-mãe é apenas um pouco menor que nosso sol.
Pode ir quente que ele está fervendo! [Imagem: ESA / Alfred Vidal-Madjar, Institut d’Astrophysique de Paris, CNRS, France]
Com uma temperatura de 2000 kelvin, a superfície do “Frevo” é capaz de vaporizar piroxeno e olivina, os minerais mais comuns na composição de planetas rochosos. Se fosse um pouco maior, o planeta teria força gravitacional suficiente para ter uma “atmosfera rochosa” como a de alguns hot jupiters. Como não é, está evaporando feito um cometa gigante. A cada segundo o planeta lança 100.000 toneladas de vapor ultra-fervente ao espaço! Parece uma perda desesperadora, mas o planeta não vai sumir amanhã. Nem depois. O “Frevo” só vai se vaporizar completamente dentro de 200 milhões de anos. Um otimista panglossiano diria que a situação lá está mais para um banho-maria do que para um alto-forno.
Se tudo for confirmado, o que estamos observando no sistema KIC 12557548 é só uma prévia do que deve acontecer futuramente no sistema solar. Sabemos que o sol vai se expandir dramaticamente dentro de uns 5 bilhões de anos, mas antes mesmo disso deve se tornar tão quente que vai começar a vaporizar Mercúrio, deixando-o muito bem-passado antes de engoli-lo.
Em tempo: um planeta com vapor de mercúrio na atmosfera seria uma lâmpada gigante?
Referência:
RAPPAPORT, Saul et al. Possible Disintegrating Short-Period Super-Mercury Orbiting KIC 12557548 http://arxiv.org/abs/1201.2662
[via Newscientist e Bad Astronomy]
Patentes patéticas (nº. 41)
Diz o bom-senso que reagir a um assalto nem sempre é uma boa ideia. No entanto, isso não impede que as pessoas continuem a comprar armas “para garantir a própria segurança”. Ainda mais quando essas pessoas são norte-americanas, que parecem não acreditar na possibilidade de uma população desarmada.
A facilidade de acesso a armas de fogo sempre foi um problema que os americanos não veem. No começo dos anos 1930, o crime estava em alta nas áreas urbanas dos Estados Unidos, em parte pelo tráfico de álcool que se formou após a proibição dessa droga e em parte como consequência da recém-iniciada Grande Depressão. Nada disso impediu que Frederick G. Palla, de Nova York, apresentasse uma “Arma de fogo auto-defensiva” como a solução para o crime: Continue reading “Patentes patéticas (nº. 41)” »
Mais uma “sopa” criacionista
Embora tenham começado agora a tentar ameaçar a liberdade na internet, não é de hoje que políticos norte-americanos tentam impor suas crenças nas aulas de ciências. Um projeto de lei do senado de Oklahoma (SB 1742) é mais uma dentre as dezenas de leis anti-evolução que infestam os Estados Unidos. Se aprovada, a lei exigiria que o departamento estadual de educação promovesse o “pensamento crítico, a análise lógica e a discussão ampla e aberta de teorias científicas, incluindo, mas não se limitando a, evolução, a origem da vida, o aquecimento global e a clonagem humana.” A legislação também recomenda que professores “possam usar livros didáticos e materiais de ensino suplementares para ajudar os estudantes a entender, analisar, criticar e rever teorias científicas de modo objetivo.”
Parece bastante isento, não? Não há nenhuma citação nominal do criacionismo ou de seu equivalente pseudocientífico, o design inteligente. Então, qual é o problema? Há dois problemas na verdade. Continue reading “Mais uma “sopa” criacionista” »



É um punhado de material cósmico, composto principalmente de carbono e hidrogênio, um animal, cordado, mamífero, primata, hominídio pensante (cof,cof...) que não tem a mínima ideia do que está fazendo no mundo (ou do que é o mundo) e de quem é.